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domingo, 28 de fevereiro de 2010

O que é o Matrimônio ?

 

Por Christopher West

Um homem pode se casar com outro homem? Uma mulher pode se casar com outra mulher? Um homem pode se casar com várias mulheres ao mesmo tempo, ou uma mulher com vários homens? Um homem pode se casar com sua irmã ou com sua mãe? Seu irmão, ou seu pai? Uma mulher pode se casar com seu irmão ou seu pai? Sua irmã, ou sua mãe?

Todas estas questões são agora relevantes em nossa cultura. Elas não podem ser apropriadamente respondidas a menos que saibamos o que é o matrimônio. Como católicos, nós temos um incrível corpo de ensinamentos para que entendamos o sentido e o propósito do matrimônio. Comecemos com uma definição básica advinda da Lei Canônica e do Concílio Vaticano II.

O matrimônio é comunhão íntima, exclusiva e indissolúvel de vida e de amor assumidas por um homem e uma mulher como designado pelo Criador para o propósito do seu próprio bem e da procriação e educação dos filhos. Esta aliança entre pessoas batizadas foi elevada por Nosso Senhor Jesus Cristo à dignidade de Sacramento.

Comunhão íntima de vida e de amor: O matrimônio é a mais próxima e mais íntima de todas as relações humanas. Ele envolve a partilha da totalidade da vida de uma pessoa com seu(ua) esposo(a). O matrimônio pede uma mútua entrega de si mesmo tão íntima e completa que os esposos — sem perder sua individualidade — tornam-se “um”, não somente no corpo, mas também na alma.

Comunhão exclusiva de vida e de amor: Como uma mútua doação de duas pessoas um para o outro, esta união íntima exclui a possibilidade de outra união com qualquer outra pessoa. Ela demanda a fidelidade total dos esposos. Esta exclusividade também é essencial para o bem dos filhos do casal.

Comunhão indissolúvel de vida e de amor: Marido e esposa não são unidos por emoções passageiras ou meras inclinações eróticas as quais, egoísticamente buscadas, vão-se facilmente. Eles são unidos em autêntico amor conjugal pelo firme e irrevogável ato de sua própria vontade. Uma vez que seu mútuo consentimento foi consumado pela relação sexual, uma ligação inquebrantável é estabelecida entre os esposos. Para os batizados, esta ligação é selada pelo Espírito Santo e se torna absolutamente indissolúvel. Por isso, a Igreja não ensina tanto que o divórcio é errado, mas que o divórcio é impossível, apesar de suas implicações civis.

Assumidas por um homem e uma mulher: A complementaridade dos sexos é essencial para o matrimônio. Não é que dois homens (ou duas mulheres) não possam se casar porque “a Igreja não deixa”. Se compreendermos o que o matrimônio é, nós veremos com bastante clareza que é impossível que membros do mesmo sexo contraiam matrimônio.

Como designado pelo Criador: Deus é o autor do matrimônio. Ele inscreveu o chamado para o matrimônio em nosso próprio ser criando-nos como homens e mulheres. Nós, portanto, não podemos alterar a natureza e os propósitos do matrimônio.

Para o propósito do seu próprio bem: “Não é bom que o homem esteja só” (Gen 2,18). Reciprocamente, é pelo seu próprio bem, para seu benefício, enriquecimento e, por último, para sua salvação, que um homem e uma mulher unem suas vidas em matrimônio.

Procriação e educação dos filhos: Os filhos não são acrescentados ao matrimônio e ao amor conjugal, mas brota do próprio coração dessa auto-doação mútua entre os esposos, como fruto e realização. A exclusão intencional dos filhos, então, contradiz a própria natureza e propósito do matrimônio.

Aliança: Enquanto o matrimônio envolve um contrato legal, uma aliança vai além dos mínimos direitos e responsabilidades garantidos por um contrato. Uma aliança exige dos esposos uma partilha do amor livre, total, fiel e fecundo de Deus. Pois é Deus quem, à imagem de sua própria Aliança com seu povo, une os esposos em uma forma mais compromitente e sagrada que qualquer contrato humano.

A dignidade de sacramento: O matrimônio entre pessoas batizadas é um sinal eficaz da união entre Cristo e a Igreja, e, como tal, é um canal de graças. Isto é, o matrimônio — porquanto a união entre o homem e a mulher verdadeiramente simboliza o amor de Cristo pela Igreja — realmente comunica o amor de Cristo aos esposos e, através deles, para todo o mundo.

Tradução livre: Fabrício L. Ribeiro | Original em: http://tobinstitute.org/newsItem.asp?NewsID=54

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Vale a Pena Casar-se?

Por Tomás Melendo Granados

Hoje em dia, muitos jovens asseguram que não vêem nenhuma razão para contrair matrimônio. Amam-se e nisso encontram justificação de sobra para viverem juntos. Penso que estão enganados, mas compreendo-os perfeitamente.

LEIS E COSTUMES

É verdade que as leis e os costumes sociais retiraram ao matrimônio todo o seu sentido. Em primeiro lugar, a admissão do divórcio elimina a segurança na luta por manter o vínculo; em segundo lugar, a aceitação social de “devaneios” extramatrimoniais suprime a exigência da fidelidade; por último, a difusão dos anticoncepcionais despoja os filhos de relevância e valor.

O que resta então da grandeza da união conjugal? 0 que é feito da arriscada aventura que sempre foi? Para quê passar pela Igreja ou pelo juiz-de-paz? Assim vistas as coisas, teríamos de começar por dar razão àqueles que sustentam a absoluta primazia do “amor”, para depois fazer-lhes ver uma coisa de capital importância: é impossível homem e mulher amarem-se profundamente sem estarem casados.

