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domingo, 30 de dezembro de 2012

Preparação para o Matrimônio - II

Antes de avançar sobre as características do matrimônio, importa meditar sobre um aspecto essencial deste sacramento: o serviço. Todos os esposos, noivos e namorados deviam pensar na seguinte frase do Evangelho“aquele que quiser salvar a sua vida, perde-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobra-la-á” (Mt 16, 25).

É perceptível entre os cristãos (mesmo entre os muito bem formados) a ignorância sobre os fundamentos do sacramento do matrimônio. E se há um conhecimento que não se pode ignorar é que ninguém que se casa para “se encontrar” ou “para se preencher” alcançará seu intento. A cara-metade é um mito! O par perfeito é uma ilusão muito perigosa. Não existe a metade prometida ou algo semelhante que complemente o homem. É preciso que se diga aos namorados e noivos: matrimônio é sacramento de doação! Assim como o sacerdócio, o matrimônio é um dos sacramentos de serviço. Isto mesmo: o padre é ordenado para servir a Deus e sua Igreja no serviço litúrgico; os esposos dão-se mutuamente em matrimônio, numa entrega livre, fecunda, total e generosa, também para servir a Deus e sua Igreja. Apenas a meditação deste aspecto do matrimônio faria refletir muitos namorados que ardem pelo matrimônio – e muitíssimos já casados! É uma ótima oportunidade de fazer um longo exame de consciência:

    1. Estou preparado(a) para servir o(a) esposo(a) que receberei?
    2. Meu matrimônio já é serviço para o(a) esposo(a), cujo(a) amor, companhia e fidelidade devotei?

Reprodução

Houve tempo em que o matrimônio era visto como modo de se alcançar bens (tanto pelo lado de quem dava a filha em matrimônio quanto do lado de quem pleiteava as bodas). Neste sentido, o cristianismo é um avanço incomensurável em relação ao paganismo, cujo objetivo com o matrimônio era apenas auferir algum tipo de benefício material (terras, poder, pensões, heranças), incluindo nesse negócio todo prazer físico que fosse possível. Para os cristãos, o matrimônio não se reduz à troca de carteiras, muito menos de fluidos corporais; antes, matrimônio é a entrega total e integral do indivíduo, um homem a uma mulher, livre, aberto à vida incondicionalmente. O paganismo de modo algum tolera amores incondicionais, amores generosos. O primeiro passo para os que se sentem chamados ao matrimônio é entender o caráter diaconal do matrimônio: o fundamento da vida conjugal é a doação dos esposos, mas não de modo impreciso. Nas palavras do beato João Paulo II, “a tarefa fundamental da família é o serviço à vida” (Familiaris Consortio, 28). Em breve falaremos mais disso.

Fonte: Humanitatis.net

domingo, 23 de dezembro de 2012

Preparação para o Matrimônio - I

Um dos maiores problemas na evangelização atual é a preparação para o sacramento do Matrimônio.Há a falsa esperança que todos os membros do grupo de oração ou da catequese serão sacerdotes, religiosos ou religiosas. Os responsáveis pelas pastorais esquecem-se que grande parte das vocações é matrimonial e descuidam da formação específica para este sacramento. Por causa desse erro de julgamento, ou se começa a tratar do assunto tarde demais (já no noivado), ou de modo improvisado(com palestras desconexas e – muitas vezes – controversas). O sacramento do Matrimônio deve ser preparado ainda na infância, com a educação para a generosidade.

Neste primeiro momento de reflexão, deve-se lembrar que o chamado à família é um dom natural. Sem embargo, o vínculo familiar é o único que jamais foi desfeito na história, o que significa que o tratamento teórico sobre essa instituição deve abranger assuntos e problemas naturais, os quais antecedem os sobrenaturais e destes são fundamento. Em nome dos temas e problemas da Revelação Cristã, não se pode ignorar que, para o pacto conjugal dar certo, importa preparação humana adequada. Não basta agir à mercê dos sentimentos e desejos, por mais nobres que sejam, para que a família seja auxílio na busca de felicidade de seus membros. Se, com efeito, o matrimônio foi elevado à dignidade de Sacramento, tal união se orienta naturalmente para a felicidade dos esposos e para a geração e educação da prole (cf. CIC, 1601). Por isso, alguns pontos precisam ser meditados por qualquer um que busque o Matrimônio, cristão ou pagão.

