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domingo, 30 de agosto de 2009

Natureza vocacional do matrimónio cristão nos ensinamentos de São Josemaria Escrivá de Balaguer


A 21 de Novembro de 1964, com a promulgação da Constituição Dogmática Lumen Gentium, o magistério afirmou de modo solene pela primeira vez na história que o matrimónio é uma vocação. São Josemaria, importante precursor do Concílio Vaticano II, pregou «lá pelos anos 30»1 o sentido vocacional do matrimónio cristão. No presente estudo detemo-nos nalguns dos seus ensinamentos publicados, que nos parecem particularmente claros sobre a natureza vocacional do matrimónio cristão.

1. A graça da vocação

Na recente biografia de São Josemaria Escrivá escrita pelo historiador Vázquez de Prada, encontra-se uma descrição da vocação feita pelo Fundador do Opus Dei: «Era assim que, em rigor, o Padre Josemaria sentia a sua vocação: “Se me perguntardes como se nota o chamamento divino, como é que a pessoa se apercebe, dir-vos-ei que é uma visão nova da vida. É como se se acendesse uma luz dentro de nós; um impulso misterioso que impele o homem a dedicar as suas mais nobres energias a uma actividade que, com a prática, ganha corpo de ofício. Essa força vital, que tem qualquer coisa de avalanche irresistível, é aquilo a que outros chamam vocação.

A vocação leva-nos – sem disso nos apercebermos – a tomar uma posição na vida que manteremos com entusiasmo e alegria, cheios de esperança até ao próprio momento da morte. É um fenómeno que comunica um sentido de missão ao trabalho, que enobrece e dá valor à nossa existência. Jesus mete-se na alma com um acto de autoridade, na tua, na minha: o chamamento é isso” (Carta, 9-1-1932, n. 9)» 2.

Nesta descrição aparecem vários elementos significativos. Em primeiro lugar afirma-se que o chamamento é uma luz nova que, tal como São Josemaria ensinará explicitamente, noutros escritos, tem a sua origem em Deus. Isto, pondo de lado as questões de carácter psicológico sobre a percepção do chamamento, indica que na origem da vocação há uma intervenção singular de Deus, prévia a toda a decisão humana e, como também afirma o Fundador do Opus Dei, sem mérito algum para quem foi chamado: é Deus quem escolhe e chama por pura liberalidade. Por isso, existe verdadeiramente uma predilecção divina para com a pessoa chamada; mas não o entendida como elitismo, porque «Nada tem de particular que o Senhor, que é Pai, mostre predilecções determinadas com uns e com outros dos seus filhos: ainda que diferentes, tem-nas para todos; a cada um dá o que lhe convém, para si e para utilidade do conjunto da família e do trabalho» 3.

Por último, segundo São Josemaria, a chamada recebida leva a dar um sentido novo à vida inteira, e a tomar uma posição particular perante Deus e o mundo até ao momento da morte. Portanto, a vocação afecta toda a existência da pessoa chamada4

2. Vocação cristã

«Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tim 2, 4). Esta verdade revelada foi proclamada incansavelmente por São Josemaria porque, como escrevia aos fiéis do Opus Dei em 1940, «desde o dia 2 de Outubro de 1928, o Senhor encomendou ao Opus Dei a tarefa de tornar bem patente, de recordar a todas as almas, com o exemplo da vossa vida e com a palavra, que existe um chamamento universal à perfeição cristã e que é possível segui-lo»5 .

Cristo é o único mediador entre Deus e os homens por desígnio divino (cfr. 1 Tim 2, 5), de modo que não existe sob o céu nenhum outro Nome dado aos homens pelo qual possam alcançar a salvação (cfr. Act 4, 12; T 2. 7). Por conseguinte o chamamento à santidade é vocação cristã. E este, tal como foi revelado, faz-se efectivo em virtude do baptismo: o sacramento da fé pelo qual o homem se incorpora em Cristo como seu membro (cfr. 1 Co 6, 15), sendo feito filho de Deus (cfr. Gal. 4, 5-7) e partícipe da natureza divina (cfr. 2 P 1, 4), e por isso realmente santo (cfr. 1 Co 1, 2; Ef. 1, 4; 2, 19).

No seguimento da doutrina bíblica aqui aflorada, São Josemaria refere concretamente aos cristãos a chamada à santidade, porque «sendo membros de um povo santo, todos os fiéis receberam essa vocação para a santidade e hão-de esforçar-se por corresponder à graça e ser pessoalmente santos»6 . Ensina também que não existe um único instante da vida do fiel cristão fora do dinamismo sobrenatural do chamamento à santidade, mas que ele afecta toda a existência pessoal. A fidelidade à vocação cristã, por consequência, encontra soluções, ao longo de todos os momentos e circunstâncias da vida do fiel baptizado: «Cada situação humana é irrepetível, fruto de uma vocação única, que se deve viver com intensidade, realizando nela o espírito de Cristo» 7.

O Fundador do Opus Dei insiste de modo particular no ensinamento paulino presente em 1 Cor, 17-24, pregando que o trabalho, as diversas obrigações da vida social e política, e tudo o que compõe a estrutura da vida humana torna-se parte constitutiva da vocação sobrenatural do fiel cristão chamado a santificar-se no meio do mundo, afirmando mesmo que qualquer modo de evasão das realidades honestas diárias é coisa oposta à vontade de Deus 8.

Deste modo, o Fundador do Opus Dei ensina que todos os fiéis cristãos correntes receberam com o baptismo uma vocação: luz que ilumina constantemente cada circunstância da sua vida; impulso que os leva a actuar em conformidade com a vontade de Cristo, e pressupõe uma escolha gratuita de Deus.

Ao deter-se de modo específico sobre o matrimónio cristão, São Josemaria afirmava em 1968 que a maioria dos fiéis do Opus Dei «vivem no estado matrimonial e, para eles, o amor humano e os deveres conjugais fazem parte da vocação divina. O Opus Dei fez do matrimónio um caminho divino, uma vocação, e isto tem muitas consequências para a santificação pessoal e para o apostolado. Há quase quarenta anos que prego o sentido vocacional do matrimónio. Que olhos cheios de luz vi mais de uma vez, quando – e pensando eles e elas que eram incompatíveis na sua vida a entrega a Deus e um amor humano nobre e limpo – me ouviam dizer que o matrimónio é um caminho divino aqui na Terra!» 9.

Neste texto observa-se que, para São Josemaria, a condição matrimonial do cristão não fica à margem da sua vocação, mas que é um estado de vida em e através do qual o fiel corrente realiza a sua vocação cristã. Deste modo todos os seus ensinamentos sobre o chamamento à santidade e ao apostolado do cristão leigo, podem concretizar-se sem nenhum inconveniente nos esposos cristãos no que diz respeito às condições e obrigações da vida conjugal e familiar: «A vida quotidiana da maior parte dos leigos desenrola-se no trabalho e na família. Se estes quiserem santificar-se a si próprios e os outros – e seguir com fidelidade o seu chamamento a ser santos e a participar na obra redentora de Cristo -, só poderão fazê-lo santificando o seu trabalho e santificando a sua vida matrimonial e familiar.

Esta grande verdade, claramente advertida por São Josemaria e magnificamente desenvolvida pelo Concílio Vaticano II e, de forma eminente, por João Paulo II, afirma que a maravilhosa realidade humana do matrimónio, que tem como autor a Deus e se iniciou com a criação do primeiro homem e da primeira mulher, é por natureza susceptível de ser divinizada e incorporada no desígnio da graça e do amor divinos» . Contudo, São Josemaria não se limita a esta consideração da vocação matrimonial, mas acentua-a com características próprias.

3. Vocação matrimonial

Consideramos o seguinte texto como uma síntese da profundidade do pensamento de São Josemaria sobre a dimensão vocacional do matrimónio cristão: «Para o cristão o matrimónio não é uma simples instituição social e menos ainda um remédio para as fraquezas humanas; é uma autêntica vocação sobrenatural. Sacramento grande em Cristo e na Igreja, como diz S. Paulo (Ef. V, 32), e ao mesmo tempo e inseparavelmente, contrato que um homem e uma mulher fazem para sempre, pois, quer queiramos quer não, o matrimónio instituído por Jesus Cristo é indissolúvel, sinal sagrado que santifica, acção de Jesus que invade a alma dos que se casam e os convida a segui-Lo, transformando toda a vida matrimonial num caminhar divino pela Terra» 11.

a) O matrimónio cristão é simultaneamente acção de Jesus e dos esposos.

São Josemaria, olhando o momento da celebração do matrimónio cristão, afirma que é ao mesmo tempo sacramento e contrato entre um homem e uma mulher. O fundamento escriturístico da origem divina de cada matrimónio podemos encontrá-lo na resposta de Jesus aos fariseus rejeitando a lei do repúdio e restaurando a ordem original. O Senhor justifica-o afirmando que o que Deus uniu não o pode separar o homem (cfr. Mt 19, 6). Por isso a Constituição Pastoral Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II afirma com propriedade que o vínculo conjugal, instituído mediante o irrevogável consentimento dos contraentes, é sagrado e não depende do livre arbítrio dos esposos 12: o vínculo matrimonial é consequência de um acto humano e divino simultâneos.

Portanto, quando um homem e uma mulher se casam, embora a sua união se produza por sua livre vontade, quer dizer, pelo dom recíproco de si, é Deus quem apesar de tudo os une em sentido estrito; eles inserem-se no plano divino original sobre o matrimónio. De acordo com este plano, o matrimónio não permanece como realidade exclusiva da criação, mas insere-se no plano da redenção até se converter em sinal e parte do processo salvífico de formação da Igreja como corpo e esposa de Cristo, sua Cabeça e seu Esposo. Assim sendo, é Cristo, o Filho de Deus encarnado, enquanto cabeça do corpo a que pertencem, quem os une. Cada um dos esposos pertence a Cristo pelo baptismo e, quando se dão um ao outro, convertem-se ao mesmo tempo em dom de Cristo que doa o homem à mulher e a mulher ao homem. Continua sendo verdade que o sacramento é acto de Cristo, sem retirar nada ao pleno sentido humano da mútua doação de si.

A acção de Cristo na celebração do matrimónio-sacramento, segundo o fundador do Opus Dei, pressupõe um convite de Jesus aos esposos para O seguirem em e através da vida matrimonial e familiar que acaba de implementar. É, portanto, um momento particular da existência cristã dos esposos em que escutam a voz de Cristo que lhes aponta o caminho que devem percorrer para alcançar a esperança da sua vocação. Por isso São Josemaria afirma com propriedade que “é importante que os esposos adquiram o sentido claro da dignidade da sua vocação, que saibam que foram chamados por Deus a aproximarem-se do amor divino também através do amor humano; que foram escolhidos, desde a eternidade, para cooperar com o poder criador de Deus na procriação e depois na educação dos filhos”.

Esta consciência de que para a maioria das pessoas, o matrimónio corresponde aos desígnios eternos de Deus, já se reflectia na primeira edição de Caminho publicada em 1939: “Ris-te porque te digo que tens «vocação matrimonial»? – Pois é verdade: assim mesmo, vocação.” (Caminho, 27). Anos mais tarde, em 1968, São Josemaria insistia nessa linha de ensinamento. “Quando eu escrevi aquelas frases, lá pela década de 30, no ambiente católico – na vida pastoral concreta – havia tendência para promover a busca da perfeição cristã dos jovens fazendo-os apreciar unicamente o valor sobrenatural da virgindade, deixando na sombra o valor do matrimónio cristão como outro caminho de santidade.

Normalmente, nos centros de ensino não se costumava formar a juventude de modo a apreciar a dignidade do matrimónio, como ela merece. Mesmo agora, é frequente, nos retiros para alunos dos últimos anos dos estudos secundários, apresentar-lhes mais elementos para considerar a sua possível vocação religiosa do que a, também possível, orientação para o matrimónio. E não falta - ainda que seja cada vez em menor número - quem menospreze a vida conjugal, mostrando-a aos jovens como algo que a Igreja simplesmente tolera, como se a formação de um lar impedisse aspirar seriamente à santidade.

No Opus Dei, temos procedido sempre de outro modo, e – mostrando muito claramente a razão de ser e a excelência do celibato apostólico – temos indicado sempre o matrimónio como caminho divino na Terra” 13 .

A celebração do matrimónio revela-se assim como o momento em que Cristo convida efectiva e eficazmente os esposos a segui-lo em e através da vida matrimonial, e, simultaneamente, momento em que os cônjuges respondem a Cristo mediante a sua entrega e aceitação mútua como esposos. Dá-se assim uma concordância entre a vontade divina e a dos contraentes na instauração da comunidade que, projectando-se sobre o tempo do noivado - esse tempo «propício para aprofundar o afecto e o conhecimento mútuo” 14 -, dá-lhe um sentido novo e definitivo: todos os acontecimentos e experiências entre duas pessoas que as levaram a entregar-se mutuamente são manifestações da Providência Divina que as escolheu desde antes da constituição do mundo para seguirem Cristo como esposos. Se até ao momento do casamento permanece na sombra a vontade divina, a celebração do matrimónio ilumina definitivamente todos os acontecimentos que levaram à sua realização.

Pensamos que assim estamos em consonância com os ensinamentos de São Josemaria anteriormente apresentados: que a vocação pressupõe a liberdade, pois o próprio Deus quis que O amemos e O sirvamos em liberdade, e respeita as decisões pessoais. Isso não significa que o cristão se possa despreocupar de um discernimento vocacional da sua vida. Não, pois a prioridade é divina, e o egoísmo pode tornar ineficaz o chamamento de Deus. A atitude do cristão em cada momento da sua existência é a de se saber chamado pelo Senhor que «nos procura a todo o instante: levanta-te – diz-nos – e sai da tua preguiça, do teu comodismo, dos teus pequenos egoísmos, dos teus problemazinhos sem importância. Desapega-te da terra; estás aí rasteiro, achatado e informe. Ganha altura, peso, volume e visão sobrenatural»15 . Se substituir o amor-próprio pela caridade sobrenatural; então, tudo o que o cristão realiza adquire essa dimensão sobrenatural, responde ao apelo lançado por Deus em cada instante da sua vida.

Por último convém precisar que a elevação do matrimónio a sacramento assume a realidade natural, pelo que o consentimento matrimonial não perde o seu significado original, continua a ser um «acto humano com o qual os cônjuges mutuamente se dão e recebem um ao outro» 16. Dado que a vocação matrimonial é simultaneamente um fenómeno humano e divino - «sacramento grande em Cristo e na Igreja e, inseparavelmente, contrato que um homem e uma mulher fazem para sempre» -, pode suceder que dois cristãos se casem sem possuir uma percepção psicológica de estarem a realizar uma resposta a Deus que os escolheu desde a eternidade para serem marido e mulher. Mas não é por isso que deixam de estar unidos a Cristo, nem deixam de ser objecto de uma verdadeira vocação sobrenatural.

b) Convite de Jesus a segui-lo, transformando toda a vida matrimonial num caminhar divino na terra.

A Constituição Pastoral Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II afirma que Cristo, que uniu os esposos cristãos no matrimónio «permanece com eles, para que assim como Ele amou a Igreja e se entregou por ela, de igual modo os cônjuges, dando-se um ao outro, se amem com perpétua fidelidade»17 . O sacramento do matrimónio não se reduz ao momento da sua celebração, mas é um sacramento permanente: os cônjuges, em virtude do sacramento do matrimónio, participam constantemente enquanto esposos do mistério da união entre Cristo e a Igreja.

O convite inicial de Jesus aos esposos de o seguirem, «transformando toda a vida matrimonial num caminhar divino na terra», não deixa de se renovar incessantemente, razão pela qual não podem edificar a sua vida cristã à margem da sua vida conjugal e familiar. Eles receberam um dom divino permanente «de serem um para o outro e para os filhos as testemunhas da fé e do amor de Cristo» 18; quer dizer, os esposos cristãos são constantemente chamados na Igreja a dar testemunho do mistério participado em virtude do sacramento do matrimónio. São Josemaria, pensando nesses lares cristãos que «brotaram do sacramento do matrimónio» e são fiéis ao dom recebido, dizia: «São testemunhas luminosas desse grande mistério divino – sacramentum magnum! (Ef 5, 32), sacramento grande – da união e do amor entre Cristo e a sua Igreja». E considerando a tarefa do Opus Dei dirigida às famílias cristãs, imediatamente acrescentava: «Devemos trabalhar para que essas células cristãs da sociedade nasçam e se desenvolvam com desejos de santidade, com a consciência de que o sacramento inicial – o baptismo – já confere a todos os cristãos uma missão divina que cada um deve cumprir no seu próprio caminho.

