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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Nós já sabíamos…

Vejam a matéria da BBC, publicada ontem no portal de notícias G1:

Um estudo publicado pela revista científica “Journal of Family Psychology”, da Associação Americana de Psicologia, sugere que casais que esperam para ter relações sexuais depois do casamento acabam tendo relacionamentos mais estáveis e felizes, além de uma vida sexual mais satisfatória.

Entre os ouvidos para a pesquisa, pessoas que praticaram abstinência até a noite do casamento deram notas 22% mais altas para a estabilidade de seu relacionamento do que os demais.

As notas para a satisfação com o relacionamento também foram 20% mais altas entre os casais que esperaram, assim com as questões sobre qualidade da vida sexual (15% mais altas) e comunicação entre os cônjuges (12% maiores).

Para os casais que ficaram no meio do caminho – tiveram relações sexuais após mais tempo de relacionamento, mas antes do casamento – os benefícios foram cerca de metade daqueles observados nos casais que escolheram a castidade até a noite de núpcias.

Mais de duas mil pessoas participaram da pesquisa, preenchendo um questionário de avaliação de casamento online chamado RELATE, que incluía a pergunta ‘Quando você se tornou sexualmente ativo neste relacionamento?’.

[...] “Independentemente da religiosidade, esperar (para ter relações sexuais) ajuda na formação de melhores processos de comunicação e isso ajuda a melhorar a estabilidade e a satisfação no relacionamento no longo prazo”, diz ele.

“Há muito mais num relacionamento que sexo, mas descobrimos que aqueles que esperaram mais são mais satisfeitos com o aspecto sexual de seu relacionamento.”

O sociólogo Mark Regnerus, da Universidade do Texas, autor do livro Premarital Sex in America, acredita que sexo cedo demais pode realmente atrapalhar o relacionamento.

“Casais que chegam à lua de mel cedo demais – isso é, priorizam o sexo logo no início do relacionamento – frequentemente acabam em relacionamentos mal desenvolvidos em aspectos que tornam as relações estáveis e os cônjuges honestos e confiáveis.”

É mais do mesmo. A ciência dará voltas e voltas para depois afirmar aquilo que há mais de dois mil anos estamos dizendo.

Os chamados “matrimônios de prova”, segundo o qual um casal passa a viver juntos para “experimentarem” a convivência e só depois decidir ou não sobre o autêntico casamento, não respeitam o princípio personalista fundamental de que um ser humano, dada sua altíssima dignidade, jamais pode ser tratado como um instrumento descartável.

Test-drive se faz com carros, não com pessoas.

Fonte: Ignem in Terram

domingo, 14 de novembro de 2010

Cântico dos Cânticos: A Harmonia do Casal

 

O que talvez mais admira e surpreende no Cântico é a harmonia que reina no relacionamento do casal. Que difícil é hoje ter essa paz e perfeito entendimento com o esposo ou o namorado, concordar em tudo, conseguir um amor que não envelhece, uma admiração constante pelo parceiro! Sem dúvida, é chave cumprir os sete mandamentos do matrimônio feliz que comenta Antonio González em opusdeialdia.org (“fala para ela que a amas todos os dias; acostuma perdoar e esquecer seus erros; ama-a como é: olha para suas virtudes e não seus defeitos; surpreende-te a cada dia da possibilidade de tê-la perto; protege o mais valioso, o seu amor; desfruta cada detalhe que tiver contigo e esforça-te por ter a cada dia novos detalhes de amor; cuida dos filhos e permanece aberto à vida: o trabalho e o divertimento não são o nº 1”).

O motivo desta harmonia é que os esposos do Cântico respeitam a dinâmica natural do amor. Vejamos hoje seis elementos desta dinâmica.

O amor deles nasceu com uma sedução por um elemento físico ou espiritual que rouba o coração. Assim falam os noivos no Cântico: “Como és bela, minha amada, como és bela! ... São pombas teus olhos escondidos sob o véu...” (Ct 4,1). A amada reconhece: “Eu sou do meu amado, seu desejo o traz a mim” (Ct 7,11). Para João Paulo II, assim aconteceu desde o encontro do primeiro homem com a primeira mulher: Adão, à vista de Eva, fica estupefato “Ela é carne da minha carne, ossos dos meus ossos” (Gn 2,23).

A este desejo e atração aconteceu uma resposta livre. A mulher aceita e corresponde ao amor. Ela também descobre no homem algo que lhe seduz e compraz: “Meu amado é branco e rosado, saliente entre dez mil” (Ct 5,10). Ela o escolhe entre os outros rapazes que existem na corte. Alguns dias atrás, fui visitar uns amigos, e na frente da casa deles um garoto fazia força sobre uma menina porque queria beijá-la e abraçá-la. Ela resistia, mas se sentia impotente. Neste caso faltava a resposta livre de aceitação.

Em terceiro lugar, encontramos serenidade no relacionamento dos dois amados. Embora o Cântico insista na dimensão erótica, percebemos que o amor deles vai além. Há uma relação profunda, um conhecimento mútuo da personalidade do outro, dos seus gostos, do seu caráter e modo de ser, e eles encontram uma sintonia e harmonia no estarem juntos. Esta dimensão do amor se chama amizade. Eles se aceitaram como são e amam a totalidade da outra pessoa, desconsiderando a sua origem humilde. Eles encontram prazer em estarem juntos e passear pelos campos e vinhas.

Em quarto lugar, o amor se sela com a entrega matrimonial do capítulo 3. O coro pergunta à mulher: “Que é teu amado mais que os outros?” Tem outros rapazes bonitos, mas ela escolheu este entre todos, e a ele doa o seu amor e a sua vida. Por esta escolha, também o rapaz a considera “a mais bonita entre as mulheres”. Como vimos no artigo precedente, eles se doam mutuamente: sou teu, sou tua. É o nível do amor de benevolência, de ágape.

A dinâmica do amor é também da experiência da busca e da perda. No amor humano não existe a possibilidade da inseparabilidade. E isso é um bem do amor. O que faz crescer o amor não é só a presença do amado, mas também a sua falta. A falta do amado gera a busca, a busca o gozo do encontro e da união. Lembremos os dois episódios da esposa buscando na cidade o seu amado, que desapareceu do leito nupcial. A primeira vez o alcança e o agarra com força: “Encontraram-me os guardas que rondavam a cidade: "Vístes o amado da minha alma?" Passando por eles, contudo, encontrei o amado da minha alma. Agarrei-o e não vou soltá-lo, até levá-lo à casa da minha mãe” (Ct 3,3-4). Mas na segunda saída noturna, ela é vista como prostituta e batida com violência pelos mesmos guardas (Ct 5,7).

No relacionamento do casal, é importante deixar-se amar, deixar-se querer, mas também deixar-se buscar. A ausência temporária do amado desenvolve na psicologia uma idealização que faz crescer o amor mútuo: acentua as qualidades da outra pessoa criando uma imagem romântica, desenvolve os motivos do amor. Em efeito, quando gravamos na memória a figura de uma pessoa, não retemos todos os seus elementos, mas aqueles mais característicos que nos chamaram a atenção, e a fantasia os faz mais belos ainda. Esta dimensão da busca, da perda e do reencontro é por isso muito importante. Certamente, uma ausência exagerada não é boa, mas a ausência causada pelo trabalho, pelas exigências da vida nos ajuda a valorizar melhor e aproveitar mais os momentos passados juntos.

Finalmente, o amor é fecundo. Esta dimensão da fecundidade aparece na irmã de Ct 8,8: “Nossa irmã é pequenina e ainda não tem seios; que faremos à nossa irmãzinha quando vierem pedi-la?”. O pedido é dirigido aos pais da moça, e por isso interpretamos esta menina como filha do casal. É chamada irmã para expressar a co-naturalidade com eles. Porque do mesmo modo que dois irmãos são parecidos, assim também a imagem dos pais aparece nos traços da filha. O amor é intrinsecamente e necessariamente fecundo, e os filhos expressão tal fecundidade.

O casal vive com naturalidade cada uma das características e dimensões do amor, e por isso consegue a harmonia mútua: a dimensão física e afetiva, a renúncia de si, a escolha exclusiva do outro, a dimensão da busca e do encontro, a fecundidade. Um modelo para a nossa vida, para o nosso amor mútuo nunca envelhecer.

No próximo artigo, concluiremos a exposição do Cântico dos cânticos explicando porque os noivos são apresentados com uma terminologia tripla: irmão-irmã, amado-amada, esposo-esposa.

***Sobre o autor: Pe. Daniel Guindon, LC, formado no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum de Roma, é atualmente professor de teologia moral sexual no seminário Maria Mater Ecclesiae de São Paulo.

domingo, 7 de novembro de 2010

Investindo no relacionamento: pequenas gentilezas

 

Hoje eu li no blog da minha amiga Stella sobre como devemos “[…] investir em nossos relacionamentos, avivar a paixão, olhando verdadeiramente para aquela pessoa com quem nos comprometemos e é nosso verdadeiro grande amor. Nós mulheres muitas vezes procuramos na tela do cinema ou nos romances o que poderíamos estar vivendo em nosso próprio lar.”

Ela segue narrando:

“Pois o meu amor hoje arrumou nossa cama, enquanto eu saía para fazer algumas compras no bairro. Antes mesmo de entrar no quarto, já pude ver a colcha esticada e as almofadas bem dispostas. Ele se importa comigo e me cumula de gentilezas há 37 anos. Sei que não poderia ter escolhido parceiro melhor!”

Esposas, valorizem as pequenas gentilezas… e atenção maridos, aprendam né ! rsrsrsrsrsrsrs

sábado, 30 de outubro de 2010

Eu sou do meu amado, e meu amado é meu

Por Pe. Daniel Guindon, LC

Há dois anos acompanhei espiritualmente um acampamento de meninas italianas entre 9 e 10 anos na região do Lazio. É a idade própria da “amiga do coração” (l’amica del cuore). Elas escolhem uma amiga, e esta só pode ser dela, não pode pertencer a mais ninguém. Aconteceu que depois de vários dias algumas delas romperam com a “amiga do coração” por diversos motivos triviais, e começou a reinar uma grande fofoca no acampamento. As animadoras, já não sabendo o que fazer, pediram-me para conversar com elas sobre a virtude da caridade e sobre o valor do perdão e da reconciliação.

Esta concepção do amor como possessão faz parte do processo psicológico de amadurecimento da pessoa humana. A criança concebe o mundo de maneira egocêntrica, onde ele quer tudo para si e tem dificuldade para partilhar. Já na adolescência, vai aprendendo a respeitar os amigos e a não mais tratá-los como objetos. Porém, hoje em dia, ao analisar o relacionamento dos namorados, vemos com frequência o amado tratar o parceiro como um objeto de estimação ou de luxo. O garoto gosta de passear com a sua namorada diante dos companheiros para ostentá-la. Isso acontece porque vivem um amor de possessão; eles estão ainda na fase do amor na qual eu sou mais importante que o outro, e o parceiro é um objeto que me pertence.

O Cântico nos apresenta uma forma diversa de amor. O relacionamento não se caracteriza pela possessão, mas pela doação. A amada diz: “eu sou do meu amado, e meu amado é meu” (Ct 6,3). A pertença não é por apropriação, mas por doação. Antes de possuir o seu amado, ela se entrega a ele. Esta frase aparece duas vezes no Cântico, e outra vez de forma incompleta: em 2,16; 6,3 e 7,11.

Para muitos hoje o amor é paixão. A paixão enlouquece e impulsiona a pessoa a se apadroar de quem o atrai, sem respeitar a sua liberdade. É o que indicam os estupros e os atos de pedofilia. Ou sem chegar a estes extremos, a paixão leva a comportamentos violentos entre os parceiros.

Duas pessoas que entendem iniciar a aventura do matrimônio precisam se prometer, se manifestar e viver um grau maior de amor. Somente baseados no amor de ágape, a vida deles terá êxito.

O Cântico ilustra magnificamente este amor baseado na liberdade e na mútua doação. Em 5,2 ss, mostra uma cena romântica no campo. A amada mora numa casinha de verão no meio do jardim. De noite, impulsionado pela sua paixão, o amado chega até lá e bate à porta. Como ela demora em abrir, ele tenta forçar a porta. Coloca o dedo na fenda, mas sem êxito. A noiva se incorpora no seu leito, indecisa. A sua liberdade é a chave do encontro. Somente se ela se entregar a ele, se ela abrir a porta da casa que simboliza seu coração, acontecerá a união nupcial. O Cântico respeita o dinamismo da liberdade e do autêntico amor. Depois de um tempo, ela se decide, coloca seu vestido e abre a porta. Mas o noivo sumiu! A união não acontece mais porque o noivo renunciou, porque ele retirou a entrega de si mesmo. O amor unitivo é fruto de duas liberdades que se encontram e se doam.

“Eu sou de meu amado e meu amado é meu”. Além da entrega consciente e livre, esta frase expressa a irreversibilidade do relacionamento matrimonial. A entrega de um presente é definitiva. Não se dá algo para depois apropriar-se dele novamente. No Cântico percebemos a fidelidade dos esposos. Não há mulher mais bonita, não há marido mais atrativo. O amor não envelhece porque não é baseado somente no atrativo físico, mas porque os esposos cultivam uma amizade sincera, renovam constantemente os gestos de amor e se respeitam na manifestação do seu amor. Eles perseveram no amor porque são coerentes com a entrega mútua que eles fizeram, e receberam esta entrega no respeito, não como um objeto de possessão, mas como um bem precioso, uma pessoa, um sujeito espiritual que tem a mesma dignidade que si mesmo.

É este tipo de relacionamento no amor que a sociedade de hoje precisa redescobrir. É urgente reencontrar o equilíbrio entre eros e ethos, entre o amor apaixonado e a liberdade alheia. Somente sobre a entrega mútua de duas vontades livres pode se basear um matrimônio feliz e duradouro. O amor de ágape, o amor generoso e desinteressado é a raiz da vida nupcial. No próximo artigo, falaremos amplamente sobre a harmonia do casal do Cântico.


***Sobre o autor: Pe. Daniel Guindon, LC, formado no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum de Roma, é atualmente professor de teologia moral sexual no seminário Maria Mater Ecclesiae de São Paulo.

sábado, 23 de outubro de 2010

São Josemaría fala sobre o Matrimônio Cristão

 

Trecho de entrevista de São Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei, concedida a Pilar Salcedo, Diretora da revista feminina Telva (Madri, Espanha), em 1º de março de 1968.

Na homilia que pronunciou em Pamplona no mês de outubro passado, durante a Missa que celebrou por ocasião da Assembléia dos Amigos da Universidade de Navarra, o senhor falou do amor humano com palavras que nos comoveram. Muitas leitoras nos escreveram comentando a impressão que sentiram ao ouvi-lo falar assim. Poderia dizernos quais são os valores mais importantes do matrimônio cristão?

Vou falar de uma coisa que conheço bem, e que é da minha experiência sacerdotal, de muitos e em muitos países. A maior parte dos membros do Opus Dei vive no estado matrimonial e, para eles, o amor humano e os deveres conjugais fazem parte da vocação divina. O Opus Dei fez do matrimônio um caminho divino, uma vocação; e isto tem muitas conseqüências para a santificação pessoal e para o apostolado. Há quase quarenta anos que venho pregando o sentido vocacional do matrimônio. Que olhos cheios de luz vi mais de uma vez quando — julgando eles e elas incompatíveis em sua vida e entrega a Deus e um amor humano nobre e limpo –, me ouviam dizer que o matrimônio é um caminho divino na terra!

O matrimônio existe para que aqueles que o contraem se santifiquem através dele: para isso os cônjuges têm uma graça especial conferida pelo sacramento instituído por Jesus Cristo. Quem é chamado ao estado matrimonial encontra nesse estado — com a graça de Deus — tudo o que necessita para ser santo, para se identificar cada dia mais com Jesus Cristo, e para levar ao Senhor as pessoas com quem convive.

Por isso penso sempre com esperança e com carinho nos lares cristãos, em todas as famílias que brotaram do Sacramento do Matrimônio, que são testemunhos luminosos desse grande mistério divino — sacramentum magnum! (Ef 5, 32), sacramento grande — da união e do amor entre Cristo e a sua Igreja. Devemos trabalhar para que essas células cristãs da sociedade nasçam e se desenvolvam com ânsia de santidade, com a consciência de que o sacramento inicial — o batismo — confere já a todos os cristãos uma missão divina, que cada um deve cumprir no seu próprio caminho.

Os esposos cristãos devem ter a consciência de que são chamados a santificar-se santificando, de que são chamados a ser apóstolos, e de que seu primeiro apostolado está no lar. Devem compreender a obra sobrenatural que supõe a fundação de uma família, a educação dos filhos, a irradiação cristã na sociedade. Desta consciência da própria missão dependem, em grande parte, a eficácia e o êxito da sua vida: a sua felicidade.

Mas não esqueçam que o segredo da felicidade conjugal está no quotidiano, não em sonhos. Está em encontrar a alegria escondida de chegarem ao lar; no trato afetuoso com os filhos; no trabalho de todos os dias, em que toda a família colabora; no bom-humor perante as dificuldades, que é preciso enfrentar com esportividade; e também no aproveitamento de todos os avanços que nos proporciona a civilização, para tornar a casa agradável, a vida mais simples, a formação mais eficaz.

Àqueles que foram chamados por Deus para formar um lar, digo constantemente que se amem sempre, que se amem com aquele amor entusiasmado que tinham quando eram noivos. Pobre conceito tem do matrimônio — que é um sacramento, um ideal e uma vocação — quem pensa que a alegria acaba quando começam as penas e os contratempos que a vida sempre traz consigo. Aí é que o amor se torna forte. As enxurradas das mágoas e das contrariedades não são capazes de afogar o verdadeiro amor: une mais o sacrifício generosamente partilhado. Como diz a Escritura, aquae multae —- as muitas dificuldades, físicas e morais — non potuerunt extinguere caritatem (Ct 8, 7) — não poderão apagar o carinho.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Porque se arrastam os noivados e se atrasam os casamentos?

