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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Vale a Pena Casar-se?

Por Tomás Melendo Granados

Hoje em dia, muitos jovens asseguram que não vêem nenhuma razão para contrair matrimônio. Amam-se e nisso encontram justificação de sobra para viverem juntos. Penso que estão enganados, mas compreendo-os perfeitamente.

LEIS E COSTUMES

É verdade que as leis e os costumes sociais retiraram ao matrimônio todo o seu sentido. Em primeiro lugar, a admissão do divórcio elimina a segurança na luta por manter o vínculo; em segundo lugar, a aceitação social de “devaneios” extramatrimoniais suprime a exigência da fidelidade; por último, a difusão dos anticoncepcionais despoja os filhos de relevância e valor.

O que resta então da grandeza da união conjugal? 0 que é feito da arriscada aventura que sempre foi? Para quê passar pela Igreja ou pelo juiz-de-paz? Assim vistas as coisas, teríamos de começar por dar razão àqueles que sustentam a absoluta primazia do “amor”, para depois fazer-lhes ver uma coisa de capital importância: é impossível homem e mulher amarem-se profundamente sem estarem casados.

TORNAR-SE CAPAZ DE AMAR

Ainda que possa causar um certo espanto, o que acabo de dizer não é nada estranho. Em todos os âmbitos da vida humana é preciso aprender e adquirir competências. Por que teria de ser diferente no amor, que é simultaneamente a mais gratificante, a mais decisiva e a mais difícil das nossas atividades? Jacinto Benavente afirmava que “o amor tem de ir à escola”, e é verdade. Para poder amar verdadeiramente, é preciso exercitar-se, tal como, por exemplo, é preciso temperar os músculos para ser um bom atleta.

Ora bem, o casamento capacita para amar de uma maneira real e efetiva. A nossa cultura não acaba de entender o matrimônio: contempla-o como uma simples cerimônia, um contrato, um compromisso... Tudo isso é, sem chegar a ser falso, demasiado pobre. Na sua essência mais íntima, o ato de casar-se constitui uma expressão delicada de liberdade e de amor. O sim é um ato profundíssimo, inigualável, mediante o qual duas pessoas se entregam plenamente e decidem amar-se mutuamente por toda a vida. É amor de amores: amor sublime que me permite “amar bem”, como diziam os nossos clássicos: fortalece a minha vontade e habilita-a para amar em outro nível; situa o amor recíproco numa esfera mais elevada. Por isso, se não me casar, se excluir esse ato de amor total, ficarei impossibilitado de amar de verdade o meu cônjuge, tal como alguém que não treina ou não aprende uma língua se torna incapaz de falá-la.

À sua jovem esposa, que lhe tinha escrito: “Esquecer-te-ás de mim, que sou uma provinciana, entre as tuas princesas e embaixadoras?”, Bismark respondeu: “Esqueceste que me casei contigo para te amar?” Estas palavras encerram uma intuição profunda: o “para te amar” não indica uma simples decisão para o futuro, inclusive inamovível, mas equivale, afinal de contas, a um “para te poder amar” com um amor autêntico, supremo, definitivo... impossível sem a mútua entrega do matrimônio.

CASAR-SE OU “VIVER JUNTOS”

Não se trata de teorias. O que acabo de expor tem claras manifestações no âmbito psicológico. O ser humano só é feliz quando se empenha em qualquer coisa de grande que efetivamente compense o esforço. O mais impressionante que um homem e uma mulher podem fazer é amar. Vale a pena dedicar toda a vida a amar cada vez melhor e mais intensamente. É, na realidade, a única coisa que merece a nossa dedicação: tudo o mais, tudo mesmo, deveria ser apenas um meio para o conseguir. “No entardecer da nossa existência – dizia um clássico castelhano – seremos examinados sobre o amor” (e sobre nada mais, acrescento eu).

Ora bem, quando me caso, estabeleço as condições para me dedicar sem reservas à tarefa de amar. Pelo contrário, se simplesmente vivemos juntos, e ainda que eu não tenha consciência disso, terei de dirigir todo o esforço à “defesa das posições alcançadas”, a “não perder o que foi ganho”.

