Seguidores

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A sexualidade é uma bênção, uma dádiva de Deus, se for vista dentro do plano, do projecto do Senhor para as nossas vidas

 

"Assim é o sexo, assim é o matrimónio. Sendo obra de Deus, o sexo é por natureza bom, santo, sagrado. Não é uma coisa má, não é uma coisa vil e sórdida; torna-se mau e turvo somente quando é arrancado do marco divino da paternidade e da maternidade potenciais e do matrimónio. O poder de procriar e os órgãos genitais não trazem o estigma do mal; o mal provém da vontade pervertida, que os desvia dos seus fins, que os usa como mero instrumento de prazer e satisfação, como um bêbado que se empanturra de cerveja sorvendo-a de um cálice consagrado para o altar.

O exercício da faculdade de procriar pelos esposos (os únicos a quem cabe esse exercício) não é pecado, como também não o é procurar e gozar o prazer do abraço conjugal. Pelo contrário, Deus uniu um grande prazer físico a esse acto para garantir a perpetuação do género humano. Se não surgisse esse impulso de desejo físico nem houvesse a gratificação do prazer imediato, os esposos poderiam mostrar-se renitentes em usar essa faculdade dada por Deus diante a perspectiva de terem que enfrentar as cargas de uma possível paternidade. O mandamento divino “crescei e multiplicai-vos” poderia frustrar-se. Sendo um prazer dado por Deus, desfrutá-lo não é pecado para o esposo e a esposa, sempre que não se exclua dele, voluntariamente, o fim divino.

Uma responsabilidade peculiar que incumbe aos pais é a de aceitarem com generosidade os frutos da sua união, os filhos. O Catecismo observa que “por justas razões, os esposos podem querer espaçar o nascimento dos seus filhos. Cabe à sua consciência verificar se tal desejo não procede do egoísmo, antes é conforme à justa generosidade de uma paternidade responsável. Além disso, regularão o seu comportamento segundo os critérios objectivos da moralidade.[Motivos verdadeiramente graves, claro. Só esses são aceites pela Santa Igreja para limitar o número de filhos]

“A continência periódica, os métodos de regulação dos nascimentos fundados na auto-observação e o recurso aos períodos infecundos são conformes aos critérios objectivos da moralidade. Estes métodos respeitam o corpo dos esposos, estimulam a ternura entre eles, e favorecem a educação de uma liberdade autêntica. Em contrapartida, é intrinsecamente má «qualquer acção que, quer em previsão do ato conjugal, quer durante a sua realização, quer no desenrolar das suas consequências naturais, se proponha como fim ou como meio tornar impossível a procriação» (HV14)” (ns. 2368 e 2370). O uso de qualquer meio anticoncepcional, como a pílula, o DIU ou os preservativos, mesmo entre casados, constitui pecado grave, porque desvincula o sexo de um dos seus aspectos centrais, a possibilidade de gerar filhos. Em muitos casos, além disso, esses meios podem ser abortivos, o que faz as pessoas que lançam mão deles incorrer também numa infracção do quinto mandamento.

Para muita gente – e nalgumas ocasiões para a maioria -, esse prazer dado por Deus pode, porém, converter-se em pedra de tropeço. Por causa do pecado original, o controle perfeito que a razão deveria exercer sobre o corpo e os seus desejos, está gravemente debilitado. Sob o impulso veemente da carne rebelde, surge uma ânsia de prazer sexual que prescinde dos fins de Deus e das coordenadas que Ele estabeleceu (dentro do matrimónio cristão) para o acto sexual. Noutras palavras, somos tentados contra a virtude da castidade.

Esta é a virtude que Deus nos pede no sexto e no nono mandamentos: “Não cometerás adultério” e “não desejarás a mulher do teu próximo”. Rememoremos que a “lista dos mandamentos” nos foi dada como ajuda para a memória: uns comportamentos pelos quais distribuir os diferentes deveres para com Deus. Cada mandamento menciona especificamente apenas um dos pecados mais graves contra a virtude a praticar (“não matarás”, “não furtarás”), e sob esse encabeçamento são agrupados todos os pecados e todos os deveres de natureza semelhante. Assim, é pecado não só matar, como também travar um duelo ou odiar; é pecado não só furtar, como também danificar a propriedade alheia ou cometer fraude.