 

Volta a estar na moda as pessoas casarem-se, mas da maneira adequada a uma sociedade de consumo, o que tem como consequência que muitos se casem tarde e mal.

Não é raro ouvirem-se comentários como este: “Quem diria! Fulano e fulana, depois de catorze anos de noivado, casam-se e no ano seguinte separam-se. Não será por não terem tido tempo para se conhecerem.”

Certamente tiveram tempo para se conhecerem. E até para se aborrecerem de tanto se conhecerem…

Cada caso é um caso no que diz respeito à duração do noivado, mas o mais frequente, hoje em dia, é que os noivos precisem de tantas coisas para se casarem, que quando as conseguem já não ter forças para o principal: amarem-se, criarem uma família, educarem os filhos e educarem-se a eles próprios na interessante aventura de preservar o amor.

No tempo de Cid Campeador – sec.XI – os cavaleiros casavam-se muito jovens; e as donzelas aos doze ou treze anos, assim que chegavam à puberdade.
Não tinham problemas de casa. As pessoas construíam uma casa em pouco mais de um mês com ajuda dos vizinhos; nessa altura para viver só precisavam de quatro paredes e um tecto. O chão era de terra batida e não tinham canalização, nem electricidade, nem os diversos artigos de luxo que existem nas modernas habitações da actual sociedade de consumo.

Quatro séculos depois, no XVI, as coisa não tinham mudado muito e, quando muito, a idade de casar atrasa-se um par de anos. A mãe de Teresa de Jesus, a encantadora dona Beatriz de Ahumada, casou com treze anos e conseguiu ter dez filhos. Catarina de Aragão, aquela que com o tempo veio a ser esposa legítima do temível Henrique VIII de Inglaterra, tinha casado anteriormente com o irmão mais velho, o príncipe Artur, tendo ambos à volta de quinze anos, e causou grande espanto que não tivessem conseguido consumar o matrimónio, coisa que foi atribuída a doença do príncipe, que morreu um ano depois.

No século XIX as coisas mantiveram-se dentro de termos razoáveis, e as donzelas casam com dezessete, dezoito, ou com o máximo dezenove anos. O desastre surgiu em meados do século XX, século no qual, não tendo decorrido muito tempo, os casamentos se atrasam de tal forma – uma média de dez anos – que as donzelas têm muito poucas possibilidades de o continuarem a ser quando chega a altura de casarem.

Porque se arrastam tanto os noivados e se atrasam os casamentos?

Porque hoje em dia os contraentes entendem que o amor, para que não murche, deve estar devidamente enquadrado: casa, carro/s, televisão, vídeo, aparelhagem musical, viagem de núpcias transatlântica, etc..?

Consequência: necessidades milionárias para a celebração e para a sua posterior manutenção.

Insisto em que convém chegar ao casamento com uma boa bagagem de” ilusões e não as ir gastando durante o noivado. E, claro, com um certo espirito de Sacrifício. Aos noivos que se acostumam a um noivado longo, ambos com carro à porta, jantares em restaurantes de moda,cada vez lhes custa mais dar o passo em frente.

Perderam o encanto…Afinal, tudo tem seu tempo!

José Luis Olaizola

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Corpo e coração no Cântico dos cânticos

Por Pe. Daniel Guindon L.C

Quero falar hoje de dois protagonistas especiais do Cântico dos cânticos: trata-se do corpo e do coração.

Podemos ficar impressionados, lendo o Cântico, da descrição sensual e erótica da relação de amor entre os dois protagonistas. Trata-se de um amor humano, e o autor não quer negá-lo: um amor concreto, vivo, apaixonado, erótico. Ele descreve o que desperta o amor do outro: o seu corpo, a sua beleza física; desperta o amor como paixão ou brama . Expõe também o que os esposos ou noivos sentem na presença do amado, e os seus sentimentos na ausência do ser querido. Expressa com imagens a união conjugal.

Precisamos neste momento entender a linguagem semítica. Na língua dos semitas, os conceitos abstratos eram expressos através de palavras muito concretas e plásticas. Por exemplo, para expressar o conceito de fé ou de verdade se acostumava utilizar a palavra ‘emet’, que tem o significado de ‘solidez’ ou ‘rocha’.

Assim, no nosso poema, a palavra ‘corpo’ não se limita ao significado da carne humana, mas se refere à totalidade do homem, incluindo a sua alma. Contemplando o corpo da sua amada, o namorado vê toda a pessoa dela; ele atribui a beleza também a sua alma porque o corpo é sacramento de toda a pessoa, como explicamos nos artigos anteriores. O amor que suscita esta contemplação não é cego e irracional, mas um amor bem consciente e por isso mesmo casto. Um amor que se concretiza na mútua doação realizada no matrimônio ao capítulo três. O esposo contempla o corpo da donzela que lhe pertence, e seu olhar é puro porque respeita a verdade.

O problema de nossa sociedade hodierna, explica Bento XVI na Deus Caritas Est, é que quer que o amor seja fruto somente de uma paixão, de um embriagamento divino, e por isso que seja sem compromisso. Tudo seria lícito com a condição das duas pessoas atuarem de livre vontade. A nossa sociedade não quer associar a dimensão de doação e de compromisso ao ato de amor entre duas pessoas.

O respeito pela verdade do amor faz com que o Cântico não seja censurável como eram os poemas egípcios e babilônicos: o amor não é por um objeto material – o corpo -, mas para toda a pessoa.

Com esta explicação podemos agora nos aproximar do texto sagrado e valorizar as palavras dos dois namorados. Eles estão extasiados diante do corpo físico do parceiro, mas com uma visão realmente sacramental. O que se diz do corpo vale para todo o sujeito.

1 Como és bela, minha amada, como és bela! ...
São pombas teus olhos escondidos sob o véu.
Teu cabelo ... um rebanho de cabras ondulando pelas faldas de Galaad.
2 Teus dentes ... um rebanho tosquiado subindo após o banho,
cada ovelha com seus gêmeos, nenhuma delas sem cria.
3 Teus lábios são fita vermelha, tua fala melodiosa;
metades de romã são teus seios mergulhados sob o véu.
4 Teu pescoço é a torre de Davi, construído com defesas;
dela pendem mil escudos e armaduras dos heróis.
5 Teus seios são dois filhotes, filhos gêmeos de gazela,
pastando entre açucenas. (Ct 4,1-5)


O Cântico não nega a verdade, e a visão cristã e humana da sexualidade, seguindo este texto revelado, também não. O corpo está na origem do amor humano e na essência mesma do amor matrimonial. É o atrativo físico que suscita a aproximação dos namorados, e é o ato conjugal dos esposos que consuma o matrimônio ratificado diante das testemunhas. Embora o corpo, com o passar dos anos, vai perdendo o vigor e o seu charme, ele precisa ser cuidado para sempre espelhar a beleza interior da pessoa. Porque o amor nunca será platônico, mas sempre para uma pessoa de carne e ossos. A explicação que nós estamos dando justifica as palavras que seguem aos versículos já citados. A amada é toda bela não tanto porque não tem nenhum defeito físico, mas a causa da sua interioridade.

7 És toda bela, minha amada, e não tens um só defeito!
8 Vem do Líbano, noiva minha, vem do Líbano
e faz tua entrada comigo.
Desce do alto do Amaná, do cume do Sanir e do Hermon,
esconderijo dos leões, montes onde rondam as panteras.
9 Roubaste meu coração, minha írmã, o noiva minha,
roubaste meu coração com um só dos teus olhares,
uma volta dos colares. (Ct 4, 7-9)
O texto nos introduz ao segundo protagonista, o coração. A palavra aparece cinco vezes no Cântico. Hoje entendemos o coração como órgão que faz circular o sangue, ou, na linguagem poética, é o sentimento de amor das nossas entranhas. O autor sagrado não o entende assim. Coração é a palavra usada para significar a alma da pessoa. A alma é a sede da inteligência, é o centro da pessoa. Quando o amado diz que a noiva roubou seu coração, quer dizer: “roubaste minha alma, o centro do meu ser, toda a minha vida”.

Existe unidade entre corpo e coração. O corpo exprime com seus gestos o que o coração sente; e o corpo da amada põe em movimento o coração do noivo. Ele se aproxima dela e a experiência do seu amor cresce. Não é só a vista que se regozija da presença da amada, mas também o tacto e o olfato:

10 Que belos são teus amores, minha irmã, noiva minha;
teus amores são melhores do que o vinho,
mais fino que os outros aromas
é o odor dos teus perfumes.
11 Teus lábios são favo escorrendo, ó noiva minha,
tens leite e mel sob a língua,
e o perfume de tuas roupas é como a fragrância do Líbano. (Ct 4,10-11)

O amado se aproxima dela porque ela consente. É um amor realizado na liberdade. O esposo se dá conta que sua amada é um jardim fechado. Somente se ela abrir a porta ele poderá entrar. Os esposos vivem o amor no respeito e da doação mútuos. Ela diz ao versículo 16: “Entre o meu amado em seu jardim e coma de seus frutos saborosos!” E então ele se une a ela.

12 És jardim fechado, minha irmã, noiva minha,
és jardim, fechado, uma fonte lacrada.
A AMADA
16 Desperta, vento norte, aproxima-te, vento sul,
soprai no meu jardim para espalhar seus perfumes.
Entre o meu amado em seu jardim
e coma de seus frutos saborosos! (Ct 4,12.16)


Mais adiante, quando o amado vai visitá-la de noite, a noiva diz: “eu dormia, mas meu coração velava” (Ct 5,2). O verdadeiro amor dos esposos nunca dorme; sempre está em vela. A separação, quando física, nunca é espiritual. A alma sempre voa onde está o amado. Esta é a experiência de quem não deixou morrer o seu amor.

Finalmente, no último capítulo, o amado pede para ela: “grava-me como um selo em teu coração” (Ct 8,6). O amor é para sempre. É como um selo, uma tatuagem: uma vez gravado, não dá mais para tirar. Está gravado na alma, na dimensão espiritual da pessoa, naquilo que é mais profundo no homem. O matrimônio faz do homem e da mulher uma só carne. “O que Deus uniu, o homem não separe”.

Vemos assim quanto é belo o amor dos esposos, dos noivos e dos namorados quando se respeita a verdade inserida no coração humano. A linguagem do amor é muito rica, possui expressões próprias segundo o compromisso dos parceiros. A maturidade deles consiste em encontrar a expressão adequada, que respeite a verdade do seu compromisso. Porque os gestos do amor conjugal são diversos das manifestações de amor de dois namorados ou dos noivos.

No próximo artigo, irei falar mais sobre a linguagem corporal apresentada no Cântico.

***Sobre o autor: Pe. Daniel Guindon, LC, formado no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum de Roma, é atualmente professor de teologia moral sexual no seminário Maria Mater Ecclesiae de São Paulo.

sábado, 11 de setembro de 2010

A linguagem amorosa no Cântico dos cânticos


Por Pe. Daniel Guindon LC

O Cântico dos Cânticos é um livro sapiencial de valor ainda subestimado. O título significa: “o cântico por excelência” ou “o cântico mais lindo”. Ele canta o amor humano como era vivido no momento da Criação do homem e da mulher, quer dizer, antes do pecado; um amor cheio de charme, englobando as três esferas humanas: física, emocional e espiritual.
Parece ser que o Cântico fora escrito ao redor do ano 450 a.C, inspirando-se no casamento entre o rei Salomão e a filha do Faraó. É composto de dez poemas de amor que descrevem a relação amorosa entre dois noivos ou jovens esposos.
João Paulo II dedicou seis catequeses para explicar o amor conjugal apresentado pelo Cântico, a partir de 20 de maio de 1984. Os temas que ele tratou foram os seguintes: o corpo como sinal do sacramento do matrimônio; a linguagem do corpo; as dimensões do amor esponsal; a verdade do amor que respeita a subjetividade recíproca; a tensão entre eros e ágape no amor; e finalmente, a ética do amor.
Eu também quero dedicar alguns artigos para colocar aos leitores um desafio: viver seu amor conjugal ou de namorados com a mesma intensidade e pureza dos dois moços do Cântico. Hoje, quero iniciar apresentando a linguagem amorosa deste poema.
O que talvez mais surpreenda o leitor ao mergulhar neste poema é a plasticidade da linguagem amorosa dos dois namorados (ou esposos, porque o autor não faz uma distinção clara). Eles não economizam palavras. Assim começa o texto:

O mais belo cântico de Salomão:
A AMADA: Beija-me com beijos de tua boca!
Teus amores são melhores do que o vinho,
O odor dos teus perfumes é suave,
teu nome é como um óleo escorrendo,
e as donzelas, se enamoram de ti ...
Arrasta-me contigo, corramos!
Leva-me, ó rei, aos teus aposentos
e exultemos! Alegremo-nos em ti!
Mais que ao vinho, celebremos teus amores!
Com razão se enamoram de ti...

O que está fazendo o autor: cantando o amor livre, bandeira da revolução cultural do ’68? Este livro justifica as relações pré-matrimoniais, o estatuto das pessoas que vivem amigadas? Não! Na cultura hebraica, depois do pai da noiva apresentar para o noivo a sua filha, eles viviam juntos durante um ano, e depois disto se formalizava a união com o casamento e a bênção do sacerdote. Esta celebração do casamento é simbolizada em Ct. 3,6 ss, onde o escritor descreve a procissão de Salomão sentado em uma liteira. Para o Cântico, como disse no começo, não existe pecado, e por isso toda união entre homem e mulher é por si matrimônio. Ao se entregarem um para o outro é um compromisso definitivo. Por isso o uso aleatório e indistinto no texto das palavras esposos e noivos.
O amor é belo, é doce. Os amantes experimentam o amor em toda a sua riqueza: são beijos, abraços, carícias, suspiros, união íntima, palavras de carinho, olhares tenros, encontros noturnos. Eles encontram todo tipo de palavras para falar do outro. A esposa é um lírio, um jumento, uma pomba, uma irmã, uma noiva, um vergel, um jardim fechado, uma fonte lacrada, a mulher mais bonita, como a lua e o sol. O esposo é um rei, uma macieira, um gamo, um filhote de gazela, o amado de seu coração, um irmão, uma videira.
Eles valorizam a beleza corporal, que é caminho natural para a sedução do coração. Eles gostam de se contemplar, e cada um busca as comparações mais originais para descrever quem seu coração ama. Eis como se exprime o esposo em relação a sua amada:

Roubaste meu coração,
minha irmã, o noiva minha,
roubaste meu coração
com um só dos teus olhares,
uma volta dos colares.
Que belos são teus amores,
minha irmã, noiva minha;
teus amores são melhores do que o vinho,
mais fino que os outros aromas
é o odor dos teus perfumes.
Teus lábios são favo escorrendo,
ó noiva minha,
tens leite e mel sob a língua,
e o perfume de tuas roupas
é como a fragrância do Líbano. (Ct. 4, 9-11)

O modelo de amor que o Cântico apresenta é um amor que não envelhece. O amor é composto de uma dinâmica cíclica: a tensão da busca e a alegria do encontro e da união íntima. Eles não podem permanecer sempre juntos, e se buscam continuamente. Às vezes não se encontram, e isto faz crescer o desejo do outro (acompanhado de certa angústia). São oito capítulos quem têm um início, mas não parecem ter fim, pois quando acaba o último versículo, é tempo para voltar ao primeiro.
Eu convido meus leitores a analisar sua relação com o esposo/a ou o namorado/a. Existe o mesmo encanto? Por que a rotina? Não será em parte porque perderam a riqueza da linguagem amorosa, dos gestos, dos detalhes de amor? Talvez a falta de pureza, a concupiscência e o egoísmo ofuscam o amor. O Cântico apresenta um amor de entrega, de doação: “eu sou do meu amado, seu desejo o traz a mim”. É esta doação mútua, esta entrega recíproca que faz o amor forte como a morte, como sinete no braço.

Grava-me, como um selo em teu coração,
como um selo em teu braço;
pois o amor é forte, é como a morte!
Cruel como o abismo é a paixão;
suas chamas são chamas de fogo
uma faísca de Iahweh!
As águas da torrente jamais poderão apagar o amor,
nem os rios afogá-lo.
Quisesse alguém dar tudo o que tem para comprar o amor...
Seria tratado com desprezo. (Ct. 8, 6-7)


***Sobre o autor: Pe. Daniel Guindon, LC, formado no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum de Roma, é atualmente professor de teologia moral sexual no seminário Maria Mater Ecclesiae de São Paulo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Aceitação é fundamental

«Convém que nos alarguemos sobre uma ou outra dificuldade da vida conjugal que todos os esposos encontram e devem superar.

A primeira, fundamental, é que nunca a união total, fim e ideal do matrimónio, pode ser plenamente realizada. Porque nunca um ser humano é exactamente o complemento de um outro; porque nunca dois seres humanos se ajustam perfeitamente; porque é próprio da natureza do homem procurar uma perfeição que na terra se não encontra.

Tudo isto deriva da nossa condição de criaturas, dos nossos limites. E, para começar, nunca dois seres humanos são inteiramente permeáveis um ao outro. Há em cada um de nós uma margem irredutível de incomunicabilidade que nos isola e onde só penetra Deus. Por esse motivo, por melhor que conheçamos a um dos nossos semelhantes, sempre nos pode reservar surpresas: o filho reserva-as aos seus pais, o esposo reserva-as à esposa.

Não é possível um conhecimento mútuo total. Não é possível chegar a compreender-se sem reticências. Cada um de nós possui uma certa qualidade de sentimento, um certo recanto da inteligência que nunca se torna inteligível a outro na sua totalidade. É impossível que dois seres humanos vivam na intimidade do matrimónio sem que um deles tenha esta ou aquela maneira de ver ou de julgar que o outro não compreenda, sem que não haja, ao menos quanto a pormenores, certas diferenças na maneira de apreciar as coisas, sem que se intrometam ligeiros mal entendidos… Os esposos devem aceitar tudo isto, dado que é um fruto da condição humana.