Tudo, então, se torna inseguro: a relação pode romper-se a qualquer momento. Se não tenho a certeza de que o outro se vai esforçar seriamente por amar-me e superar as fricções e conflitos do convívio quotidiano, por que terei de fazê-lo eu? Não posso “baixar a guarda”, mostrar-me de verdade como sou..., não vá acontecer que o meu parceiro descubra defeitos “insuportáveis” em mim e decida acabar com tudo.

Perante as dificuldades que forçosamente têm de surgir, a tentação de abandonar a relação conjugal está sempre muito próxima, pois nada impede essa deserção...

Em resumo, a simples convivência sem entrega definitiva cria um clima em que a razão fundamental e entusiasmadora do matrimônio – fazer crescer e amadurecer o amor e, com ele, a felicidade – se vê muito comprometida.

AMOR OU “PAPÉIS”?

Tudo o que acabamos de ver parece reforçar a afirmação de que “o importante” é amar. Parece-me correto. O amor é efetivamente importante e não se deve ter medo desta ideia. No entanto, como já expliquei, não pode haver amor total sem doação mútua e exclusiva, sem o casamento. Os “papéis”, o reconhecimento social, não são, de modo nenhum, “o importante”, mas por serem uma confirmação externa da entrega mútua, tornam-se imprescindíveis.

E por quê?

Do ponto de vista social, porque o meu casamento tem claras repercussões civis: a família é – deveria ser! – a chave do ordenamento jurídico e o fundamento da saúde de uma sociedade. É indispensável, por isso, que se saiba que eu e outra pessoa decidimos mudar de estado e constituir uma família.

No entanto, a dimensão pública do matrimônio – cerimônia religiosa e civil, festa com familiares e amigos, participações do evento, anúncio nos meios de comunicação social (se for caso disso), etc.– deriva sobretudo da enorme relevância que tem para os cônjuges aquilo que estão levando a cabo. Se isso vai mudar radicalmente a minha vida para melhor, se me vai permitir algo que é uma autêntica e maravilhosa aventura, terei imenso gosto em que se saiba, tal como anuncio com tambores e flautas outras boas notícias. Tal como, não. Muito mais, porque não há nada que se compare a casar-se: põe-me numa situação inigualável para crescer interiormente, para ser melhor pessoa e alcançar assim a felicidade. Como não apregoar, então, a minha alegria?

ANTECIPAR O FUTURO?

É verdade que, tendo em conta o exposto, muitos se interrogam: como posso assumir um compromisso para toda a vida, se não sei o que esta me vai trazer? Como posso estar certo de que escolho bem a minha mulher ou o meu marido?

A todos eles eu diria, antes de mais, que para isso existe o noivado: um período imprescindível que oferece a duas pessoas a oportunidade de se conhecerem mutuamente e começarem a entrever como se desenvolverá a sua vida em comum.

Além disso, se sou uma pessoa como deve ser, já sei o que acontecerá quando contrair matrimônio: sei, concretamente, que farei tudo o que estiver ao meu alcance para amar a pessoa com quem me vou casar e procurarei que ela seja muito feliz. E se esse propósito for sério, será partilhado pelo futuro cônjuge, porque o amor chama o amor. Podemos ter, portanto, a certeza de que vamos esforçar-nos com todos os meios por consegui-lo. E nesse caso será muito difícil, quase impossível, que o matrimônio fracasse.

OBSERVAR E REFLETIR

Não há dúvida de que essa decisão radical de entrega não é suficiente para dar um passo tão importante. É preciso que eu considere também alguns traços do futuro cônjuge. Por exemplo, se “me vejo” vivendo durante o resto dos meus dias com essa pessoa. E igualmente, e antes, como é que ela se comporta no seu trabalho; como trata a família, os amigos. Se sabe controlar os seus impulsos sexuais (porque, caso contrário, ninguém me garante que será capaz de o fazer quando estivermos casados e não se deixará seduzir pelos encantos de outro ou outra). Gostaria que os meus filhos se parecessem com ele – com ela? (porque de fato, quer eu queira ou não, vão parecer-se). Sabe estar mais atenta ao meu bem do que aos seus caprichos?
Em resumo, é importante considerar mais o que a pessoa é; depois, o que efetivamente faz, como se comporta; e em terceiro lugar o que diz ou promete, coisa que só terá valor se a sua conduta o confirmar.

