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segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Segredo do sucesso no matrimônio

 

Por Tomás Melendo

Para ser feliz no matrimônio e aumentar o amor com o passar do tempo, não bastam apenas boas intenções.

CASTIDADE CONJUGAL: “AMOR TRIUNFANTE DE DUAS PESSOAS SEXUADAS”.
Falar de castidade em pleno século XXI pode parecer chocante e anacrônico. Talvez porque se costuma associar – erroneamente – esse termo a um conjunto de negações completamente alheias ao amor, chegando mesmo a equipará-lo à simples abstenção do trato corporal.

Para São Josemaria Escrivá, pelo contrário, a castidade conjugal é uma virtude tremendamente afirmativa: “é uma triunfante afirmação do amor” (Sulco, n. 831). Ele explicava-o assim: “A castidade – que não é simples continência, mas afirmação decidida de uma vontade enamorada – é uma virtude que mantém a juventude do amor, em qualquer estado de vida” (É Cristo que passa, n. 25).

Referida aos casados, a castidade é a virtude que torna possível que aos quinze, vinte, vinte e cinco ou muitos mais anos de matrimônio, cada cônjuge esteja tão enamorado do outro como naquele dia já distante em que os dois uniram suas vidas. E até mais: porque cada um é para o outro agora muito mais amável e arrebatador do que antes, já que o carinho prolongado leva a descobrir e aprofundar nas riquezas pessoais e na beleza do outro.

A castidade é portanto algo muito grande, excelso, positivo, que não se reduz a um conjunto de proibições: vai muito além dos domínios do mero uso dos órgãos genitais. Seu objeto próprio – como o de qualquer virtude – é o amor: neste caso o amor de duas pessoas sexuadas – homem e mulher – precisamente enquanto tais. E a sua finalidade é a de fazer com que esse carinho desenvolva-se e frutifique em todas e em cada uma das suas dimensões: não somente nas diretamente relacionadas com o trato corporal ou genital.

AUMENTAR O CARINHO
Entende-se então que o principal e mais definitivo ato dessa virtude consista em fomentar positivamente – com as mil e uma espertezas que o engenho amoroso descobre – o amor ao outro cônjuge.

Por isso – para vivê-la em toda a sua grandeza – é oportuno que cada um dos dois dedique todos os dias uns minutos para escolher qual detalhe ou detalhes de carinho e de delicadeza empregará para dar ao outro uma alegria e para fazer subir a qualidade e a temperatura do amor mútuo. Com igual empenho deverá empregar todos os meios ao seu alcance para que as manifestações de afeto escolhidas sejam levadas à prática, para que o trabalho profissional e as outras ocupações não façam delas simples “boas intenções”.

Do mesmo modo, um marido apaixonado tem de estar disposto a repetir muitas vezes por dia à sua esposa, junto com outras manifestações de afeto, que a ama. É claro que ela já o sabe! Mas ela tem uma necessidade quase absoluta de escutar muitas vezes essa confirmação tão boa: é uma delicadeza aparentemente mínima, mas que a reconforta e lhe dá vigor para continuar na luta – às vezes ingrata – por levar adiante o lar e a família. O marido, por sua vez, além de agradecer também em muitos casos que a esposa lhe faça uma declaração paralela, precisa pronunciar essas palavras para reforçar – mediante uma afirmação expressa e tangível – a têmpera do seu amor e da sua fidelidade.

Além disso, e para pôr outro exemplo, marido e mulher devem esforçar-se também para surpreender o seu par com alguma coisa que ele não esperava e que revele o interesse e apreço por ele. Não só nas datas festivas, nas quais essas manifestações “já são esperadas”, mas justamente nos dias em que não existe nenhum motivo aparente para ter uma atenção especial... a não ser o carinho apaixonado dos cônjuges, sempre vivo e sempre crescente! Tendo em conta, por outro lado, que o importante é esse olhar para o outro, dedicar-lhe tempo e atenção, e não necessariamente o valor material daquilo que se oferece.

Na mesma linha, para viver a plenitude do amor que estamos considerando, torna-se imprescindível que os cônjuges saibam encontrar – vencendo a preguiça inicial que às vezes pode vir – momentos para estarem a sós: para conversar e descansar nas melhores condições possíveis. Sem fazer disso um absoluto, e a título de simples sugestão, uma tarde ou uma noite por semana dedicada exclusivamente ao casal, além de facilitar enormemente a comunicação, constitui um dos melhores meios para que a vida de família – e, portanto, o carinho para com os filhos – progrida e consolide-se até dar frutos maduros de qualidade pessoal. Por isso o cuidado e os mimos ao outro cônjuge devem antepor-se às obrigações de trabalho, aos compromissos sociais e até mesmo – valha o paradoxo – ao cuidado “direto” das crianças... esse cuidado irá tornar-se mais potente com o maior amor mútuo dos pais.