TORNAR-SE CAPAZ DE AMAR

Ainda que possa causar um certo espanto, o que acabo de dizer não é nada estranho. Em todos os âmbitos da vida humana é preciso aprender e adquirir competências. Por que teria de ser diferente no amor, que é simultaneamente a mais gratificante, a mais decisiva e a mais difícil das nossas atividades? Jacinto Benavente afirmava que “o amor tem de ir à escola”, e é verdade. Para poder amar verdadeiramente, é preciso exercitar-se, tal como, por exemplo, é preciso temperar os músculos para ser um bom atleta.

Ora bem, o casamento capacita para amar de uma maneira real e efetiva. A nossa cultura não acaba de entender o matrimônio: contempla-o como uma simples cerimônia, um contrato, um compromisso... Tudo isso é, sem chegar a ser falso, demasiado pobre. Na sua essência mais íntima, o ato de casar-se constitui uma expressão delicada de liberdade e de amor. O sim é um ato profundíssimo, inigualável, mediante o qual duas pessoas se entregam plenamente e decidem amar-se mutuamente por toda a vida. É amor de amores: amor sublime que me permite “amar bem”, como diziam os nossos clássicos: fortalece a minha vontade e habilita-a para amar em outro nível; situa o amor recíproco numa esfera mais elevada. Por isso, se não me casar, se excluir esse ato de amor total, ficarei impossibilitado de amar de verdade o meu cônjuge, tal como alguém que não treina ou não aprende uma língua se torna incapaz de falá-la.

À sua jovem esposa, que lhe tinha escrito: “Esquecer-te-ás de mim, que sou uma provinciana, entre as tuas princesas e embaixadoras?”, Bismark respondeu: “Esqueceste que me casei contigo para te amar?” Estas palavras encerram uma intuição profunda: o “para te amar” não indica uma simples decisão para o futuro, inclusive inamovível, mas equivale, afinal de contas, a um “para te poder amar” com um amor autêntico, supremo, definitivo... impossível sem a mútua entrega do matrimônio.

CASAR-SE OU “VIVER JUNTOS”

Não se trata de teorias. O que acabo de expor tem claras manifestações no âmbito psicológico. O ser humano só é feliz quando se empenha em qualquer coisa de grande que efetivamente compense o esforço. O mais impressionante que um homem e uma mulher podem fazer é amar. Vale a pena dedicar toda a vida a amar cada vez melhor e mais intensamente. É, na realidade, a única coisa que merece a nossa dedicação: tudo o mais, tudo mesmo, deveria ser apenas um meio para o conseguir. “No entardecer da nossa existência – dizia um clássico castelhano – seremos examinados sobre o amor” (e sobre nada mais, acrescento eu).

Ora bem, quando me caso, estabeleço as condições para me dedicar sem reservas à tarefa de amar. Pelo contrário, se simplesmente vivemos juntos, e ainda que eu não tenha consciência disso, terei de dirigir todo o esforço à “defesa das posições alcançadas”, a “não perder o que foi ganho”.

Tudo, então, se torna inseguro: a relação pode romper-se a qualquer momento. Se não tenho a certeza de que o outro se vai esforçar seriamente por amar-me e superar as fricções e conflitos do convívio quotidiano, por que terei de fazê-lo eu? Não posso “baixar a guarda”, mostrar-me de verdade como sou..., não vá acontecer que o meu parceiro descubra defeitos “insuportáveis” em mim e decida acabar com tudo.

Perante as dificuldades que forçosamente têm de surgir, a tentação de abandonar a relação conjugal está sempre muito próxima, pois nada impede essa deserção...

Em resumo, a simples convivência sem entrega definitiva cria um clima em que a razão fundamental e entusiasmadora do matrimônio – fazer crescer e amadurecer o amor e, com ele, a felicidade – se vê muito comprometida.

AMOR OU “PAPÉIS”?

Tudo o que acabamos de ver parece reforçar a afirmação de que “o importante” é amar. Parece-me correto. O amor é efetivamente importante e não se deve ter medo desta ideia. No entanto, como já expliquei, não pode haver amor total sem doação mútua e exclusiva, sem o casamento. Os “papéis”, o reconhecimento social, não são, de modo nenhum, “o importante”, mas por serem uma confirmação externa da entrega mútua, tornam-se imprescindíveis.

E por quê?

Do ponto de vista social, porque o meu casamento tem claras repercussões civis: a família é – deveria ser! – a chave do ordenamento jurídico e o fundamento da saúde de uma sociedade. É indispensável, por isso, que se saiba que eu e outra pessoa decidimos mudar de estado e constituir uma família.

No entanto, a dimensão pública do matrimônio – cerimônia religiosa e civil, festa com familiares e amigos, participações do evento, anúncio nos meios de comunicação social (se for caso disso), etc.– deriva sobretudo da enorme relevância que tem para os cônjuges aquilo que estão levando a cabo. Se isso vai mudar radicalmente a minha vida para melhor, se me vai permitir algo que é uma autêntica e maravilhosa aventura, terei imenso gosto em que se saiba, tal como anuncio com tambores e flautas outras boas notícias. Tal como, não. Muito mais, porque não há nada que se compare a casar-se: põe-me numa situação inigualável para crescer interiormente, para ser melhor pessoa e alcançar assim a felicidade. Como não apregoar, então, a minha alegria?

ANTECIPAR O FUTURO?

É verdade que, tendo em conta o exposto, muitos se interrogam: como posso assumir um compromisso para toda a vida, se não sei o que esta me vai trazer? Como posso estar certo de que escolho bem a minha mulher ou o meu marido?

A todos eles eu diria, antes de mais, que para isso existe o noivado: um período imprescindível que oferece a duas pessoas a oportunidade de se conhecerem mutuamente e começarem a entrever como se desenvolverá a sua vida em comum.