Os esposos cristãos devem ter consciência de que são chamados a santificar-se santificando, a ser apóstolos, e de que o seu primeiro apostolado está no lar. Devem compreender a obra sobrenatural que significa a fundação de uma família, a educação dos filhos, a irradiação cristã na sociedade. Desta consciência da própria missão dependem, em grande parte, a eficácia e o êxito da sua vida, a sua felicidade»19 .E insiste uma vez mais que: «É muito importante que o sentido vocacional do matrimónio nunca falte, tanto na catequese como na pregação, como na consciência daqueles a quem Deus quer levar por esse caminho, porque são real e verdadeiramente chamados a integrar-se nos desígnios divinos da salvação de todos os homens»20 .
A missão sobrenatural a que são chamados os esposos esclarece, também, o caminho da santidade que devem percorrer. Se pelo baptismo são chamados à perfeição cristã, em virtude do sacramento do matrimónio devem-na alcançar em e através da sua missão peculiar na Igreja: a fundação de um lar. «Os casados são chamados a santificar o seu matrimónio e a santificar-se nessa união; cometeriam, por isso, um grave erro, se edificassem a sua vida espiritual à margem do lar. A vida familiar e as relações conjugais, o cuidado e a educação dos filhos, o esforço por sustentar, manter e melhorar economicamente a família, as relações com as outras pessoas que constituem a comunidade social, tudo isso são situações humanas e correntes que os esposos cristãos devem sobrenaturalizar» 21.

4. Conclusão

O Fundador do Opus Dei dirige-se frequentemente aos esposos cristãos afirmando que possuem uma vocação. Depois do que foi exposto acerca dos seus ensinamentos sobre o matrimónio-sacramento, infere-se imediatamente que essa exortação possui um profundo conteúdo teológico. O matrimónio-sacramento aparece nos seus escritos como uma chamada eficaz de Jesus aos esposos, em virtude da qual são introduzidos num caminho de seguimento de Cristo, que ilumina a própria existência cristã e leva a percorrê-la na fidelidade à vontade divina mediante a fundação de um lar.

Pensamos, pois, que as notas evidenciadas na sua descrição do fenómeno vocacional, também se encontram na dinâmica existencial cristã do matrimónio–sacramento: o matrimónio cristão é uma vocação divina autêntica.

Notas
1 Temas Actuais do Cristianismo, 92.
2 A. VÁZQUEZ DE PRADA, Fundador do Opus Dei, Lisboa, Verbo, 2002, Vol. I, p. 278.
3 Carta, 311-V-1943, n. 60, in: F. OCARIZ, A vocação ao Opus Dei como vocação na Igreja, in P. RODRIGUEZ – F. OCARIZ – J. L. ILLANES, O Opus Dei na Igreja, Lisboa, Rei dos Livros, 1993, p. 143
4 «A vocação acende uma luz que nos faz reconhecer o sentido da nossa existência. É convencermo-nos, com o resplendor da fé, do porquê da nossa realidade terrena. Toda a nossa vida, a presente, a passada e que há-de vir, cobra um novo relevo, uma profundidade de que antes não suspeitávamos. Todos os factos e acontecimentos passam a ocupar o seu posto: entendemos aonde nos quer levar o Senhor e sentimo-nos entusiasmados e envolvidos por esse encargo que se nos confia»: Cristo que passa, 45.
5 Carta 11-III-1940, 25, in: F. OCARIZ, A vocação ao Opus Dei como vocação na Igreja, o.c., p. 164.
6 Amar a Igreja, Lisboa, Rei dos Livros, 1990, p. 26.
7 Cristo que passa, 112.
8 «Não o duvideis, meus filhos: qualquer modo de evasão das realidades honestas diárias é para vós, homens e mulheres do mundo, coisa oposta à vontade de Deus. Pelo contrário: deveis compreender agora – com uma nova clareza – que Deus vos chama a servi-Lo em e a partir das ocupações civis, materiais, seculares, da vida humana. Deus espera-nos todos os dias: no laboratório, na sala de operações, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar, e em todo o imenso panorama do trabalho». Temas Actuais do Cristianismo, 114.
9 Temas Actuais do Cristianismo, 91.
10 W. May, Santidad y vida ordinaria, em AA.VV., Santidad y mundo. Actas do Simpósio Teológico de estudo em torno aos ensinamentos do Beato Josemaria Escrivá, Roma 1966, p. 83-84. Podem ser consultados também os seguintes estudos centrados na santidade matrimonial segundo os ensinamentos de São Josemaria: C. BURKE, Il Beato Josemaria Escrivá e il matrimonio: camino umano soprannaturale, em «Romana» 19 (1994) 374-384; J. DE BOURBON-BUSSET, El matrimónio, vocación sobrenatural, em AA.VV., Mons. Josemaria Escrivá de Balaguer y el Opus Dei, Pamplona, 1982, p. 225-228, e F. GIL HELLIN, La vita di famiglia, camino di santità, em «Romana» 20 (1995) 224-236.
11 Cristo que passa, 23
12 Cfr. Ibidem, 40
13 Temas Actuais do Cristianismo, 92.
14 Temas Actuais do Cristianismo, 105.
15 Amigos de Deus, 196.
16 CONCILIO VATICANO II, Const. Apost. Gaudium et Spes, 48.
17 Ibidem.
18 CONCILIO VATICANO II, Const. Apost. Lumen Gentium, 35.
19 Temas Actuais do Cristianismo, 91.
20 Cristo que passa, 30.
21 Ibidem, 23.
Resumo do artigo “La naturaleza vocacional del matrimonio cristiano en las enseñanzas del Beato Josemaría”, do Prof. Rafael Díaz Dorronsoro, publicado nas Actas do Congresso “La grandeza de la vida ordinária” celebrado em Roma de 8 a 11 de Janeiro de 2002. Volume V/2. Hijos de Dios en la Iglesia. Edizioni Università della Santa Croce, 2003, p. 9-20.

Fonte: www.josemariaescriva.org

Casamento: O Mistério do Amor Fiel

O texto é do Teólogo Católico Dietrich von Hildebrand, e enviado ao Uma Só Carne pela nossa amiga Julie Maria. Obrigada, Julie, por compartilhar conosco !

Dietrich von Hildebrand

Amor e casamento

“Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo também amou a Igreja  e se entregou por ela”. (Efésios 5:25).

A grandeza e a sublimidade do casamento, a mais íntima e suprema das uniões, elevado por Cristo à dignidade de Sacramento, são reveladas num só golpe na exortação de S. Paulo onde ele compara o amor do casamento ao amor de Cristo, o Verbo Encarnado, pela Sua Santa Igreja (cf. Efésios 5: 25~27).

A grandeza do casamento

            Nenhum outro bem humano natural foi exaltado de um modo tão elevado no Novo Testamento. Nenhum outro bem foi escolhido para se constituir num dos sete Sacramentos. Nenhum outro foi dotado com a honra de participar diretamente do Reino de Deus. Este fato em si sugere o valor infinitamente precioso já vinculado ao casamento no reino da natureza e a riqueza e grandiosidade que ele nos revela. Antes de examinarmos a natureza, o significado e a beleza do casamento Cristão (que S. Paulo chama “um grande mistério com referência a Cristo e à Santa Igreja” – Efésios 5:32), examinaremos a essência e o significado do casamento no reino da natureza, e seu caráter específico em relação a todos os outros tipos de relacionamentos e comunidades.

Apenas desta maneira poderemos compreender o que foi tão gloriosamente exaltado por Jesus Cristo e assim dissipar as interpretações errôneas da natureza do casamento tão freqüentemente encontradas.

            Várias passagens da Sagrada Escritura dignificam o casamento empregando-o como uma imagem da relação entre Deus e a alma. Esta relação prefigura de um modo imperfeito o modelo perfeito, tal qual o Antigo Testamento prefigura o Novo. De fato, Cristo Se denomina o esposo da alma, e o Cântico dos Cânticos apresenta a união de Cristo e a alma na forma de um noivado.

O amor é a essência do casamento

            Por que a Sagrada Escritura escolheu esta relação particular como uma imagem? Ela foi escolhida porque o casamento é a mais próxima e íntima de todas as uniões terrenas na qual, mais que em qualquer outra, uma pessoa se dá à outra sem reserva, onde a outra em sua completa personalidade é o objeto do amor, e onde o amor mútuo é, num modo específico, o tema (isto é, a essência) do relacionamento.

            O amor é também a essência íntima da relação da alma com Deus. Inquestionavelmente, devemos adoração e obediência ao Rei eterno da Glória, o esplendor da Luz Eterna. Ele é o nosso Senhor. O nosso dever aqui na terra é servi-Lo em todas as coisas sem reserva. E, no entanto, por três vezes Ele pergunta ao S. Pedro, “Tu me amas?” (João 21:15). O primeiro Mandamento que contém todas as Leis e Profetas não diz, “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento, e com toda a tua força” (Marcos 12:30)?

            O casamento foi escolhido como a imagem da perfeita união entre a alma e o Cristo porque no casamento, do mesmo modo, o centro e a essência é o amor. Nenhuma outra comunidade terrena é tão exclusivamente constituída na sua própria substância pelo amor mútuo.

            Na amizade, por exemplo, a comunidade de pensamento ou interesses espirituais e experiências comuns desempenham uma importância capital. No relacionamento dos pais aos filhos, as suas responsabilidades de cuidado e criação ocupam um lugar essencial. Na raiz do relacionamento dos filhos aos pais se encontram gratidão e obediência devido à proteção e cuidado. 

            Certamente, as relações familiares, também, podem ser transfiguradas apenas pelo amor, e devem ser permeadas pelo amor. Mas embora elas possam apenas revelar seu significado real sobre a base do amor e sob sua bandeira, a essência e o princípio exclusivo de tal relacionamento é o amor mútuo.

            Considerado subjetivamente, o amor não entra tão exclusivamente na essência de suas relações como o faz no caso do casamento. O seu caráter objetivo não está fundado do mesmo modo sobre o amor nem são constituídos à mesma extensão para o amor. 

            Por outro lado, no casamento o fundamental com a atitude subjetiva e a raison d’être objetiva do relacionamento, um relacionamento que também serve misteriosamente para procriar novos seres humanos, é o amor mútuo.

            O casamento é a união maravilhosa de duas pessoas na qual é o amor e pelo amor. Mais tarde veremos que o casamento sacramental deste amor é elevado a uma comunhão misteriosa do amor e vida em Cristo e por Cristo. Mas isto pressupõe um amor mútuo único, e é somente assim que o casal unido no casamento glorifica Jesus Cristo.

O amor é o significado primário do casamento do mesmo modo que o nascimento de novos seres humanos é o seu fim primário. A função social do casamento e a sua importância para o Estado são algo secundário e subordinado. Poderemos entender isto melhor, colocando de lado por hora a dignidade sacramental do casamento e considerá-lo simplesmente como uma comunhão natural e recordar as características específicas do amor conjugal.

As características do amor conjugal

            Um erro amplamente difundido, mesmo no círculo Católico, considera que o amor conjugal  se distingue do amor aos amigos ou amor dos pais e filhos meramente pela sua conexão com a esfera sensual.

            Pelo contrário, muito independente da sensualidade, o amor conjugal em si constitui uma espécie totalmente nova de amor. Ele envolve uma doação mútua única do ser, que é a característica extraordinária deste tipo de amor.

O amor conjugal envolve doação mútua

            É verdade que mesmo em qualquer tipo de amor um se dá ao outro de um modo ou de outro, mas aqui a doação é literalmente completa e suprema. Não apenas o coração, mas toda a personalidade é dada ao outro. Quando um homem e uma mulher se amam desta maneira, eles se dão um ao outro no instante em que começam a se amar.

            O homem deseja pertencer à mulher, e ela pertencer a ele; e a mulher deseja pertencer ao homem, e ele pertencer a ela.

            Todo o amor certamente deseja uma reciprocidade que é livre de toda a sombra do egoísmo; mas no amor conjugal há uma aspiração não meramente para um retorno da afeição em geral, mas para o amor único onde o amado pertence ao amante de um modo inteiramente exclusivo, e este último, por sua vez, deseja pertencer inteiramente ao primeiro.

            Este amor tende para uma união única e até constitui-a parcialmente: uma comunidade onde duas pessoas constituem uma união fechada que pode existir apenas entre elas. O amor conjugal estabelece um relacionamento no qual a atenção de uma à outra das duas partes gira exclusivamente em torno da outra.

O amor conjugal: o mais profundo relacionamento eu-tu

            Os relacionamentos entre pessoas atualizam-se sob duas formas profundamente diversas: duas pessoas podem estar unidas através de um interesse comum, enfrentando cada uma algo exterior a elas. Juntas elas põem tomar a mesma atitude diante de uma pessoa ou coisa: elas podem sofrer juntas e se alegrar juntas, podem chegar a uma decisão juntas, e podem dar graças juntas.

            Isto pode ser chamado um relacionamento de nós, onde os parceiros permanecem lado a lado, caminham lado a lado – até de mãos dadas.

            Mas dois seres humanos podem também encarar um ao outro, e ao tocar um ao outro, num olhar interpenetrante, podem gerar uma fusão misteriosa de suas almas. Eles se tornam conscientes um do outro, e fazendo do outro o objeto da sua contemplação e respostas, cada um pode se imergir no outro. Este é o relacionamento eu-tu, no qual os parceiros não se encontram lado a lado, mas face a face.

            De todas as comunhões terrenas, o amor conjugal é a forma mais pronunciada do relacionamento eu-tu. A pessoa amada é o objeto de nossos pensamentos, sentimentos, vontade, esperança e desejo. Ela se torna o centro de nossa vida (no que se concerne aos bens criados). Aquele cujo coração está repleto de tal amor conjugal vive não apenas com a sua amada, mas para a sua amada. Certamente tal relacionamento eu-tu na sua forma mais pura existe apenas entre a alma humana e seu Noivo celeste, Jesus. Em última análise devemos viver apenas para Ele, e no casamento, também, os dois parceiros viverem juntos por Ele. Mas no reino de bens criados, o amor conjugal significa viver um para outro. Comparado com todos os outros relacionamentos, os dois parceiros vivem numa comunhão eu-tu definitivo.

O amor conjugal envolve uma decisão

            O doar-se a si, a característica específica do amor conjugal (conforme diferenciado da amizade ou qualquer outra forma de amor), é também revelado no caráter decisivo das palavras “eu te amo”. Nem sempre pode ser fácil dizer mesmo a alguém que conhecemos muito bem e a quem gostamos muito ao mesmo tempo ser considerado como um amigo, e pode ser igualmente difícil algumas vezes responder com um simples “sim” ou “não” a questão se gostamos de alguém ou não. Mas entre amor no sentido conjugal e outras formas de amor há tal diferença que a questão de se amamos outra pessoa nesse sentido pode muito bem respondida com “sim” ou “não”.

            Este amor envolve uma decisão definitiva. Por este amor escolhemos decisivamente uma pessoa. A expressão “eu te amo” é característica desta decisão. Adicionar a estas palavras alguma coisa e disser “eu te amo muito” ou “eu te amo imensamente”, significa enfraquecer a força da afirmação. Ao invés de fortalecer, enfraquece a simples declaração, “eu te amo”.

O amor conjugal revela todo o ser do amado

            O fato também que este amor pode surgir de um modo bastante repentino,  e até desenvolver à maturidade no primeiro encontro de duas pessoas, enfatiza o contraste típico entre este e outro tipo de amor. Neste amor, a personalidade do amado é instantaneamente revelada como uma unidade completa. Os nossos olhos são capazes de penetrar o outro muito mais profundamente que de modo ordinário quando o nossa relance é distraído pelos inumeráveis objetos fúteis e mitigados por uma atmosfera cinzenta do dia a dia. Isto nunca vai além do aspecto exterior. Exatamente como no amor sobrenatural do nosso próximo penetramos num relance àquele íntimo, àquela essência misteriosa da outra pessoa na qual, através de todas as suas imperfeições, frivolidade, arrogância e trivialidade, ela reflete Deus, portanto no amor conjugal natural a verdadeira individualidade do parceiro é revelada misteriosamente. O significado profundo e secreto que permeia todos os seus dons e talentos, todo o ritmo do seu ser, é revelado num relance através de suas imperfeições. Compreendemos, por assim dizer, o plano divino subjacente à criação desta individualidade particular, exatamente como no amor do próximo compreendemos o significado geral de uma pessoa livre, espiritual, criada por Deus à Sua própria imagem num indivíduo particular.

