Seguidores

domingo, 30 de dezembro de 2012

Preparação para o Matrimônio - II

Antes de avançar sobre as características do matrimônio, importa meditar sobre um aspecto essencial deste sacramento: o serviço. Todos os esposos, noivos e namorados deviam pensar na seguinte frase do Evangelho“aquele que quiser salvar a sua vida, perde-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobra-la-á” (Mt 16, 25).

É perceptível entre os cristãos (mesmo entre os muito bem formados) a ignorância sobre os fundamentos do sacramento do matrimônio. E se há um conhecimento que não se pode ignorar é que ninguém que se casa para “se encontrar” ou “para se preencher” alcançará seu intento. A cara-metade é um mito! O par perfeito é uma ilusão muito perigosa. Não existe a metade prometida ou algo semelhante que complemente o homem. É preciso que se diga aos namorados e noivos: matrimônio é sacramento de doação! Assim como o sacerdócio, o matrimônio é um dos sacramentos de serviço. Isto mesmo: o padre é ordenado para servir a Deus e sua Igreja no serviço litúrgico; os esposos dão-se mutuamente em matrimônio, numa entrega livre, fecunda, total e generosa, também para servir a Deus e sua Igreja. Apenas a meditação deste aspecto do matrimônio faria refletir muitos namorados que ardem pelo matrimônio – e muitíssimos já casados! É uma ótima oportunidade de fazer um longo exame de consciência:

    1. Estou preparado(a) para servir o(a) esposo(a) que receberei?
    2. Meu matrimônio já é serviço para o(a) esposo(a), cujo(a) amor, companhia e fidelidade devotei?

Reprodução

Houve tempo em que o matrimônio era visto como modo de se alcançar bens (tanto pelo lado de quem dava a filha em matrimônio quanto do lado de quem pleiteava as bodas). Neste sentido, o cristianismo é um avanço incomensurável em relação ao paganismo, cujo objetivo com o matrimônio era apenas auferir algum tipo de benefício material (terras, poder, pensões, heranças), incluindo nesse negócio todo prazer físico que fosse possível. Para os cristãos, o matrimônio não se reduz à troca de carteiras, muito menos de fluidos corporais; antes, matrimônio é a entrega total e integral do indivíduo, um homem a uma mulher, livre, aberto à vida incondicionalmente. O paganismo de modo algum tolera amores incondicionais, amores generosos. O primeiro passo para os que se sentem chamados ao matrimônio é entender o caráter diaconal do matrimônio: o fundamento da vida conjugal é a doação dos esposos, mas não de modo impreciso. Nas palavras do beato João Paulo II, “a tarefa fundamental da família é o serviço à vida” (Familiaris Consortio, 28). Em breve falaremos mais disso.

Fonte: Humanitatis.net

domingo, 23 de dezembro de 2012

Preparação para o Matrimônio - I

Um dos maiores problemas na evangelização atual é a preparação para o sacramento do Matrimônio.Há a falsa esperança que todos os membros do grupo de oração ou da catequese serão sacerdotes, religiosos ou religiosas. Os responsáveis pelas pastorais esquecem-se que grande parte das vocações é matrimonial e descuidam da formação específica para este sacramento. Por causa desse erro de julgamento, ou se começa a tratar do assunto tarde demais (já no noivado), ou de modo improvisado(com palestras desconexas e – muitas vezes – controversas). O sacramento do Matrimônio deve ser preparado ainda na infância, com a educação para a generosidade.

Neste primeiro momento de reflexão, deve-se lembrar que o chamado à família é um dom natural. Sem embargo, o vínculo familiar é o único que jamais foi desfeito na história, o que significa que o tratamento teórico sobre essa instituição deve abranger assuntos e problemas naturais, os quais antecedem os sobrenaturais e destes são fundamento. Em nome dos temas e problemas da Revelação Cristã, não se pode ignorar que, para o pacto conjugal dar certo, importa preparação humana adequada. Não basta agir à mercê dos sentimentos e desejos, por mais nobres que sejam, para que a família seja auxílio na busca de felicidade de seus membros. Se, com efeito, o matrimônio foi elevado à dignidade de Sacramento, tal união se orienta naturalmente para a felicidade dos esposos e para a geração e educação da prole (cf. CIC, 1601). Por isso, alguns pontos precisam ser meditados por qualquer um que busque o Matrimônio, cristão ou pagão.

1. O relacionamento humano que ocorre no matrimônio exige unidade.

O homem busca a mulher e a mulher o homem para que sejam um. Unidade de corpos, sem dúvida, mas principalmente união de corações e de almas. Não raro, quando os corpos não mais podem se unir, é a alma (sentimentos, ambições, metas, objetivos) que une dois cônjuges que se amam e se deram em matrimônio. Para que o pacto conjugal alcance êxito, os que se preparam para este momento precisam estar aptos a essa unidade de corpos, mas também é necessário desejar a unidade de corações e almas. Encontrada esta intimidade, os corpos não mais serão dois, mas um só!

A unidade exigida pelo matrimônio fará com que os cônjuges não descuidem do seu corpo, ainda que saibam que o princípio unitivo do casal é o coração. No entanto, como o homem é um ente composto por matéria e forma, corpo e alma, a união dos corpos é mais que um sinal da união das almas.

2. O relacionamento humano que ocorre no matrimônio exige fidelidade.

É certo que nem todo cidadão(ã) que habita com companheiro(a) aceita ser exigido ou exige fidelidade; mas tambémé certo que todos os que buscam o Matrimônio, civil ou religioso, exigem de si e do outro fidelidade ao compromisso assumido. A razão de tal característica se encontra no coração humano, que não admite rivalquando o assunto é doação. Se me dou a outra integralmente, preciso ter certeza que a outra se entregará a mim de modo integral. Nenhum ser humano, ao buscar este vínculo publicamente, aceita menos que tudo na relação matrimonial.

Muitas vezes, a fidelidade conjugal limita-se apenas a não consumação de uma traição concreta, física. No entanto, de acordo com o princípio de que a união entre os esposos não é só carnal, mas principalmente espiritual, há infidelidade também quando as partes não mais sonham os mesmos sonhos, almejam os mesmos objetivos, quando não têm as mesmas metas. Um esposo que não é cúmplice da esposa no concurso que esta pretende fazer, pode estar sendo infiel; a esposa que não apoia aquela atividade do marido porque não tem a ver com a profissão, pode estar sendo infiel; o casal que superestima a vida conjugal em detrimento do seu papel educador e formativo dos filhos, com certeza está sendo infiel aos filhos.

3. O relacionamento humano que ocorre no matrimônio exige perenidade.

Por ser integral e exigente, é da natureza humana que este relacionamento não seja volúvel. A fidelidade não admite exceções. Portanto, a estabilidade matrimonial é a marca do relacionamento humano e a extinção desta aliança só se dá por força maior. Apesar de, na vida cotidiana, a maioria das decisões serem passíveis de revisão, o matrimônio (mesmo o matrimônio pagão!) não aceita esse tipo de simplificação.  Quando os esposos prometem dar-se integral e totalmente, tal decisão não está condicionada a elementos exteriores (doenças, pobreza, viagens) ou interiores (sentimentos ou instintos), pois assim não seria uma entrega integral e total. E mais: ainda que o outro não cumpra sua parte no pacto conjugal (por exemplo, sendo violento física ou moralmente contra uma das partes), o cônjuge fiel não está livre para contrair novo pacto, a não ser que fique patente que o primeiro vínculo jamais existiu.

4. O relacionamento humano que ocorre no matrimônio é sempre aberto à vida.

O amor tende naturalmente a expandir-se. O amor é fecundo e deseja espalhar um pouco de si aonde passa. Muitos temos essa experiência ao conviver com pessoas que amam seu trabalho, amam sua fé ou amam sua vida: como é bom estar junto delas! Parece que saem faíscas de amor de seus olhos. No amor conjugal não é diferente. A relação unitiva entre um homem e uma mulher tende, naturalmente, à geração de filhos, os quais sempre são sinais do amor dos esposos. Por este motivo, a paternidade e a maternidade nunca são um dever, pois não há deveres quanto ao amor. Os filhos são, sempre, testemunho do amor generoso dos pais, os quais estão abertos à vida.

Em uma sociedade pouco generosa como a que vivemos, não é impossível entender os motivos da pequena porcentagem de famílias com mais de 3 filhos. Pais pouco generosos; poucos filhos. Obviamente, há situações difíceis, a respeito das quais a ética trata e que normatiza a geração da prole. Via de regra, porém, tomar a iniciativa de tornar impossível a geração de filhos jamais pode ser uma hipótese ordinária e irrefletida pelos cônjuges, cristãos ou não.

 

Fonte: Humanitatis.net

domingo, 16 de dezembro de 2012

Mitos Acerca do Matrimônio - III

Mesmo aquelas “Brancas de Neve” que sabem não existir o príncipe dos sonhos, mesmo essas escorregam neste mito, que é o desejo de autossuficiência conjugal

Retomando a formação para os que pretendem dar-se em matrimônio, há ainda muitos outros mitos que infestam o imaginário dos jovens noivos e namorados. Já se falou de questões psicológicas e sociais (Mito da Alma Gêmea e Mito do Príncipe Encantado), mas há problemas que dizem respeito a temas mais imediatos, questões cotidianas que incomodam muitíssimos recém-casados. Conversando com alguns candidatos ao matrimônio, não é incomum se deparar com pessoas desmesuradamente românticas, pessoas muito descuidadas das questões práticas de vida. A esse modo de ver a vida  conjugal, deu-se o nome de Mito da Branca de Neve.

A Esposa “Branca de Neve” e seus ajudantes silvícolas nas tarefas diárias

Há muitas “Brancas de Neve” por aí e é bastante agradável conversar com elas. Como é bom ouvir uma noiva Branca de Neve falar sobre suas expectativas para a vida conjugal! E como é estimulante ouvi-la sobre sua ansiedade pelo matrimônio! De certa forma, é até revigorante para alguns matrimônios mais maduros contemplarem este amor puro, este sentimento sincero. É como voltar ao passado e contemplar em um espelho o que já se foi e o que deve voltar a ser… Os matrimônios deviam manter esse frescor juvenil durante os anos. O problema é que os namorados e noivos “Brancas de Neve” ultrapassam o limite da pureza, beirando a imprudência. De modo inconsequente, flertam com a insensatez e com a tolice. Eles chamam de “amor sincero” o que é, muitas vezes, purairreflexão e precipitação. Por esse motivo, embora esse mito seja muito simpático, ele é também bastante perigoso. Sobretudo se o casal é jovem ou imaturo, ele pode trazer não poucos problemas para os recém-casados. Mas qual propriamente é o perigo?