Do mesmo modo, é pecado não só cometer fornicação – a relação carnal entre duas pessoas solteiras -, como também praticar qualquer acção deliberada, como tocar-se a si mesmo ou tocar outra pessoa, com o propósito de despertar o apetite sexual fora da relação conjugal. É pecado não só desejar a mulher do próximo, como alimentar pensamentos ou desejos desonestos em relação a qualquer pessoa.

Inclui-se aqui a questão bastante actual da moralidade das relações homossexuais. O Catecismo esclarece: “A homossexualidade designa as relações entre homens e mulheres, que experimentam uma atracção sexual exclusiva ou predominantemente para com pessoas do mesmo sexo. Reveste formas muito variáveis, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua em grande parte por explicar. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a Tradição sempre declarou que «os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados» (CDF, decl. Persona humana, 8). São contrários à lei natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem de uma complementaridade afectiva sexual, não podem, em caso algum, receber aprovação” (n. 2357).

A castidade – ou pureza – é definida como a virtude moral que regula rectamente toda a expressão voluntária de prazer sexual dentro do casamento e a exclui totalmente fora do estado matrimonial. Os pecados contra esta virtude diferem dos que atentam contra a maioria das demais virtudes num ponto muito importante: os pensamentos, palavras e acções contra a virtude da castidade, se forem plenamente deliberados, são sempre pecado mortal. Uma pessoa pode violar outras virtudes, mesmo deliberadamente, e, no entanto, pecar venialmente, se se trata de matéria leve. Uma pessoa pode ser ligeiramente intemperante, insincera ou desonesta. Mas ninguém pode cometer um pecado leve contra a castidade se violar a virtude da pureza com pleno consentimento. Tanto nos pensamentos como nas palavras ou acções, não há “matéria leve”; não há matéria irrelevante quanto a esta virtude.

A razão é muito clara. O poder de procriar é o mais sagrado dos dons físicos do homem, o que mais directamente se liga a Deus. Este carácter sagrado faz com que a sua transgressão tenha maior malícia. Se a isso acrescentamos que o acto sexual é fonte da vida humana, compreendemos que, se se envenena a fonte, envenena-se a humanidade. Este é o motivo por que Deus rodeou o acto sexual de uma muralha alta e sólida, com cartazes bem visíveis para todos: Proibida a passagem! Deus empenha-se em que o seu plano para a criação de novas vidas humanas não lhe seja tirado das mãos e se desagrade ao nível de instrumento de prazer e de excitação perversos. A única ocasião em que um pecado contra a castidade pode ser venial é quando falta plena deliberação ou pleno consentimento."

(Leo J. TRESE, "A Fé Explicada", Cap. XIX, p. 234-237)

Publicado originalmente em A Dignidade da Mulher Católica

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O Valor Divino do Matrimônio

 

No meio do júbilo da festa, em Caná, apenas Maria repara na falta de vinho... Até aos menores detalhes de serviço chega a alma se, como Ela, vive apaixonadamente pendente do próximo por Deus. (Sulco, 631)

O amor puro e limpo dos esposos é uma realidade santa que eu, como sacerdote, abençôo com as duas mãos. Na presença de Jesus Cristo nas bodas de Caná, a tradição cristã tem visto freqüentemente uma confirmação do valor divino do matrimônio: Nosso Salvador foi às bodas - escreve São Cirilo de Alexandria - para santificar o princípio da geração humana. 
O matrimônio é um sacramento que faz de dois corpos uma só carne; como diz com expressão forte a teologia, sua matéria são os próprios corpos dos nubentes. O Senhor santifica e abençoa o amor do marido pela mulher e o da mulher pelo marido: estabelece não somente a fusão de suas almas, mas também a de seus corpos. Seja ou não chamado à vida matrimonial, nenhum cristão pode desprezá-la. 
O Criador deu-nos a inteligência, que é como uma centelha do entendimento divino, e que nos permite - mediante a vontade livre, outro dom de Deus - conhecer e amar; e deu ao nosso corpo a possibilidade de gerar, que é como uma participação do seu poder criador. Deus quis servir-se do amor conjugal para trazer novas criaturas ao mundo e aumentar o corpo da sua Igreja. O sexo não é uma realidade vergonhosa, mas uma dádiva divina que se orienta limpamente para a vida, para o amor e para a fecundidade. (É Cristo que passa, 24)