É verdade, sem dúvida, que todo amor implica uma compreensão mais profunda da outra pessoa, um olhar mais profundo do seu ser real que brilha porém imperfeitamente através de muitos véus e fraquezas. Nada é mais errôneo do que o adágio, “Amor é cego”. O amor é aquilo que nos dá visão, revelando para nós até as faltas do outro no seu total significado e nos causando o sofrimento por causa delas. Mas o amor conjugal revela para nós intuitivamente o ser inteiro do outro numa unidade misteriosamente lúcida. Ele não apenas mostra-nos feições individuais louváveis, mas também o charme particular da sua individualidade como um todo, o que permeia tudo e caracteriza a essência do seu ser – um charme que pode apenas ser completamente compreendido pela pessoa complementar e pode possuir seu significado pleno apenas para ela.

O amor conjugal é possível apenas entre um homem e uma mulher

            O caráter especial do amor conjugal é, além disso marcado pelo fato de que esta amor apenas se torna realidade, entre homens e mulheres e não entre pessoas do mesmo sexo, como no caso de amizade, amor paternal , amor maternal ou amor filial.

            Seria bastante errado, porém, reduzir esta característica à esfera sexual e dizer que o amor conjugal é apenas amizade mais relações sexuais, pressupondo uma diferença do sexo. Seria incrivelmente superficial considerar como uma mera diferença biológica a distinção entre homem e mulher, que realmente nos mostra dois tipos complementares de pessoa espiritual das espécies humanas.

            Certamente, o homem e a mulher têm, no final das contas, uma única tarefa, “renascer em Cristo”, e glorificar a Deus pela sua santidade. E, no entanto, homem e mulher representam dois tipos diferentes de humanidade, ambos possuindo seu significado respectivo de acordo com o plano divino, e seu valor especial muito longe da sua função de procriação.

            Tomemos o exemplo de santos e santas e consideremos como, cada um no seu modo especial, realizaram o unum necessarium, e como ao mesmo tempo preencheram idealmente o significado se suas naturezas respectivas como homens e mulheres. Elevando o nosso olhar à Bem-Aventurada Virgem, vemos que Ela, que de todas as criaturas é a mais semelhante ao Cristo, não poderia ser imaginada como nada além de uma mulher, e que Ela, a Rainha de todos os Santos, é feminina no mais alto e sublime sentido da palavra.

            Não: a diferença entre homem e mulher é uma diferença metafísica. Há muito tempo os Pitagorianos divinizaram isso quando colocaram o macho e fêmea entre as Categorias, embora nisso, certamente, estivessem equivocados. Os teólogos medievais, também, pensavam nisso quando levantaram a questão de se os anjos eram divididos em macho e fêmea.

            De qualquer forma, para as espécies humanas esta diferença representa duas manifestações da pessoa, análoga – se esta comparação é admissível – para as várias ordens religiosas, que embora sejam idênticas na sua meta, representam diferentes caminhos na imitação de Cristo. Estes dois tipos, homem e mulher, possuem uma única capacidade de se complementarem. O seu significado de um para o outro é algo bastante peculiar. Eles são feitos um para o outro de modo especial, e podem, puramente como pessoas espirituais, formar uma unidade na qual eles se complementam reciprocamente. O amor marital – envolvendo o dom da sua própria pessoa, cujo caráter decisivo é que os parceiros formam um casal, uma comunhão eu-tu, na qual toda a personalidade do amado é fitada misteriosamente como uma unidade apesar de todos os obstáculos externos – pode existir apenas entre dois tipos de pessoa espiritual, o homem e mulher, do igual modo que entre eles esse caráter complementar pode ser encontrado. 

O amor não é paixão

            Estar enamorado, o que muitas pessoas consideram desdenhosamente como paixão, constitui em si apenas o ápice de um olhar espiritual pleno da pessoa amada, na qual o charme do outro ser é completamente revelado e realizada a plena êxtase da comunidade eu-tu.

            De fato, estar enamorado é estar longe do desdém, tão afastado da conseqüência da Queda do homem, dentro da ordem natural – conforme Platão indicou admiravelmente no seu Fedra – estar enamorado constitui o único estado desperto, um estado no qual quebramos o grilhão da indolência e cessamos de arrastar-nos pesadamente pela vida. Tornamo-nos exatamente a imagem da nossa relação com Cristo: “O meu amado é todo meu e eu sou dele. Ele é um pastor entre os lírios” (Cântico dos Cânticos 2:16). Assim, estar enamorado é exaltado como uma figura do mais alto e sublime relacionamento ao Filho de Deus.

O amor conjugal não é uma ilusão

            Que ninguém objete que ele é uma ilusão, uma intoxicação que passa rapidamente e que é baseado apenas nas qualidades externas do outro. Pois há um modo superficial e profundo de se estar enamorado, do igual modo que a amizade superficial e profunda.

            Esta possibilidade geral da superficialidade não chega a argüir, porém, nem contra estar enamorado nem contra a amizade. Nem o fato de que estejamos enganados prova contra a revelação do caráter do amado, que – como vimos – implica no estado de estar enamorado. Quem negaria que apesar do fato de que na vida de oração nós chegamos a compreender muito sobre a alma e sua relação dom Deus, a auto-engano pode todavia ocorrer?

O amor não é um desejo sensual

            Acima de tudo, o estar enamorado real, mesmo na sua forma superficial, nunca deve ser confundido com o desejo sensual. Estar enamorado implica sempre uma atitude respeitável, cavalheiresca em relação ao amado – um certo elemento de humildade até, um derreter da alma, da rigidez do ego. Uma pessoa verdadeiramente enamorada torna-se terna e até pura. Mesmo quando este amor é do tipo superficial e apenas baseado nas qualidades externas do amado, estas qualidades, substituindo e representando a beleza e a bondade da personalidade inteira, eleva a alma da pessoa enamorada num estado da mente em que ele supera o seu peso e indolência auto-centrado.

            Estar enamorado nada tem a ver com mera intoxicação sensual; nem tem nada a ver com a fascinação satânica nem com a escravidão sensual de um Don Juan.

            A intenção da duração e estrita exclusividade é uma das implicações que repousa na própria natureza de estar enamorado, bem como do amor marital. Quem quer que diga “Estou enamorado desta pessoa agora, mas não sei se continuarei a gostar dela”, não está de fato amando. Mesmo que na realidade estejamos enganados e que o nosso amor não dure mais tarde, estar amando (como amor marital) mostra claramente a intenção de durar para sempre e de modo estritamente exclusivo.

Estar enamorado é um elemento do amor conjugal

            Retornaremos mais tarde a este elemento da duração e exclusividade no amor conjugal. Por momento deixem-nos apontar que o enamorar-se pertence também ao amor conjugal. Isto não significa que ele deve persistir ao mesmo grau enquanto dura o amor conjugal, mas este enamorar-se deve ser re-atualizado nos momentos específicos. Implicitamente, o amor conjugal deve sempre carregar esta potencialidade e mostrar esta característica. A enorme diferença que repousa entre o estar enamorado  que constitui apenas o ápice deste amor conjugal profundo e o estar enamorado que aparece como um fenômeno independente, não necessita ser apontada, nem que a sua função normal consiste em representar a plena realização do amor conjugal.

            O amor conjugal está tão distante de ser uma combinação da amizade e sensualidade que, ao contrário, suas características, que conforme descritas acima, distingue-o de todas as outras formas do amor, serve de fato como ponte para a esfera da sexualidade e unicamente torna possível uma união orgânica dos dois. Uma combinação da amizade e sensualidade é repugnante. Seria uma justaposição de elementos heterogêneos, e a esfera sensual de nenhum modo seria santificada pela combinação discordante desta espécie.

            Apenas no amor conjugal, onde o homem e a mulher são unidos numa única comunhão, onde eles se dão em ao outro no sentido profundo da palavra e pertencem um ao outro na interpenetração suprema de suas almas, faz esta relação para a esfera sensual se tornar inteligível. Apenas nesta ordem pode o sublime significado da esfera sexual ser realizado na união de dois seres numa união espiritual-sensual completa de acordo com as palavras do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo: “E os dois formarão uma só carne” (Mateus 19:5).

A poligamia é essencialmente contrária ao amor conjugal

            Às vezes encontramos a opinião de que a poligamia é proibida apenas por uma lei positiva de Deus, e que a monogamia não é necessariamente enraizada na natureza do casamento ou exigida pela moralidade natural. Nada é mais errôneo. Não apenas o casamento de fato mas o amor conjugal em si exclui a poligamia. O amor conjugal na sua essência visa uma só pessoa. As características da auto-doação completa e o ser exclusivamente voltado ao amado, bem como o fato que os dois parceiros formarem o casal, exclui em si a possibilidade que este amor possa ser direcionado a mais de uma pessoa.  Ter dois ou mais amigos de nenhum modo é contrário ao princípio da amizade e não constitui algo indigno. Porém, não é possível para um homem amar duas mulheres conjugalmente. Todo o valor do relacionamento seria destruído. Falando estritamente, seria de fato impossível.

A exclusividade conjugal difere da possessão 

            Além disso, deduzir a essencial exclusividade do amor conjugal da possessão egoísta geral do homem poderia ser muito errôneo. O proprietário de um harém que considera suas mulheres seus bens em sua posse não quer que ninguém mais interfira. Isto, certamente, é uma possessão puramente egoística. Mas este proprietário de harém não possui o mínimo entendimento do amor conjugal real.

            A exclusividade no amor conjugal resulta da consciência de que este amor único pode apenas existir entre dois seres, pelo menos enquanto este amor dure, e que esta união maravilhosa seria destruída e rompida se um parceiro amasse uma segunda pessoa com o amor conjugal.

            E esta exclusividade concerne a própria pessoa tanto quando seu parceiro amado, uma vez que sua própria infidelidade nos causa tanto horror quanto a infidelidade do outro e é sentida tanto quanto o rompimento e a destruição da união.

O casamento é mais do que o amor conjugal

            Mas o amor conjugal não é ainda o casamento, embora contenha uma antecipação do significado do casamento. O casamento é uma realidade na ordem objetiva que é constituída apenas pelo ato solene e pressupõe um ato formal da vontade: os dois parceiros se dão expressamente um ao outro, sancionando plenamente esta entrega por toda a sua vida.

            O casamento é plenamente atualizada quando ambos os parceiros, em conseqüência deste ato, consumam esta entrega na união corporal. O casamento é uma comunhão de validade objetiva que inclui ambos os parceiros. Uma vez estabelecido, persiste como tal, independentemente dos sentimentos ou atitudes dos parceiros, embora ele imponha obrigações específicas sobre eles.

            A existência do amor conjugal entre os parceiros torna o casamento desejável e lhe dá significado, mas não estabelece em si esta ligação objetiva.

            Pois entre várias experiências humanas (tais como amor, respeito, ou alegria) há uma espécie que não é meramente um ato interior em relação à outra pessoa, mas que também cria uma realidade objetiva independente da pessoa. Assim, por exemplo, uma promessa cria uma obrigação para com outra pessoa e o direito de exigir a realização por aquela outra pessoa. O comando de um superior cria uma obrigação de realização do subordinado. A absolvição de um sacerdote em nome de Deus cria a real anulação da nossa culpabilidade. Certas decisões da autoridade de estado legítimo, podem se tornar leis, e assim por diante.

O casamento cria numa ligação objetiva

            Do mesmo modo, o ato da entrega voluntária da própria pessoa à outra com a intenção de formar uma união de amor permanente e íntima, cria uma ligação objetiva que, uma vez estabelecida é separada da esfera de decisão arbitrária da pessoa em questão.

            Veremos mais tarde como este ato solene do casamento alcança uma importância e força maior e infinitamente mais elevada se for conscientemente realizada em Cristo e se ele contém de um modo uma consagração de ambos os parceiros ao Cristo.

            A expressão contrato-de-casamento é infeliz pois o casamento difere essencialmente de qualquer outro contrato real. Longe do caráter de reciprocidade, ele não se assemelha a um contrato mais do que qualquer promessa ou outro ato desta espécie.

            A união desejada no amor conjugal se torna por este ato objetivamente real no seu sentido pleno, e nenhuma outra comunhão de amor terrena pode se tornar objetiva em tal grau. Ambos os parceiros agora pertencem plenamente ao outro. Uma ligação objetiva os une: eles já não são mais dois, mas um.

O casamento resulta de uma decisão livre

            Uma decisão extraordinária é inerente no ato do casamento. Diferentemente do amor conjugal, ela não ser concretiza de si, mas é um ato livre como um ato da vontade (no sentido mais estrito do termo). Ela marca, como com os votos religiosos, o início de um novo status. Uma enorme mudança de repente toma lugar. Uma criação sublime brota, a qual, uma vez floresce, faz as mais altas exigência sobre os dois parceiros.

O casamento é exclusivo e irrevogável

            Este caráter decisivo do casamento, sobre a força do qual uma mudança toma lugar e que o remove além da amplitude da nossa influência, possui também uma analogia qualitativa na entrega corporal. A união física d marido e da esposa constitui tal intimidade suprema entre eles que a sua essência é uma entrega válida uma vez por todas. Não é meramente uma intimidade passageira que não estabelece qualquer relacionamento objetivo. Ele implica uma decisão definitiva da mais alta importância. É verdadeiramente uma entrega de nosso ser ao outro e implica essencialmente a mesma exclusividade que encontramos no amor conjugal.

            Do seu próprio significado e natureza, este ato pode ser consumado apenas com uma pessoa, pois, de acordo com as palavras do nosso Senhor, “Eles formarão dois numa só carne” (Mateus 5:19). Ele estabelece uma ligação de tal ternura infinita e tal proximidade profunda, tão essencialmente permanente, implicando tal entrega radical, que não pode ser repetido com outra pessoa enquanto a pessoa a quem nós nos demos integralmente estiver viva. Todos estes elementos estão contidos nesta união a mais profunda.

            Mas esta união apenas se torna plenamente realidade quando segue como conseqüência da solene consumação do casamento. Quão terrível, portanto, qualquer abuso desta entrega suprema e íntima! Que degradação e profanação da união destinada como suprema realização da comunhão do amor que se torna objetiva através do casamento!

O amor é o significado da união sexual

            Como o casamento é, em sua natureza, principalmente uma comunhão do amor, assim o significado da consumação física não está restrita na sua função como um meio de procriação.

            Certamente, não há maior mistério na ordem natural das coisas do que o fato de que esta mais íntima de todas as uniões procria um ser humano com uma alma imortal (embora a alma, em cada caso, seja uma criação direta de Deus), e que este ato traz um novo ser à existência destinado a amar a Deus e adora-Lo, um novo ser feito à Sua imagem.

            Mas este fim primário não é o único significado do ato físico. Subjetivamente falando, não é nem o seu significado primário.

            O seu significado é primariamente a realização da sublime comunhão do amor na qual, de acordo com as palavras do nosso Salvador, “Serão dois em uma só carne” (Mateus 19:5). A mulher, que de acordo com Gênesis foi feita da carne do homem (um sinal que mesmo então indicava a proximidade da sua relação e designava-a como companheira inseparável do homem), é realmente unida ao homem desta maneira no casamento.

            Em contraste à concepção Protestante e Puritana, que mesmo subjetivamente considera procriação como único significado da união física, uma antiga oração Católica sobre o casamento fala dele como “o mistério do amor”. O metodista Whitefield orgulhosamente afirma que o amor nada tem a ver com o namoro, dizendo, “Deus seja louvado, se eu conheço o meu próprio coração, estou livre desta paixão estúpida que o mundo chama amor”. Mas uma antiga oração Católica diz assim, “Ó Deus, na criação da humanidade, criando a mulher do homem, Vós já ordenastes que deveria haver uma união da carne e do doce amor... Senhor nosso Deus, Vós criastes o homem puro e imaculado e ainda desejastes que na procriação das gerações um fosse feito do outro pelo mistério do amor”.