Mais ainda, nenhum de nós é perfeito. Estamos mesmo cheios de defeitos. Não se pode exigir a perfeição do próprio cônjuge, do mesmo modo que não se pode esperar para casar-se ter encontrado um ser perfeito. Os esposos devem tender juntos para a perfeição; devem ajudar-se mutuamente a atingi-la. Se a vida foi dada ao homem para atingir o seu pleno desenvolvimento, isto é, a sua perfeição, e se o matrimónio tem lugar no limiar da vida – para que o homem e a mulher realizem juntos a sua viagem – ele une normalmente dois seres que estão longe de ser perfeitos, que devem tender para a perfeição e tender para ela conjuntamente, que não podem, por conseguinte, pretender ser perfeitos nem exigir do outro que o seja, mas sim empreender generosamente o caminho que têm de percorrer unidos, aceitando-se tal como são.

Há, pois, uma dupla imperfeição no ponto de partida da união: por um lado, os esposos, nem um nem outro, são perfeitos; por outro, as suas personalidades não encaixam exactamente uma na outra. Pode acontecer que, por um acaso feliz, dois jovens se encontrem tão perfeitamente adaptados um ao outro que pareça não terem nenhuma concessão a fazer-se. Mas este caso é absolutamente excepcional. É mais frequente encontrar jovens que se não decidem a casar-se porque os partidos que se lhe oferecem não parecem realizar inteiramente o seu ideal; e o tempo passa; e um dia chega em que passaram já da idade e não realizaram o que devia ter sido a obra da sua vida.

É destino do homem possuir um ideal absoluto, empreender a sua realização, não a conseguir, mas aproximar-se mais ou menos dela. São Paulo comparou a vida a uma corrida em que se tenta alcançar o prémio. Tentar alcançar o prémio é actuar o melhor que se pode. Nem sequer isto é absoluto; consegue-se actuar mais ou menos bem; e é preciso que actuemos o melhor possível. O matrimónio não altera a lei do homem.

Os esposos são dois seres imperfeitos que unem as suas fraquezas a fim de serem juntos menos fracos e de realizar o seu destino, apoiando-se mutuamente, melhor do que o fariam sós. A obra que levam a cabo, a grande obra do lar que constituem, participará das suas virtudes e dos seus defeitos. Ficará com a marca das suas fraquezas e, não obstante, devem empreendê-la, sem se deixarem deter por essas insuficiências, porque uma obra imperfeita nem por isso deixa de ser uma obra, e, se bem que imperfeita, é também perfeita enquanto possui valores de existência, valores reais, valores humanos, valores de vida; não realiza uma perfeição total, não realiza toda a perfeição, mas, ainda que incompleta e reduzida, é, em todo o caso, uma obra, uma obra humana, limitada e imperfeita, como tudo o que sai da mão dos homens, mas uma obra, alguma coisa, algo de belo. Vale mais uma obra imperfeita do que obra nenhuma. O matrimónio não é só uma obra humana e imperfeita, mas também divina e chamada à perfeição, porque instituída pelo próprio Deus para o homem.

Os esposos devem, portanto, aceitar-se. Aceitar que o outro não realize todo o seu sonho, que não tenha exactamente as mesmas tendências e os mesmos gostos. O ser humano é um ser rico; uma personalidade humana tem múltiplos aspectos; e o amor nasce daquilo que se encontra de complementar noutra pessoa em determinado número de pontos; mas não é possível encontrá-lo em todos.

Geralmente, quando o amor desponta, só presta atenção ao que agrada, e, se vê o mais, considera-o de pouca importância. Quando chega, porém, o momento de casarem e viverem juntos, de passarem toda a vida juntos, mil diferenças, de maneira de ver, de educação, de costumes, ameaçam provocar choques ou cisões interiores, se os esposos não estão dispostos a concessões, se o seu amor se não depura, como dissemos já, voltando-se para o bem daquele por cuja felicidade se fizeram fiadores.

Uma rapariga não tem ordem. O seu noivo acha esta desordem encantadora. Mas, uma vez que é marido, irrita-se por encontrar buracos nas peúgas ou por ter de procurar o papel de carta por todos os lados, acabando, afinal, por encontrá-lo junto do açúcar e dos copos, no armário da sala de jantar. Aquele rapaz tem uma rudeza que faz o encanto da sua noiva – porque ela vê nisso o sinal de uma energia viril. Mas quando o marido esvazia os pratos sem se preocupar com o apetite da sua mulher, não pensando em ajudá-la na menor coisa, esta rudeza converte-se em grosseria e perde a sua atracção.

E em ambos os casos, os esposos podem possuir o mesmo ideal moral e católico, ter saído de meios muito parecidos, estarem ambos animados das melhores intenções: cada um deve aceitar o outro tal como é, e trabalhar pacientemente por corrigi-lo dos seus defeitos, sem perder de vista que ninguém se corrige totalmente e que a si próprio se tem de corrigir, tanto como ao outro.»

(Jacques Leclercq, “Casamento e família”, páginas 158 e 159)

Publicado originariamente em: http://a-dignidade-da-mulher-catolica.blogspot.com/2010/09/no-matrimonio-e-fundamental-aceitacao.html

sábado, 28 de agosto de 2010

Ingredientes do Amor

Por Sem. Jauri Strieder, LC

Um fracasso na carreira é desagradável, mas sempre se pode corrigir. No amor, as consequências podem marcar a vida inteira: eis a importância do período do namoro, uma etapa transitória, mas um passo fundamental na vida.

Entre os jovens, se valoriza a espontaneidade e a rapidez nas relações humanas. Trata-se de uma inclinação radicada no mais profundo do coração: toda pessoa sente o desejo de se pôr em contato com os outros, e se realiza quando se dá livremente aos demais. Uma frase, hoje propagada, diz: “tem que se deixar levar pelo amor...”. O amor parece tão fácil de cantar, tão evidente, e apesar de tudo, quantos fracassos!

Facilmente se corre o risco de crer que amar é só desfrutar. Esquecemos da fragilidade humana e de que somos feitos de barro. O amor verdadeiro é aquele que dura e faz feliz. Como diz uma canção do Roberto Carlos: “quando duas pessoas se amam, são as almas que se amam; portanto esse amor é eterno, pra sempre”. O amor autêntico tem sabor de eternidade.

Um jovem apaixonado carrega tantos sentimentos no seu interior: ternura, fascinação, admiração, tristeza pela ausência da pessoa amada... Já escutei tantas frases como estas: “o amor é mais forte do que a morte”, “sem você eu não poderia viver”, etc. São lindas expressões de um apaixonado, mas os sentimentos variam e podem até devorar a vocação ao amor. Quem depende deles, tropeça no caminho sem saber explicar a razão. É preciso distinguir o sentimento do amor: o sentimento acompanha, mas não é o amor. O amor é doação pessoal, é entrega livre àquele que se ama.

À diferença dos animais, Deus nos deu a inteligência e a vontade. Uma pessoa ama o que ela conhece, pois o amor é uma adesão da vontade à outra pessoa. Saber quem é o outro, onde mora, qual é a sua cor preferida, não basta; e pouco adianta se admirar de algumas qualidades isoladas de uma pessoa sem apreciar a sua integridade.

É preciso amar acordado! O amor quer ver a pessoa amada como ela é, inclusive com seus limites e dificuldades. A visão objetiva permite se colocar sobre os problemas e transformá-los em incentivos para lutar na superação dos mesmos. Um ser humano terá sempre imperfeições e sonhar com a perfeição do outro é só isso, um sonho.

A pessoa humana é um ser no amor e para o amor. Deus quer que cada um se dê conta de sua vocação. Tendo em conta a limitação da existência pessoal, o enfoque da vida deve ser Deus, que é a origem e a meta final da nossa vida. Ele é a fonte da vida e do amor, a Ele pertence o universo das alegrias e dos sofrimentos. Os jovens que têm fé apostam por algo mais alto que por si mesmos: enfocam sua vida para Deus.

Santo Agostinho, grande conhecedor do coração humano, advertia que “não existe um convite maior ao amor do que amar primeiro”. Os jovens que estão no período do namoro não podem só se olhar ternamente, mas também devem olhar o futuro.

A garantia de uma vida feliz supõe conhecer-se, aceitar-se e superar-se. É verdade que o amor muda muitas coisas, mas o matrimônio é para toda a vida.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A verdade é politicamente incorreta

 

Leio na Folha de São Paulo de 9 de julho de 2010 (pág. A3), sob o título “Divórcio”, a crítica indignada de uma leitora de Indaiatuba ao artigo de Ives Gandra, publicado na mesma Folha (”Cotidiano” de 8 de julho) e intitulado “O divórcio relâmpago fragiliza ainda mais a família”.

A missivista declara que o autor do artigo está desatualizado: “Informo que a sociedade mudou, hoje pais dividem a guarda dos filhos com suas mães e têm maiores condições emocionais e psicológicas de trazer aos filhos o que, de fato, significa um bom relacionamento. Os filhos não se privam do carinho e do amor de seus pais simplesmente porque estes resolvem tentar ser felizes num relacionamento pleno e satisfatório”.

A missivista quer informar o desavisado articulista. Acontece que eu também tenho alguma coisa a informar. Faz mais de quarenta anos que trabalho, de modo habitual, na orientação e apoio de estudantes, moças e rapazes, entre 12 e 25 anos de idade. Vários milhares de adolescentes e jovens já me contaram as suas alegrias, tristezas, ideais e lutas. Tenho, assim, apalpado diariamente “a vida como ela é”, por isso, tenho podido conhecer os efeitos do divórcio nos filhos: “na veia”, não em livros de sociologia ou psicologia.

Essa longa e vasta experiência me dá condições de afirmar, com conhecimento de causa, que em noventa por centro - pelo menos - dos casos, o divórcio dos pais causou nos filhos um trauma duradouro, provocando-lhes desorientação, amargura e, não raramente, distúrbios psíquicos. Sei que isto é verdade, mas sei também que, nos convencionalismos atuais, não há nada tão politicamente incorreto como a verdade.

Nunca me esquecerei da conversa com uma menina, estudante de colégio, que sofria com a separação dos pais. Ela teve oportunidade de ler os Manuscritos Autobiográficos de Santa Teresinha. Ficou deslumbrada com o ambiente de união e carinho familiar que transparece em cada página dessa autobiografia. Pouco depois da leitura do livro, disse-me com voz impregnada de tristeza: - “Padre, como era linda a família de Santa Teresinha! Eu acho que uma filha de pais separados nunca poderá ser santa…”. Ao ouvir isso, senti um sobressalto, uma punhalada no coração, e respondi-lhe com veemência: - “Claro que poderá, minha filha! Estou certo de que você, com a ajuda de Deus, poderá vir a ser uma grande santa”.

Causa-me muita pena, à vista dessas experiências, ouvir pais de família - obcecados pelas dificuldades da vida -, falarem do seu “direito de serem felizes”, ainda que isso signifique deixar os filhos numa posição ambígua e quase sempre prejudicial. Creio que o mais belo “direito” do casal - como de todos nós, filhos de Deus -é o “dever” de lutar, de entregar-nos, de sacrificar-nos dando-nos cada vez mais para “fazermos felizes” os demais (a começar pelos filhos). E creio ainda que o egoísmo mais ou menos consciente do pai ou da mãe que, em grande número de divórcios, é o que os leva à separação, pode-se tornar facilmente num buraco negro onde se enterra a felicidade própria e a dos filhos.

Não quero nem posso julgar o drama da missivista de Indaiatuba. Seria leviano e injusto formular sobre ela um juízo negativo. Por isso, peço a Deus que a abençoe, que lhe conceda a felicidade que seja possível alcançar nesta terra, e que a ajude também a envolver seus filhos em sentimentos e manifestações de carinho tais, que compensem a privação de um lar unido.

Pe. Francisco Faus

sábado, 10 de julho de 2010

Amar com Vontade

Por Maite Tosta

Devo ter relações com meu marido mesmo sem vontade?

É fato notório que, em geral, homens e mulheres têm necessidades sexuais diferenciadas; os homens estão sempre predispostos ao ato sexual, enquanto que as mulheres nem sempre.

Vários fatores podem reduzir ou mesmo suprimir o desejo feminino. Para citar os mais comuns: preocupações,  cansaço, stress, falta de confiança ou intimidade com o homem, o uso de anticoncepcionais*, oscilações hormonais normais durante o ciclo, alterações hormonais na gravidez, pós-parto e amamentação.

Algumas mulheres casadas relatam passar dias, semanas e até meses negando-se aos seus maridos, pois, dizem, não sentem vontade de ter relações e acham errado fazê-lo assim, “sem vontade”.

Tenho a impressão de que há, no entanto, uma confusão de termos. Vontade é algo racional, uma decisão, o uso de nosso livre-arbítrio. Para fazermos uso de nossa vontade livremente, precisamos nos libertar das paixões, de impulsos, de tudo o que possa escravizar e viciar nossa vontade, a fim de decidir com o intelecto. O que essas mulheres estão chamando de vontade, na realidade é o desejo sexual, a libido.

Através do sacramento do matrimônio, o corpo da mulher passa a pertencer ao marido (e vice-versa). Ao direito-dever do marido e de sua mulher de realizarem entre si o ato sexual chama-se débito conjugal, ou seja, ao se negar ao marido sem justificativa, a mulher está em débito com ele e com a promessa que fez diante do altar.

Quando arrumamos desculpas para evitar a relação sexual, além de enfraquecer o relacionamento entre o casal (por falta do caráter unitivo do ato sexual, bem como de intimidade), deixamos nossos maridos vulneráveis, mais fracos para lutar contra a concupiscência, abrindo brechas para hábitos como a masturbação, vicio em pornografia e, por fim, para o adultério.

Devemos, então, amar nossos maridos com vontade, ou seja, deliberadamente e fruto de uma escolha madura, entregando nossos corpos que pelo sacramento do matrimônio não mais nos pertencem, mas sim a eles.

Lembremos que, para a mulher, mesmo que ela não atinja o clímax a cada ato, o sexo pode ser bom e prazeiroso pela intimidade, pelo carinho e afeto, sendo preservado, portanto, o aspecto unitivo deste.

Importante ressaltar, entretanto, que tomar a decisão de entregar-se ao marido, ainda que com o desejo em baixa, não é deitar e simplesmente deixar-se tocar, como se fosse uma boneca inflável, e sim participar plenamente do ato, interessando-se pelo corpo dele, demonstrando seu afeto com palavras, carícias e beijos. Os homens também gostam de se sentir amados e desejados! A certeza do olhar feminino sobre eles aumenta sua auto-estima e a disposição para enfrentar o mundo.

Uma vez decidida a trabalhar a sexualidade em seu casamento, comece por buscar conhecer o próprio corpo e o seu ciclo (os métodos naturais auxiliam nisso**), a fim de conhecer o seu período fértil,  investigar os motivos da supressão do desejo, a fim de resgatá-lo, ainda que seja necessário uma consulta ao médico (ginecologista) para um diagnóstico preciso, além de cultivar a intimidade entre o casal.

Pode-se cultivar a intimidade multiplicando as demonstrações de afeto entre o casal e criando momentos de lazer a dois, como um cafuné, ver um filme juntinhos e abraçados… igualmente, deve-se procurar fazer do leito conjugal um ambiente propício: deitar-se sempre limpa e cheirosa é um bom começo  - aplica-se também aos maridos!

Alguns homens esquecem que da mesma forma como eles adoram que a esposa esteja toda limpinha e cheirosa, as esposas também não gostam de ser abraçadas pelo marido sem banho, com cheiro de suor, as unhas grandes e pretas de sujeira, bafo de cerveja… eca!  Se o seu marido é desse tipo, e se ele está chegando da rua todo suado, o vá educando…

Ele me procura nos piores momentos, quanto estou nervosa, irritada, com dor de cabeça…

Bom, a melhor pessoa para saber qual é o momento mais indicado é você mesma, não? Que tal fazer o contrário? Quando o nervosismo, irritação e a dor de cabeça te derem uma folga, tome um banho e chame o maridão para ajudar a espalhar o creme hidratante… é uma maneira sutil de tomar a iniciativa… elogie-o quando sair do banho,  em outro momento convide-o para um banho a dois, enfim, mulher, use a sua criatividade !

É possível ser sedutora para o seu marido sem ser vulgar – não há necessidade de apelar. Os homens são excitáveis visualmente: use uma roupa bonita, maquiagem, perfume, acessórios…

Por fim, mas não menos importante – reze. O sacramento do matrimônio confere aos cônjuges as graças atuais necessárias para o seu estado, use esse arsenal sobrenatural a seu favor! Lute pelo seu casamento não só no leito mas também fora dele – peça a ajuda de Nossa Senhora, nosso modelo de mulher, esposa e mãe.

* Sobre  contraceptivos veja aqui.

** Para métodos naturais, consulte aqui e aqui.

sábado, 19 de junho de 2010

Carta de Amor de um Homem a uma Mulher

Minha querida,

Misterioso. Misterioso é o meu amor por você. De onde veio? Como ele surgiu? De onde ele recebe esse poder que tem sobre mim? Eu não posso explicar, eu não o esperava, e ele não vem de mim. Meu amor por você causa tantas coisas em mim. Ele me causa confusão e dor, e me causa alegria eufórica e paz profunda, porém o mais importante, ele faz surgir a minha mais profunda admiração e respeito.

Como é apropriado que meu amor por você exija tal caráter, porque assim ele se assemelha mais a você. Deus achou por bem entregar a profundidade do seu mistério aos meus cuidados; para protegê-lo e reverenciá-lo. Eu não posso explicar porquê, eu não mereci ganhar tal presente, eu sou um receptáculo tão pobre para uma graça tão profunda. Mas, mesmo assim, aqui está você, osso dos meus ossos, carne da minha carne, diante de mim tão completamente diferente, mas tão completamente presente para mim. Tal jardim, confiado aos meus cuidados, me inspira e me incentiva. Eu quero viver para você, eu quero lutar por você, e eu quero morrer por você.