FOMENTAR A ATRAÇÃO
Tendo tudo isso em vista, compreende-se facilmente que é um ato de virtude – da virtude da castidade, concretamente – fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para aumentar a atração, também a estritamente sexual, nossa e do nosso cônjuge.

Em particular, parece ser mostra de bom senso aproveitar o gozo profundo que Deus uniu ao abraço amoroso pessoal e íntimo para resolver pequenas discrepâncias ou desavenças surgidas durante o dia, para pôr fim a uma situação de desgaste, ou para relaxar naqueles momentos em que a vida profissional ou familiar dele ou dela estejam gerando tensões de um modo especial. Por isso, entre outras coisas, ambos terão que prestar atenção ao seu aspecto físico.

Além disso, é imprescindível – e agora tocamos uma questão mais de fundo e de conjunto – que ambos os esposos saibam apresentar-se e contemplar um ao outro, ao longo de toda a sua vida, pelo menos com o mesmo primor e enfeite com que o faziam em seus melhores momentos de namoro. Agir de outra maneira, deixar que o amor esfrie ou petrifique-se, equivale a pôr o cônjuge na beira de um abismo, dando-lhe ocasião para que procure fora do lar o carinho e as atenções que todo ser humano necessita.

Situada nesse horizonte vital, a mulher deve estar persuadida de que a fecundidade torna-a mais bela, e de que seu marido possui a suficiente qualidade humana para saber apreciar a nova e gloriosa formosura que provém da sua condição de mãe.

A maternidade reiterada certamente supõe romper certos “moldes e proporções” que determinados cânones de beleza feminina lutam por impor a todos nós. Mas até o menos perspicaz dos maridos, se está deveras apaixonado, percebe o esplendor que essa “desproporção” traz consigo: reconhece que sua mulher é mais bonita – e inclusive sexualmente mais atrativa – do que aquelas que se pavoneiam com um arremedo de beleza reduzido a “centímetros” e “curvinhas”.

Por pouca sensibilidade que tenha, um homem descobre encantado no corpo da sua mulher: (1) o reflexo do seu próprio amor de marido e de pai; (2) a marca dos filhos que esse carinho gerou; e (3) o cartão de visitas do Amor infinito de todo um Deus Criador, que demonstrou sua confiança ao dar a vida e fazer com que se desenvolvesse no seio da esposa cada uma dessas criaturas... Como poderá não se sentir cativado por tantos e tais enriquecimentos?

Depois de tantos anos de casado, e de relacionamento com outros casais, às vezes sinto a necessidade de pedir às esposas que sejam do “jeito que o seu marido gosta”... e alegrem-se plenamente por isso. E que nunca pretendam – sobretudo com o passar dos anos – ser “do jeito que elas próprias gostem” (elas costumam ser as críticas mais ferozes de si mesmas), nem jamais admitam comparações com amigas nem com nenhuma outra mulher... e muito menos com as mais jovens. Que acreditem piamente nos seus maridos quando eles dizem que elas estão lindas, sem fazer a mínima reserva, nem mesmo interior... Toda mulher que se entregou de verdade – esposa e mãe – deve ter a convicção inamovível de que a sua beleza radicalmente humana aumenta na exata medida em que a sua doação ao marido e aos filhos vai sendo cada vez mais atual e operativa.

SÓ VOCÊ E NINGUÉM MAIS
A outra face da virtude da castidade – negativa em aparência, mas também derivada dessa mesma necessidade de fazer crescer o carinho mútuo – pode ser concretizada na gozosa obrigação de evitar tudo o que possa esfriar o amor ou pô-lo entre parênteses, nem que seja por poucos minutos. Essa renúncia tem, portanto, um sentido eminentemente positivo: trata-se – também nisso – de fazer com que o amor conjugal amadureça e alcance a sua plenitude. Esse ponto não deveria ser esquecido se queremos entender a fundo o verdadeiro significado da virtude da castidade, o seu valor tremendamente afirmativo.