A procriação e a comunhão do amor nunca devem ser separadas deliberadamente

            Que um novo ser humano se cria dele é certamente parte da solene grandeza desta união intimamente suprema. O relacionamento instituído maravilhosa e divinamente entre a procriação misteriosa de um novo ser humano e esta mais íntima comunhão do amor (que somente por si já possui sua plena importância), ilumina a grandeza e solenidade desta união.

            Assim é que a fim de preservar a atitude reverente dos esposos diante do mistério nesta união, esta conexão geral entre a procriação e a comunhão do amor deve sempre ser mantida mesmo subjetivamente, ao menos como uma possibilidade geral deste ato.

            É difícil imaginar uma maior falta de reverência diante de Deus interferir neste mistério com as  mãos profanas a fim de frustrar este mistério. Quão terrível pensar do homem que deseja destruir esta unidade que Deus estabeleceu tão misteriosamente, considerando aqueles unidos na mais alta união terrena de amor digno de tomar parte no Seu poder criativo. Ir contra os desígnios de Deus através da interferência profana, talvez até negando a existência de um ser que Deus pretendia que existisse – que presunção sacrílega!

O casamento sem filhos pode, entretanto, plenificar o ideal do casamento

            Porém, por alguma razão, além da esfera da influência humana, se torna evidente que a procriação estando fora da questão, a união física entre homem e mulher ainda reter seu significado subjetivo e sua beleza intrínseca. O amor conjugal não é em si suficiente para santificar e justificar esta união? Não está a razão para a criação da mulher estabelecida em Gênesis: “Não é bom que o homem esteja só: façamos para ele uma auxiliar que lhe corresponda” (Gênesis 2:18). Pode um casamento sem filho ser considerado como um fracasso, como algo que não preenche seu significado? Podemos afirmar com justiça que seria melhor se tal casamento não houvesse acontecido? Ele poderia ter o seu significado pleno, divinamente estabelecido como a mais alta comunhão de amor, e glorificar a Deus por este fato em si?

            Quando ambos os parceiros, mesmo sem filho, pertencem um ao outro no mais perfeito amor conjugal, na lealdade imutável um ao outro, na imitação da união da alma com Deus, o ideal do casamento não seria realizado até em mais alto grau que no caso de um casamento com talvez muitos filhos, onde os parceiros são infiéis um ao outro e profana a ligação sagrada pela falta de amor e lealdade? O casamento necessitaria de se tornar celibatário por causa do conhecimento de que não pode haver um filho? Isso não seria uma clara indicação que o casamento é um símbolo da união da alma com Deus, que ele possui, como tal, uma importância sublime e que ele existe em primeiro lugar por si e não exclusivamente por causa de qualquer resultado que ele produz? 

Todo casamento pleno de amor é fértil

            Num exame mais minucioso, vemos que todo casamento intrinsecamente pleno é fértil mesmo no sentido mais profundo da palavra. O fato de que a comunhão mais íntima do amor entre duas pessoas produz um novo ser humano reflete misteriosamente a fertilidade do amor como tal.

            Pois nós não devemos esquecer que todo o amor verdadeiro possui uma plenitude espiritual intrínseca e que o conjugal abriga esta fertilidade espiritual do amor muito independentemente da procriação.

            Esta fertilidade expressa em si um élan da alma, que implica no amor, num novo despertar da Alma que estimula-a ao crescimento espiritual e uma vida moral mais elevada. Ela se expressa na influência que os esposos inconscientemente manifesta sobre um ao outro, na elevação espiritual de um ao outro que sua compreensão mútua torna possível.

            Cada casamento na qual o amor conjugal é assim realizado carrega fruto espiritual, torna-se fértil – mesmo embora não haja filhos.

            Somente pode compreender o horror do pecado de promiscuidade aquele que visualizou a grandeza e sublimidade da união corporal como plena realização do amor conjugal, e aquele que percebe que além do fim primário da procriação, o significado primário da união corporal repousa na plenificação do amor conjugal.

            Aquilo que é destinado a trazer duas pessoas juntas à uma união mais elevada e mais íntima, para uni-los “num só corpo”, - a entrega real e final de si – é usado pelo promíscuo como uma fonte de luxúria e é assim profanado de modo ignominioso. E esta profanação permanece a mesma com ou sem resultado dos filhos nesta união pecaminosa.

            As palavras de S. Paulo mostram claramente que o pecado da impureza repousa essencialmente no abuso da união que Deus reservou para a mais íntima Comunhão entre duas pessoas: “Não sabeis que aquele que une a uma prostituta torna-se com ela um só corpo: Pois está dito: Os dois serão uma só carne” (1 Coríntios 6:16). Se a procriação fosse apenas o fim mas também o único significado desta união, isso seria incompreensível, em última análise, por que uma união ilegítima seria pecaminosa quando filhos resultam dela, e um casamento puro e sublime quando ele serve apenas à comunhão do amor num casamento sem filho.

Apenas casamento justifica a união física

            A justificação desta união física, porém, repousa não no amor conjugal como tal, mas apenas no ato solene da conclusão do casamento que mencionamos acima. Uma vez que a união envolve a entrega expressa e solene pela qual entramos numa união tão suprema e íntima com outra pessoa, ela pressupõe não apenas a mera existência do amor conjugal mas também a solene conclusão do casamento na qual damo-nos livremente e irrevogavelmente ao amado por toda a vida. 

O amor deve ser nutrido em cada casamento  

            Como a comunhão do amor representa o significado mais profundo do casamento, o amor não é apenas uma condição prévia do casamento mas também um sentimento que ambos os parceiros devem tornar um objeto da vontade deles, algo que deve ser protegido e estimado O amor é também uma tarefa e dever para ambos os parceiros. Se o casamento é a única projeção deste amor conjugal, então o casamento, uma vez estabelecido, exige o amor de ambos os parceiros – não apenas um amor cortês, mas também amor conjugal.

            Cada esposo tem o direito de amar o outro. Manter o amor conjugal na sua inteira grandeza e pureza, no seu brilho, sua profundidade, e sua plenitude vital, é uma tarefa que se eleva para ambos os parceiros com a conclusão de seu casamento.

            Por causa da nossa preguiça, nossa frouxidão, e nosso constante retrocesso à periferia que estultifica a nossa visão, é sempre difícil manter diante de nós em toda a mesma claridade e esplendor a imagem da outra pessoa tão maravilhosamente revelada pelo amor. Podemos e devemos lutar contra esta frouxidão pois ela constitui um pecado contra o templo que erigimos no nosso casamento.

            Num certo sentido já somos infiéis ao outro quando cessamos de vê-lo do interior, quando não mais compreendemos o caráter mais profundo do seu ser, mas consideramo-lo como consideramos outras pessoas – do exterior.

            Pois aqueles que consideram o tipo específico do amor que nós chamamos conjugal como nada além de uma paixão, seria natural para esse amor definhar no curso do tempo e manter apenas a amizade. Nós, porém, a quem o amor conjugal inclui uma compreensão mais profunda do outro, e para quem é uma relação divinamente estabelecida no casamento, deve lutar contra o enfraquecimento deste amor, contra este adormecimento, exatamente como sempre devemos nos esforçar – numa esfera incomparavelmente mais alta – para manter nosso amor por Jesus desperto infalivelmente.

            Para alguém numa ordem religiosa, a realização das regras da ordem representa um contínuo esforço; assim também, o casamento exige abstenção de todos os problemas e desvios periféricos que são passíveis de distrair a atenção das pessoas amadas e destruir a concentração interior que é contido no amor.

            Mas esta tarefa difere de acordo com o caráter individual do casamento. Na esfera sobrenatural, Deus concede à humanidade graça em diferentes medidas e          exige mais deles de acordo com a medida da graça recebida. (O Evangelho nos dá a parábola dos talentos). Assim, também, o casamento exige mais do marido e esposa na medida que o seu casamento como tal se aproxima do ideal, e quanto mais harmonizam como caracteres.

A tarefa do amor no melhor dos casamentos

            Quanto maior o amor que eles sentiram originalmente um ao outro e maior o amor que potencialmente repousa na natureza da combinação das duas pessoas, maior é o amor exigido de ambos. Se a combinação das duas pessoas contém a possibilidade deste supremo amor conjugal, ela se torna o dever de ambos os parceiros, uma vez concluído o casamento, para esforçar-se em direção à realização deste ideal.

            Eles devem se esforçar a desenvolver este amor mais elevado. Devem evitar tudo que pode obscurecer ou frustrar este amor (tais como absorção do marido nos seus negócios ou da esposa nos deveres domésticos). Mas acima de tudo, eles devem estar atentos à uma indolente indiferença e de simplesmente acomodar-se na corrente dos hábitos do dia a dia. A cada hora eles devem renovar o dom inexprimivelmente precioso que Deus tem concedido em forma da alma do amado. Nunca devem perder o seu sentido de mistério maravilhoso que a outra pessoa a quem eles amam os amam, também, que a outra vive para eles, e que eles possuem algo muito acima das possessões terrenas. 

A tarefa do amor nos casamentos imperfeitos

            Se, porém, a combinação dos dois caracteres do homem e da mulher não oferece a possibilidade deste amor conjugal, se tal unidade interior supremo não pode ser alcançada, a tarefa de ambos os parceiros torna-se diferente. Quando tal é o caso, esta qualidade do amor conjugal crescente não é exigido deles – pois os consortes não podem dar este amor um ao outro se isso não for desempenhado por Deus em combinação com seus dois caracteres. Sua tarefa aqui é atingir a comunhão mais elevada dentro dos limites das possibilidades do seu caso individual. Eles, também, devem viver um ao outro e evitar tudo que poderia alienar ou de algum modo separá-los um do outro. Eles devem tentar ver um ao outro na luz mais elevada.

A tarefa do amor nos casamentos problemáticos

            Isto contém toda a verdade de um casamento infeliz. Se o amor é completamente ausente de um lado, ou se um dos parceiros sofre por causa do outro de todas as maneiras – lembremos o casamento de Sta. Mônica – a obrigação de continuar a viver para a união objetiva que a conclusão do casamento criou persiste, apesar do fato de a combinação dos dois parceiros não tornar possível a realização do amor conjugal ideal. Um cônjuge pode simplesmente amar o outro numa forma particular de amor cortês – amá-lo porque foi com ele que a ligação do casamento foi feita. A tarefa neste caso especial consiste primariamente no sacrifício e renúncia e no cuidado para a salvação do outro.

Todo o casamento possui sua própria tarefa particular

            Numa palavra, em cada casamento Deus concede aos parceiros uma tarefa particular além da obrigação que contém cada casamento: amor mútuo e fidelidade conjugal.

É, portanto, necessário compreender o significado particular de cada casamento individual, o chamado especial que Deus faz aos cônjuges: a realização de um casamento ideal ou sofrimento heróico da cruz de um casamento infeliz. O único significado divinamente conferido de um casamento individual deve ser descoberto em cada casamento, porquanto a tarefa varia de acordo com o que aparece como a possibilidade mais elevada alcançável numa dada combinação dos dois caracteres.

            Mas isto não deve nos desviar da crença de que a forma objetiva do casamento como tal não visa uma realização subjetiva de uma completa união de amor, e que todos os outros casamentos medidos contra o desígnio divino do casamento representa fracassos. O casamento como tal não existe como uma provação para os consortes, ou servir como uma escola de renúncia, mas unir dois seres humanos num amor infinito numa completa união e assim, de um modo sublime, refletir a união entre Jesus e a alma.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

VALE A PENA CONTINUAR CASADOS? Uma ótima reflexão

 

Texto de: Stephen Kanitz (administrador por Harvard)

Fonte: Negócios de Família


Meus amigos separados não cansam de me perguntar como eu consegui ficar casado trinta anos com a mesma mulher. As mulheres, sempre mais maldosas que os homens, não perguntam a minha esposa como ela consegue ficar casada com o mesmo homem, mas como ela consegue ficar casada comigo.

Os jovens é que fazem as perguntas certas, ou seja, querem conhecer o segredo para manter um casamento por tanto tempo.

Ninguém ensina isso nas escolas, pelo contrário. Não sou um especialista do ramo, como todos sabem, mas, dito isso, minha resposta é mais ou menos a que segue.

Hoje em dia o divórcio é inevitável, não dá para escapar. Ninguém agüenta conviver com a mesma pessoa por uma eternidade. Eu, na realidade, já estou em meu terceiro casamento - aúnica diferença é que me casei três vezes com a mesma mulher. Minha esposa, se não me engano, está em seu quinto, porque ela pensou em pegar as malas mais vezes do que eu.

O segredo do casamento não é a harmonia eterna. Depois dos inevitáveis arranca-rabos, a solução é ponderar, se acalmar e partir de novo com a mesma mulher. O segredo no fundo, é renovar o casamento, e não procurar um casamento novo.

Isso exige alguns cuidados e preocupações que são esquecidos no dia-a-dia do casal. De tempos em tempos, é preciso renovar a relação. De tempos em tempos, é preciso voltar a namorar, voltar a cortejar, voltar a se vender, seduzir e ser seduzido.

Há quanto tempo vocês não saem para dançar? Há quanto tempo você não tenta conquistá-la ou conquistá-lo como se seu par fosse um pretendente em potencial? Há quanto tempo não fazem uma lua de mel, sem os filhos eternamente brigando para ter a sua irrestrita atenção?

Sem falar nos inúmeros quilos que se acrescentaram a você, depois do casamento. Mulher e marido que se separam perdem 10 quilos num único mês, por que vocês não podem conseguir o mesmo?

Faça de conta que você está de caso novo. Se fosse um casamento novo, você certamente passaria a freqüentar lugares desconhecidos, mudaria de casa ou apartamento, trocaria seu guarda-roupa, os discos, o corte de cabelo e a maquiagem. Mas tudo isso pode ser feito sem que você se separe de seu cônjuge.

Vamos ser honestos: ninguém agüenta a mesma mulher ou marido por trinta anos com a mesma roupa, o mesmo batom, com os mesmos amigos, com as mesmas piadas. Muitas vezes não é sua esposa que está ficando chata e mofada, são os amigos dela (e talvez os seus), são seus próprios móveis com a mesma desbotada decoração.

Se você se divorciasse, certamente trocaria tudo, que é justamente um dos prazeres da separação. Quem se separa se encanta com a nova vida, a nova casa, um novo bairro, um novo círculo de amigos.

Não é preciso um divórcio litigioso para ter tudo isso. Basta mudar de lugares e interesses e não se deixar acomodar. Isso obviamente custa caro e muitas uniões se esfacelam porque o casal se recusa a pagar esses pequenos custos necessários para renovar um casamento.

Mas, se você se separar, sua nova esposa vai querer novos filhos, novos móveis, novas roupas, e você ainda terá a pensão dos filhos do casamento anterior.


Não existe essa tal "estabilidade do casamento", nem ela deveria ser almejada. O mundo muda, e você também, seu marido, sua esposa, seu bairro e seus amigos. A melhor estratégia para salvar um casamento não é manter uma "relação estável", mas saber mudar junto.

Todo cônjuge precisa evoluir, estudar, aprimorar-se, interessar-se por coisas que jamais teria pensando fazer no início do casamento. Você faz isso constantemente no trabalho, por que não fazer na própria família? É o que seus filhos fazem desde que vieram ao mundo.

Portanto, descubra o novo homem ou a nova mulher que vive ao seu lado, em vez de sair por aí tentando descobrir um novo e interessante par. Tenho certeza de que seus filhos os respeitarão pela decisão de se manterem juntos e aprenderão a importante lição de como crescer e evoluir unidos apesar das desavenças. Brigas e arranca-rabos sempre ocorrerão: por isso, de vez em quando é necessário casar-se de novo, mas tente fazê-lo sempre com o mesmo par.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Preparação para o Sacramento do Matrimônio

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A FAMÍLIA

PREPARAÇÃO PARA O SACRAMENTO DO MATRIMÓNIO

PREMISSA

1. A preparação para o matrimónio, para a vida conjugal e familiar, é de importância relevante para o bem da Igreja. De facto, o sacramento do Matrimónio tem um grande valor para toda a comunidade cristã e, em primeiro lugar, para os esposos, cuja decisão é tal que não poderia ser sujeita à improvisação ou a escolhas apressadas. Em outras épocas, tal preparação podia contar com o apoio da sociedade, a qual reconhecia os valores e os benefícios do matrimónio. A Igreja, sem obstáculos ou dúvidas, tutelava a sua santidade, sabedora do facto que o sacramento do Matrimónio representava uma garantia eclesial, qual célula vital do Povo de Deus. O apoio eclesial era, pelo menos nas comunidades realmente evangelizadas, firme, unitário, compacto. Eram raras, em geral, as separações e falências dos matrimónios, e o divórcio era considerado uma “chaga” social (cf. Gaudium et Spes = GS 47).