Você é linda. Você é a melhor idéia que Deus teve, e a coroa de sua criação. E em Sua sabedoria, ele me deu o dom de ser capaz de reconhecer a sua beleza, de glorificá-Lo em sua beleza, e de desejá-la para que eu possa lhe fazer reverência. Ele fez você tão desejável para mim, e me deu o dom do desejo. Ele lhe fez infinitamente amável, e me inspirou amor por você.

Entretanto, eu sou fraco. Acho difícil amar do jeito que eu desejo lhe amar: com o dom de mim mesmo com a qual fui chamado a lhe amar quando você me foi entregue. Eu estava intoxicado por um veneno. Este veneno distorce o que é bom em mim. Faz daquilo que eu mais desejo a própria coisa que eu acho tão difícil. A distorção deste veneno às vezes me faz esquecer o meu desejo de lhe amar, e então penso apenas em mim mesmo. Eu tentei tudo que conheço para superar essa doença que reside no meu coração, mas toda a força que me resta não foi suficiente para me levar à saúde.

Eu preciso de você. Porque Deus me deu a responsabilidade de cuidar de você, assim como Ele lhe deu a responsabilidade de cuidar de mim. Por favor, entenda que, no fundo do meu coração, tenho o desejo de honrar sua beleza. Mas entenda também a ferida no meu coração. Eu quero amá-la com pureza; eu quero aproximar-me de você com reverência. E eu preciso de sua ajuda. Ao respeitar minha fraqueza, você me faz forte para lhe amar. Ajude-me, protegendo o seu mistério. Não revele a sua beleza para mim à toa. Deixe-me buscá-la. Deixe-me desejá-la. Deixe-me ver o mistério do seu coração através do que eu não vejo de seu corpo.

Através de sua modéstia você me respeita e permite o meu presente de puro desejo; o meu dom de lutar por seu amor. Então eu sou capaz de respeitar e deleitar-me com o dom de sua beleza, de seu mistério. Uma mulher imodesta é como palha de fogo que proporciona muita emoção e atrai muita atenção por um breve momento. Mas uma mulher verdadeiramente modesta é como uma vela que, ao queimar, fornece uma luz e uma alegria que permanece. Seja a luz da minha vida e da alegria do meu coração.

Seu, no amor,
O Homem do Seu Coração
_____________________________
Richard Budd graduou-se no Magdalen College em 2003 com um BA em Artes e obteve o Diploma Catequético Apostólico. De 2003 a 2005 lecionou a estudantes do ensino médio e fundamental em St. Thomas More Academy, uma pequena escola católica em Burton, MI. Ele vem estudando desde então no Seminário Maior do Sagrado Coração, em Detroit, MI e receberá um mestrado do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família, em maio de 2010. Ele vive em Washington, D.C. Traduzido de: http://tob.catholicexchange.com/2010/05/31/1991/  por Daniel Pinheiro e publicado em: Vida e Castidade

domingo, 13 de junho de 2010

Casamento (Por Diogo Linhares)

No ultimo dia 16 de maio eu e minha esposa fizemos um ano de casados. Nossa curta experiência de uma vida familiar me fez chegar a uma conclusão, e a conclusão a que eu chego neste primeiro aniversário é que nós funcionamos como casal. Com isso, não quero dizer que nós nos sentimos bem na presença um do outro. Também não quer dizer que nós “trabalhamos bem juntos”, como uma equipe ou um time. Também não quis insinuar nenhuma conotação sexual nesta frase. Na verdade, todas essas coisas acontecem conosco, acontecem apenas por serem componentes daquilo que eu quis dizer com “funcionamos como casal”: sozinhas, estas coisas não bastam.

Para que uma máquina funcione bem, não basta que suas engrenagens se encaixem bem: existe um combustível adequado; um óleo lubrificante adequado; a carga que ela move não deve ser muito pesada, nem muito leve; existem níveis de vibração bem exatos que podem prejudicá-la e que por isso devem ser evitados. Ou seja, quem opera uma máquina não deve apenas pensar em termos de engrenagens, mas deve pensar na “coisa toda”. E quando digo “coisa toda” não digo só “a máquina toda”, mas “a maquina junto do processo no qual ela vai atuar”. Cuidar de uma máquina e fazê-la durar envolve não só trabalho mecânico: é necessário um trabalho intelectual sobre ela.

Um casal é, de uma certa maneira, uma máquina. Ele é uma espécie de motor da família, que é um núcleo da comunidade humana. A família foi projetada para produzir seres humanos e não apenas no sentido físico, mas também no sentido moral: ela não deve apenas gerar corpos, mas também formar consciências.

O que eu quis dizer quando falei que eu e minha esposa funcionamos como casal foi que nós não pensamos mais como indivíduos e sim como casal. Não pensamos mais como fragmentos, mas juntos formamos uma unidade. Nossas vontades individuais são bobagens em face do que somos agora: somos um casal.

É certo que um dos grandes problemas do mundo atual é o coletivismo, a massificação, e que o único modo de combatê-lo é estimular as pessoas a desenvolverem sua individualidade. Sou um dos que mais defende essa idéia e por isso pode parecer estranho que eu recomende essa “suspensão da individualidade”. Porém esta suspensão da individualidade está a serviço de uma individualidade mais importante: a individualidade dos filhos do casal. Pois um dos objetivos da educação dos filhos é fazer com que eles desenvolvam sua individualidade, que porá em evidência sua vocação.

Não me conformo quando alguém me diz que eu e minha esposa tivemos sorte. Nosso sucesso como casal não se deve a um golpe do acaso e sim ao fato de pensarmos como casal. Nós renunciamos a algumas vontades que temos como pessoas e isto exige sacrifício e paciência. O risco de se pensar que os casais são bem sucedidos por causa da sorte é aquel sina das pessoas modernas de terem tanta dificuldade em achar a “pessoa certa”com quem devem passar o resto da vida.

A pessoa certa é aquela por quem você está disposto a renunciar ou atenuar sua individualidade.

Fonte: Captare

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Segredo do sucesso no matrimônio

 

Por Tomás Melendo

Para ser feliz no matrimônio e aumentar o amor com o passar do tempo, não bastam apenas boas intenções.

CASTIDADE CONJUGAL: “AMOR TRIUNFANTE DE DUAS PESSOAS SEXUADAS”.
Falar de castidade em pleno século XXI pode parecer chocante e anacrônico. Talvez porque se costuma associar – erroneamente – esse termo a um conjunto de negações completamente alheias ao amor, chegando mesmo a equipará-lo à simples abstenção do trato corporal.

Para São Josemaria Escrivá, pelo contrário, a castidade conjugal é uma virtude tremendamente afirmativa: “é uma triunfante afirmação do amor” (Sulco, n. 831). Ele explicava-o assim: “A castidade – que não é simples continência, mas afirmação decidida de uma vontade enamorada – é uma virtude que mantém a juventude do amor, em qualquer estado de vida” (É Cristo que passa, n. 25).

Referida aos casados, a castidade é a virtude que torna possível que aos quinze, vinte, vinte e cinco ou muitos mais anos de matrimônio, cada cônjuge esteja tão enamorado do outro como naquele dia já distante em que os dois uniram suas vidas. E até mais: porque cada um é para o outro agora muito mais amável e arrebatador do que antes, já que o carinho prolongado leva a descobrir e aprofundar nas riquezas pessoais e na beleza do outro.

A castidade é portanto algo muito grande, excelso, positivo, que não se reduz a um conjunto de proibições: vai muito além dos domínios do mero uso dos órgãos genitais. Seu objeto próprio – como o de qualquer virtude – é o amor: neste caso o amor de duas pessoas sexuadas – homem e mulher – precisamente enquanto tais. E a sua finalidade é a de fazer com que esse carinho desenvolva-se e frutifique em todas e em cada uma das suas dimensões: não somente nas diretamente relacionadas com o trato corporal ou genital.

AUMENTAR O CARINHO
Entende-se então que o principal e mais definitivo ato dessa virtude consista em fomentar positivamente – com as mil e uma espertezas que o engenho amoroso descobre – o amor ao outro cônjuge.

Por isso – para vivê-la em toda a sua grandeza – é oportuno que cada um dos dois dedique todos os dias uns minutos para escolher qual detalhe ou detalhes de carinho e de delicadeza empregará para dar ao outro uma alegria e para fazer subir a qualidade e a temperatura do amor mútuo. Com igual empenho deverá empregar todos os meios ao seu alcance para que as manifestações de afeto escolhidas sejam levadas à prática, para que o trabalho profissional e as outras ocupações não façam delas simples “boas intenções”.

Do mesmo modo, um marido apaixonado tem de estar disposto a repetir muitas vezes por dia à sua esposa, junto com outras manifestações de afeto, que a ama. É claro que ela já o sabe! Mas ela tem uma necessidade quase absoluta de escutar muitas vezes essa confirmação tão boa: é uma delicadeza aparentemente mínima, mas que a reconforta e lhe dá vigor para continuar na luta – às vezes ingrata – por levar adiante o lar e a família. O marido, por sua vez, além de agradecer também em muitos casos que a esposa lhe faça uma declaração paralela, precisa pronunciar essas palavras para reforçar – mediante uma afirmação expressa e tangível – a têmpera do seu amor e da sua fidelidade.

Além disso, e para pôr outro exemplo, marido e mulher devem esforçar-se também para surpreender o seu par com alguma coisa que ele não esperava e que revele o interesse e apreço por ele. Não só nas datas festivas, nas quais essas manifestações “já são esperadas”, mas justamente nos dias em que não existe nenhum motivo aparente para ter uma atenção especial... a não ser o carinho apaixonado dos cônjuges, sempre vivo e sempre crescente! Tendo em conta, por outro lado, que o importante é esse olhar para o outro, dedicar-lhe tempo e atenção, e não necessariamente o valor material daquilo que se oferece.

Na mesma linha, para viver a plenitude do amor que estamos considerando, torna-se imprescindível que os cônjuges saibam encontrar – vencendo a preguiça inicial que às vezes pode vir – momentos para estarem a sós: para conversar e descansar nas melhores condições possíveis. Sem fazer disso um absoluto, e a título de simples sugestão, uma tarde ou uma noite por semana dedicada exclusivamente ao casal, além de facilitar enormemente a comunicação, constitui um dos melhores meios para que a vida de família – e, portanto, o carinho para com os filhos – progrida e consolide-se até dar frutos maduros de qualidade pessoal. Por isso o cuidado e os mimos ao outro cônjuge devem antepor-se às obrigações de trabalho, aos compromissos sociais e até mesmo – valha o paradoxo – ao cuidado “direto” das crianças... esse cuidado irá tornar-se mais potente com o maior amor mútuo dos pais.

FOMENTAR A ATRAÇÃO
Tendo tudo isso em vista, compreende-se facilmente que é um ato de virtude – da virtude da castidade, concretamente – fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para aumentar a atração, também a estritamente sexual, nossa e do nosso cônjuge.

Em particular, parece ser mostra de bom senso aproveitar o gozo profundo que Deus uniu ao abraço amoroso pessoal e íntimo para resolver pequenas discrepâncias ou desavenças surgidas durante o dia, para pôr fim a uma situação de desgaste, ou para relaxar naqueles momentos em que a vida profissional ou familiar dele ou dela estejam gerando tensões de um modo especial. Por isso, entre outras coisas, ambos terão que prestar atenção ao seu aspecto físico.

Além disso, é imprescindível – e agora tocamos uma questão mais de fundo e de conjunto – que ambos os esposos saibam apresentar-se e contemplar um ao outro, ao longo de toda a sua vida, pelo menos com o mesmo primor e enfeite com que o faziam em seus melhores momentos de namoro. Agir de outra maneira, deixar que o amor esfrie ou petrifique-se, equivale a pôr o cônjuge na beira de um abismo, dando-lhe ocasião para que procure fora do lar o carinho e as atenções que todo ser humano necessita.

Situada nesse horizonte vital, a mulher deve estar persuadida de que a fecundidade torna-a mais bela, e de que seu marido possui a suficiente qualidade humana para saber apreciar a nova e gloriosa formosura que provém da sua condição de mãe.

A maternidade reiterada certamente supõe romper certos “moldes e proporções” que determinados cânones de beleza feminina lutam por impor a todos nós. Mas até o menos perspicaz dos maridos, se está deveras apaixonado, percebe o esplendor que essa “desproporção” traz consigo: reconhece que sua mulher é mais bonita – e inclusive sexualmente mais atrativa – do que aquelas que se pavoneiam com um arremedo de beleza reduzido a “centímetros” e “curvinhas”.

Por pouca sensibilidade que tenha, um homem descobre encantado no corpo da sua mulher: (1) o reflexo do seu próprio amor de marido e de pai; (2) a marca dos filhos que esse carinho gerou; e (3) o cartão de visitas do Amor infinito de todo um Deus Criador, que demonstrou sua confiança ao dar a vida e fazer com que se desenvolvesse no seio da esposa cada uma dessas criaturas... Como poderá não se sentir cativado por tantos e tais enriquecimentos?

Depois de tantos anos de casado, e de relacionamento com outros casais, às vezes sinto a necessidade de pedir às esposas que sejam do “jeito que o seu marido gosta”... e alegrem-se plenamente por isso. E que nunca pretendam – sobretudo com o passar dos anos – ser “do jeito que elas próprias gostem” (elas costumam ser as críticas mais ferozes de si mesmas), nem jamais admitam comparações com amigas nem com nenhuma outra mulher... e muito menos com as mais jovens. Que acreditem piamente nos seus maridos quando eles dizem que elas estão lindas, sem fazer a mínima reserva, nem mesmo interior... Toda mulher que se entregou de verdade – esposa e mãe – deve ter a convicção inamovível de que a sua beleza radicalmente humana aumenta na exata medida em que a sua doação ao marido e aos filhos vai sendo cada vez mais atual e operativa.

SÓ VOCÊ E NINGUÉM MAIS
A outra face da virtude da castidade – negativa em aparência, mas também derivada dessa mesma necessidade de fazer crescer o carinho mútuo – pode ser concretizada na gozosa obrigação de evitar tudo o que possa esfriar o amor ou pô-lo entre parênteses, nem que seja por poucos minutos. Essa renúncia tem, portanto, um sentido eminentemente positivo: trata-se – também nisso – de fazer com que o amor conjugal amadureça e alcance a sua plenitude. Esse ponto não deveria ser esquecido se queremos entender a fundo o verdadeiro significado da virtude da castidade, o seu valor tremendamente afirmativo.

Se pensarmos nos que estão unidos pelo matrimônio – como até aqui estamos fazendo –, essa afirmação, levada a sério, converte-se num critério claro e delicadíssimo de amor ao cônjuge. Para o homem casado não pode existir outra mulher (enquanto mulher) além da sua. Esse homem (o mesmo poderia afirmar-se, simetricamente, quanto à esposa) obviamente irá relacionar-se com pessoas do sexo oposto: companheiras de trabalho, secretárias, alunas, gente com quem coincidirá em viagens... E a educação e o respeito o levarão a comportar-se com elas com polidez e deferência. Mas não tratará nenhuma delas enquanto mulher – pondo em jogo a sua condição de homem, que já não lhe pertence – mas simplesmente enquanto pessoa.

Isso, que pode parecer à primeira vista excessivamente teórico e até artificial, tem uma tradução muito clara e prática: tudo aquilo que faço com a minha mulher justamente por ser mulher devo evitar fazer com qualquer outra, custe o que custar. Não posso compartilhar com mais ninguém as coisas que compartilho com a minha esposa.

Embora estejamos falando para pessoas aparentemente maduras, nesse ponto é muito fácil ser ingênuos. Isso porque, em princípio, depois de tantos anos convivendo diariamente com o nosso par – nos momentos de alta e de baixa –, qualquer outra mulher (ou qualquer outro homem) está em melhores condições que a nossa (ou o nosso) de mostrar-nos – intermitentemente – a sua face mais amável, nesses isolados espaços de trato mútuo. Não vemos o seu aspecto desarrumado quando acaba de acordar – quando nem parece que é ela (ou ele) –; não a (ou o) vemos quando está cansada (ou cansado); não temos que resolver com ela (ou com ele) os problemas dos filhos nem os quebra cabeças de uma economia não muito folgada...

Elas ou eles, arrumados, dispostos – como por instinto e com a mais limpa das intenções – a agradar e a cair bem, podem dar de si o melhor que possuem, sem o contrapeso dos momentos duros e de fraqueza que forçosamente são vividos dentro do matrimônio. Além disso, costumam ser mais jovens, mais compreensivos (entre outras coisas porque não nos conhecem bem), e estão enfeitados passageiramente com muitas prendas – um tanto artificiais – que fazem a sua personalidade brilhar aos nossos olhos (que nesses momentos não são lá muito perspicazes)... e que a convivência diária e duradoura sem dúvida devolveria às suas reais dimensões.

Para rematar essa idéia, e para ir terminando o que de outra forma seria interminável, acrescentarei que quando uma mulher diferente da nossa conhece os problemas que sofremos no nosso lar e no nosso matrimônio, é quase impossível que deixe de compreender-nos e de sentir por nós uma sincera compaixão. Como também é improvável – embora por motivos muito diferentes – que um homem deixe de entender os problemas de uma mulher casada, se ele dispuser-se a ouvi-los. Nos dois casos, faz falta ter a suficiente categoria – hoje infelizmente rara – para ficar mal e rejeitar, de maneira educada porém decidida, qualquer tipo de confidências como essas.

Tudo isso é, no entanto, necessário para não brincar com a felicidade própria e alheia e para não pôr nossos filhos em apuros, vendendo a grandeza profunda de uma vida de família plenamente vivida em troca do deslumbramento superficial de uns momentos satisfação egocêntrica. O amor que impregna o nosso lar levar-nos-á a prescindir de tais satisfações aparentes, visando robustecer os fundamentos da nossa felicidade no matrimônio.