Além disso, se sou uma pessoa como deve ser, já sei o que acontecerá quando contrair matrimônio: sei, concretamente, que farei tudo o que estiver ao meu alcance para amar a pessoa com quem me vou casar e procurarei que ela seja muito feliz. E se esse propósito for sério, será partilhado pelo futuro cônjuge, porque o amor chama o amor. Podemos ter, portanto, a certeza de que vamos esforçar-nos com todos os meios por consegui-lo. E nesse caso será muito difícil, quase impossível, que o matrimônio fracasse.

OBSERVAR E REFLETIR

Não há dúvida de que essa decisão radical de entrega não é suficiente para dar um passo tão importante. É preciso que eu considere também alguns traços do futuro cônjuge. Por exemplo, se “me vejo” vivendo durante o resto dos meus dias com essa pessoa. E igualmente, e antes, como é que ela se comporta no seu trabalho; como trata a família, os amigos. Se sabe controlar os seus impulsos sexuais (porque, caso contrário, ninguém me garante que será capaz de o fazer quando estivermos casados e não se deixará seduzir pelos encantos de outro ou outra). Gostaria que os meus filhos se parecessem com ele – com ela? (porque de fato, quer eu queira ou não, vão parecer-se). Sabe estar mais atenta ao meu bem do que aos seus caprichos?
Em resumo, é importante considerar mais o que a pessoa é; depois, o que efetivamente faz, como se comporta; e em terceiro lugar o que diz ou promete, coisa que só terá valor se a sua conduta o confirmar.

RELAÇÕES ANTIMATRIMONIAIS

Eis uma das questões mais decisivas e sobre a qual reina maior confusão. A necessidade de os noivos se conhecerem, de saber se um e outro combinam entre si, não aconselhará a que vivam um tempo juntos, com tudo o que isso implica?

É um assunto que tem sido muito estudado e sobre o qual se vai lançando uma luz mais clara. Um bom resumo do estado da questão seria o seguinte: está estatisticamente comprovado que a convivência a que acabo de aludir nunca – nunca! – produz efeitos benéficos. Por exemplo:

a) os divórcios são muito mais freqüentes entre aqueles que viveram juntos antes de contrair matrimônio;

b) as atitudes dos jovens que começam a ter um relacionamento íntimo pioram notavelmente e a olhos vistos a partir desse mesmo momento: tornam-se mais possessivos, mais ciumentos e controladores, mais desconfiados e irritáveis...

Não é difícil de intuir a causa. O corpo humano é, no sentido mais profundo da palavra, pessoal; muito particularmente na sua dimensão sexual. Por conseguinte, a sexualidade só sabe falar uma linguagem: a da entrega plena e definitiva.

No entanto, nas circunstâncias que estamos considerando, essa entrega total é desmentida pelo coração e pela cabeça que, com maior ou menor consciência, a rejeitam, na medida em que evitam um compromisso para toda a vida. Surge assim, em cada um dos noivos, uma ruptura interior que se manifesta, psiquicamente, por uma obsessiva e angustiante ânsia de segurança, acompanhada de receios, temores, suspeitas, que acabam por envenenar a vida em comum. Daí que, a este tipo de relações, e contrariamente ao que é habitual, eu prefira chamar “anti-matrimoniais”.

PARA SE CONHECEREM A SÉRIO

É pelo menos ingênua a pretensão de avaliar a viabilidade de um casamento pela “capacidade sexual” dos que coabitam: como se toda uma vida em comum dependesse ou pudesse basear-se em atos que, em condições normais, não somam muitos minutos por semana!

Aliás, a melhor maneira de conhecer o futuro cônjuge nesse campo neste campo consiste, como sugeria anteriormente, em observá-lo nos outros aspectos da sua vida, naqueles que não se relacionam diretamente conosco: observar e refletir sobre o modo como a pessoa se comporta com a sua família, no trabalho ou no estudo, com os amigos e conhecidos. Se, nessas circunstâncias, é generoso, afável, paciente, serviçal, terno, desprendido, podemos estar seguros – sem medo de errar – de que a longo prazo será essa a sua atitude nas relações mais íntimas.

Por isso, pode-se afirmar que “viver (e dormir) juntos” é a melhor maneira de não saber absolutamente nada de como vai comportar-se a outra pessoa durante a vida matrimonial.

Repito que não se trata de uma ficção nem de uma espécie de “invenção piedosa” para desaconselhar essa convivência: como acabo de mencionar, é bastante fácil cair na conta de que a situação que se cria em tais circunstâncias é totalmente artificial... e muito diferente do que será a vida em comum no dia a dia, quando ambos estiverem casados.

EXPERIMENTAR AS PESSOAS?

Pode-se aprofundar ainda mais: não é sério nem honesto “experimentar” as pessoas como se se tratasse de cavalos, carros ou computadores. As pessoas devem ser respeitadas, veneradas, amadas; por elas se arrisca a vida, “joga-se – como dizia Marañón – cara ou coroa, o porvir do próprio coração”.

Além disso, a desconfiança que implica o pôr as pessoas à prova não só cria um permanente estado de tensão, difícil de suportar, como se opõe frontalmente ao amor incondicional, que está na base de qualquer bom casamento.

E deve-se acrescentar outro motivo ainda mais determinante: não se pode (é materialmente impossível, ainda que pareça o contrário) fazer essa experiência, porque o casamento muda muito profundamente os noivos, não só do ponto de vista psicológico – a que já me referi – mas no seu próprio ser; modifica-os profundamente, transforma-os em esposos, permite-lhes amar de verdade: coisa que antes de casarem não podiam fazer!

Tomás Melendo Granados
Catedrático de Filosofía (Metafísica), Diretor do Departamento de Estudos Universitários sobre a Família da Universidade de Málaga, Espanha. tmelendo@masterenfamilias.com

Fonte: Quadrante

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

DEZ MANDAMENTOS DO CASAL

 

1 - Nunca dramatizar os defeitos, mas saber elogiar as qualidades.
2 - Nunca gritar um com outro, nem fechar-se, mas sempre dialogar.
3 - Saber ceder, saber perder, saber recomeçar, perdoando sempre.
4 - Dizer a verdade com amor.
5 - Nunca humilhar principalmente diante de outras pessoas.
6 - Não culpar, nem ridicularizar o outro recordando erros do passado.
7 - Nunca ser indiferente, gelando o outro.
8 - Nunca ir dormir sem perdoar.
9 - Admitir as próprias limitações e procurar melhorar. Autocrítica.
10 - Rezar juntos, rir juntos, passear juntos, e não discutir nunca.