1. O relacionamento humano que ocorre no matrimônio exige unidade.

O homem busca a mulher e a mulher o homem para que sejam um. Unidade de corpos, sem dúvida, mas principalmente união de corações e de almas. Não raro, quando os corpos não mais podem se unir, é a alma (sentimentos, ambições, metas, objetivos) que une dois cônjuges que se amam e se deram em matrimônio. Para que o pacto conjugal alcance êxito, os que se preparam para este momento precisam estar aptos a essa unidade de corpos, mas também é necessário desejar a unidade de corações e almas. Encontrada esta intimidade, os corpos não mais serão dois, mas um só!

A unidade exigida pelo matrimônio fará com que os cônjuges não descuidem do seu corpo, ainda que saibam que o princípio unitivo do casal é o coração. No entanto, como o homem é um ente composto por matéria e forma, corpo e alma, a união dos corpos é mais que um sinal da união das almas.

2. O relacionamento humano que ocorre no matrimônio exige fidelidade.

É certo que nem todo cidadão(ã) que habita com companheiro(a) aceita ser exigido ou exige fidelidade; mas tambémé certo que todos os que buscam o Matrimônio, civil ou religioso, exigem de si e do outro fidelidade ao compromisso assumido. A razão de tal característica se encontra no coração humano, que não admite rivalquando o assunto é doação. Se me dou a outra integralmente, preciso ter certeza que a outra se entregará a mim de modo integral. Nenhum ser humano, ao buscar este vínculo publicamente, aceita menos que tudo na relação matrimonial.

Muitas vezes, a fidelidade conjugal limita-se apenas a não consumação de uma traição concreta, física. No entanto, de acordo com o princípio de que a união entre os esposos não é só carnal, mas principalmente espiritual, há infidelidade também quando as partes não mais sonham os mesmos sonhos, almejam os mesmos objetivos, quando não têm as mesmas metas. Um esposo que não é cúmplice da esposa no concurso que esta pretende fazer, pode estar sendo infiel; a esposa que não apoia aquela atividade do marido porque não tem a ver com a profissão, pode estar sendo infiel; o casal que superestima a vida conjugal em detrimento do seu papel educador e formativo dos filhos, com certeza está sendo infiel aos filhos.

3. O relacionamento humano que ocorre no matrimônio exige perenidade.

Por ser integral e exigente, é da natureza humana que este relacionamento não seja volúvel. A fidelidade não admite exceções. Portanto, a estabilidade matrimonial é a marca do relacionamento humano e a extinção desta aliança só se dá por força maior. Apesar de, na vida cotidiana, a maioria das decisões serem passíveis de revisão, o matrimônio (mesmo o matrimônio pagão!) não aceita esse tipo de simplificação.  Quando os esposos prometem dar-se integral e totalmente, tal decisão não está condicionada a elementos exteriores (doenças, pobreza, viagens) ou interiores (sentimentos ou instintos), pois assim não seria uma entrega integral e total. E mais: ainda que o outro não cumpra sua parte no pacto conjugal (por exemplo, sendo violento física ou moralmente contra uma das partes), o cônjuge fiel não está livre para contrair novo pacto, a não ser que fique patente que o primeiro vínculo jamais existiu.

4. O relacionamento humano que ocorre no matrimônio é sempre aberto à vida.

O amor tende naturalmente a expandir-se. O amor é fecundo e deseja espalhar um pouco de si aonde passa. Muitos temos essa experiência ao conviver com pessoas que amam seu trabalho, amam sua fé ou amam sua vida: como é bom estar junto delas! Parece que saem faíscas de amor de seus olhos. No amor conjugal não é diferente. A relação unitiva entre um homem e uma mulher tende, naturalmente, à geração de filhos, os quais sempre são sinais do amor dos esposos. Por este motivo, a paternidade e a maternidade nunca são um dever, pois não há deveres quanto ao amor. Os filhos são, sempre, testemunho do amor generoso dos pais, os quais estão abertos à vida.

Em uma sociedade pouco generosa como a que vivemos, não é impossível entender os motivos da pequena porcentagem de famílias com mais de 3 filhos. Pais pouco generosos; poucos filhos. Obviamente, há situações difíceis, a respeito das quais a ética trata e que normatiza a geração da prole. Via de regra, porém, tomar a iniciativa de tornar impossível a geração de filhos jamais pode ser uma hipótese ordinária e irrefletida pelos cônjuges, cristãos ou não.