Tomás Melendo

Catedrático de Metafísica da Universidade de Málaga. Publicou recentemente – em co autoria com sua esposa Lourdes Millán-Puelles – o livro Assegurar o amor, cuja finalidade (que aliás já está no próprio título) é ajudar a contornar os inevitáveis porém fecundos escolhos que a vida em comum traz consigo.

sábado, 1 de maio de 2010

Por que a família?

 

Por Tomás Melendo

Sem família não se pode ser pessoa, ou pelo menos uma pessoa completa, plenamente feita. É a família que nos humaniza e é nela que realizamos o ato mais fundamental da nossa condição: a entrega.

PARA AMAR MAIS..., SER MELHOR

Há alguns meses dei uma conferência para um grupo bastante seleto de empresários: um grupo bem internacional... e bem atípico. Tão atípico que me pediram – na qualidade de empresários: o único fator que os unia – que lhes falasse do amor conjugal.

Quando terminei, um mexicano começou a dizer umas coisas que eu não sabia se eram perguntas ou reflexões em público:

– Se não entendi mal, a qualidade do amor entre os esposos não se decide somente dentro do matrimônio. Quem queira amar de verdade tem de esforçar-se por melhorar em toda a vida.

Um sexto sentido fez-me conter a vontade de responder e fiquei em silêncio. E ele de fato prosseguiu:

– Só através da minha melhora pessoal poderei amar mais a minha mulher, pois terei muito mais para dar-lhe cada vez que me entregue a ela.

Resisti de novo à tentação de intervir. Ele acrescentou:

– Além disso, pressinto que estarei desperdiçando esse auto-aperfeiçoamento se eu não o encaminhar para a entrega. E parece-me que isso constitui um claro dever: quanto mais eu melhorar, mais obrigado estarei a dar-me à minha mulher e aos meus filhos.

O silêncio tornou-se mais denso, talvez porque nem ele nem os outros que estavam ouvindo – todos dedicados de corpo e alma aos negócios – se atreviam a tirar a conclusão inevitável. Mas por fim ele a tirou:

– Isso significa, portanto, que a minha realização mais verdadeira e mais radical, não vou encontrá-la na empresa, mas na minha família.

UM INVESTIMENTO DEFINITIVO

Aquele era um homem audaz e, além disso, agudo. Sabia o que estava pondo em jogo, e sabia do que estava falando: da necessidade de modificar profundamente o modo de entender e de viver as relações entre a família e a pessoa (e, conseqüentemente, muitas outras relações, como as propriamente empresariais).

Durante muito tempo, a necessidade da família foi explicada – embora não exclusivamente – enfatizando a múltipla e clara precariedade do homem no que diz respeito à sua sobrevivência. Dizia-se que os instintos permitem que os animais sejam independentes desde muito cedo, enquanto uma criança humana morre inevitavelmente quando abandonada aos seus próprios recursos. Aduziam-se também razões psicológicas, como a ineludível conveniência de evitar a solidão e de distribuir as funções em casa, no trabalho ou nos âmbitos do saber, garantindo uma eficácia maior...

Tudo isso parece-me certo, mas penso que não atinge o núcleo da questão. Se desde a Antigüidade o homem foi considerado como o que há de mais perfeito na Natureza (perfectissimum in tota natura) e se hoje é difícil falar do ser humano sem ressaltar a sua dignidade e a sua grandeza, não é estranho que os animais não precisem de família, mas que ela seja imprescindível ao homem justamente (ou somente ou principalmente) em função da sua fragilidade em comparação com eles?

A mudança radical de perspectiva que proponho com estas linhas é que toda pessoa precisa de uma família, justamente em virtude da sua eminência ou valia: daquilo que em termos metafísicos poderia ser chamado de sua abundância de ser.

UM SER-PARA-O-AMOR

É por isso que a pessoa está chamada a entregar-se. É por isso que a pessoa pode ser definida como princípio (e termo) do amor..., sendo a entrega o ato com que esse amor culmina.

As plantas e os animais, pela sua própria escassez de “ser”, agem quase exclusivamente para garantir a sua própria sobrevivência e a da sua espécie. Porque possuem pouco ser – poderíamos dizer –, têm que dirigir toda a sua atividade para conservá-lo e protegê-lo: fecham-se em si mesmos ou na espécie que lhes é própria.

A pessoa, pelo contrário, “tem ser de sobra”, justamente por causa da nobreza que a sua condição implica. Daí que a sua operação mais própria, precisamente enquanto pessoa, consista em entregar-se, em amar. (E é por isso que só quando ama a sério e se entrega sem medida – “a medida do amor é amar sem medida” – alcança a felicidade.)

A PESSOA COMO DÁDIVA

Nisto o meu amigo mexicano tinha razão. E também em unir essa exigência de entrega com a família. Porque, para que alguém possa dar-se, é preciso que haja uma outra realidade capaz de recebê-lo e disposta a isso, ou melhor, disposta a aceitá-lo livremente. Tal aceitação só pode ser a aceitação de outro “alguém”, de outra pessoa.

Costumo explicar que a grandeza da nossa condição de pessoas é de tal ordem – apesar da consciência que às vezes temos da nossa pequenez e da ruindade de alguns dos nossos pensamentos e ações – que nenhuma dádiva é suficientemente digna de nós..., exceto outra pessoa. Qualquer outra realidade, mesmo o trabalho ou a obra de arte mais excelsa, acaba por ser insuficiente para acolher a sublimidade ligada à condição pessoal: não pode ser o “veículo” da minha pessoa e nem tampouco está à altura daquela pessoa a quem pretendo entregar-me.

Daí que a dádiva, independentemente de qualquer valor material que possa ter, só consiga cumprir o seu papel na medida em que me comprometo – me “integro” – nela. (“Presente, dom, entrega? / Símbolo puro, sinal / de que eu me quero dar”, escreveu magistralmente Salinas) (1).

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(1) ¿Regalo, don, entrega? / Símbolo puro, signo / de que me quiero dar. Pedro Salinas (1892-1951), poeta, tradutor, dramaturgo e professor universitário espanhol. A poesia de Salinas é marcada por um ardente desejo de comunhão, tanto entre as pessoas como entre o corpo e a alma de cada indivíduo. Publicou diversas obras, entre as quais Presagios (1923; poesia), La voz a ti debida (1933; poesia) e o volume de ensaios El defensor (1948).

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Mas eu dizia que além de ser capaz, a outra pessoa tem de estar disposta a acolher-me de maneira incondicional: do contrário, a minha entrega não passaria de mera ilusão, de uma espécie de aborto. Se não há aceitação, é impossível que eu me entregue, por mais que me empenhe (actio est in passo, poder-se-ia afirmar, glosando Aristóteles: o ato de entrega “é” – cumpre-se, atualiza-se – na medida em que o outro me aceita com gosto).

O PORQUÊ DA FAMÍLIA

Pois bem, o âmbito natural em que o ser humano é acolhido sem reservas, pelo mero fato de ser pessoa, é justamente a família. Em qualquer outra instituição (numa empresa, por exemplo), é legítimo e às vezes até necessário avaliar se tenho determinadas qualidades ou aptidões, e o fato de eu eventualmente ser rejeitado por carecer delas não afeta de modo algum a minha dignidade (o igualitarismo que hoje alguns tentam impor a fim de “evitar a discriminação” é radicalmente injusto nesse ponto).

Mas uma família genuína, pelo contrário, quando aceita cada um dos seus membros levando em conta a sua condição de pessoas – da mesma forma que as outras instituições o fazem (daí o famoso preceito kantiano de “tratar sempre o outro como pessoa”) –, não acrescenta mais nada: o fato de serem pessoas já é o bastante. Ao acolher assim os seus membros, permite que se entreguem e se desenvolvam como pessoas.

Por isso pode-se afirmar que, sem família, não se pode ser pessoa, ou pelo menos uma pessoa completa, plenamente feita. E isso, segundo o que acabo de sugerir, não se deve primariamente a nenhuma carência, mas ao contrário: deve-se ao nosso próprio excesso, que nos “obriga” à entrega de nós mesmos, sob pena de ficarmos frustrados por não termos conseguido levar a cabo o que a nossa natureza e o nosso ser exigem.

Penso que essa inversão de perspectiva (que não nega a verdade do ponto de vista complementar) tem muitas implicações e conseqüências.

No âmbito doméstico, por exemplo, explica por que a família não é uma instituição “inventada” para socorro dos fracos e dos desvalidos (crianças, doentes, anciãos). Muito pelo contrário: quanto mais perfeição um ser humano alcança, quanto mais maduro é um pai ou uma mãe, mais precisa da família, justamente para crescer como pessoa, dando-se e sendo aceito, amando..., e além disso com a guarda baixa, sem ter de “demonstrar” nada para ser querido.

UMA BOA TEORIA... PARA UMA VIDA BOA

Por outro lado, essa forma de compreender a pessoa repercute no modo de legislar, na política, no trabalho... Só tendo em conta a grandeza impressionante do ser humano é que se poderão estabelecer as condições que lhe permitam um desenvolvimento adequado e a felicidade.

É freqüente ouvir que o problema do homem de hoje é o seu orgulho de querer ser como Deus. Não o nego. Mas penso que é mais profunda a afirmação oposta: a grande deficiência do homem contemporâneo é a sua falta de consciência da própria valia, que o leva a desprezar-se a si mesmo e a tratar os outros de maneira absurdamente infra-humana.

Schelling afirmava que “o homem torna-se maior na medida em que se conhece a si mesmo e conhece a sua própria força”. E acrescentava: “Dai ao homem a consciência do que efetivamente ele é, e imediatamente aprenderá a ser o que deve; respeitai-o teoricamente, e o respeito prático será uma conseqüência imediata”. E concluía: “O homem deve ser bom teoricamente, para que possa sê-lo também na prática”.

Exageros de um jovem escritor? Penso que não, se entendermos de modo adequado que esse conhecer não é simplesmente saber, mas algo que só se sabe quando se torna vida da própria vida.

Como queria Aristóteles, a teoria – encaminhada para o amor! – tem uma prioridade absoluta nos assuntos estritamente humanos.

“MINI-PESSOAS” QUE NÃO CONHECEM NEM AMAM

O modelo de homem que preside a boa parte das Constituições dos países “desenvolvidos” acaba por ser o de uma espécie de mini-homem, pessoa reduzida, quase deformada.

Quero dizer que, com uma freqüência maior do que o desejável, são negados ao homem de hoje – na teoria e na vida: na legislação e na estrutura social – justamente aquelas características que definem a grandeza da sua humanidade, como, por exemplo, a sua capacidade de conhecer, que apesar de imperfeita é real.

Deste ponto de vista, uma estruturação jurídica autêntica deveria ter como base, além do reconhecimento da limitação do entendimento humano, a convicção ainda mais forte de que a realidade é cognoscível. Por isso, deveria estar baseada no autêntico diálogo entre cidadãos que estariam convencidos de que a soma das contribuições de muitos podem chegar a descobrir o que cada realidade efetivamente é, e portanto qual o comportamento que ela exige.

Pelo contrário, muitos dos atuais regimes políticos parecem estar baseados num relativismo cético, na convicção quase contraditória de que a realidade não pode ser conhecida, no recurso à mera maioria e, junto a ela (enquanto não se corrija essa visão, que pode e deve ser corrigida), no mais tirânico e sutil dos totalitarismos.

Mais exemplos disto que acabo de qualificar como modelo “quase-institucional” de mini-pessoa?

Para alguns, é quase inconcebível que o homem atual possa amar de verdade, com um compromisso para toda a vida, arriscando em uma só cartada, como disse Gregório Marañon, o porvir do próprio coração (daí a multiplicação das leis que admitem o divórcio, impedindo que alguém se case para a vida toda).

Também não se admite que alguém possa dar um sentido à dor, não por masoquismo, mas porque o sofrimento é parte integrante da vida do Homem. Além disso, quando se procura afastá-lo visceral e obsessivamente, suprime-se juntamente com ele a própria vida humana, cujo núcleo mais nobre consiste na sua capacidade de amar... Nesta vida, o sofrimento é parte inseparável do amor: quem negue a qualquer custo o “direito” de padecer, invalida simultaneamente a possibilidade de amar de verdade.

No fim das contas, se nos limitarmos ao modelo subjacente a muitas das Constituições ocidentais, o homem de hoje estará entorpecido no uso dos seus atributos mais característicos e enobrecedores: (1) conhecer a verdade e (2) amar e fazer o bem, com tudo aquilo que cada um desses aspectos (e a conjunção de ambos) traz consigo.

CONCLUSÃO

O que acabo de apontar reforça três das minhas mais arraigadas convicções:

– A primeira, uma fé absoluta no ser humano, na sua capacidade de retificar o rumo e de superar-se a si mesmo. Não se deve confundir diagnóstico com terapia. Do mesmo modo que a Filosofia, um diagnóstico não deve ser nunca otimista nem pessimista; não deve ser nem interessante nem desprezível; nem lucrativo nem descartável: deve simplesmente ser verdadeiro ou falso. Quanto mal não faria o “otimismo” de diagnosticar como sendo uma simples dor de cabeça o que na verdade é um tumor cerebral maligno!

– Em segundo lugar, que o homem atual tem de dar-se conta de como é grande é a sua dignidade, a fim de poder agir de acordo com ela... e alcançar a própria perfeição e a alegria que dela decorre.

– Por fim, que o “lugar natural” para “aprender a ser pessoa” – o único verdadeiramente imprescindível e suficiente – é a família. Não só para a criança, mas também para o adolescente que parece negá-la, para o jovem que tem diante de si um deslumbrante leque de possibilidades, para o adulto na plenitude das suas faculdades, para o ancião que parece declinar... Todos eles forjam e revitalizam a sua índole pessoal, dia após dia, no seio do seu lar.

E assim, temperados e reconstituídos, são capazes de converter o mundo, de humanizá-lo.

Por isso a família.

Tomás Melendo
Catedrático de Filosofia e Diretor dos Estudos Universitários sobre a Família da Universidade de Málaga (Espanha)

Fonte: Quadrante

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Breve curso sobre o sacramento do Matrimônio

 

1. O Matrimônio no Antigo Testamento

O Antigo Testamento apresenta quatro séries de textos sobre o matrimônio: os relatos da criação, o ensino dos profetas, a literatura sapiencial e o Cântico dos Cânticos; a eles pode-se acrescentar outros testemunhos complementares.

1.1. Os relatos da criação

O projeto original de Deus sobre o matrimônio encontra-se delineado no segundo relato da criação (cf. Gn 2,18-23). Este texto — pertencente à tradição javista (século X a.C.) — insiste na complementaridade e comunhão entre o homem e a mulher, que tem uma mesma dignidade. Mais concretamente, é afirmado que a mulher não é estranha ao homem mas parte dele, com idêntica capacidade de diálogo e amor. Graças a isto, o homem é chamado a sair de sua solidão (cf. Gn 2,18), entoa o que chamamos o primeiro «cântico nupcial» da humanidade: «esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem!» (Gn 2,23). O versículo final descreve não só o fato da atração do homem e da mulher mas, sobretudo, seu sentido: «por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne» (Gn 2,24). O texto exalta, portanto, o amor, que na união sexual tende simbolicamente a reconstruir a unidade primordial: «carne de minha carne», mas tem também presente a dimensão procriativa. Contudo, o que mais se põe em evidência é a unidade exclusiva do matrimônio — contra a poligamia — e sua indissolubilidade, já que a frase «são os dois uma só carne» expressa uma situação permanente de unidade de espíritos, muito mais do que a unidade corporal.

O primeiro relato da criação (cf. Gn 1) — mais tardio e pertencente à tradição sacerdotal (século VI a.C.) — expressa de maneira mais solene a unidade do homem e da mulher, que é desejada por Deus sobretudo para a procriação — «sede fecundos e multiplicai-vos» —, entendida no sentido religioso, tanto no âmbito da criação como no da esperança messiânica. A transmissão da vida é o desenlace natural e o fim específico da sexualidade; uma função tão nobre e importante que necessita a «bênção» de Deus. Este contexto, acentuando a finalidade procriativa do matrimônio, não exclui a finalidade afetiva, tão sublinhada pela tradição javista: «e os dois serão uma só carne».

Segundo os relatos da criação, o equilíbrio de ambas as dimensões, unitiva e procriativa, deve marcar para sempre o matrimônio tal e como Deus o concebeu no seu desígnio original. Sem dúvida, o pecado truncou o equilíbrio e alterou as relações entre o homem e a mulher. A própria sexualidade se afastou de seus fins próprios e converteu-se muitas vezes em instrumento de mútua tirania. Assim se explica todos os desvios que marcaram a história de Israel: a poligamia, o divórcio… De fato, as três famílias de Abraão, Isaac e Jacó, que constituem a espinha dorsal do Gênesis, não são exemplares (cf. Gn 12,10-20; Gn 20; Gn 29,15-30; 2Sm 3,2-5; 1Re 11,13). Sem dúvida, o Antigo Testamento, que contém também testemunhos de famílias exemplares, como a de Rute, Tobias (cf. Tb 8,6-7), Macabeus (cf. 2Mc 7), mostra que o matrimônio monogâmico, vivido no amor e na alegria dos filhos, era prática normal em Israel.

1.2. Os profetas

Os profetas fizeram um aporte decisivo para manter o ideal do matrimônio: apresentaram a alegoria nupcial como expressão das relações de amor e fidelidade entre Deus e seu povo, Israel.

Oséias foi o primeiro a usar esta imagem, partindo, quem sabe, do fracasso de seu próprio matrimônio, já que sua mulher se entregou à prostituição (cf. Os 1,2), convertendo-se em símbolo da infidelidade de Israel. Diante dela, aparece a fidelidade de Deus que não se vinga, ao contrário, projeta uma novo noivado com seu povo (cf. Os 2,16; 21-22).