(Padre Léo)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Diferenças de Personalidade


Leo Trese

Pode-se atribuir a culpa da maioria dos casamentos infelizes ao velho adágio: "O amor é cego".
Há exceções, sem dúvida, como por exemplo se o marido ou a mulher contraem uma doença mental que provoque uma mudança radical de personalidade, impossível de prever. Mas, fora esses casos excepcionais, a personalidade básica de uma pessoa já está firmemente fixada quando ele ou ela atingem a idade conveniente para casar-se. E num noivado de duração razoável, essa personalidade básica pode ser apreciada por cada um dos futuros cônjuges, desde que ele ou ela tenham os olhos bem abertos.
Infelizmente, o amor, ou melhor, a atração física, é um grande olho fechado e um grande teorizante. "Eu sei que ele bebe um pouco (na verdade, o noivo passa a metade da vida bêbado), mas tudo se deve à sua timidez; quando nos casarmos, isso passará". "Reconheço que ela é um tanto mandona, mas é uma garotinha tão doce que nem se repara nisso; e de qualquer maneira, quando nos casarmos, serei eu quem terá a última palavra". "Às vezes, zanga-se por qualquer coisinha, e parece que estamos sempre discutindo: mas, coitado, é que ele está nervoso e tenso. O casamento o fará mudar". "Meu Deus, que mulher tão ciumenta! Mal posso beijar a minha própria irmã! Mas aposto que se comporta assim porque tem medo de perder-me. Quando nos casarmos, mudará de maneira de ser".
Todos nós temos ouvido exclamações deste gênero. Isso acontece às vezes porque o desejo físico fez adormecer a razão. Também pode acontecer porque se está tão ansioso por casar que ele ou ela só têm olhos para o lado bom da pessoa que escolheram para consorte. Há, além disso, casos patológicos: o filho dominado pela mãe que busca inconscientemente uma esposa que o domine; a jovem que, por um inconsciente sentimento de culpa, se sente inclinada a escolher um marido brutal que inflija os castigos que deseja sem saber.
O pecado original perturbou o domínio que a razão deveria exercer sobre o impulso biológico, e por isso talvez não seja tão surpreendente que muitos jovens, de um e de outro sexo, caminhem cegamente para um casamento fadado à infelicidade. E caminham nessa direção apesar dos sinais de perigo que foram colocados para que pudesse ver qualquer pessoa inteligente. Os maridos alcoólatras, as esposas briguentas, os homens de temperamento vicioso e as mulheres de ciúmes enfermiços não desenvolveram repentinamente as suas tendências indesejáveis após o casamento. E só um ingênuo acreditará piamente no velho argumento de que "posso fazê-lo - ou fazê-la - mudar", mesmo contra toda a evidência psicológica: a evidência de que o padrão da personalidade básica de uma pessoa não pode ser alterado após a maturidade. Uma pessoa pode tornar-se virtuosa com o passar dos anos, mas normalmente agravar-se-ão as desordens emocionais e psicológicas que estejam profundamente enraizadas nela.
Seria necessário um milagre para que acontecesse o contrário. E milagres deste gênero não se dão com frequência.
Felizmente, os que vêem no casamento uma vocação - e, graças a Deus, são legião - conservam certos vestígios de critério e sabem levar a cabo uma escolha sábia e exemplar. Não se limitam a perguntar: "Será que nós dois nos daremos bem?. Também formulam esta outra pergunta: "Será um bom pai - ou uma boa mãe - para os nossos filhos?".
Contudo, mesmo entre a grande multidão dos casais normalmente felizes, produzem-se momentos de tensão que resultam da falsa idéia de que o outro cônjuge pode mudar a sua personalidade a uma simples ordem da nossa parte. Um ingrediente importante na felicidade conjugal é a boa vontade necessária para marido e mulher se aceitarem um ao outro "tal como são". O casal perfeito é um fenômeno raro. Serão quase inevitáveis as diferenças de personalidade e os antagonismos temperamentais. O importante é acomodar-se a essas diferenças, em vez de esperar que desapareçam.
Se a esposa é por natureza uma má administradora, não haverá violência alguma que a converta numa financista atilada ou numa eficiente dona-de-casa. A vida matrimonial será mais feliz se o marido a aceitar e amar tal como é, ao mesmo tempo em que procura compensar-lhe as deficiências - tal como ela certamente estará fazendo com ele. Se o marido é por natureza um homem de hábitos caseiros, as contínuas lamúrias da esposa não conseguirão convertê-lo num indivíduo que gosta de sair, fã dos divertimentos e das festas de sociedade. Uma esposa ativa poderá considerar isso como uma provação, mas descobrirá um casamento muito mais feliz se aceitar alegremente a realidade e parar nas suas tentativas de modificar o marido. A esposa pode ser exageradamente ordenada, daquelas que se aborrecem com um alfinete fora do lugar, e o marido será desses desmazelados que nunca põem nada de volta no seu lugar. O marido pode ser dessas pessoas obcecadas com a pontualidade, e a mulher uma aturdida que jamais tem o almoço pronto a horas.
"Tu tens as tuas faltas, e eu as minhas. Aceitemo-nos tal como somos. Reparemos unicamente no que há de bom em nós para que, sob o olhar de Deus, o nosso casamento e o nosso lar conheçam a verdadeira felicidade". Com esta filosofia simples, mas infalível, pode-se edificar dia-a-dia a felicidade conjugal. Benditos os filhos que cheguem a um lar onde tenham assento a paz e a caridade.