 

Fonte: Humanitatis.net

domingo, 16 de dezembro de 2012

Mitos Acerca do Matrimônio - III

Mesmo aquelas “Brancas de Neve” que sabem não existir o príncipe dos sonhos, mesmo essas escorregam neste mito, que é o desejo de autossuficiência conjugal

Retomando a formação para os que pretendem dar-se em matrimônio, há ainda muitos outros mitos que infestam o imaginário dos jovens noivos e namorados. Já se falou de questões psicológicas e sociais (Mito da Alma Gêmea e Mito do Príncipe Encantado), mas há problemas que dizem respeito a temas mais imediatos, questões cotidianas que incomodam muitíssimos recém-casados. Conversando com alguns candidatos ao matrimônio, não é incomum se deparar com pessoas desmesuradamente românticas, pessoas muito descuidadas das questões práticas de vida. A esse modo de ver a vida  conjugal, deu-se o nome de Mito da Branca de Neve.

A Esposa “Branca de Neve” e seus ajudantes silvícolas nas tarefas diárias

Há muitas “Brancas de Neve” por aí e é bastante agradável conversar com elas. Como é bom ouvir uma noiva Branca de Neve falar sobre suas expectativas para a vida conjugal! E como é estimulante ouvi-la sobre sua ansiedade pelo matrimônio! De certa forma, é até revigorante para alguns matrimônios mais maduros contemplarem este amor puro, este sentimento sincero. É como voltar ao passado e contemplar em um espelho o que já se foi e o que deve voltar a ser… Os matrimônios deviam manter esse frescor juvenil durante os anos. O problema é que os namorados e noivos “Brancas de Neve” ultrapassam o limite da pureza, beirando a imprudência. De modo inconsequente, flertam com a insensatez e com a tolice. Eles chamam de “amor sincero” o que é, muitas vezes, purairreflexão e precipitação. Por esse motivo, embora esse mito seja muito simpático, ele é também bastante perigoso. Sobretudo se o casal é jovem ou imaturo, ele pode trazer não poucos problemas para os recém-casados. Mas qual propriamente é o perigo?

Primeiramente, as “Brancas de Neve” de nosso tempo pensam ter encontrado o Princípe Encantado, ingenuidade já tratada em outro lugar. No entanto, mesmo aquelas “Brancas de Neve” que sabem não existir homem perfeito, mesmo essas escorregam neste mito, que é o desejo de autossuficiência conjugal. As “Brancas de Neve” acreditam que, para serem felizes eternamente, basta-lhes uma choupana de sapê encravada no meio da floresta, uma trupe de amigos-anões, e o seu amor a seu lado. Em arroubos e com suspiros exclamam as “Brancas de Neve”: nosso amor e uma cabana! Os que são vítimas desse mito não sabem que o cotidiano do amor conjugal exige mais que sorrisos melados e suspiros cor-de-rosa. Amor de verdade, amor de dia-a-dia tem muito pouco de cor-de rosa, tem mais de vermelho-sangue de compromisso.

A candidata a esposa precisa saber que esse amor romântico é ruim, pois não deixa ver a realidade como ela é; o candidato a esposo deve reconhecer que esse sentimento adocicado não favorece o crescimento do casal, porquanto ignora o mundo com sua rijeza. O que pode parecer “espírito de desapego”, pode também ser simples imprudência ou tolice, que é não meditar o suficiente sobre as decisões que se deve tomar. Assim, as “Brancas de Neve” não têm espírito de desprendimento. Pelo contrário, este sentimento aparentemente desprendido esconde um espírito estulto, que não medita suficientemente sobre as escolhas e decisões e, precipitadamente, põe tudo a perder: tolo! (cf. Lc 14,31).

