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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Porque se arrastam os noivados e se atrasam os casamentos?

 

Volta a estar na moda as pessoas casarem-se, mas da maneira adequada a uma sociedade de consumo, o que tem como consequência que muitos se casem tarde e mal.

Não é raro ouvirem-se comentários como este: “Quem diria! Fulano e fulana, depois de catorze anos de noivado, casam-se e no ano seguinte separam-se. Não será por não terem tido tempo para se conhecerem.”

Certamente tiveram tempo para se conhecerem. E até para se aborrecerem de tanto se conhecerem…

Cada caso é um caso no que diz respeito à duração do noivado, mas o mais frequente, hoje em dia, é que os noivos precisem de tantas coisas para se casarem, que quando as conseguem já não ter forças para o principal: amarem-se, criarem uma família, educarem os filhos e educarem-se a eles próprios na interessante aventura de preservar o amor.

No tempo de Cid Campeador – sec.XI – os cavaleiros casavam-se muito jovens; e as donzelas aos doze ou treze anos, assim que chegavam à puberdade.
Não tinham problemas de casa. As pessoas construíam uma casa em pouco mais de um mês com ajuda dos vizinhos; nessa altura para viver só precisavam de quatro paredes e um tecto. O chão era de terra batida e não tinham canalização, nem electricidade, nem os diversos artigos de luxo que existem nas modernas habitações da actual sociedade de consumo.

Quatro séculos depois, no XVI, as coisa não tinham mudado muito e, quando muito, a idade de casar atrasa-se um par de anos. A mãe de Teresa de Jesus, a encantadora dona Beatriz de Ahumada, casou com treze anos e conseguiu ter dez filhos. Catarina de Aragão, aquela que com o tempo veio a ser esposa legítima do temível Henrique VIII de Inglaterra, tinha casado anteriormente com o irmão mais velho, o príncipe Artur, tendo ambos à volta de quinze anos, e causou grande espanto que não tivessem conseguido consumar o matrimónio, coisa que foi atribuída a doença do príncipe, que morreu um ano depois.

No século XIX as coisas mantiveram-se dentro de termos razoáveis, e as donzelas casam com dezessete, dezoito, ou com o máximo dezenove anos. O desastre surgiu em meados do século XX, século no qual, não tendo decorrido muito tempo, os casamentos se atrasam de tal forma – uma média de dez anos – que as donzelas têm muito poucas possibilidades de o continuarem a ser quando chega a altura de casarem.

Porque se arrastam tanto os noivados e se atrasam os casamentos?

Porque hoje em dia os contraentes entendem que o amor, para que não murche, deve estar devidamente enquadrado: casa, carro/s, televisão, vídeo, aparelhagem musical, viagem de núpcias transatlântica, etc..?

Consequência: necessidades milionárias para a celebração e para a sua posterior manutenção.

Insisto em que convém chegar ao casamento com uma boa bagagem de” ilusões e não as ir gastando durante o noivado. E, claro, com um certo espirito de Sacrifício. Aos noivos que se acostumam a um noivado longo, ambos com carro à porta, jantares em restaurantes de moda,cada vez lhes custa mais dar o passo em frente.

Perderam o encanto…Afinal, tudo tem seu tempo!

José Luis Olaizola

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Corpo e coração no Cântico dos cânticos

Por Pe. Daniel Guindon L.C

Quero falar hoje de dois protagonistas especiais do Cântico dos cânticos: trata-se do corpo e do coração.

Podemos ficar impressionados, lendo o Cântico, da descrição sensual e erótica da relação de amor entre os dois protagonistas. Trata-se de um amor humano, e o autor não quer negá-lo: um amor concreto, vivo, apaixonado, erótico. Ele descreve o que desperta o amor do outro: o seu corpo, a sua beleza física; desperta o amor como paixão ou brama . Expõe também o que os esposos ou noivos sentem na presença do amado, e os seus sentimentos na ausência do ser querido. Expressa com imagens a união conjugal.

