Seguidores

segunda-feira, 15 de março de 2010

Família, torna-te aquilo que és !

 

Por Rafael Llano Cifuentes

Neste artigo, publicado em 1995, o então bispo auxiliar do Rio de Janeiro, Dom Rafael Llano Cifuentes, expõe como a crise na sociedade é, na verdade, a crise da família. É preciso que a família recupere a sua plena vitalidade, o seu sentido mais genuíno, aquela primordial grandeza que a Vontade Criadora plasmou na sua essência.

Tornou-se ainda mais popular, neste ano internacional da família, a tradicional pergunta “a família, como vai?”, que recebe habitualmente como resposta aquele “muito bem, obrigado”. Mas deixando de lado os costumes do nosso povo, se mergulhássemos a fundo no tema que questiona: em que estado se encontra a família?; a família como Instituição, como célula básica da sociedade, como vai?, o que responderíamos em definitivo?

Como bispo responsável pela pastoral familiar da Arquidiocese do Rio de janeiro e do chamado Leste 1 (Estado do Rio de janeiro)*, tive, ao longo destes últimos anos, oportunidade de me defrontar com a realidade familiar da tantas vezes cantada Cidade Maravilhosa, com os problemas que em linha transversal cortam o rio, do Campo Grande, Mendanha e Santa Cruz até Ipanema, Leblon e São Conrado, passando pelo “morro do Alemão”, pela favela do Jacarezinho e pela de Vigário Geral, até chegar aos luxuosos apartamentos da Lagoa e da Vieira Souto... O que encontrei nesse jogo de contrastes?; o que encontraria você...

(*) Desde de 2004, Dom Rafael Llano Cifuentes é bispo titular da diocese de Nova Friburgo (RJ) (N. do E.).

Se abrirmos os olhos à realidade que nos rodeia, não apenas à família do Rio de Janeiro, mas à sociedade no seu conjunto, ficaremos verdadeiramente pesarosos: as estruturas políticas corroídas pela desonestidade e a corrupção; as diferenças sociais cada vez mais acentuadas; a marginalização de amplos setores da população confinados nas favelas e cortiços; a depauperação moral e econômica de milhões de pessoas; o banditismo e o narcotráfico dominando grandes áreas das nossas cidades; a pouca confiabilidade de alguns setores políticos, administrativos e policiais; a proliferação do divórcio, o aumento das uniões irregulares e, em conseqüência, a deseducação dos filhos, a delinqüência juvenil, o extermínio de meninos de rua, a deterioração de parcelas substanciais da juventude desviada pelos vícios, a vagabundagem e as drogas... a ladainha das mazelas sociais poderia prolongar-se indefinidamente...

Quais são as causas de todos estes males? Sem dúvida poderíamos aduzir uma grande diversidade de motivos; mas, se fôssemos ao fundo da questão, veríamos que a causa fundamental reside na desestruturação da família.

A família está doente!

A família é a célula básica, o “núcleo natural e fundamental da sociedade” (Declaração Universal dos Direitos Humanos). Se as células estão enfermas o corpo inteiro também adoece. Todos os problemas sociais a que antes aludíamos são provocados por homens, homens que nascem numa família, homens que amadurecem ou se aviltam numa família, homens que aprendem o sentido do amor ou do ódio numa família, homens que se pervertem ou se santificam numa família.

A família é a fonte emergente de todos os valores humanos; “o manancial da humanidade do qual brotam as melhores energias criadoras do tecido social” (João Paulo II. Carta aos presidentes por ocasião do Ano Internacional da Família). Se a família fica doente, a sociedade sucumbe.

Mas a família está deveras doente; na realidade dos fatos, está doente!

Esta visão não nos pode levar a uma atitude negativa ou pessimista, deveria ser, pelo contrário, um estímulo para encontrarmos juntos - de forma consciente e ativa - o antídoto capaz de debelar doença tão perniciosa.

