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sábado, 30 de outubro de 2010

Eu sou do meu amado, e meu amado é meu

Por Pe. Daniel Guindon, LC

Há dois anos acompanhei espiritualmente um acampamento de meninas italianas entre 9 e 10 anos na região do Lazio. É a idade própria da “amiga do coração” (l’amica del cuore). Elas escolhem uma amiga, e esta só pode ser dela, não pode pertencer a mais ninguém. Aconteceu que depois de vários dias algumas delas romperam com a “amiga do coração” por diversos motivos triviais, e começou a reinar uma grande fofoca no acampamento. As animadoras, já não sabendo o que fazer, pediram-me para conversar com elas sobre a virtude da caridade e sobre o valor do perdão e da reconciliação.

Esta concepção do amor como possessão faz parte do processo psicológico de amadurecimento da pessoa humana. A criança concebe o mundo de maneira egocêntrica, onde ele quer tudo para si e tem dificuldade para partilhar. Já na adolescência, vai aprendendo a respeitar os amigos e a não mais tratá-los como objetos. Porém, hoje em dia, ao analisar o relacionamento dos namorados, vemos com frequência o amado tratar o parceiro como um objeto de estimação ou de luxo. O garoto gosta de passear com a sua namorada diante dos companheiros para ostentá-la. Isso acontece porque vivem um amor de possessão; eles estão ainda na fase do amor na qual eu sou mais importante que o outro, e o parceiro é um objeto que me pertence.

O Cântico nos apresenta uma forma diversa de amor. O relacionamento não se caracteriza pela possessão, mas pela doação. A amada diz: “eu sou do meu amado, e meu amado é meu” (Ct 6,3). A pertença não é por apropriação, mas por doação. Antes de possuir o seu amado, ela se entrega a ele. Esta frase aparece duas vezes no Cântico, e outra vez de forma incompleta: em 2,16; 6,3 e 7,11.

Para muitos hoje o amor é paixão. A paixão enlouquece e impulsiona a pessoa a se apadroar de quem o atrai, sem respeitar a sua liberdade. É o que indicam os estupros e os atos de pedofilia. Ou sem chegar a estes extremos, a paixão leva a comportamentos violentos entre os parceiros.

Duas pessoas que entendem iniciar a aventura do matrimônio precisam se prometer, se manifestar e viver um grau maior de amor. Somente baseados no amor de ágape, a vida deles terá êxito.

O Cântico ilustra magnificamente este amor baseado na liberdade e na mútua doação. Em 5,2 ss, mostra uma cena romântica no campo. A amada mora numa casinha de verão no meio do jardim. De noite, impulsionado pela sua paixão, o amado chega até lá e bate à porta. Como ela demora em abrir, ele tenta forçar a porta. Coloca o dedo na fenda, mas sem êxito. A noiva se incorpora no seu leito, indecisa. A sua liberdade é a chave do encontro. Somente se ela se entregar a ele, se ela abrir a porta da casa que simboliza seu coração, acontecerá a união nupcial. O Cântico respeita o dinamismo da liberdade e do autêntico amor. Depois de um tempo, ela se decide, coloca seu vestido e abre a porta. Mas o noivo sumiu! A união não acontece mais porque o noivo renunciou, porque ele retirou a entrega de si mesmo. O amor unitivo é fruto de duas liberdades que se encontram e se doam.

“Eu sou de meu amado e meu amado é meu”. Além da entrega consciente e livre, esta frase expressa a irreversibilidade do relacionamento matrimonial. A entrega de um presente é definitiva. Não se dá algo para depois apropriar-se dele novamente. No Cântico percebemos a fidelidade dos esposos. Não há mulher mais bonita, não há marido mais atrativo. O amor não envelhece porque não é baseado somente no atrativo físico, mas porque os esposos cultivam uma amizade sincera, renovam constantemente os gestos de amor e se respeitam na manifestação do seu amor. Eles perseveram no amor porque são coerentes com a entrega mútua que eles fizeram, e receberam esta entrega no respeito, não como um objeto de possessão, mas como um bem precioso, uma pessoa, um sujeito espiritual que tem a mesma dignidade que si mesmo.