Precisamos neste momento entender a linguagem semítica. Na língua dos semitas, os conceitos abstratos eram expressos através de palavras muito concretas e plásticas. Por exemplo, para expressar o conceito de fé ou de verdade se acostumava utilizar a palavra ‘emet’, que tem o significado de ‘solidez’ ou ‘rocha’.

Assim, no nosso poema, a palavra ‘corpo’ não se limita ao significado da carne humana, mas se refere à totalidade do homem, incluindo a sua alma. Contemplando o corpo da sua amada, o namorado vê toda a pessoa dela; ele atribui a beleza também a sua alma porque o corpo é sacramento de toda a pessoa, como explicamos nos artigos anteriores. O amor que suscita esta contemplação não é cego e irracional, mas um amor bem consciente e por isso mesmo casto. Um amor que se concretiza na mútua doação realizada no matrimônio ao capítulo três. O esposo contempla o corpo da donzela que lhe pertence, e seu olhar é puro porque respeita a verdade.

O problema de nossa sociedade hodierna, explica Bento XVI na Deus Caritas Est, é que quer que o amor seja fruto somente de uma paixão, de um embriagamento divino, e por isso que seja sem compromisso. Tudo seria lícito com a condição das duas pessoas atuarem de livre vontade. A nossa sociedade não quer associar a dimensão de doação e de compromisso ao ato de amor entre duas pessoas.

O respeito pela verdade do amor faz com que o Cântico não seja censurável como eram os poemas egípcios e babilônicos: o amor não é por um objeto material – o corpo -, mas para toda a pessoa.

Com esta explicação podemos agora nos aproximar do texto sagrado e valorizar as palavras dos dois namorados. Eles estão extasiados diante do corpo físico do parceiro, mas com uma visão realmente sacramental. O que se diz do corpo vale para todo o sujeito.

1 Como és bela, minha amada, como és bela! ...
São pombas teus olhos escondidos sob o véu.
Teu cabelo ... um rebanho de cabras ondulando pelas faldas de Galaad.
2 Teus dentes ... um rebanho tosquiado subindo após o banho,
cada ovelha com seus gêmeos, nenhuma delas sem cria.
3 Teus lábios são fita vermelha, tua fala melodiosa;
metades de romã são teus seios mergulhados sob o véu.
4 Teu pescoço é a torre de Davi, construído com defesas;
dela pendem mil escudos e armaduras dos heróis.
5 Teus seios são dois filhotes, filhos gêmeos de gazela,
pastando entre açucenas. (Ct 4,1-5)


O Cântico não nega a verdade, e a visão cristã e humana da sexualidade, seguindo este texto revelado, também não. O corpo está na origem do amor humano e na essência mesma do amor matrimonial. É o atrativo físico que suscita a aproximação dos namorados, e é o ato conjugal dos esposos que consuma o matrimônio ratificado diante das testemunhas. Embora o corpo, com o passar dos anos, vai perdendo o vigor e o seu charme, ele precisa ser cuidado para sempre espelhar a beleza interior da pessoa. Porque o amor nunca será platônico, mas sempre para uma pessoa de carne e ossos. A explicação que nós estamos dando justifica as palavras que seguem aos versículos já citados. A amada é toda bela não tanto porque não tem nenhum defeito físico, mas a causa da sua interioridade.

7 És toda bela, minha amada, e não tens um só defeito!
8 Vem do Líbano, noiva minha, vem do Líbano
e faz tua entrada comigo.
Desce do alto do Amaná, do cume do Sanir e do Hermon,
esconderijo dos leões, montes onde rondam as panteras.
9 Roubaste meu coração, minha írmã, o noiva minha,
roubaste meu coração com um só dos teus olhares,
uma volta dos colares. (Ct 4, 7-9)
O texto nos introduz ao segundo protagonista, o coração. A palavra aparece cinco vezes no Cântico. Hoje entendemos o coração como órgão que faz circular o sangue, ou, na linguagem poética, é o sentimento de amor das nossas entranhas. O autor sagrado não o entende assim. Coração é a palavra usada para significar a alma da pessoa. A alma é a sede da inteligência, é o centro da pessoa. Quando o amado diz que a noiva roubou seu coração, quer dizer: “roubaste minha alma, o centro do meu ser, toda a minha vida”.