Primeiramente, as “Brancas de Neve” de nosso tempo pensam ter encontrado o Princípe Encantado, ingenuidade já tratada em outro lugar. No entanto, mesmo aquelas “Brancas de Neve” que sabem não existir homem perfeito, mesmo essas escorregam neste mito, que é o desejo de autossuficiência conjugal. As “Brancas de Neve” acreditam que, para serem felizes eternamente, basta-lhes uma choupana de sapê encravada no meio da floresta, uma trupe de amigos-anões, e o seu amor a seu lado. Em arroubos e com suspiros exclamam as “Brancas de Neve”: nosso amor e uma cabana! Os que são vítimas desse mito não sabem que o cotidiano do amor conjugal exige mais que sorrisos melados e suspiros cor-de-rosa. Amor de verdade, amor de dia-a-dia tem muito pouco de cor-de rosa, tem mais de vermelho-sangue de compromisso.

A candidata a esposa precisa saber que esse amor romântico é ruim, pois não deixa ver a realidade como ela é; o candidato a esposo deve reconhecer que esse sentimento adocicado não favorece o crescimento do casal, porquanto ignora o mundo com sua rijeza. O que pode parecer “espírito de desapego”, pode também ser simples imprudência ou tolice, que é não meditar o suficiente sobre as decisões que se deve tomar. Assim, as “Brancas de Neve” não têm espírito de desprendimento. Pelo contrário, este sentimento aparentemente desprendido esconde um espírito estulto, que não medita suficientemente sobre as escolhas e decisões e, precipitadamente, põe tudo a perder: tolo! (cf. Lc 14,31).

Decepção…

A candidata a esposa “Branca de Neve”, embebida de romantismo e com uma perspectiva falsa da realidade, crê que o amor dos cônjuges é suficiente para mantê-los felizes, almoçando girassóis e repousando sobre a relva. Algumas “Brancas de Neve” até acreditam que é só começar a cantar que os animais silvestres entrarão pela porta da sala em direção a cozinha, prontos para lavarem pratos e garfos, varrendo  a casa, pondo a roupa para lavar e secar, arrumando a bagunça da noite anterior, limpando a bagunça deixada pelas visitas na véspera. Que decepção para a pequena “Branca de Neve” quando isso não acontece…É neste momento que o desencanto acontece e a tristeza toma conta desse jovem matrimônio. E o mito, com a esperança de um futuro cor-de-rosa, desvanece…

Com efeito, os deveres naturais, ordinários da vida humana e próprios do matrimônio, não podem ser subestimados por causa da excitação que o estado de enamoramento produz. Os que se dão em matrimônio cuidem para que as necessidades concretas da família sejam atendidas, sem excessivas preocupações, mas também sem descuidos irresponsáveis. A ordem no lar depende de algum esforço pessoal, de algum tempo de reflexão, de dicas e conselhos. Não se pode esquecer dessas necessidades práticas do cotidiano familiar. A Familiaris Consortio ensina aos cônjuges que, concomitante ao dever de fundar uma comunidade de pessoas unidas pelo amor, está também o dever de proporcionar condições materiais suficientes para o desenvolvimento do ser humano, chamado a ser filho adotivo de Deus. Não se pode absolutamente relegar a tarefa de cuidar de sua própria família à sorte ou à “mágica da Disney”. O Papa João Paulo II indica que a “condução ordenada da família” solicita:

66. Por exemplo, trabalho estável, disponibilidade financeira suficiente, administração sábia, noções de economia doméstica.

Se é verdade que uma grande mansão, com piscinas e salões, não fazem um matrimônio feliz, também é igualmente verdade que viver de amor em um cabana é utopia irrealizável para certas famílias. Afinal, nas cidades atuais, mesmo as cabanas e choupanas têm de pagar IPTU, energia elétrica e água, e as famílias têm de pagar escola para os filhos. Sem falar que só na Disney as velhinhas saem dando maçãs para as moças que moram nas cabanas da floresta. Acorda Branca de Neve…

 

Fonte: Humanitatis.net

domingo, 9 de dezembro de 2012

Mitos Acerca do Matrimônio - II

É incrível a quantidade de pessoas (e de meninas principalmente) que acredita, no fundo da sua alma, que uma “alma gêmea” a aguarda em algum lugar.

Seguindo a série “Mitos acerca do Matrimônio“, há um mito bastante curioso e muito comum entre os idealistas de todas as idades: o “Mito da Cara-Metade”, também conhecido por “Mito da Alma Gêmea”. As pessoas que se deixaram enganar por esse mito acreditam ingenuamente que há, em algum lugar, uma outra pessoa que é perfeitamente compatível com elas. Sem qualquer motivo, creem que há uma metade delas perdida no mundo, uma metade que as completa. O lema dessas pessoas é: “a metade da minha felicidade está lá fora”; ou “minha alma gêmea está me esperando”. Por isso, a tarefa do homem no mundo é encontrar essa metade escondida e, se encontrada, fazer de tudo para casar-se com ela. Encontrando-a e casando-se com ela, a felicidade está garantida. Não é necessário pensar muito para ver que isso é um mito, e bem descarado. Mas é incrível a quantidade de pessoas (e de meninas principalmente) que acredita, no fundo da sua alma, que uma “alma gêmea” a aguarda em algum lugar.

Reprodução

Este mito é perigoso por vários motivos. Um dos maiores problemas é a premissa equivocada de que cada pessoa é incompleta. O mito da metade perdida assegura aos que nele acreditam que, em sua natureza afetiva mais íntima, todo homem precisa de um complemento para que sua felicidade seja completa. Esse princípio é falso, ora bolas! A Antropologia Filosófica ensina, já desde Aristóteles, que todos os homens são unos e não partidos. Isto quer dizer que, em si mesmos, todos possuem as condições necessárias para sermos felizes, sem que seja necessário encontrar algum elemento externo (objeto ou pessoa) que complemente a natureza humana supostamente defeituosa.Se não é conveniente que “o homem esteja só”, isso nada tem a ver com alguma imperfeição individual, mas certamente diz respeito ao Dom de Si, que deve ser toda vida humana. O matrimônio é o lugar onde este Dom surge mais concretamente, inclusive com a geração de filhos.Se o homem encontra no Amor sua perfeita realização não é porque lhe falte algo, mas porquanto o Amor eleva a natureza humana a alturas superiores, alturas inimagináveis apenas por suas próprias forças.

Ora, é verdade que um companheiro justo, honesto, carinhoso, bom, ajuda muitíssimo na caminhada árdua por essa vida cheia de obstáculos. É claro também que uma companheira atenta, educada, laboriosa, gentil colabora na santificação de todos na família. Contudo, é um erro sem tamanho transferir para outra pessoa a responsabilidade pela própria felicidade. E mais: é tremendamente injusto (com o cônjuge!) desejar que outra pessoa, que por sua natureza é falível e limitada, sacie  o desejo de infinito que mora no coração de todo homem. Se alguém pode saciar a sede humana de Verdade, de Bondade, de Beleza, de Totalidade, esse é Deus.Qualquer outro objeto de amor que rivalize com o Amor a Deus torna-se Bezerro de Ouro, pois rouba  o culto que só a Ele se deve.

Deus mesmo inspira, sustenta e guia cada criatura para a felicidade (Familiaris Consortio, 34).

Portanto, esperar encontrar outra pessoa que traga-me a felicidade desejada é transformar o outro em ídolo, esse sim um erro crasso. Afinal, quem conhece a natureza humana um pouquinho sabe que todos os homens temos defeitos (grandes ou pequenos). Todos fomos marcados pelo Pecado Original, o que torna o matrimônio cristão uma longa viagem entre feridos, uma caminhada com feridos. É mais feliz nessa viagem quem compreende a “doença” que toca o outro e ajuda-lhe na cura.

Reprodução

Outro equívoco comum entre os que acreditam na “Alma Gêmea” é famigerada “compatibilidade”. Tem que ter muita fé – fé irracional, é bom que se diga – para realmente acreditar que há por aí alguma pessoa, educada em outra família, talvez falando outra língua, com costumes e hábitos distintos do seu, com uma psicologia inversa à sua, que seja compatível com exatamente tudo o que você pensa. E se a compatibilidade é “sexual”, aí o problema é maior, pois reduz o relacionamento humano a um elemento, o físico, bastante mutável e com data de validade para acabar: a impotência acabará com o amor do matrimônio.

Pelo contrário, o fato é que não há duas pessoas, nem gêmeas, que sejam 100% compatíveis sobre qualquer assunto. O que se dirá de dois cônjuges? O matrimônio é justamente o exercício humano de adequação, diálogo, tensões (por que não?), em que as pessoas que compõem o matrimônio mudam de opinião, abrem mão de desejos, tudo pelo bem do outro. O matrimônio não é uma estojo de caneta chique, todo acolchoado, em que os elementos se encaixam perfeitamente, sem barulho, sem impacto, sem incômodos. Quem anela se dar em matrimônio precisa saber que o outro terá nas suas mãos parte importante de seu coração e que isso é desejado por Deus. É Deus mesmo quem abençoa os matrimônios, como que solicitando aos cônjuges (se possível fosse) que O auxilie na tarefa de santificação do esposo ou esposa.

O sacramento do matrimónio, que retoma e especifica a graça santificante do baptismo, é a fonte própria e o meio original de santificação para os cônjuges. Em virtude do mistério da morte e ressurreição de Cristo, dentro do qual se insere novamente o matrimónio cristão, o amor conjugal é purificado e santificado: ‘O Senhor dignou-se sanar, aperfeiçoar e elevar este amor com um dom especial de graça e caridade’.

O dom de Jesus Cristo não se esgota na celebração do matrimónio, mas acompanha os cônjuges ao longo de toda a existência. O Concílio Vaticano II recorda-o explicitamente, quando diz que Jesus Cristo ‘permanece com eles, para que, assim como Ele amou a Igreja e se entregou por ela, de igual modo os cônjuges, dando-se um ao outro, se amem com perpétua fidelidade… Por este motivo, os esposos cristãos são fortalecidos e como que consagrados em ordem aos deveres do seu estado por meio de um sacramento especial; cumprindo, graças à energia deste, a própria missão conjugal e familiar, penetrados do espírito de Cristo que impregna toda a sua vida de fé, esperança e caridade, avançam sempre mais na própria perfeição e mútua santificação e cooperam assim juntos para a glória de Deus’ (Familiaris Consortio, 56).

Todo cônjuge é o Agente Especial para causa da Santificação (AES) do outro elemento do matrimônio, agente enviado e abençoado por Deus na celebração matrimonial. Nada de facilidades, nada de simplismos, nada de atalhos.

Esperando a "Alma Gêmea"

As pessoas que se sentem atraídas pelo “Mito da Cara-Metade” têm a mesma matriz psicológica: elas temem. Temem que, dando seu coração, dando o que têm de mais íntimo, sejam traídas. Por isso esperam alguém perfeito, alguém totalmente compatível, com quem não haverá disputas, nem brigas. Alguém assim pode garantir-lhes o sucesso matrimonial. Felizmente essa pessoa não existe. Os que esperam a “Alma Gêmea” precisam aprender com o desenho animado Nemo: nas dificuldades e riscos é quando mais crescemos. Nesta vida há riscos.