Decepção…

A candidata a esposa “Branca de Neve”, embebida de romantismo e com uma perspectiva falsa da realidade, crê que o amor dos cônjuges é suficiente para mantê-los felizes, almoçando girassóis e repousando sobre a relva. Algumas “Brancas de Neve” até acreditam que é só começar a cantar que os animais silvestres entrarão pela porta da sala em direção a cozinha, prontos para lavarem pratos e garfos, varrendo  a casa, pondo a roupa para lavar e secar, arrumando a bagunça da noite anterior, limpando a bagunça deixada pelas visitas na véspera. Que decepção para a pequena “Branca de Neve” quando isso não acontece…É neste momento que o desencanto acontece e a tristeza toma conta desse jovem matrimônio. E o mito, com a esperança de um futuro cor-de-rosa, desvanece…

Com efeito, os deveres naturais, ordinários da vida humana e próprios do matrimônio, não podem ser subestimados por causa da excitação que o estado de enamoramento produz. Os que se dão em matrimônio cuidem para que as necessidades concretas da família sejam atendidas, sem excessivas preocupações, mas também sem descuidos irresponsáveis. A ordem no lar depende de algum esforço pessoal, de algum tempo de reflexão, de dicas e conselhos. Não se pode esquecer dessas necessidades práticas do cotidiano familiar. A Familiaris Consortio ensina aos cônjuges que, concomitante ao dever de fundar uma comunidade de pessoas unidas pelo amor, está também o dever de proporcionar condições materiais suficientes para o desenvolvimento do ser humano, chamado a ser filho adotivo de Deus. Não se pode absolutamente relegar a tarefa de cuidar de sua própria família à sorte ou à “mágica da Disney”. O Papa João Paulo II indica que a “condução ordenada da família” solicita:

66. Por exemplo, trabalho estável, disponibilidade financeira suficiente, administração sábia, noções de economia doméstica.

Se é verdade que uma grande mansão, com piscinas e salões, não fazem um matrimônio feliz, também é igualmente verdade que viver de amor em um cabana é utopia irrealizável para certas famílias. Afinal, nas cidades atuais, mesmo as cabanas e choupanas têm de pagar IPTU, energia elétrica e água, e as famílias têm de pagar escola para os filhos. Sem falar que só na Disney as velhinhas saem dando maçãs para as moças que moram nas cabanas da floresta. Acorda Branca de Neve…

 

Fonte: Humanitatis.net

domingo, 9 de dezembro de 2012

Mitos Acerca do Matrimônio - II

É incrível a quantidade de pessoas (e de meninas principalmente) que acredita, no fundo da sua alma, que uma “alma gêmea” a aguarda em algum lugar.

Seguindo a série “Mitos acerca do Matrimônio“, há um mito bastante curioso e muito comum entre os idealistas de todas as idades: o “Mito da Cara-Metade”, também conhecido por “Mito da Alma Gêmea”. As pessoas que se deixaram enganar por esse mito acreditam ingenuamente que há, em algum lugar, uma outra pessoa que é perfeitamente compatível com elas. Sem qualquer motivo, creem que há uma metade delas perdida no mundo, uma metade que as completa. O lema dessas pessoas é: “a metade da minha felicidade está lá fora”; ou “minha alma gêmea está me esperando”. Por isso, a tarefa do homem no mundo é encontrar essa metade escondida e, se encontrada, fazer de tudo para casar-se com ela. Encontrando-a e casando-se com ela, a felicidade está garantida. Não é necessário pensar muito para ver que isso é um mito, e bem descarado. Mas é incrível a quantidade de pessoas (e de meninas principalmente) que acredita, no fundo da sua alma, que uma “alma gêmea” a aguarda em algum lugar.

Reprodução

Este mito é perigoso por vários motivos. Um dos maiores problemas é a premissa equivocada de que cada pessoa é incompleta. O mito da metade perdida assegura aos que nele acreditam que, em sua natureza afetiva mais íntima, todo homem precisa de um complemento para que sua felicidade seja completa. Esse princípio é falso, ora bolas! A Antropologia Filosófica ensina, já desde Aristóteles, que todos os homens são unos e não partidos. Isto quer dizer que, em si mesmos, todos possuem as condições necessárias para sermos felizes, sem que seja necessário encontrar algum elemento externo (objeto ou pessoa) que complemente a natureza humana supostamente defeituosa.Se não é conveniente que “o homem esteja só”, isso nada tem a ver com alguma imperfeição individual, mas certamente diz respeito ao Dom de Si, que deve ser toda vida humana. O matrimônio é o lugar onde este Dom surge mais concretamente, inclusive com a geração de filhos.Se o homem encontra no Amor sua perfeita realização não é porque lhe falte algo, mas porquanto o Amor eleva a natureza humana a alturas superiores, alturas inimagináveis apenas por suas próprias forças.