Hoje, ao contrário, em não poucos casos, assiste-se a um acentuado deterioramento da família e a uma certa corrupção dos valores do matrimónio. Em numerosas nações, sobretudo economicamente desenvolvidas, o índice de casamentos é reduzido. Costuma-se contrair matrimónio numa idade mais avançada e aumenta o número dos divórcios e das separações, até mesmo nos primeiros anos de vida conjugal. Tudo isto leva inevitavelmente a uma inquietação pastoral, mil vezes reforçada: Quem contrai matrimónio está realmente preparado para isso? O problema da preparação para o sacramento do Matrimónio, e para a vida que se lhe segue, emerge como uma grande necessidade pastoral antes de mais para o bem dos esposos, para toda a comunidade cristã e para a sociedade. Por isso crescem em toda a parte o interesse e as iniciativas para fornecer respostas adequadas e oportunas à preparação para o sacramento do Matrimónio.

2. O Conselho Pontifício para a Família, mantendo um contacto permanente com as Conferências Episcopais e os Bispos, por ocasião de vários encontros, reuniões e sobretudo das visitas « ad limina », tem seguido com atenção a preocupação pastoral no que se refere à preparação e celebração do sacramento do Matrimónio e à vida que se lhe segue, e foi repetidamente convidado a propôr um instrumento para a preparação dos noivos cristãos, o qual é o presente subsídio. Beneficiou ainda com a contribuição de muitos Movimentos Apostólicos, Grupos e Associações que colaboram na pastoral familiar e que deram o seu apoio, os seus conselhos e experiência para a elaboração deste documento de orientação.

A preparação para o matrimónio constitui um momento providencial e privilegiado para aqueles que se orientam para este sacramento cristão, e um Kayrós, isto é, um tempo no qual Deus interpela os noivos e suscita neles o discernimento da vocação matrimonial e da vida na qual introduz. O noivado inscreve-se no contexto de um denso processo de evangelização. De facto, vêm confluir na vida dos noivos, futuros esposos, questões que incidem sobre a família. Eles são, por isso, convidados a compreender o que significa o amor responsável e maduro da comunidade de vida e de amor que será a sua família, verdadeira igreja doméstica, que contribuirá para enriquecer toda a Igreja.

A importância da preparação implica um processo de evangelização que é maturação e aprofundamento na fé. Se a fé está debilitada e quase inexistente (cf. Familiaris Consortio = FC 68), é necessário reavivá-la e não se pode excluir uma exigente e paciente instrução que suscite e alimente o ardor de uma fé viva. Sobretudo onde o ambiente se paganizou, será particularmente aconselhavel um « itinerário que recalque dinamismos do catecumenado » (FC66) e uma apresentação das verdades cristãs fundamentais que ajudem a adquirir ou a reforçar a maturidade da fé dos contraentes. É desejável que o momento privilegiado da preparação para o matrimónio se transforme, como sinal de esperança, numa Nova Evangelização para as futuras famílias.

3. Põem em evidência tal peculiar atenção os ensinamentos dos Concílio Vaticano II (GS 52), as orientações do Magistério Pontifício (FC 66), a própria legislação eclesial (Codex Iuris Canonici = CIC, can.1063; Codex Canonum Ecclesiarum Orientalium = CCEO, can. 783), oCatecismo da Igreja Católica (n. 1632) e outros documentos do Magistério, entre os quais aCarta dos Direitos da Família. Os dois mais recentes documentos do Magistério Pontifício a Carta às Famílias Gratissimam Sane e a Encíclica Evangelium Vitae (= EV) - constituem uma notável ajuda para a nossa tarefa.

O Conselho Pontifício para a Família, atento, como foi dito, a repetidas solicitações, iniciouuma reflexão sobre este tema, concentrando-se principalmente sobre « cursos de preparação », em linha com a própria Exortação Apostólica Familiaris Consortio e, para isso, percorreu um itinerário de redacção do tipo seguinte. No ano de 1991, o Conselho dedicou a sua Assembleia Plenária (30 de Setembro - 5 de Outubro) ao tema da preparação para o Matrimónio, para o qual a Comissão de Presidência do Conselho Pontifício para a Família e os casais de cônjuges que dele fazem parte ofereceram abundante material para a elaboração de um primeiro esboço. Portanto, com data de 8-13 de Julho de 1992, foi convocado um grupo de trabalho composto de pastores, consultores e peritos, os quais reelaboraram um segundo esboço que foi enviado às Conferências Episcopais para obter contributos e sugestões complementares. As respostas, que chegaram em grande número, com oportunas sugestões, foram estudadas e inseridas no esboço sucessivo por um grupo de trabalho, em 1995. Este conselho apresenta agora o documento-guia que é proposto como base do trabalho pastoral relativo à preparação para o sacramento do Matrimónio. Será especialmente útil às Conferências Episcopais na elaboração do seu Directório, e também para um maior empenho pastoral nas dioceses, nas paróquias e nos movimentos apostólicos (cf. FC 66).

4. A « magna carta » para as famílias, qual é a citada Exortação Apostólica Familiaris Consortio, tinha já posto em relevo que « As mudanças verificadas no seio de quase todas as sociedades modernas exigem que não só a família, mas também a sociedade e a Igreja se empenhem no esforço de preparar adequadamente os jovens para as responsabilidades do seu futuro (…) Por isso a Igreja deve promover melhores e mais intensos programas de preparação para o matrimónio, a fim de eliminar, o mais possível, as dificuldades com que se debatem tantos casais, e sobretudo para favorecer positivamente o aparecimento e o amadurecimento de matrimónios com êxito » (FC 66).

O Código de Direito Canónico estabelece que se faça « a preparação pessoal para a celebração do matrimónio, pela qual os esposos se disponham para a santidade e os deveres do seu novo estado » (CIC can. 1063, 2, CCEO can. 783, § 1), disposição também presente no Ordo Celebrandi Matrimonium = OCM 12.

E no discurso do Santo Padre à Assembleia Plenária do Conselho para a Família (4 de Outubro de 1991) acrescentava: « Quanto maiores forem as dificuldades ambientais para conhecer a verdade do sacramento cristão e da própria instituição matrimonial, tanto maiores devem ser os esforços de preparar adequadamente os esposos para as suas responsabilidades ». E continuava, ainda com observações mais concretas referentes aos cursos propriamente ditos: « Tendes podido observar que, dada a necessidade de realizar tais cursos nas paróquias, considerando os resultados positivos dos vários métodos usados, parece conveniente que se proceda a uma determinação exacta dos critérios a adoptar, sob a forma de Guia ou de Directório, para oferecer uma ajuda válida às Igrejas particulares ». Tanto mais que no interior das Igrejas particulares, por parte « do povo da vida e pela vida », resulta decisiva a responsabilidade da família: é uma responsabilidade que brota da própria natureza dela - uma comunidade de vida e de amor, fundada sobre o matrimónio e da sua missão que é « guardar, revelar e comunicar o amor » (EV 92 e cf. FC 17).

5. Para tal fim, o Conselho Pontifício para a Família oferece este documento que tem por objectivo a preparação para o sacramento do Matrimónio e a sua celebração.

As linhas que emergem constituem um itinerário para a preparação remota, próxima e imediata para o sacramento do Matrimónio (cf. FC 66). O material aqui fornecido é destinado em primeiro lugar às Conferências Episcopais, aos Bispos e seus colaboradores para a pastoral da preparação para o matrimónio, mas - e não poderia ser de outra maneira - os próprios noivos estão envolvidos e são objecto da preocupação pastoral da Igreja.

6. Deverá reservar-se particular atenção pastoral ao confronto com noivos que se encontram em situações especiais, previstas pelo CIC, can. 1071, 1072, e 1125, do CCEO, can. 789 e 814, para os quais as linhas que serão traçadas no documento, mesmo quando não possam ser totalmente aplicadas, podem apesar disso ser úteis para uma recta orientação e um devido acompanhamento dos noivos.

A Igreja, fiel à vontade e aos ensinamentos de Cristo, com a sua legislação, exprime a sua caridade pastoral no cuidado de cada situação dos fiéis. Os critérios propostos são instrumentos de auxílio positivo, e não devem ser tomados como ulteriores exigências constritivas.

7. A motivação doutrinal de fundo que inspira o documento-guia nasce da convicção de que o sacramento do matrimónio é um bem que tem a sua origem na Criação e que, por isso, afunda as suas raízes na natureza humana. « Não lestes como o Criador, no princípio, os fez homem e mulher? E disse: Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá com a sua mulher, e os dois serão uma só carne » (Mt 19, 4-5). Portanto, aquilo que a Igreja realiza em favor da família e do matrimónio contribui certamente par a o bem da sociedade, enquanto tal, e de todas as pessoas, porque o matrimónio cristão, mesmo na sua expressão de novidade de vida, realizada pelo Cristo Ressuscitado, exprime sempre a verdade do amor conjugal e é como uma profecia que anuncia, claramente, a verdadeira exigência do ser humano: homem e mulher, chamados, desde a sua orígem, a viver na comunhão de vida e de amor e na complementaridade que levam a conseguir a promoção da dignidade humana dos cônjuges, o bem dos filhos e o bem da própria sociedade, com « a defesa e a promoção da vida… tarefa e responsabilidade de todos » (EV 91).

8. Por isso, o presente documento contempla quer as realidades humanas naturais próprias da instituição divina, quer as realidades específicas do sacramento instituído por Cristo, e articula-se, em concreto, em três partes:

1) A importância da preparação para o matrimónio cristão;

2) As etapas ou momentos da preparação;

3) A celebração do matrimónio.

I

A IMPORTÂNCIA DA PREPARAÇÃO
PARA O MATRIMÓNIO CRISTÃO

9. Ponto de partida para um itinerário de preparação para o matrimónio é o conhecimento de que o contrato conjugal foi assumido e elevado pelo Senhor Jesus Cristo, na força do Espírito Santo, a sacramento da Nova Aliança. Associa os cônjuges ao amor oblativo de Cristo Esposo pela Igreja, Sua Esposa (cf. Ef 5, 25-32) tornando-os imagem e participantes deste amor, faz deles um louvor ao Senhor e santifica a união conjugal e a vida dos fiéis cristãos que o celebram, dando origem à família cristã, igreja doméstica e « primeira célula vital da sociedade », (Apostolicam Actuositatem, 11) e « santuário da vida » (EV 92 e também nn. 6, 88, 94). O sacramento é, portanto, celebrado e vivido no coração da Nova Aliança, isto é, no mistério pascal. É Cristo, Esposo no meio dos seus (cf. Gratissimam Sane, 18; Mt 9, 15), que é fonte de todas as energias. Os casais e as famílias cristãs, por isso, não estão isolados nem abandonados.

Para os cristãos o matrimónio, que tem a sua origem em Deus criador, implica além disso uma verdadeira vocação e um particular estado e vida de graça. Tal vocação, para ser amadurecida, requer uma preparação adequada e especial, e é um caminho específico de fé e de amor, tanto mais que esta vocação é dada ao casal para o bem da Igreja e da sociedade. E isto com todo o significado e força de um empenho público, assumido diante de Deus e da sociedade, que vai além dos limites individuais.

10. O matrimónio, como comunidade de vida e de amor, quer como instituição divina natural, quer como sacramento, não obstante as dificuldades presentes, conserva sempre em si uma fonte de energias formidáveis (cf. FC 43), que, com o testemunho dos esposos, se pode tornar uma Boa Notícia, e contribuir fortemente para a nova evangelização e assegurar o futuro da sociedade. Tais energias precisam todavia de ser descobertas, apreciadas e valorizadas, pelos próprios esposos e pela comunidade eclesial na fase que precede a celebração do matrimónio e que constitui a preparação para ele.

Há numerosíssimas dioceses no mundo, empenhadas em descobrir formas de fazer uma cada vez mais conveniente preparação para o matrimónio. São muitas as experiências positivas que foram transmitidas ao Conselho Pontifício para a Família e que, sem dúvida, se vão consolidando cada vez mais e trarão um auxílio válido, se conhecidas e valorizadas pelas Conferências Episcopais e por cada Bispo na pastoral das Igrejas locais.

O que aqui se chama Preparação compreende um amplo e exigente processo de educação para a vida conjugal, a qual deve ser considerada no conjunto dos seus valores. Por isso, a preparação para o matrimónio, se se considerar o momento psicológico e cultural actual, representa uma necessidade urgente. De facto, é educar para o respeito e a protecção da vida, que no Santuário das famílias se deve tornar uma verdadeira e própria cultura da vida humana em todas as suas manifestações e estados para aqueles que fazem parte do povo da vida epara a vida (cf. EV 6, 78, 105). A própria realidade do matrimónio é tão rica que requer primeiramente um processo de sensibilização a fim de que os noivos sintam a necessidade de se preparar. A pastoral familiar oriente, por isso, os seus melhores esforços para que tal preparação seja de qualidade, recorrendo também a subsídios de pedagogia e psicologia de sã orientação.

Em outro documento, recentemente publicado (8 de Dezembro de 1995) pelo Conselho Pontifício para a Família e intitulado Sexualidade humana: verdade e significado. Orientações educativas em família, o mesmo Conselho vai ao encontro das famílias na sua tarefa de formação dos filhos sobre a sexualidade.

11. Finalmente, tornou-se mais impelente a solicitude da Igreja em ordem a esta questão, pelas circunstâncias actuais - a que nos referimos acima - nas quais se constatam, por um lado, a recuperação de valores e de aspectos importantes do matrimónio e da família e se reconhece o florescimento de testemunhos felizes de inúmeros cônjuges e famílias cristãs. Por outro lado, aumenta o número daqueles que ignoram ou recusam as riquezas do matrimónio com um tipo de desconfiança que chega a duvidar ou repelir os seus bens e valores (cf. GS 48). Hoje observamos, alarmados, a difusão de uma « cultura » ou de uma mentalidade desconfiada em relação à família como valor necessário para os esposos, para os filhos e para a sociedade. Há atitudes e medidas, comtempladas nas legislações, que não ajudam a família fundada sobre o matrimónio e negam até mesmo os seus direitos. De facto, uma atmosfera de secularização tem-se difundido em diversas partes do mundo e arrastaespecialmente os jovens submetendo-os à pressão de um ambiente de secularismo no qual se acaba por perder o sentido de Deus e, por consequência, perde-se também o sentido profundo do amor esponsal e da família. Não será negar a verdade de Deus, fechar a própria fonte e manancial deste íntimo mistério? (cf. GS 22). A negação de Deus, nas suas diversas formas, implica muitas vezes a recusa das instituições e das estruturas que pertencem ao desígnio de Deus, começado a concretizar-se desde a Criação (cf. Mt 19, 3ss). Desta maneira, tudo é concebido como fruto da vontade humana eou de consentimentos que podem mudar.

12. Nos países em que o processo de descristianização está mais difundido, é evidente a preocupante crise dos valores morais e, em particular, a perda da identidade do matrimónio e da família cristã e, portanto, do próprio sentido do noivado. Ao lado destas perdas está a crise de valores no interior da família, para a qual contribui um clima de permissivismo difuso, mesmo legal. Isto é incentivado não pouco pelos meios de comunicação social que exibem modelos contrários como se fossem verdadeiros valores. Forma-se assim um contexto aparentemente cultural que se oferece às novas gerações como alternativa à concepção da vida conjugal e do matrimónio, ao seu valor sacramental e à sua ligação com a Igreja.

Fenómenos que confirmam esta realidade e que reforçam a dita cultura estão ligados a novos estilos de vida que desvalorizam as dimensões humanas dos contraentes, com desastrosas consequências para a família. Entre estes, recorda-se aqui o permissivismo sexual, a diminuição do número de matrimónios ou o adiá-los continuamente, o aumento dos divórcios, a mentalidade contraceptiva, o difundir-se do aborto voluntário, o vazio espiritual e a insatisfação profunda que contribuem para a difusão da droga, do alcoolismo, da violência e do suicídio entre os próprios jovens e os adolescentes.