Finalmente, quero deixar um questionamento aos que realmente acreditam nesse mito. Os que defendem o “Mito da Cara-Metade” têm alguns problemas para resolver: o que aconteceria àquelas pessoas que não encontraram sua cara-metade, ou por que elas morreram de acidente de trânsito, ou por que simplesmente casaram antes com outra pessoa, ou por que não querem casar-se? A resposta fria deveria ser: Essas pessoas seriam infelizes necessariamente, pois a “outra metade de sua laranja” não estaria disponível para viver “feliz para sempre” nesta vida. Vocês realmente acham que isso é razoável? Se sim, boa sorte na sua “busca”. Para os que sabem que o matrimônio é uma escolha, não o arbítrio de um destino cego, deixo uma meditação: amor, para ser de verdade, deve ser integral. Não pode depender de retribuição ou condições. Tem que ser eterno!

 

Fonte: Humanitatis.net

domingo, 2 de dezembro de 2012

Mitos acerca do Matrimônio – I

Então, se em seu relacionamento o namorado ou namorada se parece mais com um sapo ou uma rã do que com um príncipe ou uma princesa, não dispense o animal na lagoa ainda…

Um dos grandes desafios da pastoral do matrimônio é desmitificar a imagem que os jovens têm deste sacramento. Enquanto não se contemplar a vocação matrimonial sob a luz acertada, as verdadeiras virtudes e os reais perigos do enlace matrimonial continuarão na sombra, fazendo com que as alegrias desta vocação continuem ocultas para uns casais e as dificuldades ainda mais assustadoras para outros. Por isso, é preciso lembrar que esse sacramento precisa ser preparado, meditado, estudado. Alguns temas importantes já foram tratados neste site: as características fundamentais do matrimônio (unidade, fidelidade, abertura à vida, o bem dos esposos); o matrimônio como chamado de Deus à santidade na doação ao cônjuge e aos filhos; sobre a imoralidade de tornar inférteis atos sexuais que, naturalmente, são férteissobre o fim do ato sexual no matrimônio: a prole. Todas essas informações ajudam na formação dos jovens que se sentem chamados ao matrimônio. Contudo, a “prática pastoral” aponta para alguns mitos muito comuns entre os que namoram ou estão prestes a contrair uma relação estável e perene pelo matrimônio. Nesta série de reflexões tratar-se-á de esclarecer alguns aspectos importantes, os quais causam o fim de não poucos matrimônios absolutamente viáveis, se houvesse preparação adequada e conselhos de casais mais experimentados. O mito de hoje é o “Mito do Príncipe Encantado”.

Reprodução

O Beato João Paulo II, em sua Exortação Apostólica Familiaris Consortio, acentuou o caráter urgente de uma formação adequada aos que anelam o sacramento do matrimônio. Diz o saudoso Pontífice, com destaques do editor:

66. A preparação dos jovens para o matrimônio e para a vida familiar é necessária hoje mais do que nunca. Em alguns países são ainda as mesmas famílias que, segundo costumes antigos, se reservam transmitir aos jovens os valores que dizem respeito à vida matrimonial e familiar, mediante uma obra progressiva de educação ou iniciação. Mas as mudanças verificadas no seio de quase todas as sociedades modernas exigem que não só a família, mas também a sociedade e a Igreja se empenhem no esforço de preparar adequadamente os jovens para as responsabilidades do seu futuro.

Ora, para a recepção frutuosa e eficaz do sacramento do matrimônio, importa uma formação completa:preparar-se espiritualmente é fundamental, mas não se pode esquecer da preparação humana, bastante responsável por inúmeros desastres matrimoniais, pelo simples descaso sobre as condições de convivência entre os humanos. O maior dos mitos que espreita os que se sentem chamados a amar a Deus no matrimônio é o “Quando casar ele/ela melhora”. Ele/Ela pensa que todas as diversas dificuldades, dos inúmeros defeitos de caráter, dos vícios adquiridos e cultivados com cuidado durante todo o namoro e noivado desaparecerão como mágica, num estalar de dedos, com a bênção do assistente do matrimônio. Ele/Ela acredita piamente que seu namorado/a é um príncipe, mas ainda escondido sob a pele de um ogro ou sapo. Por isso, o mito também pode ser denominado “Mito do Shrek”. As pessoas advertem os que estão nessa situação apontando para os graves defeitos dos parceiros, mas os que estão envolvidos nessa situação respondem sempre com a mesma ladainha: Ah, quando a gente casar tudo vai ser diferente… A causa desta recorrente expectativa é uma mistura de otimismo besta, de um lado, e desconhecimento da natureza humana, de outro.

Reprodução: Dr. Jekyll and Mr. Hyde

A literatura universal já advertiu que em cada pessoa há um monstro a espreitar. O Médico e o Monstro é a expressão da dualidade em cada homem. No livro de Stenvenson, Dr. Jekyll revela o monstro que há em cada um através de uma poção que traz à tona o pior da natureza humana, o mais perigoso dos inimigos: me and myself. Criada para manifestar o mal em todos, a poção gradativamente torna o monstro independente, não necessitando bebê-la para pôr em risco as pessoas amadas por Jekyll. Em situações extremas, o doutor perde o controle e o monstro surge. Esta alegoria representa muito bem a dualidade existente em cada homem, capaz das maiores barbaridades e dos atos mais nobres. Ocorre que, a despeito do relato de Stevenson, o monstro que há nos homens não precisa de uma poção para dar o ar de sua graça.

Normalmente, o pior que há na humanidade não precisa de ajuda especial para manifestar-se. Não é necessária uma poção, uma bebida, um gatilho para que o mal que está no homem surja. Pelo contrário, é muitíssimo comum que durante os dias mais ensolarados, nos momentos mais agradáveis, nos lugares mais confortáveis, com as melhores companhias, uma contrariedade qualquer provoque uma multidão de paixões que transformará um promissor passeio no parque em uma discussão acalorada, um jantar em família em uma batalha de egos, um cinema agradável em uma tarde cinza. E tudo isso sem a poção do Dr. Jekyll…

Reprodução: sempre com raiva

Os que se preparam para servir a Deus e à Igreja na sua família precisam lembrar das palavras do Evangelho: “Para entrar no Reino é preciso nascer de novo” (Jo 3, 3). Não se trata tão somente do sacramento do Batismo, condição para ser enxertado na Verdadeira Videira e expressão externa da primeira conversão a Deus. Trata-se também da conversão cotidiana, da morte diária para o que é contrário a Vontade de Deus, sem a qual a primeira conversão do Batismo se transforma em um mero formalismo, se reduz a um rito vazio, momento ontológica e historicamente determinado, mas sem consequências duradouras na vida dos indivíduos. É preciso morrer para nascer de novo. Os que se acham no caminho da vocação matrimonial precisam morrer muitas vezes ao dia para continuarem vivos para seu cônjuge, para seus filhos, para sua família, para Deus enfim. É necessário sacrificar cada momento o monstro que há em cada um para que o matrimônio cristão seja o que deve ser: o encontro de duas pessoas consigo mesmas e com Deus.

Os que almejam a vida matrimonial têm que ver no namorado/a tanto amor ao companheiro/a quanto a Deus. Nesse campo, não se aceita menos que tudo. Claro que a perfeição moral nesta vida é impossível. No entanto, o período do namoro e do noivado deve dar provas aos comprometidos que é Deus o mais importante da relação. Se um casal choraria amargamente a traição de uma das partes, deve chorar com tanta ou maior amargura a traição a Deus, que é o pecado. Então, se em seu relacionamento o namorado ou namorada se parece mais com um sapo ou uma rã do que com um príncipe ou uma princesa, não dispense o animal na lagoa ainda…Mas certifique-se que o anfíbio gosmento está se esforçando por tornar-se digno de realeza antes do beijo no altar. Caso o beijo do altar já tenha ocorrido e o sapo não tenha se transmutado em príncipe, nada de desespero. Há esperança. Mas certamente este matrimônio será mais parecido com o amor de Cristo a sua Igreja: até a Cruz.


Fonte: Humanitatis.net

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O MATRIMÔNIO NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE (PARTE II)

 

Reflexões de Mons. Vitaliano Mattioli

Mons. Vitaliano Mattioli*

CRATO, sexta-feira, 1 de junho de 2012 (ZENIT.org) - Na sociedade romana, Roma é a pátria do direito. A legislação romana sobre  o casamento é muito importante porque  passou depois para o direito canônico. A mesma palavra “matrimônio” foi formada pelo direito romano. Matrimônio deriva do latim matris munus (ou munium)  para evidenciar o papel importante da mulher na família;  cônjuge (coniugium) “quia mulier com viro quasi uno iugo astringitur” (o homem e a mulher estão unidos no mesmo compromisso); connubio (connubium) da nubere, velar, pelo costume de pôr um véu (flammeum) sobre a cabeça da mulher.

Para os romanos o matrimônio (sempre monogâmico; nunca foi admitida a poligamia, somente tolerada) era a convivência de um homem com uma mulher com a vontade de serem marido e mulher (affectio maritalis = carinho conjugal), que se devia manifestar com uma cerimônia pública. Este elemento distinguia o casamento da união livre. No período antigo não existia o divórcio. A intenção de viverem juntos devia ser permanente, isto é, no momento do casamento as pessoas tinham que exprimir a vontade de permanecerem juntas por toda a vida. Ainda que também podia ser que no tempo esta vontade acabasse.

A familia era natural. Para o historiador Musonio Rufo (I sec. d.C.) existia somente a família legítima (união de um homem com uma mulher) abençoada por Júpiter. O casamento homossexual nao era permitido. O imperador Nero casou-se por duas vezes na forma homossexual. Porém nunca o direito romano reconheceu o casamento homossexual. Assim se encontra em Tacito, Suetonio, Dione Cassio. Cicero definiu o matrimônio: “Prima societas in ipso coniugio est…; id autem est principium urbis et quasi seminarium rei publicae” (De Officiis, I, 17, 54; O casamento é a primeira sociedade…; por isso é o primeiro princípio da cidade e o viveiro do Estado). A definição clássica do matrimônio é aquela do jurista Erennio Modestino (m. 244 d.C.): “Nuptiae sunt coniunctio maris et feminae et consortium omnis vitae, divini et humani iuris communicatio”  (Dig. 23,2,1) (União de um homem com uma mulher, uma comunhão por toda a vida, com a aceitação de tudo o que é exigido pelo direito humano e divino). Com as palavras Coniunctio maris et feminae  Modestino entendia a união sexual.  Poucos anos antes, Ulpiano com esta  coniunctio entendia o matrimônio mesmo, conteúdo no direito natural.  Ele dizia que pela validade do matrimônio não precisa a união carnal,  mas o consentimento (Digesto, 35,1,15).  Segundo Ulpiano o consenso compreende a affectio maritalis, a vontade do marido de comportar-se  com carinho e com respeito com a sua esposa.