Extraído do livro: Não vos preocupeis, de Leo Trese

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Crises no casamento por deterioração da vida conjugal


Rafael Llano Cifuentes

O matrimônio deteriora-se quando não se renova, quando se permite que entre nos trilhos da rotina.

Há uma rotina indispensável e benéfica que nos permite cumprir com regularidade, constância e pontualidade os nossos deveres espirituais, familiares e profissionais. Esta rotina constrói uma estrutura de vida sólida, cria um comportamento homogêneo que nos ajuda a libertar-nos da espontaneidade meramente anárquica, dos caprichos emocionais dissolventes e perniciosos.

Mas existe uma outra rotina, a rotina mortífera, que deve ser afastada como a peste. É uma rotina que, pouco a pouco, como uma sanguessuga, vai dessangrando o con vívio conjugal. Todos os dias um pouco. Imperceptivelmente, endurece-nos, converte os nossos atos em algo mecânico, torna-nos autômatos, robôs sem vida, extingue o calor e a alegria de viver e de amar. Esta rotina provoca um desgaste progressivo na vida familiar, uma perda de energias, uma espécie de anemia vital que torna a existência cinzenta, anódina, incolor.

Lembro-me daquela música dos anos 60 cantada por Ronnie Von: "A mesma praça, os mesmos bancos, as mesmas flores, o mesmo jardim, tudo é igual, assim tão tris te..." Alguns poderiam queixar-se, de forma semelhante: "A mesma esposa, a mesma família, o mesmo trabalho, a mesma paisagem, a mesma "droga de sempre"... É tudo tão triste e cansativo..."

Talvez se consiga continuar caminhando mesmo assim. Externamente, o casal vai mantendo as aparências, como um móvel visitado pelo cupim, corroído por dentro. Por fora, nada se percebe, mas de repente tudo desmorona, os cenários desabam, as fachadas caem e aparece um panorama desolador: "Meu Deus, toda a minha vida, daqui para a frente, vai ser igual"... E entra-se numa espécie de letargia mortífera. Muitas infelicidades, muitas crises conjugais, muitas deserções são provocadas por esse fenômeno.

Quando na nossa vida diária não "contemplamos o amor", não renovamos o amor, caímos nessa rotina que mata. Os mesmos bancos, as mesmas flores, o mesmo jardim, a pesada monotonia do que é sempre igual, deve-se - como dizia ainda a canção - a que "não tenho você perto de mim". Quando o amor está ausente, tudo é tão triste...!

Você talvez já tenha passado por uma experiência parecida. Estava trabalhando numa tarefa extremamente enfadonha, repetitiva, rotineira... e pensava: "Tomara que termine logo"... De repente, alguém que você ama muito pôs-se ao seu lado e disse-lhe: "Deixe que lhe dê uma mão. Ao menos, deixe-me ficar com você até terminar"... E, naquele momento, você murmurou: "Tomara que não termine nunca!" As mesmas circunstâncias mudam substancialmente quando o amor está presente. A mesma família, a mesma esposa..., mas tudo é diferente porque se soube remoçar o amor: as pupilas, dilatadas pelo amor de Deus, pelo amor ao cônjuge e aos filhos, conseguem enxergar uma nova família, uma nova esposa, um novo trabalho todos os dias.

O poeta francês Lamartine passava horas a fio olhando sempre para o mesmo mar. Alguém lhe perguntou certa vez: "Mas não se cansa de olhar sempre a mesma vista?" - "Não - respondeu -; por que será que todos vêem o que eu vejo e ninguém enxerga o que eu enxergo?" A sua alma de poeta permitia-lhe ver realidades diferentes nas paisagens de sempre. A alma contemplativa que o amor nos confere dá-nos também essa acuidade espiritual que nos permite ver mundos novos por trás das aparências sempre iguais do monótono viver diário. Em contrapartida, quando não existe uma viva preocupação por renovar o amor como o fator mais importante da vida conjugal e familiar, aparecem esses matrimônios corroídos pela monotonia.

Lembro-me do Gilberto e da Cida. Acompanhei as suas vidas desde o início do casamento. Amavam-se muito. Gilberto, jovem advogado que achava lindíssima a sua "Cidinha", trabalhou muito e prosperou. Aconselhava-se espiritualmente comigo.

Depois de catorze anos de casamento, Gilberto disse-me um dia:

- O meu casamento entrou em crise. Morro de tédio e monotonia. Todos os dias, quando me levanto, vejo a Cida despenteada, sem se arrumar, horrorosa, com os pés enfiados nuns chinelos horríveis que não troca faz quinze anos, arrastando-se pelos corredores, cansada... Abro a porta do quarto e encontro as crianças, que já são adolescentes, discutindo, brigando... A minha casa parece um zoológico...

"Depois, chego ao escritório e encontro lá a Mônica, uma estagiária. O panorama muda da água para o vinho. Ela é encantadora. Acho que tem uma queda por mim... Aproxima-se, charmosa...: "O senhor parece cansado...; não quer que lhe traga uma aspirina com uma coca-cola?" E afasta-se com um andar cadenciado que me arrebata... Estou perdendo a cabeça... Em casa, sinto-me acorrentado... Tenho necessidade de libertar-me. Por que condenar-me à prisão de um amor que já morreu? O contraste entre a Mônica e a Cidinha é muito forte... Não sei, não... O que me aconselha?...

- Eu lhe daria quatro conselhos - respondi -, mas preciso antes que você me diga se está disposto a cumpri-los.

- Sempre aceitei e pratiquei os seus conselhos, e não é agora, neste momento crítico, que deixarei de segui-los! - O primeiro - prossegui -, é que mande embora a estagiária...

- Não! Isso não!!

- Prometeu seguir os meus conselhos... Ao menos, dê-lhe trinta dias de férias remuneradas...