Nenhuma ocasião melhor para enfrentar tal desafio do que esta que estamos vivendo agora. É a hora da família. João Paulo II, na carta enviada aos presidentes de todos os países, por causa do Ano Internacional da Família, promovido pela Organização das Nações Unidas, afirma com efeito, que este ano “deveria ser, a ocasião privilegiada para que a família receba, por parte da sociedade e do Estado, a proteção que a Declaração universal reconhece que lhe deve ser garantida. Não o fazer seria trair os ideais mais nobres da ONU”.

Mas reparando nas pretensões da recente conferência do Cairo – paliadas em parte pela firme posição da Santa Sé – deparamo-nos com uma “dolorosa surpresa” (João Paulo II), ao constatarmos que nela havia precisamente uma verdadeira traição aos direitos da família recolhidos nessa declaração universal.

Notava-se, por exemplo, no documento base da Conferência do Cairo, de acordo com o Papa, que “a concepção da sexualidade que subjaz no texto é totalmente individualista”, como se percebe também que é egocentrista o “modelo” que apresenta sobre a própria família: a família, fundada sobre o matrimônio, está efetivamente caracterizada no mesmo documento como um atentado ao amor livre, que às vezes se identifica com o mero prazer sexual.

A família de que falava aquele texto não é a família estável cuja essência está arraigada profundamente na consciência e na sabedoria dos povos, mas outra família indefinida e indefinível que pode identificar-se com a união eventual, o concubinato ou a união homossexual. A partir daí, não é de estranhar que, diante dos nossos olhos assustados com tantos despropósitos, se tente justificar o mais despudorado desrespeito à vida e à defesa do aborto.

Se bem repararmos, todas essas tentativas da Conferência do Cairo, não são senão a conseqüência derradeira de um longo processo que foi configurando o “humanismo antropocêntrico” (o homem individual como medida de todos os valores), que gerou o liberalismo, com uma acentuação desorbitada e falsa da liberdade, e este, por sua vez, deu lugar ao capitalismo histórico e à teoria individualista do matrimônio e da família. A família ficou “descentrada” do seu pólo natural de gravitação que é Deus.

Certificamo-nos de que assim como o capitalismo histórico superdimensiona a importância do lucro particular e desvaloriza a função social do capital e da propriedade, da mesma maneira a teoria individualista da família se polariza unilateralmente – deixando de lado a finalidade social e procriadora do matrimônio ditada pela lei do Criador – na felicidade individual dos cônjuges. Diríamos que é como uma espécie de “capitalismo matrimonial” cujas conseqüências são muito mais graves do que as do capitalismo sócio-econômico. Porque este beneficia apenas o reduzido grupo dos mais poderosos e aquele se estende a todas as camadas populacionais, operando geral transmutação da instituição familiar.

A família ficou “desajustada”, “deslocada” como uma vértebra fora do lugar. E isto afetou grave e dolorosamente o organismo social como um todo.

A partir desta teoria individualista nasceram vários fenômenos que são como os grandes tumores da doença familiar.

As pesquisas sociológicas mais acuradas nos revelam que no último quadrante do século XX se acentuaram várias seqüelas, nascidas a partir desta teoria individualista, que seriam como que as síndromes desse estado patológico: o prazer sensual como finalidade de vida (hedonismo); o amor livre fora do matrimônio; o divórcio; a desvirtuação do amor conjugal; descuido na educação dos filhos etc...

A Conferência do Cairo parece que pretendia precisamente elevar à categoria de avanço histórico o que para toda pessoa sensata é exatamente a consagração do caos familiar. Paradoxalmente dá a impressão de que, no momento em que chega a hora exata para salvar a família doente, quer se lhe aplicar a injeção letal que acabe por aniquilá-la de vez.

