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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Quando não dá certo, será que foi Deus que uniu mesmo ?

 

Pergunta Tenho um cunhado que foi casado no religioso e no civil. A esposa do matrimônio que a Igreja preserva traiu-o com outro homem, na sua própria casa. Como fica o sacramento matrimonial para a Igreja Católica Apostólica Romana? E o marido, pelas normas da Igreja, deve perdoar uma mulher adúltera só porque a Igreja fala que não pode dissolver um sacramento? “O que Deus uniu, não separe o homem!”. Será que foi Deus que uniu mesmo? Na própria Igreja existem tantos falsos profetas!


Resposta de Monsenhor José Luiz (foto)— A consulente tem provavelmente em vista o episódio em que Nosso Senhor perdoou a mulher adúltera, que os fariseus conduziram a Ele com uma pergunta análoga.


“Então os escribas e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; puseram-na no meio, e disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adultério. Ora, Moisés na Lei mandou-nos apedrejar tais pessoas. Que dizes tu, pois? E diziam isto para o tentarem, a fim de o poderem acusar. Porém Jesus, inclinando-se, pôs-se a escrever com o dedo na terra. Continuando, porém, eles a interrogá-lo, levantou-se e disse-lhes: O que de vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire a pedra. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Mas eles, ouvindo isto, foram-se retirando, um após outro, começando pelos mais velhos; e ficou só Jesus com a mulher, que estava no meio. Então Jesus, levantando-se, disse-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou? Ela respondeu: Ninguém, Senhor. Então disse Jesus: Nem eu te condenarei; vai, e não peques mais” (Jo 8,3-11).

O adultério é, portanto, um pecado grave, punido na Lei antiga com a lapidação (apedrejamento). Mas Jesus vinha temperar com uma dose de misericórdia a estrita e farisaica justiça das penas da Lei, que destarte não passariam a vigorar na Igreja que Ele vinha fundar. Tal se manifesta de modo muito claro no sacramento da penitência ou confissão, que perdoa, em nome e pelo poder de Deus, os pecadores verdadeiramente arrependidos de seus pecados, e que fazem o firme propósito de não mais pecar.

Porém, esta idéia de justiça temperada pela misericórdia estava completamente fora da cogitação dos adversários de Jesus. Portanto, se Ele simplesmente lhes respondesse que a mulher apanhada em flagrante adultério poderia ser perdoada (nas condições que Ele iria estabelecer), os fariseus o denunciariam perante o povo como opositor à Lei de Moisés, e assim incitariam o povo contra Ele. Se, porém, Jesus dissesse que a apedrejassem conforme a Lei em vigor, como ficaria a mansidão tão característica de sua pregação?

Essa era a estratégia habitual dos fariseus para tentarem colocar Jesus em contradição consigo mesmo ou com a Lei de Moisés. Dessa armadilha Jesus se sai divinamente, dizendo-lhes: “Quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”. E com o dedo recomeça a escrever algo na terra.

Os evangelistas não nos dizem o que Jesus escrevia. Alguns intérpretes da Sagrada Escritura — entre eles São Jerônimo, “rei dos exegetas” — levantam a hipótese de que escrevesse os nomes dos seus acusadores ali presentes e os respectivos pecados. Ou, quiçá, os nomes das mulheres infames com as quais cada um deles havia cometido o pecado de adultério. Isso explicaria que, começando pelos mais velhos, fossem se retirando um a um, sem dizer palavra. Nenhum estava, pois, sem pecado, e não ousaram atirar a primeira pedra...

Mas o perdão que Jesus concede à mulher adúltera não é incondicional: “Eu também não te condenarei: vai, e não peques mais”. Supunha, portanto, o arrependimento e o firme propósito de emenda.

Normas da Igreja Católica Apostólica Romana

Esponsórios de Nossa Senhora e São José. -foto

Exemplo de fidelidade e dedicação para todos os católicos

Quando a consulente afirma que, segundo as normas da Igreja, o marido traído deve perdoar a mulher que o traiu, está simplesmente mal informada. A solução proposta pela Igreja é muito mais matizada. O cânon 1152 do Código de Direito Canônico coloca todas as condições que resultam da situação criada pelo cônjuge infiel. Comecemos por citá-lo:

“§ 1. Embora se recomende vivamente que o cônjuge, movido pela caridade cristã e pela solicitude do bem da família, não negue o perdão ao cônjuge adúltero e não interrompa a vida conjugal; no entanto, se não tiver expressa ou tacitamente perdoado sua culpa, tem o direito de dissolver a convivência conjugal, a não ser que tenha consentido no adultério, lhe tenha dado causa ou tenha também cometido adultério.