- Isso sim, posso fazer...

- Em segundo lugar - acrescentei -, leve o seu filho mais velho à igreja em que você se casou, e, diante do altar e do sacrário onde você prometeu à Cida que a amaria até que a morte os separasse, diga ao seu filho que pensa trocar a mãe dele pela Mônica... Já imaginou o que lhe responderá esse seu filho, que lhe parece um "bicho do zoológico", mas que ama o pai mais do que tudo no mundo? Quer que lhe diga?: "Pai, esperaria qualquer coisa de você, menos que fizesse uma cachorrada dessas com a minha mãe"...

- O senhor está sendo duro demais - retrucou o meu amigo.

- Não. Pense que estou apenas adiantando o que, muito provavelmente, lhe dirá o seu filho...
"Terceiro conselho: olhe a Cida com outros olhos, como a mãe dos seus filhos, como aquela que perdeu a juventude e a beleza ao seu lado, que já fez o papel de enfermei ra - quantos remédios ela já não lhe levou à cama! -, mãe e companheira amorosa; e, especialmente, recomendo que aprofunde mais na sua vida espiritual, que está muito desleixada: daí tirará forças. E, por último, antes de ter essa conversa com o seu filho, espere que eu fale com a Cida... Diga-lhe que marque uma hora comigo...

Veio a Cida, toda inocente, desarrumada, despenteada:
- Cida, por favor, arrume a "fachada" e... compre outros chinelos!

A Cida era inteligente. Foi ao cabeleireiro, comprou roupas novas, uns chinelos novos, tornou-se mais carinhosa com o Gilberto, preparou as "comidinhas" de que ele gostava... e terminou "reconquistando" o marido.

Quando a Mônica voltou de férias, o Gilberto dispensou-a sumariamente.

Hoje, Gilberto e Cida são muitos felizes. O filho mais velho formou-se em Engenharia. Nem suspeita de nada. Continua adorando o pai, como os demais irmãos. Mui tas vezes penso o que teria acontecido a essa família se o Gilberto se tivesse deixado enfeitiçar pelo canto da sereia.

É evidente que nem o marido nem a mulher devem permitir esse desgaste. A monotonia densa, pesada, que torna a vida uniforme, insípida, tediosa, insustentável, venenosa, reclama clamorosamente uma renovação.

Outra recordação que talvez seja útil. Um amigo veio-me fazer uma confidência sobre as "amarguras" do seu casamento:

- A Elizabeth está esquisita, anda queíxando-se continuamente de stress; sente-se abafada dentro de casa; diz que não tem horizontes...

- Mas ela era alegre, animada, esportista... Por que você não tem a coragem de perguntar-lhe à queima-roupa: "Que você gostaria de fazer um dia qualquer deste mês? Diga, por favor, rapidinho"...

Ele fez a experiência e ficou "bobo":

- Ela começou a pular e rir como uma criança... "Você fala a sério? Eu quero ir à praia de Búzios e comer uma suculenta peixada depois daquele banho de mar, no mes mo quiosque onde nós íamos namorar..." Quando eu concordei, rindo, foi como se o véu da desmotivação que cobria o seu rosto caísse por terra num instante. Fomos à praia, almoçamos como quando éramos namorados... e regamos a "peixada" com uma cerveja geladinha... O senhor quer saber de uma coisa? Ela não arreda pé ... Cada trinta dias me pergunta: "Vamos a Búzios?" Faz dois meses que não discutimos. Ela está muito bem disposta... parece que o cansaço acabou...

Renovar-se ou morrer, dizem os franceses; é preciso superar essa seqüência cinzenta de dias e semanas; é mister uma renovação de idéias, projetos e programas de vida, introduzindo em cada semana uma pequena novidade, um passeio, um jantar fora de casa, um "dia azul"... e a cada biênio um novo roteiro de férias, uma pequena reforma na casa; e, para as mulheres especialmente, uma renovação da fachada, do visual, do penteado..., esforçando-se por estar sempre atraentes, dentro de casa ainda mais do que fora, a fim de conquistar e reconquistar o seu marido todos os dias.

Mas o que é mesmo absolutamente necessário é o fortalecimento espiritual. Como já dissemos, é do fundo da alma que brotam, como de uma fonte, novas perspectivas de vida. O Espírito Santo permite, como diz a Sagrada Escritura, que a nossa juventude se renove corno a da águia! (SI 102, 5). Todo o amor genuíno, seja qual for a sua natureza, tem em Deus o seu fulcro e o seu término. Por isso, o problema da monotonia, do cansaço, do desgaste do amor conjugal encontra no amor de Deus o estopim da sua renovação: é o amor a Deus, vivido no meio dos afazeres diários, que dilata as nossas pupilas para que possamos, como Lamartine, encontrar no mar da família perspectivas novas, e no rosto do outro cônjuge os valores esquecidos.

Um caso que ilustra esta verdade. O marido - que já tinha passado dos sessenta, e ela idem - vinha-me dizendo havia anos que não suportava mais a mulher, que con viviam, mas trocavam poucas palavras, e que iam à Missa e faziam as suas orações cada um por sua conta. Mas ele sofria com esse seu modo de ser, pouco flexível em questões domésticas, e lutava por vencer-se. Um dia, porém, chegou com um largo sorriso: "Sabe? Desde há um mês, voltamos a rezar juntos, minha mulher e eu". Parece uma bobagem, mas esse gesto comum - rezar juntos - derrubou as barreiras. No início custou, mas pouco a pouco converteu-se no sinal mais claro e mais seguro da reversão de uma crise matrimonial que se vinha arrastando, surda e tristonha, havia décadas.