É preciso, pelo contrário, que, nesta hora decisiva, nos esforcemos para reverter esse quadro, para que a família recupere a sua plena vitalidade, o seu sentido mais genuíno, aquela primordial grandeza que a Vontade Criadora plasmou na sua própria essência. É necessário que façamos ecoar no âmbito da nossa tão sofrida família brasileira, da nossa tão querida e contrastante cidade maravilhosa, as vigorosas palavras de João Paulo II: “Família, torna-te aquilo que és!” (Familiaris Consortio, n° 17). Família, volta a compreender que a união conjugal não é uma relação meramente genital, mas uma comunhão de vida e de amor! Volta, coloca-te à disposição dos desígnios de Deus, reafirmando que o amor conjugal não tem como finalidade precípua o prazer dos cônjuges, mas a união indissolúvel de dois destinos a serviço da vida, da procriação de novos seres humanos. Família, retorna àquela verdade que diz que os filhos não são primordialmente um elemento de satisfação dos pais mas, pelo contrário, os pais é que são um fator de realização da personalidade dos filhos.

Acredito que muitos ainda se recordam da frase, dita aos gritos no Maracanã, dirigida ao mais famoso ponta-direita da seleção brasileira:

“Volta para casa, Mané!... Mané, volta para casa!”

Os torcedores queriam que ele voltasse à sua família, aos seus filhos a quem tinha largado para se juntar a uma conhecida cantora. Até o povo mais simples, nas suas expressões tão espontâneas reconhece o que há de mais autêntico na família.

Desde a Odisséia de Homero, em que Ulisses está sempre voltando para casa à procura de Penélope, sua esposa, e de seu lar, a história da literatura apresenta a metáfora da vida como uma viagem, como um eterno retorno aos valores mais genuínos do ser humano. E Novalis, o poeta romântico alemão, costumava dizer também, quando viajava: “estou voltando para casa, estou sempre voltando para casa”. De forma diversa, mas análoga, o expressava, há 25 séculos, outro poeta grego, Píndaro: “Homem, torna-te aquilo que és!”, frase que hoje retoma João Paulo II, quando exclama: “Família, torna-te aquilo que és!”

A humanidade morre de saudades evocando a família ideal que leva gravada como paradigma no fundo da sua consciência.

Essas insondáveis saudades que o homem sente pelo amor sereno e pacífico de um lar, esse eterno retornar do homem àquilo que corresponde com a sua mais genuína essência, e que se concretiza naquele grito da multidão no Maracanã, é o que nós poderíamos também dizer em alta voz à família:

Volta para casa! volta para casa do Pai, que é onde encontrarás os mais autênticos valores daquela família, com a qual Deus te dotou!

Família, se queres ser feliz, torna-te aquilo que és!

Retorna para casa, sempre para casa! Aí encontrarás o calor de um lar, a compreensão dos seres queridos, o remanso de paz onde se refazem as forças, o ninho aconchegante onde viverão, pais e filhos, em estreita solidariedade e amor.

Assim, quando no decorrer dos anos alguém porventura nos perguntar: “A família, como vai?”, você e eu poderemos então responder com a convicção de quem aproveitou essa hora da família:

– A família: a sua, a minha, a nossa família, a nossa pequena pátria doméstica, vai bem; vai muito bem, de acordo com os inefáveis desígnios que Deus sonhou para nós antes da constituição do mundo. Assim, meu amigo, na verdade, a família vai extraordinariamente bem!

Rafael Llano Cifuentes
Licenciou-se em Direito Civil pela Universidade de Salamanca e é Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, de Roma. É professor de Direito Matrimonial no Instituto Superior de Direito Canônico do Rio de Janeiro, foi Coordenador da Pastoral Familiar, da Pastoral da Juventude e da Pastoral Universitária da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Atualmente, é bispo emérito de Nova Friburgo (RJ) . Publicou diversas obras principalmente na área de matrimônio e família.

Fonte: Revista A Ordem. Vol. 85, ano 74 de 1995.
Quadrante

Nenhum comentário:

Postar um comentário