Existe unidade entre corpo e coração. O corpo exprime com seus gestos o que o coração sente; e o corpo da amada põe em movimento o coração do noivo. Ele se aproxima dela e a experiência do seu amor cresce. Não é só a vista que se regozija da presença da amada, mas também o tacto e o olfato:

10 Que belos são teus amores, minha irmã, noiva minha;
teus amores são melhores do que o vinho,
mais fino que os outros aromas
é o odor dos teus perfumes.
11 Teus lábios são favo escorrendo, ó noiva minha,
tens leite e mel sob a língua,
e o perfume de tuas roupas é como a fragrância do Líbano. (Ct 4,10-11)

O amado se aproxima dela porque ela consente. É um amor realizado na liberdade. O esposo se dá conta que sua amada é um jardim fechado. Somente se ela abrir a porta ele poderá entrar. Os esposos vivem o amor no respeito e da doação mútuos. Ela diz ao versículo 16: “Entre o meu amado em seu jardim e coma de seus frutos saborosos!” E então ele se une a ela.

12 És jardim fechado, minha irmã, noiva minha,
és jardim, fechado, uma fonte lacrada.
A AMADA
16 Desperta, vento norte, aproxima-te, vento sul,
soprai no meu jardim para espalhar seus perfumes.
Entre o meu amado em seu jardim
e coma de seus frutos saborosos! (Ct 4,12.16)


Mais adiante, quando o amado vai visitá-la de noite, a noiva diz: “eu dormia, mas meu coração velava” (Ct 5,2). O verdadeiro amor dos esposos nunca dorme; sempre está em vela. A separação, quando física, nunca é espiritual. A alma sempre voa onde está o amado. Esta é a experiência de quem não deixou morrer o seu amor.

Finalmente, no último capítulo, o amado pede para ela: “grava-me como um selo em teu coração” (Ct 8,6). O amor é para sempre. É como um selo, uma tatuagem: uma vez gravado, não dá mais para tirar. Está gravado na alma, na dimensão espiritual da pessoa, naquilo que é mais profundo no homem. O matrimônio faz do homem e da mulher uma só carne. “O que Deus uniu, o homem não separe”.

Vemos assim quanto é belo o amor dos esposos, dos noivos e dos namorados quando se respeita a verdade inserida no coração humano. A linguagem do amor é muito rica, possui expressões próprias segundo o compromisso dos parceiros. A maturidade deles consiste em encontrar a expressão adequada, que respeite a verdade do seu compromisso. Porque os gestos do amor conjugal são diversos das manifestações de amor de dois namorados ou dos noivos.

No próximo artigo, irei falar mais sobre a linguagem corporal apresentada no Cântico.

***Sobre o autor: Pe. Daniel Guindon, LC, formado no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum de Roma, é atualmente professor de teologia moral sexual no seminário Maria Mater Ecclesiae de São Paulo.