Opus Dei

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

“A vida matrimonial, um caminhar divino sobre a terra”

 

Olha quantos motivos para venerar São José e para aprender da sua vida: foi um varão forte na fé...; levou adiante a sua família - Jesus e Maria -, com o seu trabalho esforçado...; velou pela pureza da Virgem, que era a sua Esposa...; e respeitou - amou! - a liberdade de Deus, que fez a escolha, não só da Virgem como Mãe, mas também dele como Esposo de Santa Maria. (Forja, 552)

Ao pensar nos lares cristãos, gosto de imaginá-los luminosos e alegres, como foi o da Sagrada Família. A mensagem do Natal ressoa com toda a força: Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens de boa vontade. Que a paz de Cristo triunfe em vossos corações, escreve o Apóstolo. A paz de nos sabermos amados por nosso Pai-Deus, incorporados em Cristo, protegidos pela Virgem Santa Maria, amparados por José. Essa é a grande luz que ilumina nossas vidas e que, por entre as dificuldades e misérias pessoais, nos impele a continuar para a frente, cheios de ânimo. Cada lar cristão deveria ser um remanso de serenidade em que, por cima das pequenas contrariedades diárias, se pudesse notar uma afeição profunda e sincera, uma tranqüilidade profunda, fruto de uma fé real e vivida.

Para um cristão, o matrimônio não é uma simples instituição social, e menos ainda um remédio para as fraquezas humanas: é uma autêntica vocação sobrenatural. Sacramento grande em Cristo e na Igreja, diz São Paulo , e, ao mesmo tempo e inseparavelmente, contrato que um homem e uma mulher estabelecem para sempre, porque - queiramos ou não - o matrimônio instituído por Jesus Cristo é indissolúvel: sinal sagrado que santifica, ação de Jesus que se apossa da alma dos que se casam e os convida a segui-Lo, transformando toda a vida matrimonial em um caminhar divino sobre a terra. 
(É Cristo que passa, 22-23)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sombras e Luzes no Casamento.

Por Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina

O relacionamento conjugal e familiar não deve ser o de senhor-escravo, mas de parceiros, companheiros, confidentes.

1. A raiva. É um sentimento destrutivo da pessoa raivosa e da convivência familiar. Destrói a paz e leva ao fracasso do casamento. A raiva acumulada se manifesta em explosões, descontroles, intolerâncias. Quem é escravo da raiva comete graves injustiças. A raiz de muitas doenças está na raiva. Precisamos trabalhar a raiva pela compreensão e compaixão, promovendo o bem-estar do outro. É infantilismo ficar com raiva por qualquer coisa. Examinemos nosso passado e descobriremos as causas da raiva. Vencemos a raiva com o perdão, a reflexão, a humildade, melhor ainda, despistando as ocasiões de brigas. Paciência, tolerância muito ajudam na aceitação do outro.

2. O medo. Onde há medo não há amor. Medo é sinal de submissão, servilismo, desigualdade. Não podemos ser escravos uns dos outros, mas amigos, aliados e irmãos. O medo produz fantasias, fantasmas e enganos. O relacionamento conjugal e familiar não deve ser o de senhor-escravo, mas de parceiros, companheiros, confidentes. Há diferença entre autoridade e poder. O medo leva a controlar o outro e adeus liberdade e confiança.

3. O egoísmo. É um cancro familiar. Casamento é entre-ajuda, partilha, serviço, satisfação pelo bem estar do outro. O casamento é o “reino de nos e do nosso”. O egoísmo é infantilismo e recalque que leva a manipular os outros, a gritar, agredir, fechar-se, isolar-se, vingar-se. Vive-se acusando o outro e na autodefesa. Explosões, criticas, lágrimas, agressões, indiferença são manifestações do egoísmo. O centro da vida familiar é o outro, seu crescimento, sua realização, sua felicidade.