Ora, é verdade que um companheiro justo, honesto, carinhoso, bom, ajuda muitíssimo na caminhada árdua por essa vida cheia de obstáculos. É claro também que uma companheira atenta, educada, laboriosa, gentil colabora na santificação de todos na família. Contudo, é um erro sem tamanho transferir para outra pessoa a responsabilidade pela própria felicidade. E mais: é tremendamente injusto (com o cônjuge!) desejar que outra pessoa, que por sua natureza é falível e limitada, sacie  o desejo de infinito que mora no coração de todo homem. Se alguém pode saciar a sede humana de Verdade, de Bondade, de Beleza, de Totalidade, esse é Deus.Qualquer outro objeto de amor que rivalize com o Amor a Deus torna-se Bezerro de Ouro, pois rouba  o culto que só a Ele se deve.

Deus mesmo inspira, sustenta e guia cada criatura para a felicidade (Familiaris Consortio, 34).

Portanto, esperar encontrar outra pessoa que traga-me a felicidade desejada é transformar o outro em ídolo, esse sim um erro crasso. Afinal, quem conhece a natureza humana um pouquinho sabe que todos os homens temos defeitos (grandes ou pequenos). Todos fomos marcados pelo Pecado Original, o que torna o matrimônio cristão uma longa viagem entre feridos, uma caminhada com feridos. É mais feliz nessa viagem quem compreende a “doença” que toca o outro e ajuda-lhe na cura.

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Outro equívoco comum entre os que acreditam na “Alma Gêmea” é famigerada “compatibilidade”. Tem que ter muita fé – fé irracional, é bom que se diga – para realmente acreditar que há por aí alguma pessoa, educada em outra família, talvez falando outra língua, com costumes e hábitos distintos do seu, com uma psicologia inversa à sua, que seja compatível com exatamente tudo o que você pensa. E se a compatibilidade é “sexual”, aí o problema é maior, pois reduz o relacionamento humano a um elemento, o físico, bastante mutável e com data de validade para acabar: a impotência acabará com o amor do matrimônio.

Pelo contrário, o fato é que não há duas pessoas, nem gêmeas, que sejam 100% compatíveis sobre qualquer assunto. O que se dirá de dois cônjuges? O matrimônio é justamente o exercício humano de adequação, diálogo, tensões (por que não?), em que as pessoas que compõem o matrimônio mudam de opinião, abrem mão de desejos, tudo pelo bem do outro. O matrimônio não é uma estojo de caneta chique, todo acolchoado, em que os elementos se encaixam perfeitamente, sem barulho, sem impacto, sem incômodos. Quem anela se dar em matrimônio precisa saber que o outro terá nas suas mãos parte importante de seu coração e que isso é desejado por Deus. É Deus mesmo quem abençoa os matrimônios, como que solicitando aos cônjuges (se possível fosse) que O auxilie na tarefa de santificação do esposo ou esposa.

O sacramento do matrimónio, que retoma e especifica a graça santificante do baptismo, é a fonte própria e o meio original de santificação para os cônjuges. Em virtude do mistério da morte e ressurreição de Cristo, dentro do qual se insere novamente o matrimónio cristão, o amor conjugal é purificado e santificado: ‘O Senhor dignou-se sanar, aperfeiçoar e elevar este amor com um dom especial de graça e caridade’.

O dom de Jesus Cristo não se esgota na celebração do matrimónio, mas acompanha os cônjuges ao longo de toda a existência. O Concílio Vaticano II recorda-o explicitamente, quando diz que Jesus Cristo ‘permanece com eles, para que, assim como Ele amou a Igreja e se entregou por ela, de igual modo os cônjuges, dando-se um ao outro, se amem com perpétua fidelidade… Por este motivo, os esposos cristãos são fortalecidos e como que consagrados em ordem aos deveres do seu estado por meio de um sacramento especial; cumprindo, graças à energia deste, a própria missão conjugal e familiar, penetrados do espírito de Cristo que impregna toda a sua vida de fé, esperança e caridade, avançam sempre mais na própria perfeição e mútua santificação e cooperam assim juntos para a glória de Deus’ (Familiaris Consortio, 56).

Todo cônjuge é o Agente Especial para causa da Santificação (AES) do outro elemento do matrimônio, agente enviado e abençoado por Deus na celebração matrimonial. Nada de facilidades, nada de simplismos, nada de atalhos.