A outra está contida nas Institutiones de Justiniano: “Viri et mulieris coniunctio individuam consuetudinem vitae continens” (Inst., 1,9,1). Nestas palavras se encontram os elementos fundamentais. A vontade dos cônjuges  é indispensável e ao menos na intenção deve ser perpétua. O matrimônio é percebido como algo de permanente:  omnis vitae. O historiador Tacito escreve: Consortia rerum secundarum adversarumque (Anales, III, 34,8), no bom e no mau destino. Plutarco na obra Bruto pôe na boca de Porcia, esposa de  Bruto estas palavras: “Ó Bruto, eu me casei contigo para compartilhar a tua alegria e o teu sufrimento” (Bruto, 13). A diferença entre o casamento legítimo e a união livre era esta, portanto: a manifestação da vontade de viverem juntos por toda a vida. “Não é a união carnal mas o consentimento, a vontade, que faz o matrimônio” (Digesto, 35,1,15).  Por isso a autoridade  do pai não podia intervir sobre a vontade dos filhos, isto é, o pai não podia obrigar os filhos a casar-se se eles não quisessem: “Non cogitur filius familiae uxorem ducere” (Dig. 23,2,21).

Contrariamente às outras culturas antigas, no direito romano o casamento não era celebrado por etapas, mas somente com uma cerimônia, na qual se exprimia o consentimento. Nos primeiros séculos da história romana o matrimônio era indissolúvel.  Somente depois, no período imperial foi admitido o divórcio. Já que a vontade é o elemento essencial para a validade do matrimônio, então, passou-se a pensar que este existe até o permanecer desta vontade. Se um dos dois não quiser mais viver com o outro, o casamento termina.

Então, depois do divorcio pode-se novamente casar. A procriação é importante mas o carinho (afeto) passa que é mais importante. Porém, a procriação é um elemento do matrimônio: se falta a capacidade física de procriar o casamento é inválido. Por isso é permitido somente depois da puberdade.  É tambem proibido pelas pessoas já casadas.  O matrimônio è monogâmico. A poligamia não tem lugar no direito romano. Pelos juristas não era possivel compreendê-la. Para casar-se novamente, a primeira união deve ser desligada: “Neque eodem duobus nuptia esse potest neque idem duabus uxores habere (Gaio, Inst. 1,63; não é lícito ser casado duas vezes ao mesmo tempo, nem ter contemporaneamente duas mulheres). Era proíbido o incesto, o casamento entre os primos, tio e sobrinha, tia e sobrinha. Tudo isto confirma que o matrimônio não era algo privado, mas uma realidade pública, social.  É importante notar que a definição  de Modestino nos fala do direito  divino (divini iuris). Isto evidência uma relação do matrimônio com a divindade. Na cerimônia nupcial havia uma invocação à deusa Juno Pronuba, divindade que protegia as núpcias.

Quando a Igreja se preocupa com a família, não age fora do seu campo de ação. A Igreja faz parte da estrutura social e por isso tem o direito de exprimi a sua palavra sobre esta fundamental instituição. De fato, se a família cair, tudo vai cair.

O fato é que o matrimônio leigo e família leiga (no senso de laicista) não existe. Têm uma profunda conotação religiosa, já reconhecida seja pelos gregos seja pelos romanos.

Os gregos e depois os romanos estavam convencidos de que o matrimônio foi querido pelos deuses.  Estes dois povos tiveram bem claro a existência da lei natural (lex naturalis) precedente às leis dos homens (lei positiva). Estavam convencidos de que existia um direito anterior, uma lei não escrita, precedente às leis formuladas pelos juristas. Pelos romanos já antes das doze Tábuas da Lei o matrimônio tinha uma conotação religiosa.

A Igreja fez muitas intervenções sobre a família. Além do Concílio e muitos discursos dos Papas, as intervenções oficiais estão contidas nestes documentos: Leão XIII:  Arcanum Divinae Sapientiae (10-2-1880);   Pio  XI:   Casti  Connubii (31- 12- 1930);  João Paulo II:  Familiaris Consortio  (1981); Pontifício  Conselho  para a Familia:  Família,  Matrimônio e “uniões de fato” (2000).

O Papa Bento XVI participará do Encontro de Milão e reapresentará ao Mundo o pensamento oficial da Igreja sobre o matrimônio e família no século XXI.

* Mons. Vitaliano Mattioli, nasceu em Roma em 1938, realizou estudos clássicos, filosóficos e jurídicos. Foi professor na Universidade Urbaniana e no Pontificio Instituto São Apollinare de Roma e Redator da revista "Palestra del Clero". Atualmente é missionário Fidei Donum na diocese de Crato, no Brasil.

Fonte: ZENIT.org

sábado, 2 de junho de 2012

O MATRIMÔNIO NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE (PARTE I)

 

Reflexões de Mons. Vitaliano Mattioli

Mons. Vitaliano Mattioli*

CRATO, quarta-feira, 30 de maio de 2012 (ZENIT.org) – De hoje, 30 de maio até o 3 de junho celebra-se em Milão (Itália) o VII Encontro Mundial das Famílias, que tem como tema: “A família, o trabalho, e a festa”.

É inútil repetir o quanto a família esteja ameaçada hoje. Basta uma simples reflexão para dar-se conta de uma verdadeira conjura contra a instituição familiar.

O encontro de Milão tem por objetivo sensibilizar a consciência social e colocar de novo a família no lugar que lhe corresponde, ou seja, no centro da sociedade.

Nessa reflexão de hoje partimos do princípio de que o Estado vem depois da família. É o conjunto das famílias que constitui o Estado. Por isso o Estado não tem o poder de colocar as mãos em características fundamentais do instituto familiar, mas somente providenciar que a família sobreviva como instituição natural da sociedade.

Vejamos, por exemplo, como em em todas as culturas encontramos disposições em defesa da família como sociedade natural fundada sobre o matrimônio. Façamos um percurso histórico.

No Código de Hamurabe (1750, mais o menos, a.C.)  está escrito: “Se um homem  se casou com uma mulher, mas não concluiu o contrato com ela, esta mulher nao pode ser acreditada como esposa legítima” (n. 128);  Se uma mulher casada é  surpreendida na cama com um outro homem, todos os dois devem ser amarrados e afogados” (n. 129).

Já no V sec. a.C. os textos confucianos  nos falam da família como fundamento do Estado. Se a família não  vive conforme as virtudes, também o Estado não pode está bem. Para formar uma família virtuosa, a pessoa  deve esforçar-se para ser perfeita antes de casar-se.

Na sociedade da antiga India, conforme a descriçao do Kamasutra, o Tratado sobre o amor, descrito por Mallanaga Vatsyayana (III Sec. d.C.), o casamento é algo sagrado, é uma obrigação religiosa que envolve a comunidade. As famílias estão comprometidas no casamento dos filhos. Isto porque o casamento não é um fato privado.

As leis do Manu (não tem uma data certa; mais ou menos entre o sec. II a.C. e o sec. II d.C.). No cap  terceiro  faz a lista  de oito modalidades para casar uma mulher e dos impedimentos.

Na antiga Grécia, já antes de Homero, o matrimônio era considerado o fundamento da sociedade. A familia por meio do  casamento, era a condição indispensável para a propagação da espécie humana. A família, nos antigos poemas, é apresentada com grande estima. Também nos tempos antigos, o casamento não tinha  uma legislação bem marcada, porém já aparece como um fato social; tem algumas cerimônias públicas e condições para que fosse um casamento reconhecido. Parece que a primeira forma legal específica foi introduzida pelo legislador Solon (Sec VI a.C.) que evidenciou as condições para que um casamento fosse reconhecido legitimo. Péricles (451 a.C.)  pusera outras condições. O casamento tinha um caráter sagrado. Terminada a festa do casamento, os casais agradeciam aos deuses, oferecendo um sacrifício, especialmente a Eros e Afrodite. O último ato consistia no registro do casamento no livro chamado fratria, junto a duas testemunhas.

Na segunda parte veremos como no Império Romano, pátria do Direito, o Matrimônio era uma instituição muito valorizada.

* Mons. Vitaliano Mattioli, nasceu em Roma em 1938, realizou estudos clássicos, filosóficos e jurídicos. Foi professor na Universidade Urbaniana e no Pontifício Instituto S. Apollinare em Roma e Redator da revista "Palestra del Clero". Atualmente é missionário Fidei Donum na diocese de Crato, no Brasil.

Fonte: ZENIT.org

domingo, 29 de abril de 2012

Oração da Esposa

 

Oh! Maria, Virgem Puríssima e sem mácula, Casta Esposa de S. José, Mãe terníssima de Jesus, perfeito modelo da esposas e mães, cheia de respeito e de confiança, a vós recorro e com os sentimentos da veneração, a mais profunda, me prosto a vossos pés, e imploro o vosso socorro. Vêde, oh Puríssima Maria, vêde as minhas necessidades, e as da minha família, atendei aos desejos do meu coração, pois é ao vosso tão terno e tão bom, que os entrego.

esposa

Espero que, pela vossa intercessão, alcançarei de Jesus a graça de cumprir, como devo, as obrigações de esposa e mãe. Alcançai-me o santo temor de Deus, o amor do trabalho e das boas obras, das coisas santas e da oração, a doçura, a paciência, a sabedoria, enfim todas as virtudes que o Apóstolo recomenda às mulheres cristãs, e que fazem a felicidade e ornamento das famílias.

Ensinai-me a honrar meu marido, como vós honrastes a S. José, e como a Igreja honra a Jesus Cristo; que ele ache em mim a esposa segundo o seu coração; que a união santa, que contraímos sobre a terra, subsista eternamente no Céu. Protegei meu marido, dirigi-o no caminho do bem e da justiça; pois tão cara como a minha me é a sua felicidade. Encomendo também ao vosso materno coração os meus pobres filhos. Sêde a sua mãe, inclinai o seu coração à piedade; não permitais que se afastem do caminho da virtude, tornai-os felizes, e fazei com que depois da nossa morte se lembrem de seu pai e de sua mãe e roguem a Deus por eles; honrando a sua memória com as suas virtudes. Terna mãe, tornai-os piedosos, caritativos e bons cristãos; para que sua vida, cheia de boas obras, seja coroada por uma santa morte. Fazei oh Maria, com que um dia nos achamos reunidos no Céu, e ali possamos contemplar a vossa glória, celebrar os vossos benefícios, gozar de vosso amor e louvar eternamente o vosso amado Filho, Jesus Cristo, Senhor nosso. Amém.