RELAÇÕES ANTIMATRIMONIAIS

Eis uma das questões mais decisivas e sobre a qual reina maior confusão. A necessidade de os noivos se conhecerem, de saber se um e outro combinam entre si, não aconselhará a que vivam um tempo juntos, com tudo o que isso implica?

É um assunto que tem sido muito estudado e sobre o qual se vai lançando uma luz mais clara. Um bom resumo do estado da questão seria o seguinte: está estatisticamente comprovado que a convivência a que acabo de aludir nunca – nunca! – produz efeitos benéficos. Por exemplo:

a) os divórcios são muito mais freqüentes entre aqueles que viveram juntos antes de contrair matrimônio;

b) as atitudes dos jovens que começam a ter um relacionamento íntimo pioram notavelmente e a olhos vistos a partir desse mesmo momento: tornam-se mais possessivos, mais ciumentos e controladores, mais desconfiados e irritáveis...

Não é difícil de intuir a causa. O corpo humano é, no sentido mais profundo da palavra, pessoal; muito particularmente na sua dimensão sexual. Por conseguinte, a sexualidade só sabe falar uma linguagem: a da entrega plena e definitiva.

No entanto, nas circunstâncias que estamos considerando, essa entrega total é desmentida pelo coração e pela cabeça que, com maior ou menor consciência, a rejeitam, na medida em que evitam um compromisso para toda a vida. Surge assim, em cada um dos noivos, uma ruptura interior que se manifesta, psiquicamente, por uma obsessiva e angustiante ânsia de segurança, acompanhada de receios, temores, suspeitas, que acabam por envenenar a vida em comum. Daí que, a este tipo de relações, e contrariamente ao que é habitual, eu prefira chamar “anti-matrimoniais”.

PARA SE CONHECEREM A SÉRIO

É pelo menos ingênua a pretensão de avaliar a viabilidade de um casamento pela “capacidade sexual” dos que coabitam: como se toda uma vida em comum dependesse ou pudesse basear-se em atos que, em condições normais, não somam muitos minutos por semana!

Aliás, a melhor maneira de conhecer o futuro cônjuge nesse campo neste campo consiste, como sugeria anteriormente, em observá-lo nos outros aspectos da sua vida, naqueles que não se relacionam diretamente conosco: observar e refletir sobre o modo como a pessoa se comporta com a sua família, no trabalho ou no estudo, com os amigos e conhecidos. Se, nessas circunstâncias, é generoso, afável, paciente, serviçal, terno, desprendido, podemos estar seguros – sem medo de errar – de que a longo prazo será essa a sua atitude nas relações mais íntimas.

Por isso, pode-se afirmar que “viver (e dormir) juntos” é a melhor maneira de não saber absolutamente nada de como vai comportar-se a outra pessoa durante a vida matrimonial.

Repito que não se trata de uma ficção nem de uma espécie de “invenção piedosa” para desaconselhar essa convivência: como acabo de mencionar, é bastante fácil cair na conta de que a situação que se cria em tais circunstâncias é totalmente artificial... e muito diferente do que será a vida em comum no dia a dia, quando ambos estiverem casados.

EXPERIMENTAR AS PESSOAS?

Pode-se aprofundar ainda mais: não é sério nem honesto “experimentar” as pessoas como se se tratasse de cavalos, carros ou computadores. As pessoas devem ser respeitadas, veneradas, amadas; por elas se arrisca a vida, “joga-se – como dizia Marañón – cara ou coroa, o porvir do próprio coração”.

Além disso, a desconfiança que implica o pôr as pessoas à prova não só cria um permanente estado de tensão, difícil de suportar, como se opõe frontalmente ao amor incondicional, que está na base de qualquer bom casamento.

E deve-se acrescentar outro motivo ainda mais determinante: não se pode (é materialmente impossível, ainda que pareça o contrário) fazer essa experiência, porque o casamento muda muito profundamente os noivos, não só do ponto de vista psicológico – a que já me referi – mas no seu próprio ser; modifica-os profundamente, transforma-os em esposos, permite-lhes amar de verdade: coisa que antes de casarem não podiam fazer!

Tomás Melendo Granados
Catedrático de Filosofía (Metafísica), Diretor do Departamento de Estudos Universitários sobre a Família da Universidade de Málaga, Espanha. tmelendo@masterenfamilias.com

Fonte: Quadrante

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