Em outra áreas do mundo, as situações de subdesenvolvimento, até à extrema pobreza, à miséria, assim como a presença de elementes culturais adversos ou alheios à visão cristã, tornam difícil e precária a própria estabilidade da família e o constituir-se de uma profunda educação para o amor cristão.

13. A agravar a situação contribuem as leis permissivas, com toda a força para forjar uma mentalidade que fere a família (cf. EV 59), em matéria de divórcio, aborto, liberdade sexual. Muitos meios de comunicação1 difundem, e colaboram para estabelecer um clima de permissividade e formam uma contextura que impede aos jovens o crescimento normal na fé cristã, a ligação com a Igreja e a descoberta do valor sacramental do matrimónio e das exigências que derivam da sua celebração. É verdade que uma educação para o matrimónio foi sempre necessária, mas a cultura cristã permitia uma mais fácil colocação e assimilação dela. Hoje, isto é, às vezes, mais trabalhoso e mais urgente.

14. Por todas estas razões, Sua Santidade João Paulo II, na Exortação Apostólica Familiaris Consortio - que recolhe os frutos do Sínodo sobre a Família, de 1980 indica que « a preparação dos jovens para o matrimónio e para a vida familiar é necessária hoje mais do que nunca » (FC66) e urge « promover melhores e mais intensos programas de preparação para o matrimónio, a fim de eliminar, o mais possível, as dificuldades com que se debatem tantos casais, e sobretudo para favorecer positivamente o aparecimento e o amadurecimento de matrimónios com êxito » (ibid.).

Na mesma linha, e a fim de responder de modo orgânico às ameaças e exigências do momento presente, é oportuno que as Conferências Episcopais se apressem a publicar « um Directório para a pastoral da família » (ibid.) Nele sejam procurados e delineados os elementos considerados necessários para uma pastoral mais incisiva que tenda a recuperar a identidade cristã do matrimónio e da família, a fim de que a própria família chegue a ser uma comunidade de pessoas ao serviço da vida humana e da fé, célula primeira e vital da sociedade, comunidade crente e evangelizadora, verdadeira « Igreja doméstica, centro de comunhão e de serviço eclesial » (ibid.) « chamada a anunciar, celebrar e servir o Evangelho da vida » (EV 92, e também nn. 28, 78, 79, 105).

15. Dada a importância do tema, o Conselho Pontifício para a Família, tomando conhecimento das diversas iniciativas que surgiram nesta linha da parte de não poucas Conferências Episcopais e de muitos Bispos diocesanos, convida a prosseguir com renovado empenho neste serviço pastoral. Eles prepararam um material útil para dar um contributo à preparação do matrimónio e para o acompanhamento da vida familiar. Em continuidade com as directivas da Sé Apostólica, o Conselho Pontifício propõe estes pontos de reflexão referidos exclusivamente a uma parte do citado Directório: aquela que se refere à preparação para o sacramento do Matrimónio. Pode assim servir para melhor delinear e desenvolver os aspectos necessários à preparação adequada para o matrimónio e para a vida da família cristã.

16. A Palavra de Deus, viva na tradição da Igreja e aprofundada pelo Magistério, sublinha que o matrimónio implica para os esposos cristãos a resposta a uma vocação de Deus e a aceitação da missão de serem sinal do amor de Deus para todos os membros da família humana, sendo participação da aliança definitiva de Cristo com a Igreja. Assim, os esposos tornam-se cooperadores do Criador e Salvador no dom do amor e da vida. Por isso a preparação para o matrimónio cristão pode-se classificar como um itinerário de fé, que não termina com a celebração do matrimónio mas que continua em toda a vida familiar, e assim a nossa prospectiva não se encerra no matrimónio como acto, no momento da celebração, mas como estado permanente. É também por isso que a preparação é uma « ocasião privilegiada para que os noivos descubram e aprofundem a fé recebida no baptismo e alimentada com a educação cristã. Desta forma reconhecem e acolhem livremente a vocação de seguir o caminho de Cristo e de se pôr ao serviço do Reino de Deus no estado matrimonial » (FC 51).

Os Bispos têm consciência da necessidade urgente e indispensável de propor e articular itinerários de formação específica, no quadro de um processo de formação cristã que seja gradual e contínuo (cf. OCM 15). Não será inútil, de facto, recordar que uma verdadeira preparação é orientada para uma consciente e livre celebração do Matrimónio. Mas esta celebração é fonte e expressão de implicações mais empenhativas e permanentes.

17. Resulta da experiência de muitos pastores e educadores que o período do noivado possa ser tempo de descoberta recíproca, mas também de aprofundamento da fé e, por isso, tempo de especiais dons sobrenaturais para uma espiritualidade pessoal e interpessoal; infelizmente, para alguns este período, destinado à maturação humana e cristã, pode ser perturbado por um uso irresponsável da sexualidade que não chega à maturação do amor esponsal. E, assim, alguns chegam a uma espécie de apologia das relações pré-matrimoniais.

Um feliz resultado do aprofundamento na fé dos noivos é também condicionado pela sua formação precedente. Por outro lado, o modo como é vivido este período terá certamente uma influência sobre a vida futura dos cônjuges e da família. Daqui a importância decisiva do auxílio que é oferecido aos noivos pelas respectivas famílias e por toda a comunidade eclesial. Isto é também motivo de oração; significativa a este propósito é a bênção dos noivos prevista no De benedictionibus (nn. 195-214), onde se lembram os sinais deste empenho inicial: o anel, a troca recíproca de presentes, ou outros costumes (nn. 209-210). É preciso no entanto reconhecer a densidade humana do noivado, evitando encará-lo de maneira banal.

Por isso, seja a riqueza do matrimónio como a do sacramento do Matrimónio, seja o relevodecisivo que assume o período do noivado, hoje muitas vezes prolongado por vários anos (com as dificuldades de diversos tipos que tal situação implica), são razões para requererem uma solidez particular desta formação.

18. Segue-se que a programação diocesana e paroquial - com planos pastorais que privilegiam a pastoral familiar, a qual enriquece o conjunto da vida eclesial - supõe que a tarefa formativa encontre o seu espaço adequado e o seu desenvolvimento e que, entre as dioceses e no âmbito das Conferências Episcopais, as melhores experiências possam ser verificadas e comunicadas numa troca de experiências pastorais. Resulta portanto também importante conhecer as formas de catequese e de educação que são dadas aos adolescentes, sobre os vários tipos de vocações e sobre o amor cristão, os itinerários que são elaborados pelos noivos, as modalidades com que são inseridos nesta formação os casais de esposos mais amadurecidos na fé e as melhores experiências, a fim de criar um clima espiritual e cultural idóneo para os jovens que se preparam para o matrimónio.

19. No processo de formação, conforme é recordado também na Exortação ApostólicaFamiliaris Consortio, é necessário distinguir três etapas ou momentos principais na preparação para o matrimónio: remota, próxima e imediata.

As metas particulares próprias de cada etapa serão atingidas se os noivos além das qualidades humanas fundamentais e as verdades de fé basilares - conhecerem também os principais conteúdos teológico-litúrgicos que percorrem as diferentes fases da preparação. Por consequência os noivos, num esforço de conformar a sua vida com esses valores, conseguirão aquela formação que os dispõe para a vida de cônjuges.

20. A preparação para o matrimónio deve inscrever-se na urgência de evangelizar a cultura - permeando-a nas raizes (cf. Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, 19) - em tudo aquilo que se refere à instituição do matrimónio: fazer penetrar o espírito cristão nas mentes e nos comportamentos, nas leis e nas estruturas da comunidade onde vivem os cristãos (cf.Catecismo da Igreja Católica, n. 2105). Esta preparação, quer implícita quer explícita, constitui um aspecto da evangelização, e assim se pode aprofundar a força da afirmação do Santo Padre: « A família é o coração da Nova Evangelização » (…). A própria preparação « compete primariamente aos cônjuges, chamados a serem transmissores da vida, apoiados numaconsciência sempre renovada do sentido da geração, enquanto acontecimento onde, de modo privilegiado, se manifesta que a vida humana é um dom recebido a fim de, por sua vez, ser dado » (EV 92).

Para além dos valores religiosos, o matrimónio, como fundamento da família, difunde sobre a sociedade abundantes bens e valores que reforçam a solidariedade, o respeito, a justiça e o perdão nos relacionamentos pessoais e colectivos. Por sua vez a família, fundada sobre o matrimónio, espera da sociedade « ser reconhecida na sua identidade e aceite na suasubjectividade social » (Gratissimam Sane, 17), e tornar-se assim « coração da civilização do amor » (ibid. 13).

Toda a diocese se deve empenhar nesta tarefa e dar-lhe o devido apoio. O ideal seria criar uma Comissão diocesana para a preparação para o matrimónio, integrando um grupo para a pastoral familiar composto de casais de esposos com experiência paroquial, de movimentos, de peritos.

Tal Comissão diocesana teria a tarefa da formação, do acompanhamento e da coordenação, em colaboração com centros, a vários níveis, empenhados neste serviço. A Comissão, por sua vez, deveria ser formada por redes de equipas de leigos escolhidos colaborando para a preparação em sentido amplo, e não só nos cursos. Deveria servir-se da ajuda de um coordenador, normalmente presbítero, em nome do Bispo. No caso de coordenação ser confiada a um leigo ou a um casal, seria oportuna a assistência de um presbítero.

Tudo isto deve entrar no âmbito organizativo da diocese, com as suas estruturas correspondentes, como possíveis zonas a que é anteposto um Vigário Episcopal e vigários forâneos

II

AS ETAPAS OU MOMENTOS DA PREPARAÇÃO

21. As etapas ou momentos a que nos referiremos não são rigidamente definidos. De facto, não se podem fixar nem em relação à idade dos destinatários, nem em relação à duração. Todavia, é útil conhecê-los como itinerários e instrumentos de trabalho, sobretudo por causa dos conteúdos a transmitir. São articulados em: preparação remota, próxima e imediata.

A. Preparação remota

22. A preparação remota abraça a infância, a pré-adolescência e a adolescência, e desenrola-se sobretudo na família, e também na escola e nos grupos de formação, como auxílios válidos. É um período em que é transmitida e como que instilada a estima por todo o autêntico valor humano, seja nos relacionamentos interpessoais, seja nos sociais, com tudo o que isto significa para a formação do carácter, o domínio e a estima de si, o recto uso das próprias inclinações, o respeito também para com as pessoas do outro sexo. Requere-se, além disso, especialmente para os cristãos, uma sólida formação espiritual e catequética (cf. FC 66).

23. Na Carta às Famílias Gratissimam Sane, João Paulo II recorda duas verdades fundamentais na tarefa da educação: « a primeira é que o homem é chamado a viver na verdade e no amor; a segunda é que cada homem se realiza através do dom sincero de si » (n.16). A educação das crianças começa, por isso, antes do nascimento, no ambiente em que a vida nova do nascituro é esperada e acolhida, especialmente com o diálogo de amor entre a mãe e a sua criatura (cf. ibid. 16), e continua na infância, dado que a educação é « sobretudouma “oferta” de humanidade por parte de ambos os pais: estes comunicam juntos a sua humanidade madura ao recém-nascido » (ibid.). « Na geração de uma nova vida, eles tomam consciência de que o filho “se é fruta da recíproca doação de amor dos pais, é, por sua vez, um dom para ambos: um dom que promana do dom” » (EV 92).

A educação cristã no seu sentido integral, que implica a transmissão e a consolidação dos valores humanos e cristãos como afirma o Concílio Vaticano II « não visa apenas à maturidade da pessoa humana acima descrita, mas objectiva em primeiro lugar que os baptizados sejam gradativamente introduzidos no conhecimento do mistério da salvação e se tornem de dia para dia mais conscientes do dom recebido da fé… sejam treinados a orientar a própria vida segundo o homem novo na justiça e na santidade da verdade » (Gravissimum Educationis, 2).

24. Não pode faltar, neste período, também uma leal e corajosa educação para a castidade, para o amor como dom de si. A castidade não é mortificação do amor, mas condição de autêntico amor. De facto, se a vocação ao amor conjugal é vocação ao dom de si no matrimónio, é necessário chegar a possuir-se verdadeiramente a si mesmo para se poder doar.

A este respeito, é importante a educação sexual recebida dos pais nos primeiros anos da infância e da adolescência, como foi indicado pelo documento deste Conselho Pontifício para a Família, já recordado acima, no n. 10.

25. Nesta etapa ou momento da preparação remota são atingidos objectivos específicos. Sem ter a pretenção de se fazer uma lista exaustiva deles, de modo indicativo recorda-se que tal preparação deverá, antes de mais, conseguir a meta pela qual cada fiel, chamado ao matrimónio, compreenda a fundo que o amor humano, à luz do amor de Deus, assume um papel central na ética cristã. De facto, a vida humana, como vocação-missão, é chamamento ao amor que tem a sua nascente e o seu fim em Deus, « sem excluir a possibilidade do dom total de si a Deus na vocação à vida sacerdotal ou religiosa » (FC 66). Neste sentido é preciso recordar que a preparação remota, mesmo quando se detém sobre conteúdos doutrinais de carácter antropológico, se coloca na perspectiva do matrimónio no qual o amor humano se torna participação, além de sinal, do amor que acontece entre Cristo e a Igreja. Assim, o amor conjugal torna presente entre os homens o próprio amor divino tornado visível na redenção. A passagem ou conversão de um nível de fé mais exterior e vago, próprio de muitos jovens, a uma descoberta do « mistério cristão » é uma passagem essencial e decisiva: uma fé que implica a comunhão de Graça e de amor com o Cristo Ressuscitado.

26. A preparação remota terá atingido os seus principais objectivos no momento em que tenha consentido assimilar os fundamentos para adquirir, cada vez mais, os parâmetros de um recto juízo acerca da hierarquia de valores necessária para escolher o que de melhor oferece a sociedade, segundo o conselho de S. Paulo: « Examinai todas as coisas, conservai o que é bom » (1 Tess. 5,19). Nem se pode esquecer que, mediante a graça de Deus, o amor é curado, fortalecido e intensificado mesmo através dos necessários valores ligados à doação, ao sacrifício, à renúncia e abnegação. Já nesta fase de formação, a ajuda pastoral deverá ser orientada a procurar que o comportamento moral seja regido pela fé. Um tal estilo de vida cristã encontra o seu estímulo, apoio e consistência no exemplo dos pais que se torna para os nubentes um verdadeiro testemunho.

27. Esta preparação não deve perder de vista um facto muito importante que consiste em ajudar os jovens a adquirir, em confronto com o ambiente, uma capacidade crítica e a terem também a coragem cristã de quem sabe estar no mundo sem ser do mundo. Nesse sentido leiamos a Carta a Diogneto, documento venerável desde a primeiríssima época cristã e de reconhecida autenticidade: « Os cristãos não se diferenciam do resto dos homens nem pelo território, nem pela língua, nem pelos costumes de vida… (contudo) propõem-se uma forma de vida maravilhosa e, todos admitem, incrível… Como todos os outros, casam-se e têm filhos, mas não expõem as suas crianças. Têm em comum a mesa, mas não o tálamo. Vivem na carne, mas não segundo a carne » (V, 1, 4, 6, 7). A formação deverá conseguir uma mentalidade e uma personalidade capazes de não se deixar arrastar pelas concepções contrárias à unidade e à estabilidade do matrimónio, para assim poder reagir contra as estruturas do assim chamado pecado social que « se repercute, com maior ou menor veemência, com maior ou menor dano, sobre toda a estrutura social e sobre a inteira família humana » (Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, 16). É diante destes influxos de pecado e de tantas pressões sociais que deve ser revigorada uma consciência crítica.

28. O estilo cristão de vida, testemunhado pelos lares cristãos, é já uma evangelização, é o próprio fundamento da preparação remota. De facto, outra meta é constituida pela apresentação da missão educativa dos próprios pais. É na família, igreja doméstica, que os pais cristãos são as primeiras testemunhas e os formadores dos filhos seja no crescimento da « fé-esperança-caridade », seja na configuração da vocação própria de cada um deles. « Ospais são os primeiros e principais educadores dos seus filhos e têm também neste campo uma competência fundamental: são educadores porque pais » (Gratissimam Sane, 16). Para isto os pais têm necessidade de oportunos e adequados auxílios.