Jeremias recolhe o tema de Iahweh-Esposo, mas de forma mais terna, recordando as efusões do primeiro amor (cf. Jr 2,2), o que dá lugar a que seja mais forte a reprimenda que dirige ao povo infiel (cf. Jr 2,32).

Ezequiel volta à mesma idéia sob a imagem de uma moça abandonada, da qual Deus se enamora e à qual toma para si (cf. Ez 16,8).

A imagem aparece com maior frequência em Isaías: as dificuldades do desterro e do novo assentamento na terra pátria são suavizados com a recordação de que Iahweh é o Esposo, e por isso, não poderá abandonar seu povo (cf. Is 54,4-6; 62,4-5).

A imagem nupcial é importante por dois motivos. Em primeiro lugar, porque Deus não teria tomado a realidade matrimonial como símbolo de seu amor por Israel se tal realidade não tivesse sido sentida e vivida — ao menos habitualmente — como realidade de amor e fidelidade total. Em segundo lugar, porque Deus quer ensinar que o matrimônio tem sentido na medida em que reflete seus comportamentos e imita suas atitudes; disto decorre que, entre o projeto matrimonial que Deus propõe e a realidade matrimonial tomada como símbolo, há uma íntima conexão.

Quem sabe seja este o motivo porque Malaquias apresenta o matrimônio como aliança: diante do mal comportamento de seu povo, Deus lhe acusa precisamente de infidelidade no matrimônio (cf. Ml 2,14-15). Deste modo, a espinha dorsal das relações entre Deus e seu povo — a Aliança — se projeta e, de alguma forma, se encarna no matrimônio.

1.3. A literatura sapiencial

A literatura sapiencial está repleta de referências aos valores do matrimônio e da família. Há dois temas que se destacam de maneira especial: os filhos e a mulher.

Os filhos são considerados um dom de Deus (cf. Sl 127,3-4) e devem ser educados, inclusive com rigor, sim, isto é necessário (cf. Eclo 30,1-2; Pr 1,8); eles, por sua parte, têm a obrigação de obedecer a seus pais (cf. Eclo 3,2-4).

Quanto à mulher, o livro do Eclesiástico canta a felicidade do esposo que encontrou uma mulher virtuosa (cf. Eclo 26,1-3), e por sua vez condena severamente o adultério de qualquer um dos cônjuges (cf. Eclo 23,18-19) e, especialmente da esposa (cf. Eclo 23,22-23). Por outro lado, o livro dos Provérbios insiste na necessidade de evitar o casamento com mulher estrangeira, porque o matrimônio possui uma relação com a Aliança, e como não é lícito violar a Aliança sinaítica, tampouco é lícito violar a aliança matrimonial (cf. Pr 2,16-17).

1.4. O Cântico dos Cânticos

Embora pertença à literatura sapiencial, este livro merece ser tratado à parte, pois possui como objetivo especial o de exaltar, ao mesmo tempo, o amor humano e o amor de Iahweh por seu povo. Em sua mensagem fundem-se entre si a experiência humana, capaz de vislumbrar as exigências de um amor verdadeiro, que requer uma renovação, purificação e reforço contínuo, e a mensagem profética, que assumiu esta experiência como símbolo do amor indefectível de Deus para com seu povo.

2. O Matrimônio no Novo Testamento

2.1. O ensinamento de Jesus

Uma visão tão elevada do amor conjugal, como a que vimos, corresponde ao projeto original de Deus — aparecem refletidas no relato da criação (cf. Gn 2,18-23) —, que Jesus resgatou, rechaçando as corrupções vigentes de seu tempo e santificando a vida familiar. Mais ainda, Jesus elevou o Matrimônio à categoria de sacramento e a símbolo de sua aliança com a Igreja.

Não deixa de ser significativo o fato de Cristo ter nascido e crescido em uma família, embora seja uma família com características muito peculiares, como a de Maria, sua mãe, e a de José, coloca em evidência que a regra para todos é o amor totalmente desinteressado, mesmo estando subordinado à vontade de Deus (cf. Mt 1 e Lc 1 e2).

Em seu ministério público, Jesus manifesta seu interesse pela família, da qual conhece seus aspectos positivos e seus defeitos, suas alegrias e sofrimentos. Em Caná sua presença é uma bênção e uma ajuda material para os esposos no dia de seu casamento (cf. Jo 2,1-11). Em Betânia mantém e goza da amizade íntima com uma família de três irmãos. Quando chega às aldeias, entretém-se alegremente com as crianças, aos quais trata com carinho e amor verdadeiramente maternais. Em sua pregação serve-se do drama de um pai traído pelo filho, para revelar o amor infinitamente misericordioso de Deus Pai. Contudo, não faz da família algo absoluto, pois deseja que esteja aberta às exigências superiores de Deus (cf. Mc 3,31-35), estabelecendo assim as premissas para a opção por uma vida diferente do Matrimônio, quando se impõe as exigências do Reino.

Por outro lado, contestando a uma insidiosa pergunta de um escriba, estabelece um tríplice critério: a indissolubilidade do Matrimônio não admite nenhuma exceção, a permissão mosaica tinha um valor transitório e a união de alguém divorciado com outra pessoa é adultério (cf. Mt 19,4-9), é expressamente proibida pelo sexto mandamento (cf. Ex 20,14; Dt 5,18). A aparente exceção das palavras «exceto por motivo de fornicação» não está em conformidade com o ensino de Marcos (cf. Mc 10,11-12), Lucas (cf. Lc 16,18) e Paulo (cf. 1Cor 7,10-11), e até do próprio sentido destas palavras, já que Jesus se refere a uniões consideradas como que legítimas entre os pagãos e toleradas pelos judeus a respeito dos prosélitos, mas que eram na realidade irregulares e, portanto, matrimônios falsos que, por ser uma espécie de concubinato, deveria ser evitado. Alguns, sem dúvida, pensam que trataria duma verdadeira exceção.

2.2. A doutrina paulina sobre o Matrimônio

As cartas paulinas oferecem um rico ensino sobre alguns aspectos básicos a respeito da dignidade do matrimônio, a virgindade, a vida familiar. Também faz alusão a outras questões, como o chamado «privilégio paulino».

— São Paulo expõe a dignidade do Matrimônio, sobretudo, em dois momentos: na primeira carta aos Coríntios e na carta aos Efésios.

Respondendo aos fiéis de Corinto, parece que existia entre eles uma espécie de «encratismo», com tendência a depreciar o matrimônio e privilegiar a virgindade, asim ele se expressa: «Passemos aos pontos sobre os quis me escrevestes. É bom ao homem não tocar em mulher. Todavia, para evitar a fornicação, tenha cada homem a sua mulher e cada mulher o seu marido. O marido cumpra o dever conjugal para com a esposa; e a mulher faça o mesmo em relação ao marido. A mulher não dispõe do seu corpo; mas é o marido quem dispõe. Do mesmo modo, o marido não dispõe do seu corpo; mas é a mulher quem dispõe. Não vos recuseis um ao outro, a não ser de comum acordo e por algum tempo, para que vos entregueis à oração. Quanto àqueles que estão casados, ordeno não eu, mas o Senhor: a mulher não se separe do marido — se, porém, se separar não se case de novo, ou reconcilie-se com o marido — e o marido não repudie a sua esposa!» (1Cor 7, 1-5a.10-11). O texto coloca em evidência, que o marido e a mulher são parte um do outro e, por isso mesmo, já não são dois seres mas um só; ambos têm idênticos direitos e deveres; o divórcio contradiz o mandato do Senhor, por isso, a única solução de emergência é a separação, que, de per si deve ser temporal, visto que o objetivo a atingir continua sendo a reconciliação com a outra parte (cf. 1Cor 7,11).

Na carta aos Efésios, Paulo expõe uma teologia matrimonial mais profunda. Falando dos deveres da família cristã, o Apóstolo começa recordando os deveres mútuos dos esposos cristãos: «Submetei-vos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres estejam submissas aos seus maridos, como ao Senhor, porque o homem é a cabeça da mulher, como Cristo é cabeça da Igreja e o Salvador do Corpo. Como a Igreja está sujeita a Cristo, estejam as mulheres em tudo sujeitas ao seus maridos. E vós, maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de purificá-la com o banho da água e santificá-la pela palavra, para apresentar a si mesmo a Igreja, gloriosa, sem mancha nem ruga, ou coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim também os maridos devem amar as suas próprias mulheres, como seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo, pois ninguém jamais quis mal à sua própria carne, antes alimenta-se e dela cuida, como também faz Cristo com a Igreja, porque somos membros do seu Corpo. Por isso deixará o homem o seu pai e sua mãe e se ligará à sua mulher, e serão ambos uma só carne. É grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e a sua Igreja. Em resumo, cada um de vós ame a sua mulher como a si mesmo e a mulher respeite o seu marido» (Ef 5,21-33; cf. Cl 3,18-19; 1Pd 3,1-8).

Os aspectos mais relevantes deste denso texto são os seguintes: 1) todo o discurso sobre o Matrimônio se desenvolve sob o sinal do amor; 2) a relação marido-mulher se define sob a relação Cristo-Igreja, que é uma relação de amor; e 3) o Matrimônio cristão lança suas raízes no próprio mistério de Deus, o qual, segundo a linguagem paulina, é seu projeto salvífico que culmina na encarnação, da qual é prolongação a Igreja, enquanto esposa de cristo.

Da primeira afirmação se deduz que a «submissão» de um esposo ao outro não é sinal de escravidão, mas de dependência no amor; dela não se escapa nem o marido, embora apareça como «cabeça da mulher». O segundo princípio mostra não só que a relação Cristo-Igreja é modelo do amor conjugal que deve ser professado pelos esposos, mas que Cristo assume o amor humano dos batizados, purifica-os de todas as imperfeições que possa trazer em si, e faz fermentar a partir de dentro, para tornar-se em uma imagem de sua relação com a Igreja. Do terceiro aspecto se deduz que o Matrimônio não é um assunto privado, mas que têm uma dimensão eclesial e deve servir para o crescimento da Igreja, da qual é como que uma semente, na medida em que seja capaz de criar relações de amor e de fé entre todos seus membros

— A doutrina paulina sobre o Matrimônio fica ainda mais contundente com seu ensino sobre a virgindade (cf. 1Cor 7,23-40). São Paulo vê em ambos os modelos um dom de Deus; mas ensina que a virgindade é um carisma superior, porque permite ampliar o espaço do amor e trabalhar, «sem estar dividido», na edificação do Reino de Deus. Pois bem, tanto o Matrimônio como a virgindade devem ser vividos num clima de amor, é a partir disto que serão compreensíveis plenamente quanto à natureza e existência.

— São Paulo deixa claro que o Matrimônio não se fecha em si mesmo, mas abre-se necessariamente aos filhos como lógico fruto de seu amor; isso explica o porque em algumas passagens ele se fixe na família em sua globalidade, inclusive a escravidão, e ofereça os traços mais salientes do que poderíamos chamar de «pastoral familiar».

Por exemplo, escrevendo aos efésios, lhes diz que é uma exigência de justiça que os filhos obedeçam a seus pais por amor; aos pais, ao contrário, indica-lhes que devem exercer sua autoridade com amor e para o amor; finalmente, aos que têm escravos a seu serviço recorda-os que estes têm dignidade de filhos de Deus e que eles mesmos são «escravos de Deus» (cf. Ef 6,1-9).

Na carta a Tito indica as linhas mestras do comportamento dos membros de uma família: «Quanto a ti, fala do que pertence à sã doutrina. Que os velhos sejam sóbrios, respeitáveis, sensatos, fortes na fé, na caridade e na perseverança. As mulheres idosas, igualmente, devem proceder como convém a pessoas santas: não sejam caluniadoras, nem escravas da bebida excessiva; mas sejam capazes de bons conselhos, de sorte que as recém-casadas aprendam com elas a amar os seus maridos e filhos, a ser ajuizadas, fiéis e submissas a seus esposos, boas donas-de-casa, amáveis, a fim de que a palavra de Deus não seja difamada. Exorta igualmente os jovens, para que em tudo sejam criteriosos. Sê tu mesmo um exemplo de conduta, íntegro e grave na exposição da verdade, exprimindo-te numa linguagem digna e irrepreensível, para que o adversário, nada tendo que dizer contra nós, fique envergonhado. Os servos devem ser em tudo obedientes aos seus senhores… honrando, assim, em tudo a doutrina de Deus, nosso Senhor» (Tt 2,1-9).

Um esquema com argumentos muito semelhante aparece na primeira carta de São Pedro (cf. 1Pd 3,1-7; 2,18-25).

O quadro se completa com o que disse São Paulo sobre a atenção às viúvas, tanto se possuem família e vivem com ela (cf. 1Tm 5,4), como se vivem só (cf. 1Tm 5,5-6) ou desempenhem funções peculiares na Igreja (cf. 1m 5,9-15).

Deve-se observar que o comportamento exigido aos diversos membros da família é essencialmente religioso, o que pressupõe que a graça matrimonial envolve toda a família, derramando-se do esposos aos demais membros da família.

— São Paulo admite a possibilidade de dissolução do vínculo quando a parte pagã se separa da parte cristã: «se o não cristão quer separar-se, separe-se! O irmão ou a irmã não estão ligados em tal caso; foi para viver em paz que Deus vos chamou. Na verdade, como podes ter certeza, ó mulher, que salvarás o teu marido? E como podes saber, ó marido, que salvarás tua mulher?» (1Cor 7,15-16). Embora pareça tratar de uma exceção na indissolubilidade do Matrimônio, na realidade não é, já que a situação é tão anormal, que a parte cristã não está em condições de viver sob o próprio Matrimônio. Por isso, os autores não falam de divórcio, mas de «privilégio paulino» que a Igreja continua reconhecendo em sua legislação (cf. CDC 1143) e praxe pastoral, sobretudo nos países onde os cristãos são a minoria e os matrimônios mistos bastante frequentes.

2.3. A celebração do Matrimônio

O Novo Testamento não oferece nenhum dado sobre o modo de celebrar o Matrimônio cristão. Como logo veremos, o mais provável é que se seguisse a formalidade externa do lugar em que viviam, em tudo aquilo que fosse compatível com a fé e moral cristã. O que é inquestionável é que os batizados tinham consciência de que o seu Matrimônio era essencialmente diferente do Matrimônio dos pagãos e de que deviam vivê-lo de forma distinta, segundo se deduz do ensino catequético dos Apóstolos, especialmente de São Paulo.

3. A história da celebração do Matrimônio cristão

A história da celebração do Matrimônio cristão pode ser dividida em cinco períodos: até a paz constantiniana; do século IV à época carolíngia; do século IX ao concílio de Trento; do concílio de Trento ao concílio Vaticano II; período posterior ao grande concílio.

3.1. A celebração do Matrimônio das origens até ao século IV

A maior parte dos autores sustentam que, durante os primeiros séculos, a celebração do Matrimônio cristão seguia os usos greco-romanos, salvo em seus aspectos idolátricos e imorais. Visto que, os testemunhos da época não façam referência ao modo de celebrar o Matrimônio, mas apenas ao conceito que tinham deste sacramento, nos movemos no terreno das hipóteses, embora sejam razoáveis.

a) O Matrimônio na Grécia e em Roma

Os gregos e romanos celebravam o matrimônio em dois momentos distintos e separados no tempo: os esponsais e as núpcias.

Na Grécia, durante a época clássica, os esponsais consistiam em um encontro entre o pai da noiva e o noivo, para determinar tudo o que fosse relativo ao matrimônio e especialmente o dote, que permanecia como propriedade da noiva, e apenas o marido podia usufruir deste dote. Tratava-se, portanto, de uma entrada na família e de um compromisso recíproco dos noivos. Passado um certo tempo, celebrava-se as núpcias.

O esquema celebrativo das núpcias era o seguinte: 1) oferecimento de um sacrifício às divindades tutelares das bodas, na casa da esposa sob responsabilidade do pai da família; 2) banquete nupcial, durante o qual os esposos levavam sobre suas cabeças uma grinalda, normalmente de mirto, ou uma coroa de metal; 3) entrega da esposa ao marido, a cargo do pai, e coroação de ambos os esposos, imediatamente antes de iniciar o cortejo nupcial; 4) cortejo nupcial da noiva à casa do esposo ao entardecer, entre músicas, cantos e bailes; 5) acolhida da esposa pelos sogros e coroação da mesma com frutos, como símbolo de fecundidade e prosperidade; 6) inspeção do lugar por ambos os esposos de mãos dadas; 7) condução dos esposos à câmara nupcial pelos pais e amigos, onde comiam uma fruta granosa, como símbolo de fecundidade; e 8) retirada dos convidados, dando gritos para espantar os maus espíritos.

Em Roma seguiam-se costumes muito parecidos. Primeiro celebrava-se os esponsais segundo uma fórmula jurídica muito rígida. Os dois chefes de família realizavam um stipulatio, que com o tempo se converteria em um verdadeiro contrato; o dote, era, portanto, um elemento importante dos esponsais. No final do século I a.C. aparece um elemento desconhecido pelas fontes antigas: a dextrarum coniunctio, ou seja, a união das mãos. Plínio fala de um anel de fero sem pedras preciosas, que o noivo enviava à noiva. Depois de um tempo celebrava-se as núpcias.

O esquema celebrativo das núpcias era o seguinte: 1) vestição da noiva, que recebia uma grinalda de mirto ou de laranja, e o véu amarelo com listas vermelhas (flammeum), distintivo das mulheres casadas (esta imposição do véu possuía tanta importância que casar-se significava velar-se: nubere); 2) apresentação da noiva por uma pronuba, mulher casada que era uma espécie de dama de honra, consulta aos augúrios — sempre favoráveis — e, sobretudo, leitura do contrato, tabulae matrimoniales, na presença de testemunhas, que assinavam; 3) intercâmbio dos consentimentos (ubi tu Gaius, ego Gaia, era a fórmula consagrada em Roma); 4) entrega da esposa ao marido pela pronuba mediante a união das mãos (dextrarum iunctio); 5) oferecimento de um sacrifício aos deuses, primeiro em casa e posteriormente nos templos; 6) banquete nupcial, ordinariamente na casa da esposa; 7) cortejo da esposa para a casa do esposo, como na Grécia; e 8) cortejo dos esposos à câmara nupcial.