É este tipo de relacionamento no amor que a sociedade de hoje precisa redescobrir. É urgente reencontrar o equilíbrio entre eros e ethos, entre o amor apaixonado e a liberdade alheia. Somente sobre a entrega mútua de duas vontades livres pode se basear um matrimônio feliz e duradouro. O amor de ágape, o amor generoso e desinteressado é a raiz da vida nupcial. No próximo artigo, falaremos amplamente sobre a harmonia do casal do Cântico.


***Sobre o autor: Pe. Daniel Guindon, LC, formado no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum de Roma, é atualmente professor de teologia moral sexual no seminário Maria Mater Ecclesiae de São Paulo.

sábado, 23 de outubro de 2010

São Josemaría fala sobre o Matrimônio Cristão

 

Trecho de entrevista de São Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei, concedida a Pilar Salcedo, Diretora da revista feminina Telva (Madri, Espanha), em 1º de março de 1968.

Na homilia que pronunciou em Pamplona no mês de outubro passado, durante a Missa que celebrou por ocasião da Assembléia dos Amigos da Universidade de Navarra, o senhor falou do amor humano com palavras que nos comoveram. Muitas leitoras nos escreveram comentando a impressão que sentiram ao ouvi-lo falar assim. Poderia dizernos quais são os valores mais importantes do matrimônio cristão?

Vou falar de uma coisa que conheço bem, e que é da minha experiência sacerdotal, de muitos e em muitos países. A maior parte dos membros do Opus Dei vive no estado matrimonial e, para eles, o amor humano e os deveres conjugais fazem parte da vocação divina. O Opus Dei fez do matrimônio um caminho divino, uma vocação; e isto tem muitas conseqüências para a santificação pessoal e para o apostolado. Há quase quarenta anos que venho pregando o sentido vocacional do matrimônio. Que olhos cheios de luz vi mais de uma vez quando — julgando eles e elas incompatíveis em sua vida e entrega a Deus e um amor humano nobre e limpo –, me ouviam dizer que o matrimônio é um caminho divino na terra!

O matrimônio existe para que aqueles que o contraem se santifiquem através dele: para isso os cônjuges têm uma graça especial conferida pelo sacramento instituído por Jesus Cristo. Quem é chamado ao estado matrimonial encontra nesse estado — com a graça de Deus — tudo o que necessita para ser santo, para se identificar cada dia mais com Jesus Cristo, e para levar ao Senhor as pessoas com quem convive.

Por isso penso sempre com esperança e com carinho nos lares cristãos, em todas as famílias que brotaram do Sacramento do Matrimônio, que são testemunhos luminosos desse grande mistério divino — sacramentum magnum! (Ef 5, 32), sacramento grande — da união e do amor entre Cristo e a sua Igreja. Devemos trabalhar para que essas células cristãs da sociedade nasçam e se desenvolvam com ânsia de santidade, com a consciência de que o sacramento inicial — o batismo — confere já a todos os cristãos uma missão divina, que cada um deve cumprir no seu próprio caminho.

Os esposos cristãos devem ter a consciência de que são chamados a santificar-se santificando, de que são chamados a ser apóstolos, e de que seu primeiro apostolado está no lar. Devem compreender a obra sobrenatural que supõe a fundação de uma família, a educação dos filhos, a irradiação cristã na sociedade. Desta consciência da própria missão dependem, em grande parte, a eficácia e o êxito da sua vida: a sua felicidade.

Mas não esqueçam que o segredo da felicidade conjugal está no quotidiano, não em sonhos. Está em encontrar a alegria escondida de chegarem ao lar; no trato afetuoso com os filhos; no trabalho de todos os dias, em que toda a família colabora; no bom-humor perante as dificuldades, que é preciso enfrentar com esportividade; e também no aproveitamento de todos os avanços que nos proporciona a civilização, para tornar a casa agradável, a vida mais simples, a formação mais eficaz.

Àqueles que foram chamados por Deus para formar um lar, digo constantemente que se amem sempre, que se amem com aquele amor entusiasmado que tinham quando eram noivos. Pobre conceito tem do matrimônio — que é um sacramento, um ideal e uma vocação — quem pensa que a alegria acaba quando começam as penas e os contratempos que a vida sempre traz consigo. Aí é que o amor se torna forte. As enxurradas das mágoas e das contrariedades não são capazes de afogar o verdadeiro amor: une mais o sacrifício generosamente partilhado. Como diz a Escritura, aquae multae —- as muitas dificuldades, físicas e morais — non potuerunt extinguere caritatem (Ct 8, 7) — não poderão apagar o carinho.