4. A traição. Graves doenças, inclusive o câncer se originam de golpes, frustrações e fracassos provenientes da traição. A infidelidade abre a ferida da rejeição e da perda. É uma morte emocional. Sofrem todos mas especialmente os filhos. A traição é uma grave injustiça contra si mesmo, contra o cônjuge, contra os filhos e contra Deus. É preciso refazer e reorganizar o casamento. Perdão e diálogo fazem milagres.

5. A auto-rejeição. Vem da baixa estima e da não aceitação de si. Quem não se valoriza e não ama a si mesmo, dificilmente aceita ser amado. Não podemos ter olhar de urubu, mas de garimpeiros que na lama encontram o ouro. Nossas fraquezas são também nossas chances de crescimento. Aceitar-se, descobrir as próprias qualidades e dons, aceitar e crer que somos amados pelas pessoas e por Deus, é o caminho da libertação.

6. A autopiedade. É o vitimismo. Eu sou o patinho feio, ninguém cuida de mim. Do complexo de vitima emerge a culpabilização dos outros e autodefesa. Onde há vítima há perseguidor e necessidade de um salvador. Eu não preciso mudar. Eis a pior das cegueiras. Falta o discernimento, a autocritica e a avaliação racional. O vitimismo é chão para proliferação de doenças cujo objetivo é chamar atenção. Quem se preocupa menos consigo, sofre menos. Os sofrimentos, as cruzes levam à mudança e amadurecimento. Quando saímos de nós mesmos, colocamos os outros no centro, nos libertamos. A compaixão pelos outros, o interesse pelo bem dos outros cura-nos do vitimismo.

7. As humilhações. Zombar do outro, falar mal do cônjuge diante de visitas e de familiares, chamar a atenção em público, gritar palavrões, exaltar erros e calar qualidades, criticar sempre e nunca elogiar, são algumas humilhações de nosso cotidiano. É preciso reagir. O outro é alguém com valores, qualidades e dignidade. Elogiar e agradecer é um ato de justiça e de humanismo. Promover o outro e ajudá-lo a crescer é uma obrigação de quem se casou. Na cerimônia do matrimônio prometemos respeitar o outro todos os dias da vida. Só os amados mudam. É preciso casar-se com os defeitos do outro para juntos encontrar os remédios e soluções. Casamento é escola de amadurecimento e de crescimento. No lugar de humilhações, haja elogios.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Quando não dá certo, será que foi Deus que uniu mesmo ?

 

Pergunta Tenho um cunhado que foi casado no religioso e no civil. A esposa do matrimônio que a Igreja preserva traiu-o com outro homem, na sua própria casa. Como fica o sacramento matrimonial para a Igreja Católica Apostólica Romana? E o marido, pelas normas da Igreja, deve perdoar uma mulher adúltera só porque a Igreja fala que não pode dissolver um sacramento? “O que Deus uniu, não separe o homem!”. Será que foi Deus que uniu mesmo? Na própria Igreja existem tantos falsos profetas!


Resposta de Monsenhor José Luiz (foto)— A consulente tem provavelmente em vista o episódio em que Nosso Senhor perdoou a mulher adúltera, que os fariseus conduziram a Ele com uma pergunta análoga.


“Então os escribas e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; puseram-na no meio, e disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adultério. Ora, Moisés na Lei mandou-nos apedrejar tais pessoas. Que dizes tu, pois? E diziam isto para o tentarem, a fim de o poderem acusar. Porém Jesus, inclinando-se, pôs-se a escrever com o dedo na terra. Continuando, porém, eles a interrogá-lo, levantou-se e disse-lhes: O que de vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire a pedra. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Mas eles, ouvindo isto, foram-se retirando, um após outro, começando pelos mais velhos; e ficou só Jesus com a mulher, que estava no meio. Então Jesus, levantando-se, disse-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou? Ela respondeu: Ninguém, Senhor. Então disse Jesus: Nem eu te condenarei; vai, e não peques mais” (Jo 8,3-11).