sábado, 11 de setembro de 2010

A linguagem amorosa no Cântico dos cânticos


Por Pe. Daniel Guindon LC

O Cântico dos Cânticos é um livro sapiencial de valor ainda subestimado. O título significa: “o cântico por excelência” ou “o cântico mais lindo”. Ele canta o amor humano como era vivido no momento da Criação do homem e da mulher, quer dizer, antes do pecado; um amor cheio de charme, englobando as três esferas humanas: física, emocional e espiritual.
Parece ser que o Cântico fora escrito ao redor do ano 450 a.C, inspirando-se no casamento entre o rei Salomão e a filha do Faraó. É composto de dez poemas de amor que descrevem a relação amorosa entre dois noivos ou jovens esposos.
João Paulo II dedicou seis catequeses para explicar o amor conjugal apresentado pelo Cântico, a partir de 20 de maio de 1984. Os temas que ele tratou foram os seguintes: o corpo como sinal do sacramento do matrimônio; a linguagem do corpo; as dimensões do amor esponsal; a verdade do amor que respeita a subjetividade recíproca; a tensão entre eros e ágape no amor; e finalmente, a ética do amor.
Eu também quero dedicar alguns artigos para colocar aos leitores um desafio: viver seu amor conjugal ou de namorados com a mesma intensidade e pureza dos dois moços do Cântico. Hoje, quero iniciar apresentando a linguagem amorosa deste poema.
O que talvez mais surpreenda o leitor ao mergulhar neste poema é a plasticidade da linguagem amorosa dos dois namorados (ou esposos, porque o autor não faz uma distinção clara). Eles não economizam palavras. Assim começa o texto:

O mais belo cântico de Salomão:
A AMADA: Beija-me com beijos de tua boca!
Teus amores são melhores do que o vinho,
O odor dos teus perfumes é suave,
teu nome é como um óleo escorrendo,
e as donzelas, se enamoram de ti ...
Arrasta-me contigo, corramos!
Leva-me, ó rei, aos teus aposentos
e exultemos! Alegremo-nos em ti!
Mais que ao vinho, celebremos teus amores!
Com razão se enamoram de ti...

O que está fazendo o autor: cantando o amor livre, bandeira da revolução cultural do ’68? Este livro justifica as relações pré-matrimoniais, o estatuto das pessoas que vivem amigadas? Não! Na cultura hebraica, depois do pai da noiva apresentar para o noivo a sua filha, eles viviam juntos durante um ano, e depois disto se formalizava a união com o casamento e a bênção do sacerdote. Esta celebração do casamento é simbolizada em Ct. 3,6 ss, onde o escritor descreve a procissão de Salomão sentado em uma liteira. Para o Cântico, como disse no começo, não existe pecado, e por isso toda união entre homem e mulher é por si matrimônio. Ao se entregarem um para o outro é um compromisso definitivo. Por isso o uso aleatório e indistinto no texto das palavras esposos e noivos.
O amor é belo, é doce. Os amantes experimentam o amor em toda a sua riqueza: são beijos, abraços, carícias, suspiros, união íntima, palavras de carinho, olhares tenros, encontros noturnos. Eles encontram todo tipo de palavras para falar do outro. A esposa é um lírio, um jumento, uma pomba, uma irmã, uma noiva, um vergel, um jardim fechado, uma fonte lacrada, a mulher mais bonita, como a lua e o sol. O esposo é um rei, uma macieira, um gamo, um filhote de gazela, o amado de seu coração, um irmão, uma videira.
Eles valorizam a beleza corporal, que é caminho natural para a sedução do coração. Eles gostam de se contemplar, e cada um busca as comparações mais originais para descrever quem seu coração ama. Eis como se exprime o esposo em relação a sua amada:

Roubaste meu coração,
minha irmã, o noiva minha,
roubaste meu coração
com um só dos teus olhares,
uma volta dos colares.
Que belos são teus amores,
minha irmã, noiva minha;
teus amores são melhores do que o vinho,
mais fino que os outros aromas
é o odor dos teus perfumes.
Teus lábios são favo escorrendo,
ó noiva minha,
tens leite e mel sob a língua,
e o perfume de tuas roupas
é como a fragrância do Líbano. (Ct. 4, 9-11)

O modelo de amor que o Cântico apresenta é um amor que não envelhece. O amor é composto de uma dinâmica cíclica: a tensão da busca e a alegria do encontro e da união íntima. Eles não podem permanecer sempre juntos, e se buscam continuamente. Às vezes não se encontram, e isto faz crescer o desejo do outro (acompanhado de certa angústia). São oito capítulos quem têm um início, mas não parecem ter fim, pois quando acaba o último versículo, é tempo para voltar ao primeiro.
Eu convido meus leitores a analisar sua relação com o esposo/a ou o namorado/a. Existe o mesmo encanto? Por que a rotina? Não será em parte porque perderam a riqueza da linguagem amorosa, dos gestos, dos detalhes de amor? Talvez a falta de pureza, a concupiscência e o egoísmo ofuscam o amor. O Cântico apresenta um amor de entrega, de doação: “eu sou do meu amado, seu desejo o traz a mim”. É esta doação mútua, esta entrega recíproca que faz o amor forte como a morte, como sinete no braço.