Se pensarmos nos que estão unidos pelo matrimônio – como até aqui estamos fazendo –, essa afirmação, levada a sério, converte-se num critério claro e delicadíssimo de amor ao cônjuge. Para o homem casado não pode existir outra mulher (enquanto mulher) além da sua. Esse homem (o mesmo poderia afirmar-se, simetricamente, quanto à esposa) obviamente irá relacionar-se com pessoas do sexo oposto: companheiras de trabalho, secretárias, alunas, gente com quem coincidirá em viagens... E a educação e o respeito o levarão a comportar-se com elas com polidez e deferência. Mas não tratará nenhuma delas enquanto mulher – pondo em jogo a sua condição de homem, que já não lhe pertence – mas simplesmente enquanto pessoa.

Isso, que pode parecer à primeira vista excessivamente teórico e até artificial, tem uma tradução muito clara e prática: tudo aquilo que faço com a minha mulher justamente por ser mulher devo evitar fazer com qualquer outra, custe o que custar. Não posso compartilhar com mais ninguém as coisas que compartilho com a minha esposa.

Embora estejamos falando para pessoas aparentemente maduras, nesse ponto é muito fácil ser ingênuos. Isso porque, em princípio, depois de tantos anos convivendo diariamente com o nosso par – nos momentos de alta e de baixa –, qualquer outra mulher (ou qualquer outro homem) está em melhores condições que a nossa (ou o nosso) de mostrar-nos – intermitentemente – a sua face mais amável, nesses isolados espaços de trato mútuo. Não vemos o seu aspecto desarrumado quando acaba de acordar – quando nem parece que é ela (ou ele) –; não a (ou o) vemos quando está cansada (ou cansado); não temos que resolver com ela (ou com ele) os problemas dos filhos nem os quebra cabeças de uma economia não muito folgada...

Elas ou eles, arrumados, dispostos – como por instinto e com a mais limpa das intenções – a agradar e a cair bem, podem dar de si o melhor que possuem, sem o contrapeso dos momentos duros e de fraqueza que forçosamente são vividos dentro do matrimônio. Além disso, costumam ser mais jovens, mais compreensivos (entre outras coisas porque não nos conhecem bem), e estão enfeitados passageiramente com muitas prendas – um tanto artificiais – que fazem a sua personalidade brilhar aos nossos olhos (que nesses momentos não são lá muito perspicazes)... e que a convivência diária e duradoura sem dúvida devolveria às suas reais dimensões.

Para rematar essa idéia, e para ir terminando o que de outra forma seria interminável, acrescentarei que quando uma mulher diferente da nossa conhece os problemas que sofremos no nosso lar e no nosso matrimônio, é quase impossível que deixe de compreender-nos e de sentir por nós uma sincera compaixão. Como também é improvável – embora por motivos muito diferentes – que um homem deixe de entender os problemas de uma mulher casada, se ele dispuser-se a ouvi-los. Nos dois casos, faz falta ter a suficiente categoria – hoje infelizmente rara – para ficar mal e rejeitar, de maneira educada porém decidida, qualquer tipo de confidências como essas.

Tudo isso é, no entanto, necessário para não brincar com a felicidade própria e alheia e para não pôr nossos filhos em apuros, vendendo a grandeza profunda de uma vida de família plenamente vivida em troca do deslumbramento superficial de uns momentos satisfação egocêntrica. O amor que impregna o nosso lar levar-nos-á a prescindir de tais satisfações aparentes, visando robustecer os fundamentos da nossa felicidade no matrimônio.

Tomás Melendo

Catedrático de Metafísica da Universidade de Málaga. Publicou recentemente – em co autoria com sua esposa Lourdes Millán-Puelles – o livro Assegurar o amor, cuja finalidade (que aliás já está no próprio título) é ajudar a contornar os inevitáveis porém fecundos escolhos que a vida em comum traz consigo.

sábado, 1 de maio de 2010

Por que a família?

 

Por Tomás Melendo

Sem família não se pode ser pessoa, ou pelo menos uma pessoa completa, plenamente feita. É a família que nos humaniza e é nela que realizamos o ato mais fundamental da nossa condição: a entrega.

PARA AMAR MAIS..., SER MELHOR

Há alguns meses dei uma conferência para um grupo bastante seleto de empresários: um grupo bem internacional... e bem atípico. Tão atípico que me pediram – na qualidade de empresários: o único fator que os unia – que lhes falasse do amor conjugal.