Composta por D. Lucília Corrêa de Oliveira, mãe do Dr. Plínio Corrêa de Oliveira.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O Ciúme–um grande inimigo do amor

 

Muitas vezes ouvimos dizer que o ciúme é o tempero do amor… não é bem assim, como veremos nesse ótimo texto do blog “Negócios de Família”.

Num relacionamento, marido e mulher precisam ter muita confiança um no outro e não permitirem desconfianças de nenhuma ordem entre o casal.

O famoso ciúme, já foi, durante muito tempo, considerado um agente do amor, diziam que quem ama cuida e tem ciúmes. Ledo engano, o amor precisa de cuidados sim, mas o ciúme é como um agrotóxico para a planta. Pode até afastar as pragas, mas tira o sabor e a beleza da planta.

Amar seu marido, seu namorado, seu noivo, requer dar-se, confiar, criar raízes. E se desde o namoro o casal não tem como confiar um no outro, esse relacionamento está fadado ao insucesso. Uma jovem que desconfia do namorado com outra moça, ou até descobre que ele tem outra e o perdoa, com certeza terá sempre uma desconfiança entre os dois, algo que irá minar a convivência deles. E nessa fase, do namoro, ainda pode recapitular, deixar esta pessoa e ir em busca de alguém em que possa confiar. Com certeza terá mais sucesso num relacionamento baseado em confiança mútua.

Já no casamento, o casal busca acertar todas as arestas para que dure para sempre, o famoso: “até que a morte os separe”. Desse modo, é necessário um maior empenho de cada um, para que o ciúme não entre neste amor e venha a criar suspeitas desnecessárias entre os dois.

Existem profissões que facilitam as suspeitas para o ciúme, como a de médicos e seus plantões, a de professores homens em colégios com maioria feminina, engenheiras em usinas onde predominam os homens, e assim por diante. Muitos criam ideias fantasiosas de seus maridos ou esposas “pulando” a cerca e indo buscar novidades em outros lugares.

Santa Teresa dizia: “ a imaginação é a louca da casa” – logo cuidemos para não dar asas a esta traidora e não nos permitirmos grandes divagações sobre o cônjuge fora de casa, no seu horário de trabalho.

O importante é cuidar da nossa aparência, do nosso humor e da nossa saúde para estarmos sempre bem quando o outro estiver junto de nós.

As mulheres se produzem muito para ir ao trabalho, e ao chegar a casa, depois da luta diária, tendem a colocar uma roupa velha, confortável e seus chinelinhos, tomando o cuidado de lavar o rosto para tirar a maquiagem por completo. E o que sobrou? Uma aparência cansada, um ar largado e pronta para jogar suas mágoas do dia no marido, que afinal de contas é com quem se pode contar para desabafar. Aí cometem o maior erro. Na rua, os maridos também veem as mulheres produzidas, cuidadas e querem a sua também ao menos cheirosa e bem posta.

Tudo isso leva à insegurança pessoal, e por consequência ao ciúme, com o medo de perder o outro. Para evitar essa situação, não vamos deixar chegar a esse ponto, vamos cuidar antes, ser espertas, ser mais carinhosas, ter detalhes de atenção com o outro, criar situações alegres e bem humoradas para que o marido queiram sempre estar perto de nós. Isso vale também para eles, é claro.

 

Fonte: Negócios de Família

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Sobre o Amor Verdadeiro

 

Alice Von Hildebrand - 1º de Julho, 2007

Tradução de Rafaela Nascimento

Vivemos em uma era de grande confusão. Podemos dizer que vivemos não apenas uma confusãointelectual, mas uma confusão afetiva também. Muitas pessoas não sabem como avaliar suasemoções, pois elas não conseguem distinguir entre sentimentos verdadeiros e falsos. Elas nãosabem ao certo se estão amando realmente ou se estão apenas empolgados e com desejo deacreditar no amor porque estão carentes. Elas confundem "amar" com estar apaixonado, ou estão sempre "discernindo", sem chegar de fato, a uma decisão.

Longe de afirmar que eu possa responder a esta pergunta, tudo o que pretendo fazer é oferecer alguns "sinais" que podem ser úteis para as pessoas quando fizerem essa pergunta: Estou ou não estou amando verdadeiramente?

Boas experiências geralmente chegam como uma surpresa - presentes incríveis que não são de modo algum, frutos de nossa artimanha ou de planejamento. Elas simplesmente nos atropelam, enossa primeira reação é: "Eu não sou digno de tamanho presente. Ele (ou ela) é muito melhor do que eu". Nossos corações ficam inundados com gratidão, uma gratidão que nos torna humildes.Nós nos sentimos indignos desse presente, que parece despertar-nos de um sono profundo. Sem dúvida, a pessoa que ama, "verdadeiramente começa a viver". A pessoa que nunca amou vive emum estado de sonambulismo e se move como um robô, cumprindo seus deveres diários comapatia no coração - um coração que parece não bater.

Quando estamos amando, nós experimentamos uma alegria profunda, uma alegria que é ao mesmo tempo ardente e tranqüila, como um arbusto em chamas, mas este ardor não é destrutivo. A alegria vem do fundo do nosso ser e é muito diferente das fortes emoções que vivenciamos empaixões violentas, que não vem do interior e como um fogo de palha, duram pouco tempo e logo passam.

O coração não esta apenas pegando fogo, mas este fogo tem um efeito de fusão. Sentimos comose uma bondade que não é nossa tomasse conta de nós. Dietrich von Hildebrand fala sobre os"fluídos de bondade" de um coração amoroso.

O amor verdadeiro faz com que a pessoa que ama fique mais bonita, ela irradia alegria. Se estenão for o caso, podemos levantar sérias dúvidas se ela está realmente amando. Um ditado francês diz que: "Un saint triste est un triste saint"- um santo triste é um triste santo. Da mesma forma,um "amante" triste deve questionar se realmente ama. Pequenos e simples deveres são feitoscom alegria, porque ou eles são feitos "com ele" ou "com ela", ou porque eles são feitos com amor.

O verdadeiro amor nos torna humildes. De repente, nossas fraquezas, misérias e imperfeiçõessurgem em nossas mentes, mas sem nos causar aflição. Nós vemos os nossos erros e temos odesejo de mostrá-los para o nosso amor, para que ele nos ajude a superá-los. Queremos revelar-nos de uma forma pura espiritualmente, para que verdadeiramente sejamos conhecidos pelapessoa que amamos, temos medo de deixar que o nosso amado acredite que somos melhores do que realmente somos. Nós sentimos que o ser amado tem o direito de conhecer o nosso“verdadeiro eu” e não nossa caricatura.

O amor também está ligado a um realismo santo. A beleza da pessoa amada aparece em nossa frente, mas sem ilusão, sua beleza não é um fruto de uma ilusão, mas uma visão real - como noMonte Tabor - onde o amado terá de permanecer fiel a ela, quando essa beleza for inevitavelmente, ofuscada pela dureza do dia-a-dia.

A pessoa que ama, sempre estará disposta a dar a pessoa amada o que Dietrich von Hildebrandchama de "o crédito do amor" - isto é, quando o ente querido age de uma maneira que não entendemos ou que nos decepciona, em vez de condená-lo, a pessoa que ama vai confiar que, a vida sendo tão complexa como é, pode justificar as ações do ser amado, muito embora à primeira vista, essas ações nos causem grande dor e lamentação. A pessoa que ama verdadeiramente procura ansiosamente por "desculpas" quando o comportamento da pessoa amada nosdecepciona. Ela cuidadosamente evita julgar a conduta do outro, por mais difícil que isso possa parecer em um primeiro momento. Ele se alegra ao descobrir que estava enganado.

Como é triste a peça Cymbeline de Shakespeare, quando Posthumus é informado por um escravocanalha que sua mulher, Imogene, o tinha traído. Ele acredita no caluniador, embora tivessemuitas provas que comprovavam que ela o amava e que esse amor era puro. A peça tem um finalfeliz, mas esboça poderosamente a amargura, raiva e desespero de alguém que fica convencidode que a pessoa que ama, aquela cuja imagem é a fonte de sua alegria, o traiu.

Podemos dizer que amamos de verdade quando a impaciência do ser amado, a ingratidão, ou"rudeza" (em outras palavras, quando sua verdadeira beleza é revelada) nos causam mais sofrimento porque ele está manchando sua roupa bonita e apresenta-nos uma caricatura da suaverdadeira face, do que  se de fato tivesse nos ferido.  Acima de tudo, o verdadeiro amante se entristece quando a pessoa amada ofende a Deus. Por ordem de importância, a ofensa a Deus é a fonte primária de tristeza, o mal que ele faz a sua própria alma é a segunda; e por último –embora seja profundamente doloroso - é a ferida que ele inflige a quem o ama tão profundamente.

Quem ama verdadeiramente está mais preocupado com os interesses da pessoa amada - o querealmente beneficie a alma da pessoa amada - que com os seus próprios. Daí a disposição defazer sacrifícios por ela nas pequenas coisas da vida quotidiana em que os gostos das pessoasdiferem: um quarto muito quente ou mais frio; comer em casa ou num restaurante, ir a um jogo de futebol ou ficar em casa; assistir um programa de televisão quando o outro deseja ver um programa diferente, e assim por diante. No entanto, essa concessão deve ser limitada a casos depreferências subjetivas, é claro, e nunca deve estender-se aos princípios. Ainda assim, todos nós sabemos de cônjuges muitas vezes mal tratados por seus maridos (ou esposas), que estão tãopreocupados com o bem-estar eterno da pessoa amada que eles aceitam todos estes sofrimentos, oferecendo-los para sua causa.

Um grande sinal de amor verdadeiro é o da paciência amorosa que se tem em relação às fraquezas do ser amado. Pode ser suas idiossincrasias, seu temperamento, suas manias (todos nós temos), pode ser suas fraquezas físicas, suas singularidades psicológicas, a sua incapacidade intelectual para seguir uma linha reta de raciocínio; seu transtorno, ou o seufanatismo pela ordem. Se a um monge é dado constantemente ocasiões para "morrer para a sua própria vontade" (como diz São Bento), o mesmo acontece com os casamentos. Cardeal John Henry Newman, escreve que, mesmo nas mais profundas relações humanas, quando o amor éautêntico, a vida em comum dará uma abundância de oportunidades para provar o seu amor aosacrificar as suas próprias preferências.

A História de uma Alma, a partir deste ponto de vista, é também um tesouro espiritual. Santa Teresa de Lisieux claramente sofreu muito com a falta de educação e boas maneiras de algumas freiras. Ela aprendeu a santa arte de usar toda e qualquer irritação para dar glória a Deus, incluindo o ruído enervante que uma irmã fazia na tenda ao lado dela, que a impedia de rezar e de se recolher. Ainda assim, Teresa conseguiu vencer tudo isso através do amor.