O adultério é, portanto, um pecado grave, punido na Lei antiga com a lapidação (apedrejamento). Mas Jesus vinha temperar com uma dose de misericórdia a estrita e farisaica justiça das penas da Lei, que destarte não passariam a vigorar na Igreja que Ele vinha fundar. Tal se manifesta de modo muito claro no sacramento da penitência ou confissão, que perdoa, em nome e pelo poder de Deus, os pecadores verdadeiramente arrependidos de seus pecados, e que fazem o firme propósito de não mais pecar.

Porém, esta idéia de justiça temperada pela misericórdia estava completamente fora da cogitação dos adversários de Jesus. Portanto, se Ele simplesmente lhes respondesse que a mulher apanhada em flagrante adultério poderia ser perdoada (nas condições que Ele iria estabelecer), os fariseus o denunciariam perante o povo como opositor à Lei de Moisés, e assim incitariam o povo contra Ele. Se, porém, Jesus dissesse que a apedrejassem conforme a Lei em vigor, como ficaria a mansidão tão característica de sua pregação?

Essa era a estratégia habitual dos fariseus para tentarem colocar Jesus em contradição consigo mesmo ou com a Lei de Moisés. Dessa armadilha Jesus se sai divinamente, dizendo-lhes: “Quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”. E com o dedo recomeça a escrever algo na terra.

Os evangelistas não nos dizem o que Jesus escrevia. Alguns intérpretes da Sagrada Escritura — entre eles São Jerônimo, “rei dos exegetas” — levantam a hipótese de que escrevesse os nomes dos seus acusadores ali presentes e os respectivos pecados. Ou, quiçá, os nomes das mulheres infames com as quais cada um deles havia cometido o pecado de adultério. Isso explicaria que, começando pelos mais velhos, fossem se retirando um a um, sem dizer palavra. Nenhum estava, pois, sem pecado, e não ousaram atirar a primeira pedra...

Mas o perdão que Jesus concede à mulher adúltera não é incondicional: “Eu também não te condenarei: vai, e não peques mais”. Supunha, portanto, o arrependimento e o firme propósito de emenda.

Normas da Igreja Católica Apostólica Romana

Esponsórios de Nossa Senhora e São José. -foto

Exemplo de fidelidade e dedicação para todos os católicos

Quando a consulente afirma que, segundo as normas da Igreja, o marido traído deve perdoar a mulher que o traiu, está simplesmente mal informada. A solução proposta pela Igreja é muito mais matizada. O cânon 1152 do Código de Direito Canônico coloca todas as condições que resultam da situação criada pelo cônjuge infiel. Comecemos por citá-lo:

“§ 1. Embora se recomende vivamente que o cônjuge, movido pela caridade cristã e pela solicitude do bem da família, não negue o perdão ao cônjuge adúltero e não interrompa a vida conjugal; no entanto, se não tiver expressa ou tacitamente perdoado sua culpa, tem o direito de dissolver a convivência conjugal, a não ser que tenha consentido no adultério, lhe tenha dado causa ou tenha também cometido adultério.

§ 2. Existe perdão tácito se o cônjuge inocente, depois de tomar conhecimento do adultério, continuou espontaneamente a viver com o outro cônjuge com afeto marital; presume-se o perdão, se tiver continuado a convivência por seis meses, sem interpor recurso à autoridade eclesiástica ou civil.

§ 3. Se o cônjuge inocente tiver espontaneamente desfeito a convivência conjugal, no prazo de seis meses proponha a causa de separação à competente autoridade eclesiástica, a qual, ponderadas todas as circunstâncias, veja se é possível levar o cônjuge inocente a perdoar a culpa e a não prolongar para sempre a separação” (destaques em negrito nossos).

Como se vê, o atual Código de Direito Canônico “recomenda vivamente” que o cônjuge inocente “não negue o perdão”, o que é muito diferente de obrigá-lo a conceder o perdão. Ele pode fazê-lo, “movido pela caridade cristã e pela solicitude do bem da família”, e também conserva “o direito de dissolver a convivência conjugal”, mas jamais o Sacramento validamente administrado.

