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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Quando as coisas acontecem

 

Por Sem. Vandoir Dal Berto, LC

Já passou o tempo do primeiro beijo. Beijinho pra cá e beijinho pra lá. Cadê aquele abraço? Amor como está você? Agora, só xingões daqui, gritos e discussões de lá. Será que tudo acabou...?

Todas as novelas de amor começam iguais: um olhar, um gesto, uma brincadeirinha. Inicia assim uma estrada a dois. Ela conhece os gostos dele: futebol, carne mal passada... Ele sabe que ela gosta de rosas vermelhas, de comer pizza no restaurante... Nos finais de semana estão juntos, e não só, se possível todos os dias uma ligadinha, uma visitinha rápida, um sms’s.

A doença do primeiro encontro começa quando o namoro não acaba mais, ainda não estamos falando de amor verdadeiro. Do beija-beija sentimental, que perdura por dois ou três anos, até se chegar a uma decisão: e se juntamos nossas trouxas! Dizem que morar na casa dos pais da namorada virou moda. Justifica-se no amor seguro: sei onde está minha filha, com que anda, etc. Tudo sem compromisso, quer dizer, um amor de interesses, justificado nos sentimentos, emoções, aventuras passadas juntos, conveniências. Este tipo de comportamento tem selado, como promessa, um grande fracasso.

A outra opção, a daqueles que sim se casam no papel e diante do Altar, porém na imaturidade da vida. O ponto de partida é a falta de conhecimento de si mesmo e da outra pessoa. A realidade da vida concreta pode surpreender todas as expectativas. Por exemplo, qual a reação do primeiro grito recebido do cônjuge? Ela nunca agiu assim antes! Ou quando o marido chega com cheiro de cerveja: “Nós tínhamos combinado que nada de bebedeiras, não é!” As imagens preconcebidas, o modelo ideal que um fez do outro, não se liga com a realidade.

O início desta atitude é só a ponta do iceberg, ou a bolinha de neve que começa a despencar da montanha. A avalanche mesma vai começar a se produzir. Ainda estamos falando de um amor só de interesses. A avalanche começa a engrossar quando, em seu centro, existe o egoísmo da pessoa. Pensar em si mesmo não é pecado, mas sim abusar do próprio ego. Focaliza-se só os próprios padecimentos, as coisas que devem ser feitas do jeito que eu quero. O ciúme, por exemplo, escraviza na angústia egoística. “Será que meu marido me está traindo?”

Descendo a grande montanha da vida, nos encontramos com outros problemas pessoais: a vaidade. Expressões como: “eu sim faço as coisas”; “eu me sacrifico pelos filhos, enquanto você vagabundeia”. Até mesmo o fato de se achar superior ao outro: “ele está comigo só por que precisa de mim, quer ser sustentado”. Onde já não estão os dois juntos e cada um for por seus interesses pessoais, ali se monta a pior das avalanches: a destruição de uma cidade, a cidade do matrimônio.

Graças a Deus, nem tudo é catástrofe. Sempre há esperança quando se quer construir juntos uma vida inteira. Dificuldades, todos temos, a questão é como administramos essas dificuldades juntos. A sugestão nasce da experiência do amor desinteressado, ou seja, do amor de doação. Daquele amor primeiro que cada dia cresce com ações concretas. É realmente fazer o esforço por pensar no outro: quando se chega cansado do trabalho, ainda assim um esforço por dar um beijinho na esposa, dizer-lhe uma palavrinha de consolo e carinho, dizer que a comida está gostosa...

Claro que isso leva consigo um requisito: a abnegação. Palavra que os jornais, revistas e livros, e até mesmo os dicionários já esqueceram. Contudo, ab-negare: prescindir de alguma coisa negando a si mesmo. Até mesmo algo que se precisa, com tal de fazer feliz o outro, como pode ser deixar de ir jantar com os amigos para estar com a família; definir um tempo durante o trabalho para ligar para a esposa e saber como ela está; a gratidão pela comida que ela preparou... Bobagens, quem sabe, mas seria melhor classificarmos como gestos de amor.

O miolo dessas atitudes é a maturidade com a qual o casal enfrenta uma unidade a dois, que logo se transforma numa família, graças à fecundidade. Seu sucesso é a esperança no amanhã que se concretiza, cada dia, num novo sim ao amor. Quando o querer bem ao outro não aumenta, automaticamente diminui.

Não pode permanecer igual ou indiferente. Quem tem um tesouro sabe apreciar. Valoriza na medida em que conhece o preço da jóia. Pelo contrário, quem joga as pérolas aos porcos é verdadeiramente tolo. Quem trai seu matrimônio é porque no fundo nunca descobriu o seu valor.

Sem. Vandoir Dal Berto, LC
vdalberto@legionaries.org

Fonte: Sociedade Católica

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