Surpreendentemente, isso também pode trazer felicidade e melhorar os casamentos, mesmo quando a pessoa que amamos tenha ferido nossos corações. O verdadeiro amante, cujo amor é batizado, vai usar estes sacrifícios insignificantes como faziam na Idade Média, quando artistas usavam pequenas porções de lã para fazer tapeçarias maravilhosas.

O verdadeiro amante sempre usa palavra "obrigado". Também é fácil para ele dizer "me perdoe",para bem do relacionamento, por que inevitavelmente nós cometemos erros. Se alguém imaginaque ele pode encontrar-se em uma situação em que ele nunca vai cometer um erro, essa pessoanão deve se casar, ou ter filhos, ou entrar para um convento. A arte sagrada da vida é saber quevamos cometer erros, reconhecê-los, arrepender-se e, com a graça de Deus, ter a prontidão para a mudança.

Simultaneamente, é importante que ambos reconheçam os seus erros. Todos nós conhecemos casos em que uma das pessoas é sempre crítica do outro e facilmente se esquece que "aprontidão para a mudança" deve ser recíproca, e que ele também é afetado pelo pecado original.

Outra característica do amor verdadeiro é que o ser amado "está sempre presente” com a gente,mesmo quando estamos ocupados ou absorvidos com alguma obrigação. Ele cria o quadro de nossos pensamentos (depois de Deus). Assim como a fé em Deus e o amor de Deus devem ser sempre o fundo de todos os nossos pensamentos e ações, o ente querido está sempre conosco, ou seja, tudo o que nos acontece esta sempre relacionado com a pessoa amada.

O amante sente uma urgência santa para dizer "obrigado" e "me perdoe". Ela brota do seucoração sem esforço. O verdadeiro amante experimenta a verdade profunda das palavras doCântico dos Cânticos: "Se alguém desse toda a riqueza de sua casa em troca do amor, só obteria desprezo".

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Namoro e Noivado: Conversas Obrigatórias

 

No namoro e no noivado, a conversa flui fácil. Vocês dois adoram falar sobre tudo... quase tudo, exceto os assuntos que trazem graves discordâncias. Isso não muda muito no casamento, a não ser que há muito mais pontos de discordância, e não há como fugir das conversas difíceis por muito tempo. Além disso, o casamento acentua as diferenças que não pareciam tão marcantes na época do namoro, e que podem se tornar sérias discordâncias assim que a excitação inicial de um novo amor se torna o conforto de um amor seguro.

Antes de casar, procurem conversar sobre os tópicos abaixo, “obrigatórios”:

· Fé / Espiritualidade

· Habilidades de resolução de conflitos

· Carreiras

· Finanças

· Intimidade

· Filhos

· Comprometimento

Se você já conversou sobre a maioria desses tópicos, de uma forma ou de outra, ótimo, pode refletir e confirmar sua decisão de se casar. Mas não evite temas sensíveis. Essa é a hora de enfrentar conversas difíceis e ter certeza de que vocês pensam da mesma forma. Lógico que não precisam concordar em tudo – só as coisas importantes. Use seu tempo de namoro e noivado para explorar as questões sérias e polêmicas que o futuro reserva.

Pode ser que vocês cheguem a um impasse em uma questão. Isso não quer dizer que vocês não foram feitos um para o outro, e sim que devem parar e estudar essa questão com mais cuidado. Talvez seja um sinal de que devem consultar pessoas com mais experiência ou conhecimento nesta área.

Fonte: For Your Marriage

Tradução livre: Maite Tosta

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

10 Perguntas sobre o Casamento

 

S. Josemaria responde a dez perguntas sobre o matrimónio, o amor, o namoro, a fidelidade, a educação dos filhos, os principais valores para conseguir a unidade familiar, o que acontece quando não se têm filhos…

Perguntas e respostas
1. Poderia dizer-nos quais os valores mais importantes do matrimónio cristão?
Vou falar de algo que conheço bem e que é da minha experiência de sacerdote, de muitos anos e em muitos países. A maior parte dos sócios do Opus Dei vivem no estado matrimonial e, para eles, o amor humano e os deveres conjugais fazem parte da vocação divina. O Opus Dei fez do matrimónio um caminho divino, uma vocação, e isto tem muitas consequências para a santificação pessoal e para o apostolado. Há quase quarenta anos que prego o sentido vocacional do matrimónio. Que olhos cheios de luz vi mais de uma vez, quando - e pensando eles e elas que eram incompatíveis na sua vida a entrega a Deus e um amor humano nobre e limpo - me ouviam dizer que o matrimónio é um caminho divino na Terra!
O matrimónio existe para que aqueles que o contraem se santifiquem nele e através dele. Para isso, os cônjuges têm uma graça especial que o sacramento instituído por Jesus Cristo confere. Quem é chamado ao estado matrimonial, encontra nesse estado - com a graça de Deus - tudo o que é necessário para ser santo, para se identificar cada dia mais com Jesus Cristo e para levar ao Senhor as pessoas com quem convive.
É por isso que penso sempre com esperança e com carinho nos lares cristãos, em todas as famílias que brotaram do Sacramento do Matrimónio, que são testemunhos luminosos desse grande mistério divino - sacramentum magnum! (Ef. 5, 32), grande sacramento - da união e do amor entre Cristo e a sua Igreja. Devemos trabalhar para que essas células cristãs da sociedade nasçam e se desenvolvam com afã de santidade, com a consciência de que o sacramento inicial - o Baptismo - confere já a todos os cristãos uma missão divina, que cada um deve cumprir no caminho que lhe é próprio.
Os esposos cristãos têm de ter consciência de que são chamados a santificar-se santificando, a ser apóstolos, e de que o seu primeiro apostolado está no lar. Devem compreender a obra sobrenatural que significa a fundação de uma família, a educação dos filhos, a irradiação cristã na sociedade. Desta consciência da própria missão dependem, em grande parte, a eficácia e o êxito da sua vida, a sua felicidade.
Mas não esqueçam que o segredo da felicidade conjugal está no quotidiano, não em sonhos. Está em encontrar a alegria íntima que dá a chegada ao lar; está no convívio carinhoso com os filhos; no trabalho de todos os dias, em que colabora toda a família; no bom humor perante as dificuldades, que é preciso encarar com desportivismo; e também no aproveitamento de todos os progressos que nos proporciona a civilização para tornar a casa agradável, a vida mais simples, a formação mais eficaz.
Nunca deixo de dizer aos que foram chamados por Deus a formar um lar que se amem sempre, que se queiram com o amor cheio de entusiasmo que tinham quando eram noivos. Pobre conceito tem do matrimónio - que é um sacramento, um ideal e uma vocação - quem pensa que o amor acaba quando começam as penas e os contratempos que a vida traz sempre consigo. É então que o amor se fortalece. As torrentes dos desgostos e das contrariedades não são capazes de submergir o verdadeiro amor. O sacrifício partilhado generosamente une mais. Como diz a Escritura, aquae multae - as muitas dificuldades, físicas e morais - non potuerunt extinguere caritatem (Cant. 8,7), não poderão apagar o amor.
Temas actuais do cristianismo, 91

2. Padre, que conselhos daria a um casal recém-casado que procura a santidade?
Primeiro, que se amem muito, segundo a lei de Deus. Depois, que não tenham medo à vida, que amem todos os defeitos de um e de outro quando não sejam ofensa a Deus; e depois ainda que procures não te descuidar, porque não te pertences. Já to disseram, e tu sabes isso muito bem, que pertences ao teu marido e ele a ti. Não deixes que to roubem! É uma alma que tem de ir para o Céu contigo e, além disso, dará qualidade chilena – o mesmo é dizer cristã -, e graça humana também, aos filhos que o Senhor lhes enviar. Rezem um pouco juntos. Não muito, mas um bocadinho todos os dias. Quando tu te esqueceres, que seja ele a dizer-to, e quando seja ele a esquecer-se, és tu que lho lembras. Não lhe atires nada em cara, não o aborreças com picuinhices.
Chile, julho de 1974, no Colégio de Tabancura

3. Há hoje em dia pessoas que afirmam que o amor justifica tudo, e concluem que o namoro é como que um casamento à experiência. Não seguir o que consideram imperativos do amor, pensam que é inautêntico, retrógrado. Que pensa desta atitude?
O noivado deve ser uma ocasião de aprofundar o afecto e o conhecimento mútuo. E, como toda a escola de amor, deve ser inspirado não pela ânsia de posse, mas por espírito de entrega, de compreensão, de respeito, de delicadeza. Por isso, há pouco mais de um ano quis oferecer à Universidade de Navarra uma imagem de Santa Maria, Mãe do Amor Formoso, para que os rapazes e raparigas que frequentam aquelas Faculdades aprendessem d'Ela a nobreza do amor - do amor humano também.
Matrimónio à experiência? Que pouco sabe de amor quem fala assim! O amor é uma realidade mais segura, mais real, mais humana. Algo que não se pode tratar como um produto comercial, que se experimenta e depois se aceita ou se deita fora, segundo o capricho, a comodidade ou o interesse.
Essa falta de critério é tão lamentável, que nem sequer parece necessário condenar quem pensa ou procede assim porque eles mesmo se condenam à infecundidade, à tristeza, a um isolamento desolador, que sofrerão mal passem alguns anos. Não posso deixar de rezar muito por eles, amá-los com toda a minha alma e tratar de lhes fazer compreender que continuam a ter aberto o caminho de regresso a Jesus Cristo, e que, se se empenharem a sério, poderão ser santos, cristãos íntegros, porque não lhes faltará nem o perdão nem a graça do Senhor. Só então compreenderão bem o que é o amor: o Amor divino e também o amor humano nobre; e saberão o que é a paz, a alegria, a fecundidade.
Temas actuais do cristianismo, 105