Grava-me, como um selo em teu coração,
como um selo em teu braço;
pois o amor é forte, é como a morte!
Cruel como o abismo é a paixão;
suas chamas são chamas de fogo
uma faísca de Iahweh!
As águas da torrente jamais poderão apagar o amor,
nem os rios afogá-lo.
Quisesse alguém dar tudo o que tem para comprar o amor...
Seria tratado com desprezo. (Ct. 8, 6-7)


***Sobre o autor: Pe. Daniel Guindon, LC, formado no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum de Roma, é atualmente professor de teologia moral sexual no seminário Maria Mater Ecclesiae de São Paulo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Aceitação é fundamental

«Convém que nos alarguemos sobre uma ou outra dificuldade da vida conjugal que todos os esposos encontram e devem superar.

A primeira, fundamental, é que nunca a união total, fim e ideal do matrimónio, pode ser plenamente realizada. Porque nunca um ser humano é exactamente o complemento de um outro; porque nunca dois seres humanos se ajustam perfeitamente; porque é próprio da natureza do homem procurar uma perfeição que na terra se não encontra.

Tudo isto deriva da nossa condição de criaturas, dos nossos limites. E, para começar, nunca dois seres humanos são inteiramente permeáveis um ao outro. Há em cada um de nós uma margem irredutível de incomunicabilidade que nos isola e onde só penetra Deus. Por esse motivo, por melhor que conheçamos a um dos nossos semelhantes, sempre nos pode reservar surpresas: o filho reserva-as aos seus pais, o esposo reserva-as à esposa.

Não é possível um conhecimento mútuo total. Não é possível chegar a compreender-se sem reticências. Cada um de nós possui uma certa qualidade de sentimento, um certo recanto da inteligência que nunca se torna inteligível a outro na sua totalidade. É impossível que dois seres humanos vivam na intimidade do matrimónio sem que um deles tenha esta ou aquela maneira de ver ou de julgar que o outro não compreenda, sem que não haja, ao menos quanto a pormenores, certas diferenças na maneira de apreciar as coisas, sem que se intrometam ligeiros mal entendidos… Os esposos devem aceitar tudo isto, dado que é um fruto da condição humana.

Mais ainda, nenhum de nós é perfeito. Estamos mesmo cheios de defeitos. Não se pode exigir a perfeição do próprio cônjuge, do mesmo modo que não se pode esperar para casar-se ter encontrado um ser perfeito. Os esposos devem tender juntos para a perfeição; devem ajudar-se mutuamente a atingi-la. Se a vida foi dada ao homem para atingir o seu pleno desenvolvimento, isto é, a sua perfeição, e se o matrimónio tem lugar no limiar da vida – para que o homem e a mulher realizem juntos a sua viagem – ele une normalmente dois seres que estão longe de ser perfeitos, que devem tender para a perfeição e tender para ela conjuntamente, que não podem, por conseguinte, pretender ser perfeitos nem exigir do outro que o seja, mas sim empreender generosamente o caminho que têm de percorrer unidos, aceitando-se tal como são.

Há, pois, uma dupla imperfeição no ponto de partida da união: por um lado, os esposos, nem um nem outro, são perfeitos; por outro, as suas personalidades não encaixam exactamente uma na outra. Pode acontecer que, por um acaso feliz, dois jovens se encontrem tão perfeitamente adaptados um ao outro que pareça não terem nenhuma concessão a fazer-se. Mas este caso é absolutamente excepcional. É mais frequente encontrar jovens que se não decidem a casar-se porque os partidos que se lhe oferecem não parecem realizar inteiramente o seu ideal; e o tempo passa; e um dia chega em que passaram já da idade e não realizaram o que devia ter sido a obra da sua vida.