Quando terminei, um mexicano começou a dizer umas coisas que eu não sabia se eram perguntas ou reflexões em público:

– Se não entendi mal, a qualidade do amor entre os esposos não se decide somente dentro do matrimônio. Quem queira amar de verdade tem de esforçar-se por melhorar em toda a vida.

Um sexto sentido fez-me conter a vontade de responder e fiquei em silêncio. E ele de fato prosseguiu:

– Só através da minha melhora pessoal poderei amar mais a minha mulher, pois terei muito mais para dar-lhe cada vez que me entregue a ela.

Resisti de novo à tentação de intervir. Ele acrescentou:

– Além disso, pressinto que estarei desperdiçando esse auto-aperfeiçoamento se eu não o encaminhar para a entrega. E parece-me que isso constitui um claro dever: quanto mais eu melhorar, mais obrigado estarei a dar-me à minha mulher e aos meus filhos.

O silêncio tornou-se mais denso, talvez porque nem ele nem os outros que estavam ouvindo – todos dedicados de corpo e alma aos negócios – se atreviam a tirar a conclusão inevitável. Mas por fim ele a tirou:

– Isso significa, portanto, que a minha realização mais verdadeira e mais radical, não vou encontrá-la na empresa, mas na minha família.

UM INVESTIMENTO DEFINITIVO

Aquele era um homem audaz e, além disso, agudo. Sabia o que estava pondo em jogo, e sabia do que estava falando: da necessidade de modificar profundamente o modo de entender e de viver as relações entre a família e a pessoa (e, conseqüentemente, muitas outras relações, como as propriamente empresariais).

Durante muito tempo, a necessidade da família foi explicada – embora não exclusivamente – enfatizando a múltipla e clara precariedade do homem no que diz respeito à sua sobrevivência. Dizia-se que os instintos permitem que os animais sejam independentes desde muito cedo, enquanto uma criança humana morre inevitavelmente quando abandonada aos seus próprios recursos. Aduziam-se também razões psicológicas, como a ineludível conveniência de evitar a solidão e de distribuir as funções em casa, no trabalho ou nos âmbitos do saber, garantindo uma eficácia maior...

Tudo isso parece-me certo, mas penso que não atinge o núcleo da questão. Se desde a Antigüidade o homem foi considerado como o que há de mais perfeito na Natureza (perfectissimum in tota natura) e se hoje é difícil falar do ser humano sem ressaltar a sua dignidade e a sua grandeza, não é estranho que os animais não precisem de família, mas que ela seja imprescindível ao homem justamente (ou somente ou principalmente) em função da sua fragilidade em comparação com eles?

A mudança radical de perspectiva que proponho com estas linhas é que toda pessoa precisa de uma família, justamente em virtude da sua eminência ou valia: daquilo que em termos metafísicos poderia ser chamado de sua abundância de ser.

UM SER-PARA-O-AMOR

É por isso que a pessoa está chamada a entregar-se. É por isso que a pessoa pode ser definida como princípio (e termo) do amor..., sendo a entrega o ato com que esse amor culmina.

As plantas e os animais, pela sua própria escassez de “ser”, agem quase exclusivamente para garantir a sua própria sobrevivência e a da sua espécie. Porque possuem pouco ser – poderíamos dizer –, têm que dirigir toda a sua atividade para conservá-lo e protegê-lo: fecham-se em si mesmos ou na espécie que lhes é própria.

A pessoa, pelo contrário, “tem ser de sobra”, justamente por causa da nobreza que a sua condição implica. Daí que a sua operação mais própria, precisamente enquanto pessoa, consista em entregar-se, em amar. (E é por isso que só quando ama a sério e se entrega sem medida – “a medida do amor é amar sem medida” – alcança a felicidade.)

A PESSOA COMO DÁDIVA

Nisto o meu amigo mexicano tinha razão. E também em unir essa exigência de entrega com a família. Porque, para que alguém possa dar-se, é preciso que haja uma outra realidade capaz de recebê-lo e disposta a isso, ou melhor, disposta a aceitá-lo livremente. Tal aceitação só pode ser a aceitação de outro “alguém”, de outra pessoa.

Costumo explicar que a grandeza da nossa condição de pessoas é de tal ordem – apesar da consciência que às vezes temos da nossa pequenez e da ruindade de alguns dos nossos pensamentos e ações – que nenhuma dádiva é suficientemente digna de nós..., exceto outra pessoa. Qualquer outra realidade, mesmo o trabalho ou a obra de arte mais excelsa, acaba por ser insuficiente para acolher a sublimidade ligada à condição pessoal: não pode ser o “veículo” da minha pessoa e nem tampouco está à altura daquela pessoa a quem pretendo entregar-me.