Ouvida a autoridade eclesiástica e “ponderadas todas as circunstâncias”, cabe-lhe tomar a decisão mais conveniente para si e para os filhos. O perdão, em tese preferível, nem sempre será possível havendo contumácia da parte culpada.

A concepção hollywoodiana da vida

Vê-se que, por trás da pergunta, está uma insinuação falsa de que o problema causado pelo adultério só pode ser resolvido com a dissolução do vínculo conjugal, isto é, pela introdução do divórcio puro e simples.

Pois, se o cônjuge culpado já arranjou um parceiro circunstancial ou definitivo com quem possa conviver, não é justo — segundo esse raciocínio — que o cônjuge inocente passe o resto da vida sozinho, e nessas condições o divórcio seria a solução.

É o que está no fundo da pergunta apresentada pela consulente, daí a sua rejeição da norma “Não separe o homem o que Deus uniu”. E supõe que essa norma foi estabelecida por algum de “tantos falsos profetas” que “existem na Igreja”. Acontece que essa frase é do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, como está registrado no Evangelho de São Mateus:

“E foram ter com Ele os fariseus para o tentar, e disseram-lhe: É lícito a um homem repudiar sua mulher por qualquer motivo? Ele, respondendo, disse-lhes: Não lestes que quem criou o homem, no princípio criou um homem e uma mulher, e disse: Por isso deixará o homem pai e mãe, e juntar-se-á com sua mulher, e os dois serão uma só carne? Por isso não mais são dois, mas uma só carne. Portanto não separe o homem o que Deus juntou” (cap. 19,3-6; cfr. também São Marcos, cap. 10,2-12).

Daí exatamente a gravidade do pecado de adultério, que constitui um atentado direto contra o cônjuge inocente, equivalente a negá-lo como cônjuge. Daí também que não basta um choramingo qualquer do cônjuge culpado para que ele obtenha o perdão do cônjuge inocente. De outro modo, a própria existência do matrimônio carece de qualquer seriedade. Donde, enfim, que a solicitude pelo bem dos filhos é o fator que, na prática, pesa mais para que o cônjuge inocente resolva manter a convivência conjugal.

No fim das contas, trata-se para ele de adotar generosamente uma atitude heróica, que os filmes de Hollywood, inculcando persistentemente a idéia de um happy end na vida de todos os homens, contribuíram enormemente por desencorajar.

O happy end para um católico consiste em alcançar o Céu, pela conformação de nossa vida aos Mandamentos da Lei de Deus e da Igreja. A outra via — a via da moleza e da satisfação de nossas paixões — conduz para um outro lugar, tenebroso, onde haverá choro e ranger de dentes. Um verdadeiro unhappy end...

Que a Santíssima Virgem, que esmagou a cabeça da serpente desde o princípio, nos obtenha de Deus as graças necessárias para encarar com coragem a atitude heróica que as vicissitudes da vida eventualmente nos obriguem a assumir. Inclusive, se for o caso, o heroísmo da solidão a que nos atire uma infame traição conjugal.

Nossa Senhora será então o caminho que nos conduzirá à plena felicidade do Céu, e, já na Terra, à indizível felicidade de ser “amigo da Cruz”.

Fonte: Catolicismo

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

São Paulo e o Matrimônio

 

Amor e respeito. Isto é o que pedia S. Paulo aos esposos. A teóloga Carla Rossi explica os ensinamentos do apóstolo sobre o matrimônio.

Fonte: Site do Opus Dei.

 

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

"O amor bendito do matrimônio"

 

‘Abençoo o matrimónio com as minhas duas mãos de sacerdote’, dizia São Josemaria. Recomendava aos cônjuges discutir pouco e terminar sempre com o perdão e um abraço (02’32’’).

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Corrigindo as Prioridades

 

Por Luiz Lemos – Fonte : Seguidores do Caminho

Nota: Deve ser lido considerando-se tratar de site protestante.

Alguma vez você já desejou que seu dia tivesse trinta horas, ao invés de vinte e quarto? Eu já! Essas horas extras seriam para aliviar a imensa pressão que pesa sobre nossos ombros, não é?