No dia seguinte a nova esposa vestia-se de matrona e oferecia um sacrifício aos deuses lares, realizando um segundo banquete.

b) O Matrimônio cristão

De acordo com a célebre frase da Carta a Diogneto: «(os cristãos) casam-se como os demais homens»[i], o matrimônio cristão celebrava-se segundo os usos que acabamos de descrever. A Igreja estava de acordo com a concepção jurídica romana que definia o matrimônio segundo o consentimento («matrimonium fit consensus», dizia Ulpiano), adotando este marco legal para fixar suas exigências, sobretudo a proibição do divórcio, admitido pelas leis romanas.

A Carta a Diogneto não pode ser tomada ao pé da letra, visto que na celebração do matrimônio na Grécia e em Roma existiam elementos que um cristão não podia assumir, tais como o sacrifício aos deuses, a consulta aos augúrios e a costumes licenciosos que acompanhavam o cortejo nupcial. A partir disto não é impensável que os cristãos tivessem  alguns ritos e orações específicas, embora não tenhamos testemunhos que absolutamente comprovem isto, devido, entre outras causas, a não existência de textos fixos nas celebrações desta época.

Conforme o parecer da maioria dos liturgistas, não parece provável que antes do século IV existisse uma bênção sobre os esposos. Apesar disto, os fiéis sabiam que seu Matrimônio não era como o dos pagãos, mesmo que fosse semelhante quanto à forma, era transfigurado por dentro graças ao Batismo: uniam-se em Cristo e esta união era sinal de outra mais alta, a de Cristo com sua igreja (cf. Ef 5,32). Esta convicção é testemunhada por Tertuliano e as imagens de alguns sarcófagos ou fundos de copa, nos quais o próprio Cristo aparece coroando os dois esposos e presidindo a união de suas mãos, colocadas sobre o livro dos Evangelhos. Os gestos matrimoniais dos pagãos e cristãos eram parecidos, mas o significado das núpcias situava-se num plano muito diferente.

3.2. A celebração do Matrimônio a partir do século IV ao século X

O principal fenômeno que tem lugar durante estes séculos é a ritualização eclesial do Matrimônio. Por um lado, é criada uma liturgia nupcial embrionária e aparece a bênção litúrgica dos esposos; por outro lado, a Igreja começa a regular o ordenamento jurídico do Matrimônio, exigindo, sobretudo, que deixe de ser celebrado na casa dos esposos ou em outro lugar privado e se realize publicamente in facie ecclesiae diante do sacerdote; com estas medidas a Igreja queria ter um controle sobre os matrimônios clandestinos.

Os usos litúrgicos não são uniformes no Ocidente, eles agrupam-se em torno de Roma e Milão, por um lado, e as Gálias, Espanha e países celtas por outro; sendo elementos determinantes a velatio nuptialis no primeiro caso, e a benedictio in thalamo em segundo.

a) A “velatio nuptialis” em Roma e Milão

O desenvolvimento natural da celebração sacramental pedia que a bênção de Cristo aos esposos terminasse manifestando-se externamente na presença do pai de família, do bispo ou do presbítero convidado para as núpcias; a Sagrada Escritura, continha exemplos de oração e bênção para o casamento.

De fato, no início do século V São Paulino de Nola testemunha uma oração de bênção sobre os esposos em um poema nupcial composto por ocasião do matrimônio de Juliano de Benevento. O Bispo pronuncia a bênção nupcial sobre os esposos, cuja cabeça permanece coberta com um velum ou velamen (distinto do flemmeum romano que vimos anteriormente).

Esta velatio é o único rito litúrgico existente em Roma durante muitos séculos. Era obrigatória para os clérigos, aconselhada aos leigos e negada aos fornicadores e aos que contraíssem segundas núpcias.

Os três sacramentários romanos contém formulários da bênção nupcial e outros ritos complementares.

O Sacramentário Veronense contém um ordo intitulado incipit velatio nupcialis[ii], com as três orações da missa, um hanc igitur próprio e uma bênção sobre os esposos, precedida de uma oração, faltando porém, um prefácio próprio. A oração da bênção inspira-se na Sagrada Escritura e é integralmente voltada para a esposa. Partindo da criação da mulher das costela de Adão, faz-se notar que vêm em sua ajuda e ambos formam uma só carne; oferece exemplos de castidade e santidade de mulheres da Sagrada Escritura e pede que a mulher tenha um sentido aguçado do pudor, sabedoria necessária para que o Matrimônio transcorra feliz, e seja fecundo em filhos. A bênção nupcial é reservada ao sacerdócio ministerial.

O Sacramentário Gelasiano contém um ordo intitulado incipit actio nuptialis[iii]. É fácil concluir que as partes do Sacramentário Veronense foram ordenadas para colocar a bênção em seu devido lugar: entre o Pai Nosso e a Pax Domini. A bênção nupcial é praticamente a mesma do Sacramentário Veronense e, por isso, dirigida à esposa; mas também com uma bênção sobre ambos os esposos depois da Comunhão e antes da oração pós-comunhão. O Sacramentário Gelasiano possui prefácio próprio e a peculiaridade de um hanc igitur para o trigésimo dia das núpcias ou para o primeiro aniversário do Matrimônio.

O Sacramentário Gregoriano também organizou em suas orationes ad sponsas velandas as partes do Sacramentário Veronense, com a finalidade de situar a bênção no lugar do Sacramentário Gelasiano. As orações são as mesmas do Sacramentário Veronense, mais o prefácio do mesmo Sacramentário Gelasiano, com variantes que o empobrece um pouco.

Os ritos destes três sacramentários são a base de todos os rituais posteriores até nossos dias.

b) Os usos das Gálias, Espanha e países Celtas

A bênção dos esposos na câmara nupcial é a forma mais comum da liturgia matrimonial nas Gálias. Este costume apoia-se, sobretudo, no relato bíblico das bodas de Tobias e Sara (cf. Tb 8,4-10), mencionado no texto da bênção nupcial conservado no Missal de Bobbio. Tal costume foi substituída por São Cesário de Arles, que não permitiu que em sua Igreja fosse dada a bênção nupcial na câmara nupcial, mas na basílica, seguindo os usos da Igreja de Roma.

Na Espanha existia já no século IV o costume de que um sacerdote abençoasse o Matrimônio, conforme uma carta de Sirício a Himério de Tarragona; No entanto, não há uma descrição da liturgia matrimonial anterior ao De ecclesiasticis officiis de Santo Isidoro, e esta é fragmentária. O apêndice do Liber Ordinum — que pode testemunhar, junto com o Sacramentário de Vic, um verdadeiro ordo de matrimonio in thalamo — apresenta uma liturgia nupcial muito mais rica e desenvolvida que a galicana, pois compreendia os seguintes elementos: bênção da câmara nupcial, ofício votivo para a vigília e manhã das bodas, bênção de ambos os cônjuges na igreja e da mulher durante a missa, e a última bênção sobre os esposos. Além disto, existia dois gestos que foram adotados nos rituais medievais: a traditio puellae ao esposo, realizada pelo sacerdote em nome e no lugar do pai, e um ordo arrarum. Ambos os ritos pertenciam no início aos esponsais, que tinha muita importância e serviam para fazer passar uma jovem do clã do seu pai ao do marido. Os esponsais caracterizavam-se pela entrega do dote à família da futura esposa e deu-se lugar a uma bênção. Esta conferia aos esposos uma obrigação no sentido estrito, a qual motivou que tais celebrações fossem realizadas o mais próximo possível das bodas, e no século XI passaram a ser realizadas imediatamente antes da missa de casamento. Os noivos levavam ao sacerdote duas alianças; a bênção que se seguia era, por sua vezes, uma bênção das alianças e uma invocação sobe o casal. Um beijo entre os noivos ratificava os esponsais.

A bênção in thalamo foi conservada na Inglaterra, depois de ser suplantada nas Gálias pelos usos romanos; voltará ao continente por meio da Normândia. Na Alemanha, antes do século XI, os usos vigentes são praticamente os romanos.

3.3. A celebração do Matrimônio do século XI ao Concílio de Trento

Até agora encontramos duas situações: o Matrimônio celebrado em casa, sem a presença de ministros sagrados e carente de ritos litúrgicos (séculos I-IV); e o Matrimônio celebrado na casa dos esposos, salvo nos casos de Roma e Milão, mas com a presença de ministros sagrados e segundo uma liturgia nupcial.

No século XI aparece uma nova situação: o Matrimônio deixa de ser celebrado na casa ou em outro lugar semelhante e se situa imediatamente antes da missa, mas no exterior da igreja (in facie ecclesiae, no sentido literal). Isto aconteceu devido as preocupações da igreja: por um lado, assegurar a liberdade do consentimento (sobretudo o da mulher), já que, segundo os teólogos e canonistas da época e dos séculos posteriores, este constituía o Matrimônio, inclusive quando carecesse de formalidades e publicidade; e, por outro lado, tornar público o casamento.

Para assegurar a liberdade do consentimento da esposa, os sínodos e capítulos insistem em que os esposos recebessem a bênção nupcial, e que por sua vez os sacerdotes realizem uma interrogação prévia. Para assegurar o caráter público reaparece a bênção in thalamo na Normandia e daí se estendeu por toda a França e dela para todo o continente: na noite das núpcias o sacerdote abençoa os esposos, a câmara nupcial e a aliança do matrimônio, mesmo que tenha recebido a bênção pela manhã na igreja. Em seguida foi comprovado que tal bênção se prestava a inconvenientes e era demasiadamente privada; por este motivo, foi proibida no sínodo de Ruan no ano 1012, de modo que, mesmo mantida em alguns lugares, carecia de valor jurídico ou sacramental.

A publicação do Matrimônio foi assegurada pela transferência da casa para as portas da igreja. Embora existisse uma grande variedade de Ordines, os ritos matrimoniais eram realizados do seguinte modo: 1) diante da igreja era realizada a troca de consentimento entre os esposos, a entrega da aliança e do dote, a assinatura e a entrega do dote diante das testemunhas — trata-se de ritos tradicionais dos esponsais convertidos em ritos do próprio Matrimônio —, adextrarum coniuctio, pertencente ao antigo Ritual do Matrimônio, sem a entrega da esposa para o esposo, apenas simbolizada pelo dom recíproco dos esposos, também expresso com as palavras. 2) Seguia-se depois a missa, durante a qual se proferia a bênção dos esposos, imediatamente antes da pax vobis, segundo o uso tradicional. 3) Terminada a missa, realizava-se alguns ritos locais, como a bênção do pão e do vinho e a bênção da câmara nupcial (benedictio thalami), próprios das culturas autóctones ou da piedade popular.

A fórmula do consentimento poderia ser reduzida a um «sim», respondendo às perguntas do sacerdote, ou usando esta significativa fórmula, ou outra parecida: «eu, N., te recebo N., aqui presente, como mulher e esposa, e te prometo manter fidelidade e lealdade: na saúde e na doença, a proteger-te, e em quanto vives, não te trocarei por nenhuma outra», como diz o ritual de Châlons do século XV. Embora não poucos autores — como Ivo de Chartres e Idelfonso de Tours — pensassem que o consentimento constituísse a essência do sacramento, outros como Guilherme de Paris, julgavam que o Matrimônio não possuía sacramentalidade, nem a graça que lhe é intrínseca, se o consentimento não fosse acompanhado da bênção do sacerdote. Esta concepção era a existente durante a época do concílio de Trento.

Durante os séculos XI-XV, a entrega da aliança — ou dos anéis, como na Alemanha — fazia-se seguindo a seguinte rubrica — ou outra substancialmente idêntica —: «o sacerdote entrega a aliança ao esposo, o esposo, através da mão do sacerdote, coloca em um dos dedos da esposa, dizendo: (…)». Simboliza a aliança de Cristo com a Igreja, da qual participavam ambos os esposos. Sem dúvida, esta teologia bíblica da aliança não aparece nas fórmulas da bênção da aliança.

A entrega das arras aparece sobretudo a partir dos séculos XIV-XV, embora já desde o século XIII as Ordines do Matrimônio falassem do documento do dote, devido ao fato que o direito imperial exigia um instrumentum dotale chamado tabulae nuptiales; nele constava o consentimento e era, por isso, a prova testemunhal da existência do Matrimônio.

Quanto à missa nupcial, as orações são as do Sacramentário Gregoriano, mesmo que em alguns manuscritos apareça a missa da Santíssima Trindade como uma segunda oração, também do Sacramentário Gregoriano.

A bênção dos esposos acontecia depois do Pai Nosso e antes da Pax vobis.

Esta preeminência dos esposos motivou que se obscurecesse a função do sacerdote e o sentido originário do ego vos coniungo ou fórmulas equivalentes, o do gesto de dar as mãos, que era a entrega da noiva feito pelo sacerdote no lugar e em representação do pai, para salvaguardar a liberdade do consentimento do esposo no caso de um Matrimônio imposto pelos pais.

3.4. O Matrimônio cristão segundo a reforma tridentina

O desejo de assegurar a liberdade do consentimento da esposa e, sobretudo, de acabar com os Matrimônios clandestinos motivou o concílio de Trento a declarar inválido o Matrimônio celebrado sem a presença do pároco[iv]. Isto trouxe consigo a generalização da fórmula precedente:«ego vos coniungo» como fórmula sacramental[v]. Ambos os fatos motivaram que o sacerdote ocupasse um lugar indispensável na celebração do Matrimônio, como testemunha o Ritual de 1614. Certamente, Trento não pretendeu abolir os rituais locais e, de fato, em muitas dioceses eles continuaram em uso; mas a partir do século XVII generalizou-se o uso do Ritual Romano.

Conforme este ritual, o Matrimônio não era mais celebrado diante, mas dentro da igreja, antes da celebração da missa. O esquema da celebração é simples: 1) manifestação do consentimento (ordinariamente respondendo «sim» às perguntas do sacerdote); 2) união das mãos com a fórmula «ego vos coniungo» e uma aspersão; 3) bênção das alianças, que o esposo entrega à esposa; 4) alguns versículos, e uma oração conclusiva. Em seguida celebra-se a missa do Matrimônio, não possui mais prefácio e nem hanc igitur próprios e a bênção da noiva é realizada depois do Pai Nosso.

4. O Ritual do Matrimônio do Concílio Vaticano II

A constituição Sacrosanctum Concilium pediu a reforma do Ritual Romano de 1614 e indicou alguns critérios que deviam ser considerados na celebração do Matrimônio. A respeito da reforma, estabeleceu: a) revisar e enriquecer o rito, de modo que expresse a graça do sacramento e inculque com maior clareza os deveres dos esposos (cf. SC 77-a); b) conservar os costumes e ritos legítimos das diversas regiões (cf. SC 77-b); e c) dar ampla margem às Conferências Episcopais, para que pudessem preparar um rito próprio, que respondesse aos usos dos respectivos lugares, permanecendo firme a obrigação de que «o sacerdote assistente peça e receba o consentimento dos contraentes» (cf. SC 77-c). Quanto à celebração, foram estabelecidos dois critérios básicos: o Matrimônio deve ser celebrado «ordinariamente» dentro da missa ou em um contexto de celebração da Palavra (cf. SC 78), e a bênção da esposa seria reformulada convenientemente para inculcar a igualdade de ambos os esposos na obrigação da mutua fidelidade (cf. SC 78).

O Ritual publicado aos 03 de março de 1969[vi] responde a este critérios. De fato: 1) é um modelo proposto às Conferências Episcopais para que realizem quantas adaptações julgarem oportunas, e inclusive publiquem um ritual completamente próprio; 2) propõe como celebração-tipo a realizada dentro da Celebração Eucarística; 3) foi revisada a tradicional oração da bênção sobre a esposa; 4) foi introduzido uma seleção de perícopes bíblicas muito ampla e rica; 5) o formulário da missa foi enriquecido com novas orações e com um prefácio  e hanc higitur próprios; e 6) foi criado novos formulários para a troca de consentimento, a bênção das alianças…

O Ritual foi estruturado da seguinte maneira: decreto de promulgação da Congregação dos Ritos, breve Praenotanda, celebração do Matrimônio dentro da missa, celebração do Matrimônio fora da missa, Celebração do Matrimônio entre parte católica e parte não batizada, e alguns textos para o rito do Matrimônio e a «missa para os esposos».

A celebração-tipo é a que tem lugar dentro da missa. O esquema celebrativo é o seguinte: rito de acolhida, liturgia da palavra, celebração do Matrimônio, oração eucarística, bênção nupcial e bênção final.

a) O rito de acolhida

O Ritual é muito sóbrio quanto a este rito, ordinariamente é celebrado na entrada da igreja, embora possa ser realizado junto ao altar: o sacerdote se aproxima dos noivos, e saúda-os e manifesta a participação da Igreja em sua alegria. Na hipótese de que aconteça diante da igreja, não se identifica com a celebração medieval in facie ecclesiae, pois então seria aí onde se celebraria o Matrimônio, e portanto, aconteceria antes da missa, atualmente o Matrimônio é realizdo dentro da Celebração Eucarística. O novo Ritual une Matrimônio e Eucaristia ou, pelo menos, Matrimônio e Palavra de Deus. Esta realidade deve aparecer na monição inicial.

b) A coleta

A missa Ritual contém quatro fórmulas para a oração da coleta. A primeira vê o Matrimônio à luz da relação entre Cristo e Igreja (Sacramentum Christi et Ecclesiae); trata-se de um texto praticamente novo, composto sobre uma expressão da bênção nupcial da missa precedente e da oração da coleta da quarta-feira da semana da páscoa. A segunda fórmula desenvolve o tema do amor nupcial, servindo-se de um texto do Sacramentário de Fulda, com alguns retoques. A terceira oração pede para os esposos a fidelidade e a descendência. A quarta deseja a unidade, a aliança e a caridade.

c) A Liturgia da Palavra

O Lecionário contém oito textos do Antigo Testamento, sete salmos responsoriais, dez textos das cartas dos Apóstolos e outras tantas dos Evangelhos. A doutrina é muito rica e pode servir como ponto de referência para uma catequese sobre o Matrimônio. Pode ser proclamado três leituras. Ao selecionar as leituras deve ser considerado não apenas os noivos, mas também toda a comunidade que participa do rito. Na homilia, o sacerdote deve ajudar a assembléia a compreender o mistério do Matrimônio e os noivos a se prepararem para o compromisso.