Daí que a dádiva, independentemente de qualquer valor material que possa ter, só consiga cumprir o seu papel na medida em que me comprometo – me “integro” – nela. (“Presente, dom, entrega? / Símbolo puro, sinal / de que eu me quero dar”, escreveu magistralmente Salinas) (1).

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(1) ¿Regalo, don, entrega? / Símbolo puro, signo / de que me quiero dar. Pedro Salinas (1892-1951), poeta, tradutor, dramaturgo e professor universitário espanhol. A poesia de Salinas é marcada por um ardente desejo de comunhão, tanto entre as pessoas como entre o corpo e a alma de cada indivíduo. Publicou diversas obras, entre as quais Presagios (1923; poesia), La voz a ti debida (1933; poesia) e o volume de ensaios El defensor (1948).

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Mas eu dizia que além de ser capaz, a outra pessoa tem de estar disposta a acolher-me de maneira incondicional: do contrário, a minha entrega não passaria de mera ilusão, de uma espécie de aborto. Se não há aceitação, é impossível que eu me entregue, por mais que me empenhe (actio est in passo, poder-se-ia afirmar, glosando Aristóteles: o ato de entrega “é” – cumpre-se, atualiza-se – na medida em que o outro me aceita com gosto).

O PORQUÊ DA FAMÍLIA

Pois bem, o âmbito natural em que o ser humano é acolhido sem reservas, pelo mero fato de ser pessoa, é justamente a família. Em qualquer outra instituição (numa empresa, por exemplo), é legítimo e às vezes até necessário avaliar se tenho determinadas qualidades ou aptidões, e o fato de eu eventualmente ser rejeitado por carecer delas não afeta de modo algum a minha dignidade (o igualitarismo que hoje alguns tentam impor a fim de “evitar a discriminação” é radicalmente injusto nesse ponto).

Mas uma família genuína, pelo contrário, quando aceita cada um dos seus membros levando em conta a sua condição de pessoas – da mesma forma que as outras instituições o fazem (daí o famoso preceito kantiano de “tratar sempre o outro como pessoa”) –, não acrescenta mais nada: o fato de serem pessoas já é o bastante. Ao acolher assim os seus membros, permite que se entreguem e se desenvolvam como pessoas.

Por isso pode-se afirmar que, sem família, não se pode ser pessoa, ou pelo menos uma pessoa completa, plenamente feita. E isso, segundo o que acabo de sugerir, não se deve primariamente a nenhuma carência, mas ao contrário: deve-se ao nosso próprio excesso, que nos “obriga” à entrega de nós mesmos, sob pena de ficarmos frustrados por não termos conseguido levar a cabo o que a nossa natureza e o nosso ser exigem.

Penso que essa inversão de perspectiva (que não nega a verdade do ponto de vista complementar) tem muitas implicações e conseqüências.

No âmbito doméstico, por exemplo, explica por que a família não é uma instituição “inventada” para socorro dos fracos e dos desvalidos (crianças, doentes, anciãos). Muito pelo contrário: quanto mais perfeição um ser humano alcança, quanto mais maduro é um pai ou uma mãe, mais precisa da família, justamente para crescer como pessoa, dando-se e sendo aceito, amando..., e além disso com a guarda baixa, sem ter de “demonstrar” nada para ser querido.

UMA BOA TEORIA... PARA UMA VIDA BOA

Por outro lado, essa forma de compreender a pessoa repercute no modo de legislar, na política, no trabalho... Só tendo em conta a grandeza impressionante do ser humano é que se poderão estabelecer as condições que lhe permitam um desenvolvimento adequado e a felicidade.

É freqüente ouvir que o problema do homem de hoje é o seu orgulho de querer ser como Deus. Não o nego. Mas penso que é mais profunda a afirmação oposta: a grande deficiência do homem contemporâneo é a sua falta de consciência da própria valia, que o leva a desprezar-se a si mesmo e a tratar os outros de maneira absurdamente infra-humana.

Schelling afirmava que “o homem torna-se maior na medida em que se conhece a si mesmo e conhece a sua própria força”. E acrescentava: “Dai ao homem a consciência do que efetivamente ele é, e imediatamente aprenderá a ser o que deve; respeitai-o teoricamente, e o respeito prático será uma conseqüência imediata”. E concluía: “O homem deve ser bom teoricamente, para que possa sê-lo também na prática”.

