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sábado, 1 de junho de 2013

A luta no casal contra as próprias paixões

Por Pe. Daniel Guindón, LC

O pecado original e a sua influência na vivência da sexualidade do casal

Analisando o comportamento de Adão e Eva após ter cometido o pecado original, chama à atenção a mudança de comportamento em relação a sua identidade sexual.

Antes do pecado, a nudez era vista como um dado positivo. Gn 2,25 diz assim: “Ora, todos os dois estavam nus, o homem e sua mulher, e não se envergonhavam.” Agora eles não aceitam mais permanecer na nudez originária. Por que? Porque a concupiscência alterou a sua natureza (quer dizer funcionamento). Agora eles veem outra coisa; eles veem mal pelo mau que eles têm dentro. O corpo não revela mais doação, significado de comunhão, de pessoa, de dignidade, mas objeto, objeto de desejo. Suscita a paixão erótica cega, e não mais a paixão erótica de doação, de comunhão, de complementação. A mulher é vista como objeto para fazer sexo, não como pessoa que se doa.

Hoje em dia, a sede de sexo é muito forte. A sexualidade é apresentada como uma qualidade imprescindível do homem e da mulher. Fala-se de poder sexual, ou seja, de capacidade de atrair o sexo oposto (ou até alguém do mesmo sexo) para um encontro sexual. Na verdade, esta tendência sexual é algo inato no homem e na mulher; é algo que o Criador colocou dentro da natureza humana como essencial. A atração dos sexos é necessária em todas as espécies animais para assegurar a sua conservação no mundo.

Porém, há um grande diferencial no comportamento humano. O ser humano tem a capacidade de olhar além da corporeidade do sexo oposto. Ele tem a capacidade de reconhecer a presença de uma alma dentro deste corpo, e de se apaixonar não por um corpo, mas pelo coração de uma pessoa[1]. Assim, em quanto o corpo vai se modificando pela idade, o amor permanece intacto porque é para a alma do cônjuge que é espiritual, quer dizer que permanece a mesma.

O estrago que o pecado original efetuou no relacionamento homem e mulher está justamente na redução do amor ao corpo do próximo. A atração mútua deixa de ser humana para se limitar a uma atração própria dos animais. Neste contexto é que se justifica a possibilidade de ter diversos parceiros sexuais. O que seduz é sempre a beleza das características do sexo oposto (podem ser os olhos, os lábios, o quadril, etc), mas este corpo não é mais visto como corpo de uma pessoa com uma alma. Não existe mais entre o instinto e a reação ao instinto o tempo racional próprio do ser humano. Ou este tempo racional é reservado para definir os modos para seduzir o objeto querido. O tempo racional entre estes dois momentos deveria ser para reconhecer a presença de uma pessoa magnífica, dotada de uma personalidade, de um grande coração e de uma beleza supina. E a esta pessoa oferecer o próprio amor como doação de si mesmo. Ao contrário, suprimindo este tempo racional pela concupiscência, a mente do sujeito está interessada somente em satisfazer um instinto animal.

Em segundo lugar, talvez mais dramático, é a alteração por causa do pecado na visão da própria nudez. O homem (a mulher) não sabe mais se ver nu. Não entende mais o significado. Chega a ser para si mesmo um objeto de concupiscência. Vê o próprio corpo não como manifestação da sua pessoa, como elemento de doação, mas como elemento puramente físico-sexual, já não sacramental. A sua preocupação é a própria felicidade, o seu bem-estar, tanto a nível existencial quanto na vivência da sua sexualidade. E por isso abundam a cada dia mais matérias de divulgação que são na verdade pornográficos. Trata-se de alimentar a sede do homem, o seu instinto egoísta, a sua personalidade egocêntrica.

É importante conhecermos estes elementos, porque é corrigindo-os e lutando contra as desordens da concupiscência que nós poderemos recuperar a harmonia nas nossas relações afetivas, e conseguir de verdade um amor “hollywoodiano”. Precisamos lutar contra nós mesmos, convencidos que estas tendências não são boas quando cegas. Corrigindo Rousseau, o homem não é um bom selvagem. Ele tem a carga do pecado original que a graça de Deus lhe ajuda a superar.

O homem e a mulher precisam recuperar a visão original do próprio corpo na sua dimensão sacramental. Reconhecer a beleza do seu parceiro como elemento motivacional para construir uma vida juntos, e reconhecer as forças inatas da própria sexualidade como impulso para viver o amor e a doação de si mesmo. Trabalhar sempre para superar os desvios e os impulsos irracionais, dando o tempo intermédio entre impulso e reação, que é o tempo do juízo moral, para avaliar a bondade/ maldade dos próprios desejos, e orientá-los com comportamentos adequados para edificar uma personalidade madura e rica em relações interpessoais.


[1] Cfr. Artigo sobre a sacramentalidade do corpo