É comum deixarmos atrás de nós um rastro de tarefas inacabadas:

- Cartas não respondidas

- Discípulos e amigos não visitados

- Artigos não escritos

- Leitura da Bíblia atrasada

- Livros não lidos

- Telefonemas não dados

Além de tarefas normais que uma família enfrenta no dia a dia como crianças para a escola, alimentação e à noite separar um tempo de qualidade como casais.

- momentos não aproveitados para avaliar a vida, decisões que precisamos tomar, etc.

Precisamos desesperadamente atenuar essa pressão que sempre paira sobre nós.

Será que trinta horas resolveriam o nosso problema? Será que não ficaríamos frustrados, da mesma forma, preenchendo essas seis horas a mais e caído na mesma armadilha?

Quando os filhos requerem mais do nosso tempo; quando o trabalho acarreta maior responsabilidade, etc., passamos a nos esforçar mais sem termos tanta alegria em cumprir nossos compromissos.

Meditando sobre a vida e ministério de Jesus, concluímos que Ele não se apressava. Multidões O incomodavam, estranhos disputavam para tocar em Suas vestes. Pessoas com grandes necessidades perturbavam Seu sono e interrompiam Seu ensino.

Em apenas um dia, Jesus encorajou discípulos, curou doentes, ensinou multidões, alimentou cinco mil pessoas e ajudou um amigo que enfrentou uma tempestade no mar. Tudo isso e Ele ainda reservou um tempo para estar a sós com Deus (Jo.6:1-24)

Ao final de três anos de ministério, Ele pode dizer ao Seu Pai que o trabalho para o qual fora enviado estava terminado.

“Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer”. (Jo.17:4)

Mas como? Ainda havia muitos doentes, endemoninhados, gente com fome e lugares para proclamar. Como Ele podia dizer que a obra estava terminada? Vejamos:

1-) DEPENDÊNCIA – (Jo.8:28)

Jesus disse: “... nada faço por mim mesmo; mas falo como o Pai me ensinou”. Jesus andou em perfeita harmonia, e em total dependência do Pai.

2-) OBEDIÊNCIA – (Jo.15:9,10)

“Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permaneceis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço”.

Jesus alinhou a Sua vida com a do Pai e obedeceu a Palavra, o que Lhe trouxe total realização.

3-) PROPÓSITO – (Jo.8:14)

“...porque sei donde vim e para onde vou”.

Toda ação de Cristo foi baseada no Seu Propósito. Ele não discutiu se tinha tempo ou não para aceitar as Suas atividades. Sua atitude foi deliberada: “Por essa causa Eu vim!”.

É obvio que Jesus conhecia Suas prioridades e as colocava em ordem correta.

QUANDO NOS DETEMOS PARA AVALIAR FRIAMENTE, COMPREENDEMOS QUE O NOSSO PROBLEMA REAL NÃO É A ESCASSEZ DE TEMPO, MAS SIM PRIORIDADES ERRADAS.

Somos envolvidos pela tirania do urgente. O urgente luta pela atenção. Grita, berra como qualquer criança mimada que, atirando-se ao chão, esperneia quando seus desejos não são satisfeitos.

O urgente ataca o lar e seus relacionamentos. Se pararmos para analisar a questão concluiremos que nossos relacionamentos familiares não estão como poderiam e deveriam ser, isso sem mencionar nossas vidas pessoais.

Trabalhamos cada vez mais, para alcançarmos cada vez menos significado no que fazemos. Nossos relacionamentos com nossos cônjuges e filhos diminuem assustadoramente em qualidade e quantidade.

PRECISAMOS, DESESPERADAMENTE, ENTENDER QUAIS SÃO AS PRIORIDADES DE DEUS PARA NÓS E PARA NOSSAS FAMÍLIAS, VAMOS DAR UMA OLHADA NELAS:

1-) PESSOAS ANTES DAS COISAS

A história do casal que foi crescendo e prosperando financeiramente, tinham tudo na área material, o marido cada vez trabalhando cada vez mais, até que a esposa abriu o coração e disse: Acho que você não me ama mais. Mas como, responde o marido assustado: Mas eu tenho te dado todo conforto material e financeiro, como pode isso? Ela responde:

- Querido, eu não quero coisas que você me dá. Quero você!