É destino do homem possuir um ideal absoluto, empreender a sua realização, não a conseguir, mas aproximar-se mais ou menos dela. São Paulo comparou a vida a uma corrida em que se tenta alcançar o prémio. Tentar alcançar o prémio é actuar o melhor que se pode. Nem sequer isto é absoluto; consegue-se actuar mais ou menos bem; e é preciso que actuemos o melhor possível. O matrimónio não altera a lei do homem.

Os esposos são dois seres imperfeitos que unem as suas fraquezas a fim de serem juntos menos fracos e de realizar o seu destino, apoiando-se mutuamente, melhor do que o fariam sós. A obra que levam a cabo, a grande obra do lar que constituem, participará das suas virtudes e dos seus defeitos. Ficará com a marca das suas fraquezas e, não obstante, devem empreendê-la, sem se deixarem deter por essas insuficiências, porque uma obra imperfeita nem por isso deixa de ser uma obra, e, se bem que imperfeita, é também perfeita enquanto possui valores de existência, valores reais, valores humanos, valores de vida; não realiza uma perfeição total, não realiza toda a perfeição, mas, ainda que incompleta e reduzida, é, em todo o caso, uma obra, uma obra humana, limitada e imperfeita, como tudo o que sai da mão dos homens, mas uma obra, alguma coisa, algo de belo. Vale mais uma obra imperfeita do que obra nenhuma. O matrimónio não é só uma obra humana e imperfeita, mas também divina e chamada à perfeição, porque instituída pelo próprio Deus para o homem.

Os esposos devem, portanto, aceitar-se. Aceitar que o outro não realize todo o seu sonho, que não tenha exactamente as mesmas tendências e os mesmos gostos. O ser humano é um ser rico; uma personalidade humana tem múltiplos aspectos; e o amor nasce daquilo que se encontra de complementar noutra pessoa em determinado número de pontos; mas não é possível encontrá-lo em todos.

Geralmente, quando o amor desponta, só presta atenção ao que agrada, e, se vê o mais, considera-o de pouca importância. Quando chega, porém, o momento de casarem e viverem juntos, de passarem toda a vida juntos, mil diferenças, de maneira de ver, de educação, de costumes, ameaçam provocar choques ou cisões interiores, se os esposos não estão dispostos a concessões, se o seu amor se não depura, como dissemos já, voltando-se para o bem daquele por cuja felicidade se fizeram fiadores.

Uma rapariga não tem ordem. O seu noivo acha esta desordem encantadora. Mas, uma vez que é marido, irrita-se por encontrar buracos nas peúgas ou por ter de procurar o papel de carta por todos os lados, acabando, afinal, por encontrá-lo junto do açúcar e dos copos, no armário da sala de jantar. Aquele rapaz tem uma rudeza que faz o encanto da sua noiva – porque ela vê nisso o sinal de uma energia viril. Mas quando o marido esvazia os pratos sem se preocupar com o apetite da sua mulher, não pensando em ajudá-la na menor coisa, esta rudeza converte-se em grosseria e perde a sua atracção.

E em ambos os casos, os esposos podem possuir o mesmo ideal moral e católico, ter saído de meios muito parecidos, estarem ambos animados das melhores intenções: cada um deve aceitar o outro tal como é, e trabalhar pacientemente por corrigi-lo dos seus defeitos, sem perder de vista que ninguém se corrige totalmente e que a si próprio se tem de corrigir, tanto como ao outro.»

(Jacques Leclercq, “Casamento e família”, páginas 158 e 159)

Publicado originariamente em: http://a-dignidade-da-mulher-catolica.blogspot.com/2010/09/no-matrimonio-e-fundamental-aceitacao.html