Como era previsto, não faltam duas narrações do Gênesis com o projeto originário de Deus sobre o Matrimônio (cf. Gn 1,16-31; 2,18-24), objeto da pregação de Cristo para recordar a lei fundamental da unidade profunda e indissolúvel do casal desejada peloCriador (cf. Mt 19,36; Mc 10,6-9). Outros textos mostram o Matrimônio vivido sob o olhar de Deus (narrativas das bodas de Isaac e Rebeca, e Tobias e Sara). Não podiam faltar as leituras que sugerem (cf. Jo 2,1-11) e expressam abertamente (cf. Ef 5,2.21-33) o mistério da união de Cristo com a Igreja. Assim mesmo, há uma série de textos que desenvolvem de modo explícito ou implícito o programa de vida de um lar cristão.

d) O gesto sacramental

Concluída a homilia tem lugar a celebração do Matrimônio, seguindo o seguinte esquema: monição prévia; interrogatório sobre a liberdade, fidelidade mutua e permanente, e procriação e educação dos filhos; união das mãos dos contraentes; intercâmbio do consentimento; bênção e imposição das alianças; e oração universal.

A monição deve ressaltar a união entre o Batismo e o Matrimônio.

O interrogatório feito aos noivos sobre a liberdade, fidelidade e procriação e educação dos filhos possui hoje uma especial importância, considerando-se o ambiente contrário em contrair compromissos permanentes, a mentalidade divorcista e a cultura antinatalidade. Sem dúvida, não é uma espécie de pré-consenso matrimonial nem pode substituir a investigação preparatória; seu significado é proclamar durante a ação litúrgica e diante da comunidade as condições que torna possível o Matrimônio.

Diante do uso anterior, o gesto da união das mãos dos noivos precede o consentimento; e funda-se na mais antiga tradição romana (dextrarum iunctio) e bíblica, embora não se suponha uma referência à traditio puellae.

O consentimento continua sendo o elemento essencial do rito. Trata-se de «um ato humano, pelo qual os cônjuges se doam e recebem mutuamente» (GS 1628) e não pode ser substituído por «nenhum poder humano» (CIC 1628)[vii]. O modo de expressar este consentimento pode variar, visto que consiste em uma resposta às perguntas do sacerdote — segundo o formulário do anterior ritual com outra fórmula —, ou na declaração de cada parte de tomar o outro como esposo. A fórmula da segunda alternativa é nova e recolhe substancialmente a usada nos países de língua inglesa e também em algumas dioceses da França a partir da Idade Média, texto comum entre católicos, anglicanos e outras confissões. A fórmula com a qual sacerdote recebe o consentimento também é nova e tema vantagem de expressar que toda a Igreja é testemunha do novo Matrimônio, elimina toda possível ambiguidade na interpretação do anterior «ego vos coniungo in matrimonium» e ressalta de maneira mais evidente o papel do sacerdote no sacramento, visto que realça a ação de Deus: «Deus confirme este compromisso que manifestastes perante a Igreja e derrame sobre vós as suas bênçãos! Ninguém separe o que Deus uniu!» (RM 64)[viii].

«Dessa maneira, do ato humano pelo qual os cônjuges se doam e recebem mutuamente, se origina, também diante da sociedade, uma instituição firmada por uma ordenação divina.» (GS 48,1). «A aliança dos esposos é integrada na aliança de Deus com os homens: “O autêntico amor conjugal é assumido no amor divino”» (CIC 1639). O vínculo matrimonial não é, portanto, humano, mas divino; disto resulta que «o casamento realizado e consumado entre batizados jamais pode ser dissolvido» (CIC 1640), nem mesmo pela própria Igreja (cf. CDC 1141).

Depois do consentimento segue-se uma breve oração; e a bênção e entrega da aliança. O sacerdote abençoa as alianças da esposa e do esposo com uma das fórmulas, embora sendo de origem diversas, possuem um conteúdo idêntico, referindo-se à fidelidade e ao amor, na forma mais ou menos desenvolvida.

O formulário da oração dos fiéis acolhe temas já mencionados, embora com novas alusões, por exemplo, a família como lugar privilegiado para a experiência de fé e da manifestação da Igreja.

e) A Liturgia Eucarística

A liturgia eucarística caracteriza-se pela riqueza de formulários: três orações sobre as oferendas, três prefácios e um hanc igitur próprio.

As orações sobre as oferendas possuem todas um mesmo tema de fundo; uma foi tirada do missal anterior e as outras duas são de criação nova. Quanto aos prefácios, o primeiro recolhe o texto do Sacramentário Gelasiano Qui federa e manifesta claramente que o Matrimônio enriquece com sua fidelidade a humanidade e a Igreja; O segundo, de nova criação, estabelece uma relação eloquente entre Páscoa-Igreja-Matrimônio; o terceiro — também novo — considera a experiência matrimonial, na sua totalidade, à luz da «vocação de amor».

O embolismo do hanc igitur produz o texto dos antigos sacramentários, modificados e adaptados aos esposos.

f) A bênção nupcial

A bênção nupcial — antiga Oratio super sponsam — sofreu importantes retoques e recuperou seu lugar tradicional.

As mudanças mais importantes são estas: a introdução de um parágrafo referente ao marido, de modo que seu destinatário já não é mais só a esposa, mas o esposo também; a conclusão, praticamente nova; a supressão de algumas expressões jurídicas menos oportunas ou não suficientemente aprofundadas do ponto de vista cultual ou bíblico; e o resumo em um só frase — por razões catequéticas — do elenco das santas mulheres que a Sagrada Escritura apresenta como exemplo de esposas e mães. O resultado é uma oração mais linear e profunda, e não perdeu sua solenidade, graças aos três parágrafos iniciais que permaneceram invariáveis: o sublime projeto inicial de Deus se faz ainda mais sugestivo, quando se contempla o Matrimônio como «símbolo da união de Cristo com a Igreja» e, por isso mesmo, merecedor de receber «a bênção que não foi abolida pelo pecado original nem pelo castigo do dilúvio».

Em qualquer situação, foi mantida a fisionomia original, de modo que continua seu caráter fundamental de bênção da esposa[ix].

Quanto à localização, preferiu-se situá-la logo depois do Pai Nosso e antes da Pax Vobis(suprimindo o Libera-nos), e não depois do consentimento, para manifestar a união entre Matrimônio e Eucaristia, embora a outra alternativa teria conferido um ambiente menos jurídico à celebração sacramental e configurado melhor o papel que corresponde ao sacerdote.

Por outro lado, acrescentou-se à bênção tradicional dois novos textos. O primeiro se caracteriza porque situa de modo mais completo o Matrimônio dentro da história da salvação; o segundo, ao contrário, é mais simples e linear, e se limita a dar algumas linhas de ação facilmente compreensível a todos.

g) Os últimos formulários de bênção

Conclui-se a celebração com uma bênção final, não mais a antiga de Tobias, Deus Abraham(cf. Tb 7,15), uma bênção solene, e é previsto um formulário tríplice. O primeiro — usado no ritual da Alemanha — inspira-se livremente na liturgia hispânica[x], os dois outros formulários são de criação nova: o primeiro de caráter trinitário e o outro faz referência às bodas de Caná, o amor de Cristo e o testemunho da vida cristã.

4.1. A segunda edição típica do “Ordo celebrandi Matrimonium”

a) Os “Praenotanda”

A segunda edição do Ritual do Matrimônio (19-03-1990)[xi] supre algumas deficiências dosPraenotanda anteriores, aproveitando a experiência eclesial, e introduz algumas novidades rituais.

Os Praenotanda de 1969 expunham a doutrina sobre o Matrimônio, tomando em consideração certos problemas celebrativos e enfrentando o difícil problema das adaptações; apresentando um avanço importante em relação ao ritual de 1952, cujas orientações doutrinais eram sobretudo jurídicas, mas demasiadamente breves (18 números) e deixavam à margem questões teológico-litúrgicas importantes. Os novos Praenotanda suprem estas lacunas, pois — sem renunciar a doutrina do Concílio Vaticano II — beneficiam-se de duas importantes fontes posteriores: a exortação familiaris consortio, de João Paulo II, e o Código de Direito Canônico. Por isso, desenvolveram com relativa amplitude as principais linhas teológicas, litúrgicas e pastorais sobre o Matrimônio.

Estão divididos em quatro partes: 1) importância e dignidade do sacramento do Matrimônio, 2) funções e ministérios, 2) celebração e 4) adaptações que correspondem às Conferências Episcopais.

A dignidade e a importância do Matrimônio (nn. 1-11) é desenvolvida segundo a doutrina daGaudium et Spes e Familiaris consortio.

A parte das funções e ministérios (nn. 12-27), completamente nova, levou em consideração as normas do Direito Canônico e algumas indicações da Familiaris consortio, e se distingue, sobretudo, naquilo que concerne à natureza, finalidade, importância e responsabilidade da preparação remota, próxima, e imediata ao Matrimônio e na pastoral matrimonial (n.14). A preparação remota começa na infância com a formação humana e cristã, e pretende que o cristão chegue ao Matrimônio — por meio das diversas etapas que acompanham o desenvolvimento — com a consciência de sentir-se chamado a responder a uma vocação divina. A preparação próxima é uma preparação específica para o Matrimônio, na qual inclui-se tudo o que deve conhecer e viver quem deseja contrair este sacramento como um bom cristão. A preparação imediata tem lugar umas semanas ou meses anteriores à celebração sacramental.

A terceira parte, é dedicada à celebração do Matrimônio, faz-se um sério apelo à preparação litúrgica (n. 29). Dentro das indicações pastorais, destacam-se os momentos mais significativos da celebração: a liturgia da Palavra, o consentimento dos cônjuges, a bênção nupcial e a Comunhão Eucarística dos esposos e assistentes. Leva-se também muito a sério a participação da comunidade cristã (n.29), embora, com frequência, tal comunidade seja reduzida a uma assembléia de familiares, amigos e conhecidos.

Propõe-se como ideal que «o próprio sacerdote prepare os noivos, e faça a homilia na celebração do Sacramento, e receba o consentimento e celebre a Eucaristia» (n. 23). Com a delegação do pároco ou do ordinário do lugar, o diácono pode também «presidir à celebração do Sacramento, sem excluir a bênção nupcial» (n. 24). Inclusive «onde faltam sacerdotes e diáconos, o Bispo diocesano, com a prévia aprovação favorável da Conferência dos Bispos e obtida a licença da Santa Sé, pode delegar leigos para assistirem aos Matrimônios»[xii].

Por último, a parte quarta ocupa-se das adaptações que correspondem às Conferências Episcopais (nn. 39-44). Substancialmente recolhe o texto anterior (nn. 12-18), ratificando a possibilidade de criar um Ritual de Matrimônio próprio, respeitando unicamente a presença de um ministro qualificado para pedir e receber o consentimento e proferir a bênção nupcial.

b) Variações do ritual

A segunda edição do Ritual é substancialmente idêntica à primeira, embora tenha sido introduzido numerosos retoques.

Assim, no capítulo I: Ordo celebrandi matrimonium intra Missam, ressalta-se os títulos e subtítulos com a finalidade de se poder captar melhor o desenvolvimento e importância do rito, e esclarece-se melhor certas rubricas, por exemplo, sobre o modo de realizar o rito da acolhida (RM 45-50), a escolha da missa (RM 54) e as leituras (RM 55-56), a omissão do ato penitencial (RM 53) e o libera nos (RM 72). Também foi modificado parcialmente o texto da monição que precede a troca de consentimento (RM 59) e propõe-se uma nova fórmula — mais bíblica — para que o sacerdote o receba (RM 64).Depois do consentimento propõe-se uma breve aclamação (RM 65), e entre a entrega das alianças a comunidade cante um hino ou cântico de louvor (RM 102). Foram modificadas parcialmente as fórmulas da bênção nupcial, incluindo uma invocação ao Espírito Santo sobre os esposos (RM 74, 172, 242, 244). Na primeira fórmula há uma variante que especifica que tanto as obrigações como as bênçãos são dos esposos embora continue falando de bênção sobre a esposa (RM 74). Por outro lado, abre-se a possibilidade de cantar a bênção nupcial, recuperando a tradição medieval; conservou-se, porém, o lugar determinado pelo Ritual precedente, para manter a união entre a oração e a Comunhão, e para deixar claro que o Matrimônio cristão encontra uma espécie de selo na Comunhão Eucarística.

O Capítulo II contempla a celebração do Matrimônio fora da missa. Entre as novidades principais figuram: os esclarecimentos sobre o rito de acolhida e a fórmula de saudação (RM 86), a fórmula da oração que segue (RM 89), e o modo de articular a oração universal com a bênção nupcial (RM 103), e ao que é relativo aos ritos de Comunhão (RM 103, 108 – 115).

O capítulo III é novo e contém o Ordo celebrandi Matrimonium coram assistente laico, que foi compilado para cumprir as disposições previstas no Código de Direito Canônico (CDC 112). Tanto os textos como as rubricas levam em consideração esta particularidade.

O capítulo IV, correspondente ao terceiro da edição anterior, contempla o Matrimônio dos catecúmenos; mas ao invés de falar de Matrimônio inter partem catholiam et partem nom baptizatam — como faz o Ritual de 1969 — usa um título mais exato: Matrimônio inter partem baptizatam et partem cathecumenam vel non christianam. Este fato provocou algumas mudanças no formulário da entrega das alianças (RM 168), na monição prévia ao Pai Nosso (Rm 170), na monição da bênção nupcial (Rm 171), e na bênção nupcial (RM 172, 173).

O capítulo V, que corresponde ao quarto da edição anterior, contém textos que enriquecem as fórmulas eucológicas e as leituras bíblicas. Introduziu-se cinco novas perícopes[xiii]. Uma rubrica inicial precisa, deve ser escolhida sempre uma leitura que fale explicitamente do Matrimônio. Na parte eucológica introduziu-se duas coletas, tiradas da antiga oração romana, e embolismos para as Orações Eucarísticas II e III.

Um apêndice final inclui dois modelos de oração universal (Rm 251-252), um Ordo benedictionis desponsatorum (RM 253-271), tirado do Ritual de Bênçãos (B 195-214) e umOrdo benedictionis coniugum intra Missam, occasione data anniversarii Matrimonii adhibenda(RM 272-286), tomada também do Ritual de Bênçãos (B 90-106), com duas possibilidade de renovar o propósito de viver santamente o Matrimônio.

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[i] H. Marrou, A Diognète 5,6, (SChr 36 bis), Paris 1965, pp. 62-63.

[ii] L. C. Mohlberg, Sacramentarium Veronense, Romae 1956, p. 139.

[iii] L. C. Mohlberg – P. Siffrin – L. Eizenhofer, Liber Sacramentorum Romanae Ecclesiae anni circuli, Romae 1960, p. 203.

[iv] Decreto Tametsi (cf. DS 1813-1816).

[v] A propósito desta fórmula, cf. A. Duval, La formule «Ego vos in matrimonium coniungo» ou Concile de Trente, «LMD» 99 (1969), pp. 144-153.

[vi] Ritual Romanum ex decreto sarosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate pauli PP. VI promulgatum. Ordo Matrimonii, editio typica, Typis Polyglottis Vaticanis 1969.

[vii] Para que o sim dos esposos seja um ato livre e responsável, e para que a aliança matrimonial tenha bases humanas e cristãs sólidas e duráveis, a preparação para o casamento é de primeira importância

[viii] «Na Igreja Latina, considera-se habitualmente que são os esposos que, como ministros da graça de Cristo, se conferem mutuamente o sacramento do Matrimônio expressando diante da Igreja seu consentimento. Nas liturgias orientais, o ministro do sacramento — chamado “coroação” é o presbítero ou o Bispo que, depois de receber o consentimento recíproco dos esposos, coroa sucessivamente o esposo e a esposa em sinal da aliança matrimonial.»

[ix] A bênção nupcial encontra-se no n. 74 do RM. E as duas outras bênçãos opcionais encontram-se sob os nn. 242. 244.

[x] Cf. M. Ferotin (ed.), Le Liber Ordinum en usage dans l’Église wisigotique et mozarabe d’Espagne du V ou XI siècle (Monumenta Ecclesiae Liturgica), Paris 1904, p.437.

[xi] O texto dos praenotanda e um breve comentário pode ser visto em «notiae» 26 (1990), pp. 300-327. Cf. J.M.Rodríguez, Nueva ediçión del ritual del matrimonio. Teología y pastoral, «Phase» 187 (1992), pp. 13-26.

[xii] A nova edição do Ritual contém um apêndice para o suposto de que seja o leigo quem assiste ao Matrimônio. Existe variantes quanto às fórmulas, as saudações, a forma de proclamar o Evangelho, impartir a bênção nupcial — própria dos presbíteros e diáconos —, pedir o consentimento…

[xiii] Pr 31,10-13.19-20.30-31; Rm 15,1b-3a.5-7.13; Ef 4,1-6; Fl 4,4-9 e Hb 13,1-4a.5-6b.

Fonte: Presbíteros