Esperando a "Alma Gêmea"

As pessoas que se sentem atraídas pelo “Mito da Cara-Metade” têm a mesma matriz psicológica: elas temem. Temem que, dando seu coração, dando o que têm de mais íntimo, sejam traídas. Por isso esperam alguém perfeito, alguém totalmente compatível, com quem não haverá disputas, nem brigas. Alguém assim pode garantir-lhes o sucesso matrimonial. Felizmente essa pessoa não existe. Os que esperam a “Alma Gêmea” precisam aprender com o desenho animado Nemo: nas dificuldades e riscos é quando mais crescemos. Nesta vida há riscos.

Finalmente, quero deixar um questionamento aos que realmente acreditam nesse mito. Os que defendem o “Mito da Cara-Metade” têm alguns problemas para resolver: o que aconteceria àquelas pessoas que não encontraram sua cara-metade, ou por que elas morreram de acidente de trânsito, ou por que simplesmente casaram antes com outra pessoa, ou por que não querem casar-se? A resposta fria deveria ser: Essas pessoas seriam infelizes necessariamente, pois a “outra metade de sua laranja” não estaria disponível para viver “feliz para sempre” nesta vida. Vocês realmente acham que isso é razoável? Se sim, boa sorte na sua “busca”. Para os que sabem que o matrimônio é uma escolha, não o arbítrio de um destino cego, deixo uma meditação: amor, para ser de verdade, deve ser integral. Não pode depender de retribuição ou condições. Tem que ser eterno!

 

Fonte: Humanitatis.net

domingo, 2 de dezembro de 2012

Mitos acerca do Matrimônio – I

Então, se em seu relacionamento o namorado ou namorada se parece mais com um sapo ou uma rã do que com um príncipe ou uma princesa, não dispense o animal na lagoa ainda…

Um dos grandes desafios da pastoral do matrimônio é desmitificar a imagem que os jovens têm deste sacramento. Enquanto não se contemplar a vocação matrimonial sob a luz acertada, as verdadeiras virtudes e os reais perigos do enlace matrimonial continuarão na sombra, fazendo com que as alegrias desta vocação continuem ocultas para uns casais e as dificuldades ainda mais assustadoras para outros. Por isso, é preciso lembrar que esse sacramento precisa ser preparado, meditado, estudado. Alguns temas importantes já foram tratados neste site: as características fundamentais do matrimônio (unidade, fidelidade, abertura à vida, o bem dos esposos); o matrimônio como chamado de Deus à santidade na doação ao cônjuge e aos filhos; sobre a imoralidade de tornar inférteis atos sexuais que, naturalmente, são férteissobre o fim do ato sexual no matrimônio: a prole. Todas essas informações ajudam na formação dos jovens que se sentem chamados ao matrimônio. Contudo, a “prática pastoral” aponta para alguns mitos muito comuns entre os que namoram ou estão prestes a contrair uma relação estável e perene pelo matrimônio. Nesta série de reflexões tratar-se-á de esclarecer alguns aspectos importantes, os quais causam o fim de não poucos matrimônios absolutamente viáveis, se houvesse preparação adequada e conselhos de casais mais experimentados. O mito de hoje é o “Mito do Príncipe Encantado”.

Reprodução

O Beato João Paulo II, em sua Exortação Apostólica Familiaris Consortio, acentuou o caráter urgente de uma formação adequada aos que anelam o sacramento do matrimônio. Diz o saudoso Pontífice, com destaques do editor:

66. A preparação dos jovens para o matrimônio e para a vida familiar é necessária hoje mais do que nunca. Em alguns países são ainda as mesmas famílias que, segundo costumes antigos, se reservam transmitir aos jovens os valores que dizem respeito à vida matrimonial e familiar, mediante uma obra progressiva de educação ou iniciação. Mas as mudanças verificadas no seio de quase todas as sociedades modernas exigem que não só a família, mas também a sociedade e a Igreja se empenhem no esforço de preparar adequadamente os jovens para as responsabilidades do seu futuro.