Fonte: "As crises conjugais", Rafael Llano Cifuentes, Editora Quadrante, São Paulo, 2001, pp.70-76

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Lute pelo sucesso do seu casamento

 

por Armando Correa de Siqueira Neto*

Há uma considerável lista de fatores que contribuem para os problemas conjugais, que vão desde dificuldades financeiras até a incompatibilidade de gênios. Entretanto, o que será considerado aqui é a formação de apego afetivo.
Desde bem pequenos os seres humanos têm a necessidade de cuidados por parte de outrem. Durante o período de formação da personalidade existem algumas circunstâncias fundamentais a serem desenvolvidas. O vínculo afetivo é um elemento primordial nesta categoria. Ele é básico. Do latim, vinculum: atadura, laço, aquilo que une.
Estudos conceituam o vínculo afetivo como sendo fundamental para as relações humanas. Alguns psicólogos acreditam que deve ocorrer algum relacionamento logo no início da vida da criança se quiser que ela forme, mais tarde, vínculos significativos.
O que tem se tornado presente durante a estruturação da personalidade infantil são os contatos superficiais, cuja preocupação localiza-se em prover a criança com alimentos, moradia e escola. Todavia, são insuficientes. E, ainda, muitas mudanças geográficas e/ou trocas constantes de cuidadores dificultam a formação do vínculo.
Posteriormente, na vida adulta, muitos obstáculos nas relações humanas relacionam-se a esta precariedade de vínculo. As pessoas não conseguem perceber este tipo de deficiência em seus relacionamentos. Focalizam os problemas em outras questões, ou ainda, preferem nem tocar no assunto. Há casos em que ignoram a possibilidade de lançar mão de uma psicoterapia.
Entretanto, perde-se a chance de resolver na causa os efeitos de uma convivência difícil.
Nestes casos, especificamente, onde houve uma deficiência na formação de vínculo na infância e as decorrências comprometem os relacionamentos subseqüentes, daremos o nome de Síndrome do Comportamento de Hospedagem ou SCH.
No relacionamento de um casal onde há a presença da SCH, quando entra na rotina da convivência, faz surgir um novo tipo de comportamento. A pessoa age, inconscientemente, de forma semelhante a um hóspede dentro de sua casa. Realiza as suas atividades comuns. No entanto, a sua forma de ser apresenta frieza, ocasionada pelo distanciamento. Aos poucos, vai agindo como se estivesse hospedada na casa, cumprindo com alguns papéis pertinentes, todavia, trata as questões, antes parcimoniosas, de forma independente. Deixa as responsabilidades, sobretudo as domésticas, para o outro cuidar. Onde havia uma atmosfera de cordialidade e doçura, passa a existir um espectro de isolamento e pesar. O outro vai percebendo esta diferença e acaba por se sentir, pouco a pouco, só. A sensação deste isolamento origina-se na forma pela qual a ausência do vínculo se manifesta nesta relação.
As discussões passam a existir com uma freqüência crescente. Os conflitos podem surgir e avoluma-se no processo bola-de-neve. A pouca consciência a respeito da SCH provoca a discórdia entre o casal, atingindo quem estiver por perto nesta convivência, via de regra, os filhos. Lembranças e cobranças de como a vida conjugal era boa anteriormente são lançadas no calor das discussões. Isto faz aquecer ainda mais o desentendimento. Esta é uma situação estressante para o casal, podendo levar os seus envolvidos à depressão e outros males, além da separação.
Este comportamento reflete o quanto o seu portador, inconscientemente, procura manter distância afetiva do outro para que não haja envolvimento.
Por se tratar de uma síndrome enraizada na formação vincular faz-se necessária uma avaliação psicológica. Além de indicar tratamento através de profissional especializado nas relações familiares, objetivando as mudanças terapêuticas necessárias.
Não raro, crê-se que a síndrome nasceu dentro do relacionamento. Todavia, ela foi desencadeada, apenas, durante o convívio. A pessoa não enxerga o problema já antigo. É possível comparar relações anteriores a atual e sentir que há algo semelhante nelas. Contudo, é insuficiente para aceitar a síndrome e o seu tratamento. O jogo de culpa é apenas um instrumento para se defender, na tentativa de diminuir as péssimas sensações diárias. De nada adianta. Só aproxima o casal da separação. Separar, por sua vez, traz de volta o estado de isolamento requerido pela síndrome.
Buscar ajuda especializada é o remédio para este mal. Crer numa solução de poucos recursos como o esperar o tempo como agente de mudanças é dar oportunidade para que se instale a piora da SCH. Uma boa avaliação psicológica pode dar novos rumos às vidas das pessoas que pretendem o convívio.
Dialogar, e, entenda-se bem, conversar com o coração aberto, oferece uma primeira abertura para se compreender a vida do casal. Dar o primeiro passo pode modificar aquilo que já era considerado algo inevitável, como a separação. Há uma necessidade de crescimento por parte das pessoas envolvidas. O grau de maturidade determinará o quanto se quer conviver bem. Ambas as partes devem estar dispostas e comprometidas em participar deste processo, apoiando-se.
Cuidar da questão, alterando o comportamento de hospedagem para o de comprometimento afetivo em conjunto permite existir a unidade fundamental das relações conjugais: a dependência equilibrada e necessária do vínculo. Vale a pena lutar com vontade, ajuda e conhecimento.



* Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo e psicoterapeuta. Desenvolve treinamentos organizacionais e palestras com Psicologia Preventiva e eventos educacionais.

Publicado originalmente no Portal da Família

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Até que a felicidade os separe

 

Silvio Medeiros

Os avós de um amigo meu se divorciaram. Na hora foi difícil acreditar. Como isso soa estranho, não é o tipo de notícia que se ouve todos os dias. De certa forma existe ainda em nossas mentes algo que não consegue aceitar que avós podem se separar. A entidade “avós” resiste no imaginário como uma união inseparável e inquebrantável. Avós divorciados e geladeiras vermelhas, algumas coisas simplesmente não combinam.