§ 2. Existe perdão tácito se o cônjuge inocente, depois de tomar conhecimento do adultério, continuou espontaneamente a viver com o outro cônjuge com afeto marital; presume-se o perdão, se tiver continuado a convivência por seis meses, sem interpor recurso à autoridade eclesiástica ou civil.

§ 3. Se o cônjuge inocente tiver espontaneamente desfeito a convivência conjugal, no prazo de seis meses proponha a causa de separação à competente autoridade eclesiástica, a qual, ponderadas todas as circunstâncias, veja se é possível levar o cônjuge inocente a perdoar a culpa e a não prolongar para sempre a separação” (destaques em negrito nossos).

Como se vê, o atual Código de Direito Canônico “recomenda vivamente” que o cônjuge inocente “não negue o perdão”, o que é muito diferente de obrigá-lo a conceder o perdão. Ele pode fazê-lo, “movido pela caridade cristã e pela solicitude do bem da família”, e também conserva “o direito de dissolver a convivência conjugal”, mas jamais o Sacramento validamente administrado.

Ouvida a autoridade eclesiástica e “ponderadas todas as circunstâncias”, cabe-lhe tomar a decisão mais conveniente para si e para os filhos. O perdão, em tese preferível, nem sempre será possível havendo contumácia da parte culpada.

A concepção hollywoodiana da vida

Vê-se que, por trás da pergunta, está uma insinuação falsa de que o problema causado pelo adultério só pode ser resolvido com a dissolução do vínculo conjugal, isto é, pela introdução do divórcio puro e simples.

Pois, se o cônjuge culpado já arranjou um parceiro circunstancial ou definitivo com quem possa conviver, não é justo — segundo esse raciocínio — que o cônjuge inocente passe o resto da vida sozinho, e nessas condições o divórcio seria a solução.

É o que está no fundo da pergunta apresentada pela consulente, daí a sua rejeição da norma “Não separe o homem o que Deus uniu”. E supõe que essa norma foi estabelecida por algum de “tantos falsos profetas” que “existem na Igreja”. Acontece que essa frase é do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, como está registrado no Evangelho de São Mateus:

“E foram ter com Ele os fariseus para o tentar, e disseram-lhe: É lícito a um homem repudiar sua mulher por qualquer motivo? Ele, respondendo, disse-lhes: Não lestes que quem criou o homem, no princípio criou um homem e uma mulher, e disse: Por isso deixará o homem pai e mãe, e juntar-se-á com sua mulher, e os dois serão uma só carne? Por isso não mais são dois, mas uma só carne. Portanto não separe o homem o que Deus juntou” (cap. 19,3-6; cfr. também São Marcos, cap. 10,2-12).

Daí exatamente a gravidade do pecado de adultério, que constitui um atentado direto contra o cônjuge inocente, equivalente a negá-lo como cônjuge. Daí também que não basta um choramingo qualquer do cônjuge culpado para que ele obtenha o perdão do cônjuge inocente. De outro modo, a própria existência do matrimônio carece de qualquer seriedade. Donde, enfim, que a solicitude pelo bem dos filhos é o fator que, na prática, pesa mais para que o cônjuge inocente resolva manter a convivência conjugal.

No fim das contas, trata-se para ele de adotar generosamente uma atitude heróica, que os filmes de Hollywood, inculcando persistentemente a idéia de um happy end na vida de todos os homens, contribuíram enormemente por desencorajar.

O happy end para um católico consiste em alcançar o Céu, pela conformação de nossa vida aos Mandamentos da Lei de Deus e da Igreja. A outra via — a via da moleza e da satisfação de nossas paixões — conduz para um outro lugar, tenebroso, onde haverá choro e ranger de dentes. Um verdadeiro unhappy end...

Que a Santíssima Virgem, que esmagou a cabeça da serpente desde o princípio, nos obtenha de Deus as graças necessárias para encarar com coragem a atitude heróica que as vicissitudes da vida eventualmente nos obriguem a assumir. Inclusive, se for o caso, o heroísmo da solidão a que nos atire uma infame traição conjugal.

Nossa Senhora será então o caminho que nos conduzirá à plena felicidade do Céu, e, já na Terra, à indizível felicidade de ser “amigo da Cruz”.

Fonte: Catolicismo

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