29. Entre eles, deve-se incluir, antes de mais, a paróquia como lugar de formação eclesial cristã; é nela que se aprende um estilo de convivência comunitária (cf. Sacrosantum Concilium, 42). Não devemos esquecer, além disso, a escola, as outras instituições educativas, os movimentos, os grupos, as associações católicas e, obviamente, as das próprias famílias cristãs.

Possuem particular relevo, nos processos educativos dos jovens, os meios de comunicação de massa, que deveriam ajudar positivamente a missão da família na sociedade e não, pelo contrário, causar-lhe dificuldades.

30. Este processo educativo deve ser também assumido pelos catequistas, pelos animadores da pastoral juvenil e vocacional e sobretudo pelos pastores que aproveitarão o momento das homilias durante as celebrações litúrgicas, e de outras formas de evangelização, de encontros pessoais, de itinerários de compromisso cristão, para sublinhar e evidenciar os pontos que contribuem para uma preparação orientada a um possível matrimónio (cf. OCM 14).

31. É necessário, por isso, « inventar » modalidades de formação permanente para os adolescentes no período que precede o noivado e que se segue às etapas da iniciação cristã; e é sumamente útil a troca das experiências que mais respondem a este propósito. As famílias, unidas nas paróquias, nas instituições, em diversas formas de associações, ajudem a criar um clima social em que o amor responsável seja são e, nos casos em que ele é inquinado, por exemplo, pela pornografia, possam reagir apoiadas no direito da família. Tudo isto faz parte de uma « ecologia humana » (cf. Centesimus Annus, 38).

B. Preparação próxima

32. A preparação próxima desenrola-se durante o período do noivado. Articula-se em cursos específicos e é distinta da imediata, que geralmente se concentra nos últimos encontros entre os noivos e os agentes de pastoral, antes da celebração do matrimónio. Parece oportuno que, durante a preparação próxima, seja dada a possibilidade de verificar a maturidade dos valores humanos próprios da relação de amizade e de diálogo que caracterizam o noivado. Em vista do novo estado de vida que será vivida como casal, dê-se oportunidade para aprofundar a vida de fé e, sobretudo, aquilo que se refere ao conhecimento da sacramentalidade da Igreja. É esta uma etapa muito importante de evangelização, em que a fé deve incluir a dimensão pessoal e comunitária tanto dos noivos quanto de suas famílias. Nesse aprofundamento será também possível perceber as suas eventuais dificuldades em viver uma autêntica vida cristã.

33. O período desta preparação vem a coincidir em geral com a época da juventude; pressupõe-se portanto tudo o que é próprio da pastoral juvenil propriamente dita, que se ocupa do crescimento integral da fé. A pastoral juvenil não se pode separar do âmbito da família, como se os jovens formassem uma espécie de « classe social » separada e independente. Ela deve reforçar o sentido social dos jovens, em primeiro lugar com os membros da sua família, orientando os seus valores para a futura família que formarão. Os jovens terão já sido coadjuvados no discernimento da sua vocação através do empenho pessoal, e com a ajuda da comunidade, principalmente dos pastores. Isto deve iniciar-se ainda antes do compromisso do noivado. Quando a vocação se concretiza em direcção ao matrimónio, será apoiada, em primeiro lugar, pela graça e depois por uma preparação adequada. A dita pastoral juvenil terá contudo presente que, por dificuldades de vários géneros, como o facto duma « adolescência prolongada » e, portanto, duma mais longa permanência na família - fenómeno novo e preocupante -, o compromisso matrimonial dos jovens de hoje, é, não poucas vezes, excessivamente adiado.

34. Tal preparação próxima deverá basear-se, antes de mais, numa catequese alimentada pela escuta da Palavra de Deus, interpretada com a orientação do Magistério da Igreja, em vista de uma compreensão cada vez mais plena da fé, e de um testemunho na vida concreta. O ensinamento deverá ser proposto no contexto de uma comunidade de fé entre famílias, especialmente no âmbito da paróquia, que - para tal fim - participam e colaboram segundo os próprios carismas e as próprias funções, para a formação dos jovens, alargando a sua influência a outros grupos sociais.

35. Os noivos deverão ser instruídos sobre as exigências naturais ligadas ao relacionamento interpessoal homem-mulher no plano de Deus sobre o matrimónio e sobre a família: o conhecimento em ordem à liberdade de consentimento como fundamento da sua união, a unidade e indissolubilidade matrimonial, a recta concepção de paternidade-maternidade responsável, os aspectos humanos da sexualidade conjugal, o acto conjugal com as suas exigências e finalidades, a recta educação dos filhos. Tudo isto orientado para o conhecimento da verdade moral e para a formação da consciência pessoal.

A preparação próxima deverá certamente prever que os noivos possuam os elementos basilares de carácter psicológico, pedagógico, legal e médico, concernentes ao matrimónio e à família. Todavia, especialmente no que se refere à doação total e à procriação responsável, a formação teológica e moral deverá ter um aprofundamento particular. De facto, o amor conjugal é amor total, exclusivo, fiel e fecundo (cf. Humanae Vitae, 9).

Hoje está firmemente reconhecida a base científica2 dos métodos naturais de regulação da fertilidade. É útil o seu conhecimento; o seu emprego, quando existam causas justas, não deve permanecer mera técnica de comportamento, mas deve ser inserido na pedagogia e no processo de crescimento do amor (cf. EV 97). É então que a virtude da castidade entre os cônjuges leva a viver a continência periódica (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 2366-2371).

Esta preparação deverá contudo garantir que os noivos cristãos tenham ideias exactas, e um sincero « sentire cum ecclesia », sobre o próprio matrimónio, sobre os papéis mútuos da mulher e do homem no casal, na família e na sociedade, sobre a sexualidade e a abertura aos outros.

36. É também óbvio que se deverão ajudar os jovens a tomar consciência de eventuais carências psicológicas eou afectivas, especialmente da incapacidade de abrir-se aos outros e de formas de egoísmo que possam tornar vão o empenho total da sua doação. Tal ajuda levará contudo a descobrir as potencialidades e exigências de crescimento humano e cristão da sua existência. Por isso, os responsáveis preocupar-se-ão também de formar solidamente a consciência moral dos noivos para que estejam preparados para a livre e definitiva escolha do matrimónio que se exprimirá no consentimento mutuamente dado diante da Igreja, por meio do pacto conjugal.

37. Durante este momento do itinerário serão necessários encontros frequentes, num clima de diálogo, de amizade, de oração, com a participação de pastores e de catequistas. Estes deverão sublinhar que « a família celebra o Evangelho da vida com a oração diária, individual e familiar: nela, agradece e louva o Senhor pelo dom da vida e invoca luz e força para enfrentar os momentos de dificuldade e sofrimento, sem nunca perder a esperança ». (EV 93). E, além disso, os casais de esposos cristãos apostolicamente empenhados, numa visual de são optimismo cristão, podem contribuir para iluminar cada vez melhor a vida cristã no contexto da vocação ao matrimónio e na complementaridade de todas as vocações. Este período, portanto, não será somente de aprofundamento teórico, mas antes um caminho de formação, no qual os noivos, com o auxílio da graça e fugindo a qualquer forma de pecado, se preparam para se doar a si mesmos, como casal, a Cristo que sustém, purifica, nobilita o noivado e a vida conjugal. Adquire assim sentido pleno a castidade pré-matrimonial, e outras expressões como o mariage coutumier no processo de crescimento do amor.

38. Segundo os sãos princípios pedagógicos da gradualidade e globalidade do crescimento da pessoa, a preparação próxima não deve desatender a formação para as tarefas sociais e eclesiais próprias daqueles que deverão, com o seu matrimónio, dar início às novas famílias. A intimidade familiar não seja concebida como intimismo fechado em si mesmo, mas antes como capacidade de interiorizar as riquezas humanas e cristãs, ingénitas na vida matrimonial em vista de uma cada vez maior doação aos outros. Por isso, a vida conjugal e familiar, numa concepção aberta da família, exige dos cônjuges que se reconheçam sujeitos que têm direitos mas também deveres para com a sociedade e a Igreja. A este respeito, será muito útil convidar a ler, e a reflectir, os seguintes documentos da Igreja que são uma densa e encorajante fonte de sabedoria humana e cristã: a Familiaris Consortio, a Carta às Famílias Gratissimam Sana, a Carta dos Direitos da Família, a Evangelium Vitae e outros.

39. Assim, a preparação próxima dos jovens fará compreender que o empenho que vão assumir dando o seu consentimento « diante da Igreja », exige já no período do noivado que se inicie - abandonando, se tal for o caso, práticas contrárias - um caminho de fidelidade recíproca. Este empenho humano será valorizado pelos dons específicos que o Espírito Santo concede aos noivos que o invocam.

40. Visto que o amor cristão é purificado, aperfeiçoado e elevado pelo amor de Cristo para com a Igreja (cf. GS 49), os noivos imitem este modelo progredindo na consciência da doação, sempre ligada ao respeito mútuo e à renúncia de si que ajudam a crescer nele. Portanto, a doação recíproca envolve cada vez mais o intercâmbio de dons espirituais e apoio moral, para um crescimento no amor e na responsabilidade. « O dom da pessoa exige ser duradouro e irrevogável. A indissolubilidade do matrimónio deriva primariamente da essência de tal dom:dom da pessoa à pessoa. Nesta doação recíproca, manifesta-se o carácter esponsal do amor» (Gratíssimam Sane, 11).

41. A espiritualidade esponsal, envolvendo a experiência humana, nunca separada da vida moral, tem as suas raizes no Baptismo e na Confirmação. O itinerário de preparação dos noivos deverá, portanto, incluir uma recuperação dos dinamismos sacramentais com um papel particular dos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia. O sacramento da Reconciliação glorifica a misericórdia divina para com a miséria humana, faz crescer a vitalidade baptismal e os dinamismos próprios da Confirmação. Daqui o poder da pedagogia do amor redimido que faz descobrir com assombro a grandeza da misericórdia de Deus diante do drama do ser humano, criado por Deus e mais maravilhosamente remido. A Eucaristia, celebrando a memória da doação de Cristo à Igreja, desenvolve o amor afectivo próprio do matrimónio na doação quotidiana ao cônjuge e aos filhos, sem esquecer e deixar de atender a que « a celebração que dá significado a qualquer forma de oração e de culto é a que se exprime naexistência quotidiana da família, quando esta é uma existência feita de amor e doação » (EV93).

42. Para esta múltipla e harmónica preparação, é preciso encontrar e formar adequadamente encarregados « ad hoc ». Será oportuno, portanto, criar um grupo, a diversos níveis, de agentes que saibam ser enviados pela Igreja, constituído especialmente por casais de esposos cristãos, entre os quais não faltem, possívelmente peritos em medicina, em leis, em psicologia, com um presbítero, para que sejam preparados para as funções a desempenhar.

43. Por isso, os colaboradores e responsáveis sejam pessoas de doutrina segura e fidelidade indiscutível ao Magistério da Igreja, de modo que possam transmitir, com um conhecimento suficiente e aprofundado e com o testemunho de vida, as verdades de fé e as responsabilidades ligadas ao matrimónio. É mais do que óbvio que estes agentes pastorais, enquanto educadores, deverão estar também providos de capacidade de acolhimento aos noivos, qualquer que seja o seu estrato socio-cultural, a sua formação intelectual e capacidades concretas. Além disso, o seu testemunho de vida fiel e de alegre doação é uma condição indispensável para desempenharem o seu cargo. Estas experiências de vida e os seus problemas humanos poderão ser ponto de partida para iluminar os nubentes com sabedoria cristã.

44. Isto implica um adequado programa de formação dos agentes. Tal preparação destinada aos formadores torná-los-á idóneos para expôr, com adesão clara ao Magistério da Igreja, com metodologia idónea e com sensibilidade pastoral, as linhas fundamentais da preparação para o matrimónio, de que falámos, e levar também o contributo específico, segundo a sua competência, à preparação imediata, conforme os nn. 50-59. Os agentes deverão receber a sua formação em Institutos Pastorais expressamente para esse fim, e deverão ser cuidadosamente escolhidos pelo Bispo.

45. Assim, o resultado final deste período de preparação próxima será constituído por um claro conhecimento das notas essenciais do matrimónio cristão: unidade, fidelidade, indissolubilidade, fecundidade; a consciência de fé sobre a prioridade da Graça sacramental, que associa os esposos, sujeitos e ministros do sacramento, ao Amor de Cristo Esposo da Igreja; a disponibilidade em viver a missão própria das famílias no campo educativo social e eclesial.

46. Como recorda a Familiaris Consortio, o itinerário formativo dos jovens noivos deverá, por isso, prever: o aprofundamento da fé pessoal e a redescoberta dos valores dos sacramentos e experiência de oração; a preparação específica para a vida a dois « que, apresentando o matrimónio como uma relação interpessoal do homem e da mulher em contínuo desenvolvimento, estimule a aprofundar os problemas da sexualidade conjugal e da paternidade responsável, com os conhecimentos médico-biológicos essenciais que lhe estão anexos, e os leve à familiaridade com métodos adequados de educação dos filhos, favorecendo a aquisição dos elementos de base para uma condução ordenada da família » (FC66); a « preparação para o apostolado familiar, para a fraternidade e colaboração com as outras famílias, para a inserção activa nos grupos, associações, movimentos e iniciativas que têm por finalidade o bem humano e cristão da família » (ibid.).

Além disso, os nubentes sejam ajudados preventivamente, de modo a poderem depois manter e cultivar o amor conjugal; a comunicação interpessoal-conjugal; as virtudes e dificuldades da vida conjugal; e como superar as inevitáveis « crises » conjugais.

47. Todavia, o centro de tal preparação deverá ser constituído pela reflexão na fé, através da Palavra de Deus e da orientação do Magistério, sobre o sacramento do Matrimónio. Dar-se-ão portanto aos nubentes a consciência de que o tornar-se « una caro » (Mt 19, 6) em Cristo, na força do Espírito, com o matrimónio cristão, significa imprimir à própria existência uma nova conformação da vida baptismal. O seu amor tornar-se-á, com o sacramento, expressão concreta do amor de Cristo pela sua Igreja (cf. LG 11). À luz da sacramentalidade, os próprios actos conjugais, a procriação responsável, a acção educativa, a comunhão de vida, a apostolicidade e a missionaridade ligadas à vida dos cônjuges cristãos, são considerados momentos válidos de experiência cristã. Cristo, embora de modo não ainda sacramental, sustenta e acompanha o itinerário de graça e de crescimento dos noivos para a participação no seu mistério de união com a Igreja.

48. A propósito de um eventual directório, que recolha as melhores experiências em ordem à preparação para o matrimónio, parece oportuno recordar o que o Santo Padre João Paulo II disse no discurso de conclusão da Assembleia Plenária do Conselho Pontifício para a Família, realizada de 30 de Setembro a 5 de Outubro do ano de 1991: « É indispensável que à preparação doutrinal sejam dados o tempo e os cuidados necessários. A segurança do conteúdo deve ser o centro e o objectivo essencial dos cursos, numa perspectiva que torne mais consciente a celebração do Matrimónio e tudo o que dele brota em relação à responsabilidade da família. As questões relativas à unidade e à indissolubilidade do matrimónio, e aquilo que se refere ao significado da união e da procriação da vida conjugal e do seu acto específico, devem ser tratadas com fidelidade e diligência, segundo o ensinamento claro da Encíclica Humanae Vitae (cf. 11-12). Igualmente, tudo o que se refere ao dom da vida, que os pais devem acolher de maneira responsável, com alegria, como colaboradores do Senhor. É bom que nos cursos seja privilegiado não só o que se refere a uma liberdade madura e vigilante daqueles que desejam contrair matrimónio, mas também à missão própria dos pais, primeiros educadores dos filhos e primeiros evangelizadores ».

Este Conselho Pontifício constata, com profunda satisfação, que cresce a corrente que leva a um maior empenho e consciência da importância e dignidade do noivado. De forma semelhante exorta que a duração dos cursos específicos não seja de tal modo breve que se reduzam a uma simples formalidade. Deverá, pelo contrário, dar-se o tempo suficiente para uma boa e clara apresentação dos assuntos fundamentais acima indicados.3

O curso pode ser realizado nas paróquias se o número de noivos for suficiente e se houver colaboradores preparados, ou nas Vigararias episcopais ou Vigararias forâneas, formas ou estruturas de coordenação paroquial. Às vezes podem ser realizados por encarregados dos Movimentos familiares, Associações ou grupos apostólicos orientados por um sacerdote competente. É um campo que deveria ser coordenado pelo organismo diocesano, que opere em nome do Bispo. Os conteúdos, sem esquecer aspectos vários da psicologia, da medicina e de outras ciências humanas, devem ser centrados sobre a doutrina natural e cristã do matrimónio.