4. Que conselhos daria para que, com o passar do tempo, a vida matrimonial continue feliz, sem cedências à monotonia? Pode parecer uma questão pouco importante, mas recebem-se muitas cartas sobre este tema.
A mim parece-me que, com efeito, é um assunto importante, e por isso o são também as possíveis soluções, apesar da sua aparência modesta. Para que no matrimónio se conserve o encanto do começo, a mulher deve procurar conquistar o seu marido em cada dia, e o mesmo teria que dizer ao marido em relação à mulher. O amor deve ser renovado em cada novo dia, e o amor ganha-se com o sacrifício, com sorrisos e com arte também. Se o marido chega a casa cansado de trabalhar e a mulher começa a falar sem medida, contando-lhe tudo o que lhe parece que correu mal, pode-se surpreender que o marido acabe por perder a paciência? Essas coisas menos agradáveis podem-se deixar para um momento mais oportuno, quando o marido esteja menos cansado, mais bem disposto.
Outro pormenor: o arranjo pessoal. Se outro sacerdote vos dissesse o contrário, penso que seria um mau conselho. À medida que uma pessoa, que deve viver no mundo, vai avançando em idade, mais necessário se torna melhorar não só a vida interior como - precisamente por isso - procurar estar apresentável.Evidentemente, sempre em conformidade com a idade e as circunstâncias. Costumo dizer, por brincadeira, que as fachadas, quanto mais envelhecidas, mais necessidade têm de reparação. É um conselho sacerdotal. Um velho refrão castelhano diz que la mujer compuesta saca al hombre de otra puerta, a mulher arranjada tira o homem de outra porta.
Por isso atrevo-me a afirmar que as mulheres têm a culpa de oitenta por cento das infidelidades dos maridos, porque não sabem conquistá-los em cada dia, não sabem ter pequenas amabilidades e delicadezas. A atenção da mulher casada deve-se centrar no marido e nos filhos. Assim como a do marido se deve centrar na mulher e nos filhos. E para fazer isto bem é preciso tempo e vontade. Tudo o que torne impossível esta tarefa é mau, não está bem.
Não há desculpa para não cumprir esse amável dever. Para já, não é desculpa o trabalho fora do lar, nem sequer a própria vida de piedade, a qual, se não é compatível com as obrigações de cada dia, não é boa, Deus não a quer. A mulher casada tem que se ocupar primeiro do lar. Recordo uma antiga da minha terra, que diz: La mujer que, por la iglesia, / deja el puchero quemar, / tiene la mitad de ángel, / de diablo la otra mitad. - A mulher que, pela igreja, / deixa esturrar a comida, / tem metade de anjo, / de diabo a outra metade. A mim parece-me inteiramente um diabo.
Temas actuais do cristianismo, 107

5. São também habituais as discussões entre marido e mulher, o que às vezes chega a comprometer seriamente a paz familiar. Que conselhos daria aos casais?
Que se amem. Que saibam que ao longo da vida haverá desentendimentos e dificuldades que, resolvidos com naturalidade, contribuirão inclusivamente para tornar o amor mais profundo.
Cada um de nós tem o seu feitio, os seus gostos pessoais, o seu génio - o seu mau génio, por vezes - e os seus defeitos. Cada um tem também coisas agradáveis na sua personalidade e por isso e por muitas mais razões, pode-se amá-lo. A convivência é possível quando todos se empenham em corrigir as próprias deficiências e procuram passar por alto as faltas dos outros, isto é, quando há amor, que anula e supera tudo o que falsamente poderia ser motivo de separação ou de divergência. Pelo contrário, se se dramatizam os pequenos contrastes e mutuamente se começa a lançar à cara os defeitos e os erros, então acaba-se a paz e corre-se o risco de matar o amor.
Os casais têm graça de estado - a graça do sacramento - para viverem todas as virtudes humanas e cristãs da convivência: a compreensão, o bom humor, a paciência, o perdão, a delicadeza no convívio. O que é importante é não se descontrolarem, não se deixarem dominar pelo nervosismo, pelo orgulho ou pelas manias pessoais. Para isso, o marido e a mulher devem crescer em vida interior e aprender da Sagrada Família a viver com delicadeza - por um motivo humano e sobrenatural ao mesmo tempo - as virtudes do lar cristão. Repito: a graça de Deus não lhes falta.
Se alguém diz que não pode aguentar isto ou aquilo, que lhe é impossível calar-se, exagera para se justificar. É preciso pedir a Deus força para saber dominar o próprio capricho, graça para saber ter o domínio de si próprio, porque os perigos de uma zanga são estes: que se perca o controlo e as palavras se encham de amargura e cheguem a ofender e, ainda que talvez não se desejasse, a ferir e a causar mal.
É necessário aprender a calar, a esperar e a dizer as coisas de modo positivo, optimista. Quando ele se zanga, é o momento de ser ela especialmente paciente, até que chegue de novo a serenidade, e vice-versa. Se há afecto sincero e preocupação por aumentá-lo, é muito difícil que os dois se deixem dominar pelomau humor na mesma altura...
Outra coisa muito importante: devemo-nos acostumar a pensar que nunca temos toda a razão. Pode-se dizer, inclusivamente, que, em assuntos desses, ordinariamente tão opináveis, quanto mais seguros estamos de ter toda a razão, tanto mais certo é que não a temos. Discorrendo deste modo, torna-se depois mais fácil rectificar e, se for preciso, pedir perdão, que é a melhor maneira de acabar com uma zanga. Assim se chega à paz e à ternura. Não vos animo a discutir, mas é natural que discutamos alguma vez com aqueles de quem mais gostamos, porque são os que habitualmente vivem connosco. Não vamos zangar-nos com o Preste João das Índias... Portanto, essas pequenas zangas entre os esposos, se não são frequentes - e é preciso procurar que não o sejam -, não demonstram falta de amor e até podem ajudar a aumentá-lo.
Um último conselho: que nunca se zanguem diante dos filhos. Para consegui-lo, basta que se ponham de acordo com uma palavra determinada, com um olhar, com um gesto. Discutirão depois, com mais serenidade, se não forem capazes de evitá-lo. A paz conjugal deve ser o ambiente da família, porque é condição necessária para uma educação profunda e eficaz. Que os filhos vejam nos seus pais um exemplo de entrega, de amor sincero, de ajuda mútua, de compreensão, e que as ninharias da vida diária não lhes ocultem a realidade de um afecto que é capaz de superar seja o que for.
As vezes tomamo-nos demasiado a sério. Todos nos aborrecemos de quando em quando, umas vezes porque é necessário, outras porque nos falta espírito de mortificação. O que importa é demonstrar que esses aborrecimentos não quebram o afecto, restabelecendo a intimidade familiar com um sorriso. Numa palavra, que marido e mulher vivam amando-se um ao outro e amando os filhos, porque assim amam a Deus.
Temas actuais do cristianismo,108

6. Muitos casais vêem-se desorientados em relação ao tema do número de filhos. Que aconselharia a estes casais?
Os que perturbam dessa maneira as consciências esquecem que a vida é sagrada e tornam-se merecedores das duras censuras do Senhor contra os cegos que guiam outros cegos, contra os que não querem entrar no Reino dos Céus e não deixam sequer entrar os outros. Não julgo as suas intenções e até estou certo de que muitos dão tais conselhos guiados pela compaixão e pelo desejo de solucionar situações difíceis; mas não posso ocultar o profundo desgosto que me causa esse trabalho destruidor - em muitos casos diabólico - de quem não só não dá boa doutrina, como a corrompe.
Não esqueçam os esposos, ao ouvir conselhos e recomendações nessa matéria, que o que importa é conhecer o que Deus quer. Quando há sinceridade - rectidão - e um mínimo de formação cristã, a consciência sabe descobrir a vontade de Deus, nisto como em tudo o mais. Porque pode suceder que se esteja a procurar um conselho que favoreça o próprio egoísmo, que cale, precisamente, com a sua pretensa autoridade, o clamor da própria alma e, inclusive, que se vá mudando de conselheiro, até encontrar o mais benévolo. Além do mais, isto é uma atitude farisaica, indigna de um filho de Deus.
O conselho de outro cristão, e especialmente - em questões morais ou de fé - o conselho do sacerdote, é uma ajuda poderosa para reconhecer o que Deus nos pede numa circunstância determinada; mas o conselho não elimina a responsabilidade pessoal. É cada um de nós que tem de decidir em última análise, e é pessoalmente que havemos de dar contas a Deus das nossas decisões.
Acima dos conselhos privados está a lei de Deus contida na Sagrada Escritura e que o Magistério da Igreja - assistido pelo Espírito Santo - guarda e propõe. Quando os conselhos particulares contradizem a Palavra de Deus tal como o Magistério a ensina, temos de afastar-nos decididamente desses conselhos erróneos. A quem procede com esta rectidão, Deus ajudá-lo-á com a sua graça, inspirando-lhe o que deve fazer e, quando o necessitar, levando-o a encontrar um sacerdote que saiba conduzir a sua alma por caminhos rectos e limpos, ainda que algumas vezes sejam difíceis.
O exercício da direcção espiritual não deve orientar-se no sentido de fabricar criaturas carecidas de juízo próprio, que se limitam a executar materialmente o que outrem lhes disse; pelo contrário, a direcção espiritual deve tender a formar pessoas de critério. E o critério pressupõe maturidade, firmeza de convicções, conhecimento suficiente da doutrina, delicadeza de espírito, educação da vontade.
É importante que os esposos adquiram o sentido claro da dignidade da sua vocação, saibam que foram chamados por Deus para atingir também o amor divino através do amor humano, que foram escolhidos, desde a eternidade, para cooperar com o poder criador de Deus, pela procriação e depois pela educação dos filhos, que o Senhor lhes pede que façam, do seu lar e de toda a sua vida familiar, um testemunho de todas as virtudes cristãs.
O matrimónio - não me cansarei nunca de o repetir - é um caminho divino, grande e maravilhoso e, como tudo o que é divino em nós, tem manifestações concretas de correspondência à graça, de generosidade, de entrega, de serviço. O egoísmo, em qualquer das suas formas, opõe-se a esse amor de Deus que deve imperar na nossa vida. Este é um ponto fundamental que é preciso ter muito presente a propósito do matrimónio e do número de filhos.
Temas actuais do cristianismo,93