Exageros de um jovem escritor? Penso que não, se entendermos de modo adequado que esse conhecer não é simplesmente saber, mas algo que só se sabe quando se torna vida da própria vida.

Como queria Aristóteles, a teoria – encaminhada para o amor! – tem uma prioridade absoluta nos assuntos estritamente humanos.

“MINI-PESSOAS” QUE NÃO CONHECEM NEM AMAM

O modelo de homem que preside a boa parte das Constituições dos países “desenvolvidos” acaba por ser o de uma espécie de mini-homem, pessoa reduzida, quase deformada.

Quero dizer que, com uma freqüência maior do que o desejável, são negados ao homem de hoje – na teoria e na vida: na legislação e na estrutura social – justamente aquelas características que definem a grandeza da sua humanidade, como, por exemplo, a sua capacidade de conhecer, que apesar de imperfeita é real.

Deste ponto de vista, uma estruturação jurídica autêntica deveria ter como base, além do reconhecimento da limitação do entendimento humano, a convicção ainda mais forte de que a realidade é cognoscível. Por isso, deveria estar baseada no autêntico diálogo entre cidadãos que estariam convencidos de que a soma das contribuições de muitos podem chegar a descobrir o que cada realidade efetivamente é, e portanto qual o comportamento que ela exige.

Pelo contrário, muitos dos atuais regimes políticos parecem estar baseados num relativismo cético, na convicção quase contraditória de que a realidade não pode ser conhecida, no recurso à mera maioria e, junto a ela (enquanto não se corrija essa visão, que pode e deve ser corrigida), no mais tirânico e sutil dos totalitarismos.

Mais exemplos disto que acabo de qualificar como modelo “quase-institucional” de mini-pessoa?

Para alguns, é quase inconcebível que o homem atual possa amar de verdade, com um compromisso para toda a vida, arriscando em uma só cartada, como disse Gregório Marañon, o porvir do próprio coração (daí a multiplicação das leis que admitem o divórcio, impedindo que alguém se case para a vida toda).

Também não se admite que alguém possa dar um sentido à dor, não por masoquismo, mas porque o sofrimento é parte integrante da vida do Homem. Além disso, quando se procura afastá-lo visceral e obsessivamente, suprime-se juntamente com ele a própria vida humana, cujo núcleo mais nobre consiste na sua capacidade de amar... Nesta vida, o sofrimento é parte inseparável do amor: quem negue a qualquer custo o “direito” de padecer, invalida simultaneamente a possibilidade de amar de verdade.

No fim das contas, se nos limitarmos ao modelo subjacente a muitas das Constituições ocidentais, o homem de hoje estará entorpecido no uso dos seus atributos mais característicos e enobrecedores: (1) conhecer a verdade e (2) amar e fazer o bem, com tudo aquilo que cada um desses aspectos (e a conjunção de ambos) traz consigo.

CONCLUSÃO

O que acabo de apontar reforça três das minhas mais arraigadas convicções:

– A primeira, uma fé absoluta no ser humano, na sua capacidade de retificar o rumo e de superar-se a si mesmo. Não se deve confundir diagnóstico com terapia. Do mesmo modo que a Filosofia, um diagnóstico não deve ser nunca otimista nem pessimista; não deve ser nem interessante nem desprezível; nem lucrativo nem descartável: deve simplesmente ser verdadeiro ou falso. Quanto mal não faria o “otimismo” de diagnosticar como sendo uma simples dor de cabeça o que na verdade é um tumor cerebral maligno!

– Em segundo lugar, que o homem atual tem de dar-se conta de como é grande é a sua dignidade, a fim de poder agir de acordo com ela... e alcançar a própria perfeição e a alegria que dela decorre.

– Por fim, que o “lugar natural” para “aprender a ser pessoa” – o único verdadeiramente imprescindível e suficiente – é a família. Não só para a criança, mas também para o adolescente que parece negá-la, para o jovem que tem diante de si um deslumbrante leque de possibilidades, para o adulto na plenitude das suas faculdades, para o ancião que parece declinar... Todos eles forjam e revitalizam a sua índole pessoal, dia após dia, no seio do seu lar.

E assim, temperados e reconstituídos, são capazes de converter o mundo, de humanizá-lo.

Por isso a família.

Tomás Melendo
Catedrático de Filosofia e Diretor dos Estudos Universitários sobre a Família da Universidade de Málaga (Espanha)

Fonte: Quadrante