49. Nesta preparação, especialmente hoje, é necessário formar e fortalecer os nubentes nos valores que se referem à defesa da vida. De modo peculiar pelo facto de se tornarem igreja doméstica e « Santuário da vida » (EV 92-94) farão parte a novo título do « povo da vida e pela vida » (EV 6, 101). A mentalidade contraceptiva, que hoje impera em tantos lugares, e as legislações permissivas espalhadas, com tudo o que comportam de desprezo pela vida desde o momento da concepção até à morte, constituem um conjunto de ataques múltiplos a que a família está exposta, ferindo-a no mais íntimo da sua missão e impedindo o seu desenvolvimento segundo as exigências de um autêntico crescimento humano (cf. Centesimus Annus, 39). Portanto, hoje mais do que nunca, é necessária uma formação da mente e do coração dos componentes e novos lares domésticos para não se conformarem com as mentalidades dominantes. Poderão assim contribuir um dia, com a sua vida de novas famílias, para criar e desenvolver a cultura da vida, respeitando e acolhendo, no íntimo do seu amor, as novas vidas como testemunho e expressão do anúncio, celebração e serviço para com cada vida (cf. EV 83-84, 86, 93).

C. Preparação imediata

50. Onde tenha sido percorrido e assimilado um itinerário conveniente ou cursos específicos durante o período da preparação próxima (cf. n. 32 ss.), as finalidades da preparação imediata poderão consistir nas seguintes:

a) sintetizar o percurso do itinerário precedente, especialmente nos conteúdos doutrinais, morais e espirituais, preenchendo assim as eventuais carências da formação básica;

b) realizar experiências de oração (retiros espirituais, exercícios para nubentes) em que o encontro com o Senhor possa fazer descobrir a profundidade e a beleza da vida sobrenatural;

c) realizar uma conveniente preparação litúrgica que preveja mesmo a participação activa dos nubentes, com cuidado especial no sacramento da Reconciliação;

d) valorizar, por um conhecimento mais aprofundado de cada um, os colóquios canonicamente previstos com o pároco.

Estas finalidades serão conseguidas através de encontros especiais, de modo intensivo.

51. A utilidade pastoral e a experiência positiva dos cursos de preparação para o matrimónio leva a dispensar deles apenas por causas proporcionalmente graves. Por isso, onde, por tais causas se apresentem casais com a iminência urgente da celebração do matrimónio, sem a preparação próxima, o pároco e seus colaboradores terão o cuidado de lhes proporcionar algumas ocasiões para recuperar o conhecimento conveniente dos aspectos doutrinais, morais e sacramentais que foram expostos como próprios da preparação próxima e, por fim, inseri-los-ão na fase de preparação imediata.

Requere-se isto pela necessidade de personalizar em concreto os itinerários formativos, para aproveitar todas as ocasiões para aprofundar o sentido daquilo que se realiza no sacramento, sem afastar, por motivo da ausência de algumas etapas de preparação, aqueles que revelam uma adequada disposição em relação à fé e ao sacramento.

52. A preparação imediata para o sacramento do Matrimónio deve encontrar ocasiões convenientes para iniciar os noivos no rito matrimonial. Nesta preparação, além de se aprofundar a doutrina cristã sobre o matrimónio e a família, com particular referência aos deveres morais, os nubentes devem ser ajudados a tomar parte consciente e activa na celebração nupcial, entendendo também o significado dos gestos e dos textos litúrgicos.

53. Esta preparação para o sacramento do Matrimónio deveria ser o remate de uma catequese que ajude os noivos cristãos a percorrer de novo, conscientemente, o seu itinerário sacramental. É importante que eles saibam que se unem no matrimónio enquanto baptizados em Cristo, que na sua vida familiar se devem comportar em sintonia com o Espírito Santo. Convém, portanto, que os futuros esposos se disponham para a celebração do matrimónio para que ela seja válida, digna e frutuosa, recebendo o sacramento da Penitência (cf.Catecismo da Igreja Católica, n. 1622). A preparação litúrgica do sacramento do Matrimónio deve valorizar os elementos rituais actualmente disponíveis. Para que se veja uma relação clara entre o sacramento nupcial e o mistério pascal, a celebração do matrimónio é normalmente inserida na celebração eucarística.

54. Como a Igreja se torna visível na diocese e esta se articula nas paróquias, compreende-se como toda a preparação canónico-pastoral para o matrimónio seja do âmbito paroquial e diocesano. É, por isso, mais conforme com o significado eclesial do sacramento que o matrimónio seja celebrado, como norma (CIC can. 1115) na igreja da comunidade paroquial a que pertencem os noivos.

É bom que toda a comunidade paroquial tome parte nesta celebração, à volta das famílias e dos amigos dos nubentes. Nas várias dioceses tomem-se disposições sobre a matéria, tendo em conta as situações locais, mas também favorecendo decisivamente uma acção pastoral verdadeiramente eclesial.

55. Convidem-se aqueles que tomarão parte activa na acção litúrgica a dispor-se oportunamente também para o sacramento da Reconciliação e da Eucaristia. Explique-se às testemunhas que elas são garantes não só de um acto jurídico, mas também representantes da comunidade cristã, que participa por meio delas num acto sacramental que lhe diz respeito, visto que uma nova família é uma célula da Igreja. Pelo seu carácter essencialmente social, o matrimónio requer uma participação plena da sociedade e isto é expresso pela presença das testemunhas.

56. A família é o lugar mais apropriado em que os pais, em virtude do sacerdócio comum, podem realizar gestos sagrados e administrar alguns sacramentais, a juizo do Ordinário do lugar, como por exemplo, nas circunstâncias da Iniciação Cristã, nos acontecimentos alegres ou dolorosos da vida quotidiana, na Bênção da mesa. Um lugar peculiar é dado à oração em família. Ela deve criar um clima de fé no interior do lar e será um meio para viver, em relação aos filhos, uma paternidade-maternidade mais plena, educando-os na oração e introduzindo-os na descoberta progressiva do mistério de Deus e no colóquio pessoal com Ele. Lembrem-se os pais que, através da educação dos filhos, assumem a sua missão de anunciar o Evangelho da vida (cf. EV 92).

57. A preparação imediata é uma ocasião propícia para se iniciar uma pastoral matrimonial e familiar ininterrupta. Deste ponto de vista, é preciso procurar que os esposos conheçam a sua missão na Igreja. Nisto podem ser ajudados pela riqueza que oferecem os diversos movimentos familiares, a cultivar a espiritualidade conjugal e familiar e o modo de realizar a sua tarefa na família, na Igreja e na sociedade.

58. A preparação dos noivos seja acompanhada de sincera e profunda devoção a Maria, Mãe da Igreja, Rainha das famílias; os próprios noivos sejam preparados para saber compreender que a presença de Maria é tão activa na Grande Igreja como na família, Igreja Doméstica; sejam também levados a imitar Maria nas suas virtudes. Assim, a Sagrada Família, isto é, o lar de Maria, José e Jesus, fará descobrir aos noivos « como é doce e insubstituível a educação em família » (Paulo VI, Discurso em Nazaré, 5, I, 1964).

59. A indicação do que é proposto criativamente pelas várias comunidades para tornar mais profundas e adequadas também estas fases da preparação próxima e imediata, será um dom e um enriquecimento para toda a Igreja.

III

A CELEBRAÇÃO DO MATRIMÓNIO

60. A preparação para o matrimónio introduz na vida conjugal, através da celebração do sacramento. Ela é o cume do caminho de preparação percorrido pelos noivos e é fonte e origem da vida conjugal. Para isso, a celebração não pode ser reduzida a uma cerimónia, fruto da cultura e dos condicionamentos sociológicos. Todavia, louváveis costumes próprios dos diversos povos ou etnias podem ser assumidos na celebração (cf. Sacrosanctum Concilium, 77; FC 67), com a condição de que eles exprimam, antes de mais, o reunir-se da assembleia eclesial como sinal da fé da Igreja, que reconhece no sacramento a presença do Senhor Ressuscitado que une os esposos ao Amor Trinitário.

61. Compete aos Bispos, através das Comissões litúrgicas diocesanas, dar disposições precisas e vigiar sobre a actuação prática, para que na celebração do matrimónio se cumpra a indicação dada no artigo 32 da Constituição sobre a Liturgia, de modo que apareça, mesmo externamente, a igualdade dos fiéis e também seja evitada toda a aparência de luxo. Favoreça-se em tudo os modos de participação activa das pessoas presentes na celebração nupcial. Dêem-se subsídios idóneos para captar e saborear a riqueza do rito.

62. Lembrando-se de que onde dois ou três estão reunidos em nome de Cristo (cf. Mt 18, 20), Ele está aí presente, a celebração em estilo sóbrio (estilo que deve continuar também nos festejos) não só deve ser expressão da comunidade de fé, mas deve ser motivo de louvor ao Senhor. Celebrar o casamento no Senhor e diante da Igreja significa professar que o dom de graça dado aos cônjuges, da presença e do amor de Cristo e do Seu Espírito, exige uma resposta activa, com uma vida de culto em espírito e verdade, na família cristã, « Igreja doméstica ». Até para que a celebração seja compreendida não só como acto legal, mas também como momento de história da salvação nos cônjuges, e através do seu sacerdócio comum, para o bem da Igreja e da sociedade, será oportuno que todos os presentes sejam ajudados a participar activamente na própria celebração.

63. Será, por isso, preocupação de quem preside recorrer às possibilidades que o próprio ritual oferece, especialmente na sua segunda edição típica promulgada em 1991 pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, para pôr em evidência o papel dos ministros do sacramento do Matrimónio que, para os cristãos de Rito latino, são os próprios esposos, e o valor sacramental da celebração comunitária. Os esposos, com a fórmula da troca de consentimento, poderão sempre recordar o aspecto possoal, eclesial e social que dela derivam para toda a sua vida, como dom de um ao outro até à morte.4

O Rito oriental reserva para o sacerdote assistente o papel de ministro do matrimónio. Em qualquer caso, a presença do sacerdote ou do ministro para isso delegado é necessária, segundo a lei da Igreja, para a validade da união matrimonial, e manifesta claramente o sentido público e social da aliança esponsal tanto para a Igreja como para toda a sociedade.

64. Visto que o matrimónio, ordináriamente, se celebra durante a Missa (cf. Sacrosancto Concilium, 78; FC 57), quando se trate de um matrimónio entre parte católica e parte baptizada não católica, a celebração desenvolver-se-á segundo as especiais disposições litúrgico-canónicas (cf. OCM 79-117).

65. A celebração resultará mais activamente participada se se fizer uso de monições particulares que introduzem no sentido dos textos litúrgicos e no conteúdo das orações. A sobriedade das próprias monições deverá favorecer o recolhimento e a compreensão da importância da celebração (cf. OCM 52, 59, 65, 87, 93, 99), evitando que a celebração se torne um momento didáctico.

66. O celebrante que preside5 e que torna manifesto à assembleia o sentido eclesial daquele compromisso conjugal, procurará envolver activamente os nubentes, juntamente com os parentes e as testemunhas, na compreensão da estrutura do rito, especialmente daquelas partes que o caracterizam, como: a palavra de Deus, o consentimento dado e ratificado, a bênção dos sinais que recordam o matrimónio (aneis, etc.), a solene bênção dos esposos, a lembrança dos esposos no coração da Oração Eucarística. « As diversas Liturgias são ricas em orações de bênção e em epicleses que pedem a Deus a sua graça e a bênção do novo casal, especialmente da esposa » (Catecismo da Igreja Católica, n. 1624). Além disso será necessário explicar o gesto da imposição das mãos sobre os « sujeitos-ministros » do sacramento. Chamar-se-á a atenção de todos os presentes, a propósito, para o estar de pé, o gesto da paz ou outros ritos determinados pelas autoridades competentes, etc.

67. Quem preside, para chegar a um estilo celebrativo ao mesmo tempo sóbrio e nobre, deverá ser ajudado pela presença de ministrantes, de pessoas que animem e ajudem o canto da parte dos fiéis, orientem as respostas e façam a proclamação da Palavra de Deus. Com uma particular e concreta atenção aos nubentes e à sua situação, o celebrante, evitando de modo absoluto as preferências de pessoa, deverá, ele mesmo, interrogar-se sobre a verdade dos símbolos que a acção litúrgica usa. Assim, ao acolher e saudar os nubentes, os seus pais, se presentes, as testemunhas e a assembleia, será o intérprete vivo da comunidade que acolhe os nubentes.

68. A proclamação da Palavra de Deus seja feita por leitores idóneos e preparados. Podem mesmo ser escolhidos entre os presentes, especialmente entre as testemunhas, os familiares, os amigos, porém não parece oportuno que sejam os próprios nubentes: eles são de facto os primeiros destinatários da Palavra de Deus proclamada. Mas a escolha das leituras pode ser feita de acordo com os noivos, na fase da preparação imediata. Desse modo guardarão mais facilmente a Palavra de Deus para a traduzir na prática.

69. A homilia, que se deve sempre fazer, terá o seu centro na apresentação do « grande mistério » que se está a celebrar diante de Deus, da Igreja e da sociedade. « São Paulo sintetiza o tema da vida familiar com a palavra: “grande mistério” (cf. Ef 5, 32; Gratissimam Sane, 19). Partindo dos textos proclamados pela Palavra de Deus eou das orações litúrgicas, dever-se-á iluminar o sacramento e, portanto, ilustrar as suas consequências na vida dos esposos e nas famílias. Evitem-se referências supérfluas à pessoa dos esposos.

70. As ofertas podem ser levadas pelos próprios esposos ao altar, se o rito se desenrola com a celebração da Missa. Em qualquer caso, a oração dos fiéis, convenientemente preparada, não seja nem prolixa, nem pouco concreta. A Sagrada Comunhão, segundo a oportunidade pastoral, poderá fazer-se sob as duas espécies.

71. Cuidar-se-á de que os particulares da celebração matrimonial sejam caracterizados por um estilo de sobriedade, de simplicidade, de autenticidade. O tom de festa não deverá, de facto, ser prejudicado por excesso de pompa.

72. A bênção solene dos esposos vem recordar que, no sacramento do Matrimónio, é também invocado o dom do Espírito, por meio do qual os cônjuges se tornam mais constantes na mútuo concórdia e espiritualmente sustentados no cumprimento da sua missão e também nas dificuldades da vida futura. Será certamente conveniente, no quadro desta celebração, apresentar como modelo de vida para os esposos cristãos o modelo da Sagrada Família de Nazaré.

73. Enquanto que, pelo que se refere aos períodos de preparação remota, próxima e imediata é bom recolher as experiências em acto, a fim de se chegar a uma forte mudança de mentalidade e de práxis, sobre a celebração, o cuidado dos agentes de pastoral deverá ser posto em seguir e fazer compreender aquilo que já está fixado e estabelecido pelo ritual litúrgico. É óbvio que tal compreensão dependerá de todo o processo da preparação e do nível de maturidade cristã da comunidade.

* * *

Qualquer pessoa se pode dar conta que aqui estão propostos alguns elementos para uma preparação orgânica dos fiéis chamados ao sacramento do Matrimónio. É desejável que os jovens casais sejam oportunamente acompanhados, especialmente nos primeiros cinco anos de vida conjugal, por cursos pós-matrimoniais, que se desenvolvam nas paróquias ou vigararias forâneas, conforme o Directório para a Pastoral das Famílias ao qual nos referimos acima, nos números 14, 15, relacionando-se com a Exortação Apostólica Familiaris Consortio, 66.

O Conselho Pontifício para a Família confia às Conferências Episcopais as presentes linhas de orientação para os seus próprios directórios.

A solicitude das Conferências Episcopais e dos Bispos fará com que se tornem operativas nas comunidades eclesiais. Assim, cada fiel terá mais presente que o sacramento do Matrimónio,grande mistério (Ef 5, 21ss), é vocação para muitos no Povo de Deus.

Cidade do Vaticano, 13 de Maio de 1996.

Alfonso Card. López Trujillo
Presidente do Conselho Pontifício
para a Família

+ S.E.R. Mons. Francisco Gil Hellín
Secretário