7. Há mulheres que não se atrevem a comunicar a parentes e amigos a chegada de um novo filho. Temem as críticas daqueles que pensam que uma família com muitos filhos é coisa do passado. Que nos diria sobre isto?
Abençoo os pais que, recebendo com alegria a missão que Deus lhes confia, têm muitos filhos. Convido os casais a não estancarem as fontes da vida, a terem sentido sobrenatural e coragem para manter uma família numerosa, se Deus lha mandar.
Quando louvo a família numerosa, não me refiro à que é consequência de relações meramente fisiológicas, mas à que é fruto do exercício das virtudes cristãs, à que tem um alto sentido da dignidade da pessoa, à que sabe que dar filhos a Deus não consiste só em gerá-los para a vida natural, mas que exigem também uma longa tarefa educadora: dar-lhes a vida é a primeira coisa, mas não é tudo.
Pode haver casos concretos em que a vontade de Deus - manifestada pelos meios ordinários - esteja precisamente em que uma família seja pequena. Mas são criminosas, anticristãs e infra-humanas, as teorias que fazem da limitação da natalidade um ideal ou um dever universal ou simplesmente geral.
Seria adulterar e perverter a doutrina cristã, querer apoiar-se num pretenso espírito pós-conciliar para ir contra a família numerosa. O Concílio Vaticano II proclamou que entre os cônjuges, que assim cumprem a missão que lhes foi confiada por Deus, são dignos de menção muito especial os que, de comum acordo e reflectidamente, se decidem com magnanimidade a aceitar e a educar dignamente uma prole mais numerosa (Const. past. Gaudium et spes, n.º 50). E Paulo VI, numa alocução pronunciada em 12 de Fevereiro de 1966, comentava: que o Concílio Vaticano II, recentemente concluído, difunda nos esposos cristãos o espírito de generosidade para dilatarem o novo Povo de Deus... Recordem sempre que essa dilatação do Reino de Deus e as possibilidades de penetração da Igreja na humanidade para levar a salvação - a eterna e a terrena - estão confiadas também à sua generosidade.
O número não é por si só decisivo. Ter muitos ou poucos filhos não é suficiente para que uma família seja mais ou menos cristã. O que importa é a rectidão com que se vive a vida matrimonial. O verdadeiro amor mútuo transcende a comunidade de marido e mulher e estende-se aos seus frutos naturais, os filhos. O egoísmo, pelo contrário, acaba por rebaixar esse amor à simples satisfação do instinto, e destrói a relação que une pais e filhos. Dificilmente haverá quem se sinta bom filho - verdadeiro filho - de seus pais, se puder vir a pensar que veio ao mundo contra a vontade deles, que não nasceu de um amor limpo, mas de uma imprevisão ou de um erro de cálculo.
Dizia eu que, por si só, o número de filhos não é determinante. Contudo, vejo com clareza que os ataques às famílias numerosas provêm da falta de fé, são produto de um ambiente social incapaz de compreender a generosidade, um ambiente que tende a encobrir o egoísmo e certas práticas inconfessáveis com motivos aparentemente altruístas. Dá-se o paradoxo de que os países onde se faz mais propaganda do controlo da natalidade - e a partir dos quais se impõe a sua prática a outros países - são precisamente aqueles que alcançaram um nível de vida mais elevado. Talvez se pudessem tomar a sério os seus argumentos de carácter económico e social, se esses mesmos argumentos os levassem a renunciar a uma parte da opulência de que gozam, a favor dessas pessoas necessitadas. Enquanto o não fizerem, torna-se difícil não pensar que, na realidade, o que determina esses argumentos é o hedonismo e uma ambição de domínio político e de neocolonialismo demográfico.
Não ignoro os grandes problemas que afligem a humanidade, nem as dificuldades concretas com que pode deparar uma família determinada. Penso nisto com frequência e enche-se de piedade o coração de pai que, como cristão e como sacerdote, tenho obrigação de ter. Mas não é lícito procurar a solução por esses caminhos.
Temas actuais do cristianismo,94

8. A infecundidade matrimonial – e a frustração que pode trazer consigo – é, por vezes, fonte de desavenças e incompreensões. Na sua opinião, que sentido devem dar ao casamento os esposos cristãos que não têm descendência?
Em primeiro lugar, dir-lhes-ei que não devem dar-se por vencidos com demasiada facilidade. É preciso pedir a Deus que lhes conceda descendência, que os abençoe - se for essa a sua vontade - como abençoou os Patriarcas do Antigo Testamento. Depois, é conveniente que recorram a um bom médico, elas e eles. Se, apesar de tudo, o Senhor não lhes dá filhos, não devem ver nisso nenhuma frustração, devem ficar satisfeitos, descobrindo nesse facto precisamente a Vontade de Deus em relação a eles. Muitas vezes, o Senhor não dá filhos porque pede mais. Pede que se tenha o mesmo esforço e a mesma entrega delicada ajudando o próximo, sem o júbilo bem humano de ter tido filhos. Não há, pois, motivo para se sentirem fracassados, nem para dar lugar à tristeza.
Se os esposos têm vida interior, compreenderão que Deus os insta, levando-os a fazer da sua vida um generoso serviço cristão, um apostolado diferente do que realizariam com os seus filhos, mas igualmente maravilhoso.
Que olhem à sua volta, e descobrirão imediatamente pessoas que necessitam de ajuda, de caridade e de carinho. Há, além disso, muitas ocupações apostólicas em que podem trabalhar. E, se sabem pôr o coração nessa tarefa, se se sabem dar generosamente aos outros, esquecendo-se de si próprios, terão uma fecundidade esplêndida, uma paternidade espiritual que encherá a sua alma de verdadeira paz.
As soluções concretas podem ser diferentes em cada caso, mas, no fundo, todas se reduzem a ocupar-se dos outros com afã de servir, com amor. Deus recompensa sempre aqueles que têm a generosa humildade de não pensarem em si mesmos, dando às suas almas uma profunda alegria.
Temas actuais do cristianismo, 96

9. Há casais que por situações degradantes e insustentáveis se separaram. Nestes casos, têm dificuldade em aceitar a indissolubilidade matrimonial e lamentam que lhes seja negada a possibilidade de constituir um novo lar. Que resposta daria ante estas situações?
Diria a essas mulheres, compreendendo o seu sofrimento, que também podem ver nessa situação a Vontade de Deus, que nunca é cruel, porque Deus é Pai amoroso. É possível que por algum tempo a situação seja especialmente difícil, mas, se recorrerem ao Senhor e à sua Santa Mãe, não lhes faltará a ajuda da graça.
A indissolubilidade do matrimónio não e um capricho da Igreja e nem sequer uma mera lei positiva eclesiástica. É de lei natural, de direito divino, e corresponde perfeitamente à nossa natureza e à ordem sobrenatural da graça. Por isso, na imensa maioria dos casos, é condição indispensável de felicidade dos cônjuges, e de segurança, mesmo espiritual, para os filhos. E sempre - ainda nesses casos dolorosos de que falámos - a aceitação rendida da vontade de Deus traz consigo uma profunda satisfação, que nada pode substituir. Não é um recurso, não é uma simples consolação, é a essência da vida cristã.
Se essas mulheres já têm filhos a seu cargo, hão-de ver nisso uma exigência contínua de entrega amorosa, maternal, então especialmente necessária para suprir nessas almas as deficiências de um lar dividido. E hão-de entender generosamente que essa indissolubilidade, que para elas implica sacrifício, é para a maior parte das famílias uma defesa da sua integridade, algo que enobrece o amor dos esposos e impede o desamparo dos filhos.
Este assombro em face da aparente dureza do preceito cristão da indissolubilidade não é novo. Os Apóstolos estranharam quando Jesus o confirmou. Pode parecer uma carga, um jugo; mas o próprio Cristo disse que o seu jugo é suave e a sua carga leve.
Por outro lado, reconhecendo embora a inevitável dureza de bastantes situações - as quais, em não poucos casos, se poderiam e deveriam ter evitado -, é necessário não dramatizar demasiado. A vida de uma mulher nessas condições será realmente mais dura que a de outra mulher maltratada, ou que a vida de quem padece algum dos outros grandes sofrimentos físicos ou morais que a existência traz consigo?
O que verdadeiramente torna uma pessoa infeliz - e até uma sociedade inteira - é essa busca ansiosa de bem-estar, o cuidado de eliminar, seja como for, tudo o que nos contrariar. A vida apresenta mil facetas, situações diversíssimas, umas árduas, outras, talvez só na aparência, fáceis. A cada uma delas corresponde a sua própria graça; cada uma é uma chamada original de Deus, uma ocasião inédita de trabalhar, de dar o testemunho divino da caridade. A quem sentir a angústia de uma situação difícil, eu aconselharia que procurasse também esquecer-se um pouco dos seus próprios problemas para se preocupar com os problemas dos outros. Fazendo isto, terá mais paz e, sobretudo, santificar-se-á.
Temas actuais do cristianismo, 97

10. Fala da unidade familiar como sendo de um grande valor. Como é que o Opus Dei não organiza actividades de formação espiritual onde possam participar marido e mulher?
Nisto, como em tantas outras coisas, nós os cristãos temos a possibilidade de escolher entre várias soluções, de acordo com as preferências ou opiniões próprias, sem que ninguém possa pretender impor-nos um sistema único. É preciso fugir, como da peste, dessa maneira de conceber a pastoral e, em geral, o apostolado, que não parece mais do que uma nova edição, corrigida e aumentada, do partido único na vida religiosa.
Sei que há grupos católicos que organizam retiros espirituais e outras actividades formativas para casais. Parece-me muitíssimo bem que, usando da sua liberdade, façam o que consideram conveniente e que também vão a essas actividades os que encontram nelas um meio que os ajuda a viver melhor a sua vocação cristã. Mas considero que não é essa a única possibilidade e nem sequer é evidente que seja a melhor.
Há muitas facetas da vida eclesial que os casais, e inclusivamente toda a família, podem e, às vezes, devem viver juntos, como seja a participação no Sacrifício Eucarístico e em outros actos do culto. Penso, no entanto, que determinadas actividades de formação espiritual são mais eficazes se a elas forem separadamente o marido e a mulher. Por um lado, afirma-se mais o carácter fundamentalmente pessoal da própria santificação, da luta ascética, da união com Deus, que depois reverterá a favor dos outros, mas onde a consciência de cada um não pode ser substituída. Por outro lado, assim é mais fácil adequar a formação às exigências e às necessidades pessoais de cada um, e inclusivamente à sua própria psicologia. Isto não quer dizer que, nessas actividades, se prescinda do estado matrimonial dos assistentes - nada mais longe do espírito do Opus Dei.
Há quarenta anos que venho dizendo de palavra e por escrito que cada homem, cada mulher, tem de se santificar na sua vida habitual, nas condições concretas da sua existência quotidiana; que, portanto, os esposos têm de se santificar vivendo com perfeição as suas obrigações familiares. Nos retiros espirituais e em outros meios de formação que o Opus Dei organiza e aos quais assistem pessoas casadas, procura-se sempre que os esposos tomem consciência da dignidade da sua vocação matrimonial e que com a ajuda de Deus se preparem para vivê-la melhor.
Em muitos aspectos, as exigências e as manifestações práticas do amor conjugal são diferentes para o homem e para a mulher. Com meios de formação específicos, pode-se ajudar cada um a descobri-los eficazmente na realidade da sua vida, de modo que essa separação de umas horas ou de uns dias fá-los estar mais unidos e amarem-se mais e melhor ao longo de todo o outro tempo, com um amor também cheio de respeito.
Repito que nisto não pretendemos sequer que o nosso modo de actuar seja o único bom, ou que toda a gente o deva adoptar. Parece-me simplesmente que dá muito bons resultados e que há razões sólidas - além de uma longa experiência - para proceder assim, mas não ataco a opinião contrária.
Além disso, devo dizer que, se no Opus Dei seguimos este critério para determinadas iniciativas de formação espiritual, em variadíssimas actividades de outro género os casais participam e colaboram como tais. Penso, por exemplo, no trabalho que se faz com os pais dos alunos em colégios dirigidos por membros do Opus Dei, nas reuniões, conferências, tríduos, etc., especialmente dedicados aos pais dos estudantes que vivem em Residências dirigidas pela Obra.
Como vê, quando a natureza da actividade requer a presença do casal, são marido e mulher quem participa nestes trabalhos. Mas este tipo de reuniões e iniciativas é diferente dos que se dirigem directamente à formação espiritual pessoal.
Temas actuais do cristianismo, 99