Ora, para a recepção frutuosa e eficaz do sacramento do matrimônio, importa uma formação completa:preparar-se espiritualmente é fundamental, mas não se pode esquecer da preparação humana, bastante responsável por inúmeros desastres matrimoniais, pelo simples descaso sobre as condições de convivência entre os humanos. O maior dos mitos que espreita os que se sentem chamados a amar a Deus no matrimônio é o “Quando casar ele/ela melhora”. Ele/Ela pensa que todas as diversas dificuldades, dos inúmeros defeitos de caráter, dos vícios adquiridos e cultivados com cuidado durante todo o namoro e noivado desaparecerão como mágica, num estalar de dedos, com a bênção do assistente do matrimônio. Ele/Ela acredita piamente que seu namorado/a é um príncipe, mas ainda escondido sob a pele de um ogro ou sapo. Por isso, o mito também pode ser denominado “Mito do Shrek”. As pessoas advertem os que estão nessa situação apontando para os graves defeitos dos parceiros, mas os que estão envolvidos nessa situação respondem sempre com a mesma ladainha: Ah, quando a gente casar tudo vai ser diferente… A causa desta recorrente expectativa é uma mistura de otimismo besta, de um lado, e desconhecimento da natureza humana, de outro.

Reprodução: Dr. Jekyll and Mr. Hyde

A literatura universal já advertiu que em cada pessoa há um monstro a espreitar. O Médico e o Monstro é a expressão da dualidade em cada homem. No livro de Stenvenson, Dr. Jekyll revela o monstro que há em cada um através de uma poção que traz à tona o pior da natureza humana, o mais perigoso dos inimigos: me and myself. Criada para manifestar o mal em todos, a poção gradativamente torna o monstro independente, não necessitando bebê-la para pôr em risco as pessoas amadas por Jekyll. Em situações extremas, o doutor perde o controle e o monstro surge. Esta alegoria representa muito bem a dualidade existente em cada homem, capaz das maiores barbaridades e dos atos mais nobres. Ocorre que, a despeito do relato de Stevenson, o monstro que há nos homens não precisa de uma poção para dar o ar de sua graça.

Normalmente, o pior que há na humanidade não precisa de ajuda especial para manifestar-se. Não é necessária uma poção, uma bebida, um gatilho para que o mal que está no homem surja. Pelo contrário, é muitíssimo comum que durante os dias mais ensolarados, nos momentos mais agradáveis, nos lugares mais confortáveis, com as melhores companhias, uma contrariedade qualquer provoque uma multidão de paixões que transformará um promissor passeio no parque em uma discussão acalorada, um jantar em família em uma batalha de egos, um cinema agradável em uma tarde cinza. E tudo isso sem a poção do Dr. Jekyll…

Reprodução: sempre com raiva

Os que se preparam para servir a Deus e à Igreja na sua família precisam lembrar das palavras do Evangelho: “Para entrar no Reino é preciso nascer de novo” (Jo 3, 3). Não se trata tão somente do sacramento do Batismo, condição para ser enxertado na Verdadeira Videira e expressão externa da primeira conversão a Deus. Trata-se também da conversão cotidiana, da morte diária para o que é contrário a Vontade de Deus, sem a qual a primeira conversão do Batismo se transforma em um mero formalismo, se reduz a um rito vazio, momento ontológica e historicamente determinado, mas sem consequências duradouras na vida dos indivíduos. É preciso morrer para nascer de novo. Os que se acham no caminho da vocação matrimonial precisam morrer muitas vezes ao dia para continuarem vivos para seu cônjuge, para seus filhos, para sua família, para Deus enfim. É necessário sacrificar cada momento o monstro que há em cada um para que o matrimônio cristão seja o que deve ser: o encontro de duas pessoas consigo mesmas e com Deus.

Os que almejam a vida matrimonial têm que ver no namorado/a tanto amor ao companheiro/a quanto a Deus. Nesse campo, não se aceita menos que tudo. Claro que a perfeição moral nesta vida é impossível. No entanto, o período do namoro e do noivado deve dar provas aos comprometidos que é Deus o mais importante da relação. Se um casal choraria amargamente a traição de uma das partes, deve chorar com tanta ou maior amargura a traição a Deus, que é o pecado. Então, se em seu relacionamento o namorado ou namorada se parece mais com um sapo ou uma rã do que com um príncipe ou uma princesa, não dispense o animal na lagoa ainda…Mas certifique-se que o anfíbio gosmento está se esforçando por tornar-se digno de realeza antes do beijo no altar. Caso o beijo do altar já tenha ocorrido e o sapo não tenha se transmutado em príncipe, nada de desespero. Há esperança. Mas certamente este matrimônio será mais parecido com o amor de Cristo a sua Igreja: até a Cruz.


Fonte: Humanitatis.net