Mas pais que se divorciaram, amigos que se divorciaram, parentes que se divorciaram, isso sim soa plausível. Não causa espanto algum. Aliás, ninguém mais escreve sobre isso, já é um assunto old fashion. Parece que o nível de tolerância e compreensão para fracassos matrimoniais é muito mais alto para as gerações atuais.

É verdade que nunca se viu uma crise tão grande no casamento como se vê nos últimos anos. Há mais separações do que casamentos anualmente no Brasil; 30% dos casais se separam antes de um ano de casamento; 50% dos que se separam não duraram três anos. A média final de duração dos casamentos é de 11 anos. E então vemos uma realidade tão repleta de casos assim que a coisa toda se torna banal, normal, um deja vú coletivo.

Mas o fato é que a experiência da separação não tem nada de trivial. Separações são verdadeiras mutilações afetivas/emocionais e morais, das piores pela qual uma pessoa pode passar. Ela carrega consigo uma carga pesada de baixa-estima, de rejeição, um profundo pesar e sensação de fracasso, além de outros efeitos depressivos que poderá acarretar num esvaziamento completo do próprio sentido da vida. Quando existem filhos envolvidos, por mais que os filmes e as novelas tentem maquear, vemos um drama ainda maior: vítimas alheias e inocentes que terão para sempre afetados a construção de seus modelos afetivos, traçados naturalmente na observação ocular de seus pais.

E é aí que a notícia do meu amigo ganha ainda mais relevância: nossos avós não se divorciavam. E ninguém achava estranho. E não se divorciavam num tempo onde muitos casamentos eram arranjados, onde alguns noivos nem se escolhiam, onde o primeiro beijo acontecia depois do “sim” diante do altar. Com minha avó materna foi assim: não escolheu o marido e depois que este morreu, nunca mais se casou, de tanto amor. Não é curioso? Ariano Suassuna, um notório exemplo, casou-se com sua primeira namorada e estão juntos há algumas décadas! Hoje os casais se conhecem, se testam, se escolhem mais livremente, mas seus casamentos não duram mais do que algumas viagens, alguns passeios e algumas dezenas de meses.

Ao que tudo indica o modelo tradicional do casamento, ou o que já foi tradicional, escondia uma enorme sabedoria diante do sentido da vida do casal que precisamos aprender a reconsiderar. Por detrás deste antigo fato de não se escolher com quem casar (pelo menos por parte dos noivos) vemos surgir a eloquência de um pensamento interessante: não se casa para ser feliz. Sim. Parece chocante, mas nada é mais verdadeiro. Basta pensar que o casamento é uma instituição de direito natural do homem voltada para a criação e a manutenção da família. Essa é a sua razão de ser. Ela existe antes de Holywood, antes do romantismo, antes mesmo do Estado, e parte da necessidade da procriação do ser humano e não do “direito de ser feliz”. Aliás, a divisão da humanidade entre homens e mulheres só faz sentido por isso: há que se continuar o ciclo da vida humana. E não só continuar esse ciclo, mas elevá-lo. Sozinhos, somos muito frágeis. Necessitamos de um ambiente de confiança e intimidade, onde não entre a competição e a disputa, onde cada um conduza o outro a felicidade, mesmo que à sua maneira, e onde não entre a possibilidade de ruptura.

Acredito que a frustração de muitos relacionamentos provém desta falsa idéia atual de que o casamento é uma opção, uma escolha pessoal de felicidade. Um mero direito. O significado residual que sobra de tal decisão é um mero contrato que obriga ambas as partes a satisfazer o outro sob pena de troca. Uma idéia que contraria a dignidade humana, que faz do outro o seu direito de satisfação, que subjuga-nos no patamar de coisa que possa ser usurpado. Se existe direito de casar para ser feliz então não existe limite para quantas vezes uma pessoa possa se divorciar ou abandonar uma família.

Não digo que devemos parar de escolher com quem desejamos nos casar, devemos o fazer bem aliás, mas que mudemos o foco do porquê decidimos e queremos nos casar; podemos acabar sendo mais felizes e tendo casamentos mais duradouros. Se tenho noção de que me caso para criar e formar uma família acima de tudo, para entregar à sociedade pessoas maduras, serenas, com virtudes, para afinal de contas deixar ao mundo um legado que valha a pena, então naturalmente a felicidade aparece. Se reconheço que a própria verdade da família traz em sí uma realidade indissolúvel, que irmãos não se divorciam e nem pais se divorciam de seus filhos, que estes não vão ao cartório reconhecer isso, e que portanto manter o amor dispensa a presença emotiva de um sentimento, então o casamento começa a ser mais que um contrato. Nossos avós tiveram sucesso em boa parte por isso: descobriram que laços de união e parentesco não estão atrelados necessariamente a uma emoção, a um sentimento, ou a auto-satisfação, mas ao compromisso de ser família. Eles conseguiram, nós conseguimos também.

Essa maneira de enxergar o casamento pouco tem de atrativa, de sedutora, mas talvez seja a única razoável e sincera o bastante para pelo menos diminuir a frustração e a desilusão que esta geração está enfrentando. Talvez ela faça com que muita gente pense em não se casar, mas quem sabe essa não seja precisamente uma parte da solução? A fundação de uma família não precisa de casais carentes que buscam desesperadamente um preenchimento do vazio de suas vidas, que desejam incentivos fiscais, aceitação social, desconto em planos de saúde etc, mas de pessoas preparadas para os desafios que a sociedade de consumo impõem a quem deseja construir uma pequena comunidade de fraternidade, de respeito mútuo, de valores e de virtudes humanas, maiores e mais nobres do que o desejo de satisfação própria, muito natural, mas convenhamos, muito egoísta.

Se é verdade que quanto maior a luta, mais recompensador é a vitória, então como valherá a pena decider-se todo o dia pelo casamento e pela família.


Silvio Medeiros é premiado  publicitário e graduado em Comunicação Social

Publicado originalmente no Portal da Família