Nossa prioridade é, primeiramente, darmos a nós mesmos e então, as coisas materiais, seja para o nosso cônjuge, filhos ou pais.

2-) LAR ANTES DA PROFISSÃO

Sei que para alguns acabo de tocar em uma questão difícil, especialmente para o homem ou mulher que anseia realizar-se profissional e ou ministerialmente. Muitas pessoas casam com a profissão, esquecem suas famílias e acabam cometendo um certo tipo de adultério.

3-) CÔNJUGE ANTES DOS FILHOS

Conheço pais que devotam tanto aos filhos, que colocam seus cônjuges em segundo plano. O elo principal em família não é entre pais e filhos, mas sim, entre marido e mulher.

Esta verdade encontra ilustração na vida de muitos casais que se dedicaram tanto aos filhos, que quando eles casaram e saíram de casa, esses casais não suportaram a vida a dois e se separaram. Eles não souberam viver entre si.

4-) FILHOS ANTES DOS AMIGOS

Pai, talvez seja necessário que você abra mão do seu compromisso de sábado à tarde com os amigos, do jogo de futebol com a turma do escritório, ou da visita já marcada, para ir passear com seus filhos, assistir o jogo da escola, fazer compras com sua filha ou pescar com seu filho. Tal atitude, sem sombra de dúvida, mostrará a eles quanto você os considera importantes.

5-) CÔNJUGE ANTES DE SI MESMO

Esta é realmente a essência, do ponto de vista bíblico, no que diz respeito ao casamento. O amor ágape é outro-centralizado e nãoautocentralizado. Mesmo no tocante à relação sexual, Paulo diz em I Co. 7:3-5, que não há lugar para egoísmo nesse tão importante, sublime e íntimo relacionamento. Em nossa sociedade voltada para o egocentrismo, os casais cristãos precisam conscientizar-se de que o amor ágape é o único que pode fazer um casamento realmente bem sucedido.

6-) ESPÍRITO ANTES DA MATÉRIA

Em II Co. 4:18, Paulo diz: “Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que não se vêem: porque as que se vêem são temporais, e as que não se vêem são eternas”. Mesmo sinceros e bem intencionados, somos impelidos pelos clamores do que há por fazer e confundimos o material com aquilo que é essencialmente do espírito. As coisas eternas são invisíveis. A alma, o galardão celestial, a fé, a esperança e o amor não podem ser vistos, mas são os mais importantes elementos do tempo e da eternidade.

Se continuarmos a nos submeter ao urgente, abraçando um estilo de vida cada vez mais intenso, devemos, enquanto é tempo:

- Parar e avaliar: será que temos colocado pratos demais para girar nas varas?

- Pedir a Deus que nos mostre Suas prioridades para nossas vidas.

- Estar abertos à mudanças drásticas.

Que Deus nos ajude a caminhar rumo à disciplina de uma vida pessoal com Ele, aproveitando o tempo que temos em nossas mãos.

C.S. Lewis citou a seguinte frase: “Ame a Deus de todo seu coração e faça aquilo que quiser!”

Se amarmos o Senhor nosso Deus de todo coração, teremos as perspectivas corretas para tomarmos as decisões em nossas próprias vidas, e sermos bons mordomos do tempo precioso, que passa tão depressa por nossas mãos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Castidade no Matrimônio

 

Essa autenticidade do amor requer fidelidade e retidão em todas as relações matrimoniais. Comenta São Tomás de Aquino que Deus uniu às diversas funções da vida humana um prazer, uma satisfação; esse prazer e essa satisfação são, portanto, bons. Mas se o homem, invertendo a ordem das coisas, procura essa emoção como valor último, desprezando o bem e o fim a que deve estar ligada e ordenada, perverte-a e desnaturaliza-a, convertendo-a em pecado ou em ocasião de pecado.

A castidade – que não é simples continência, mas afirmação decidida de uma vontade enamorada – é uma virtude que mantém a juventude do amor, em qualquer estado de vida. Existe uma castidade dos que sentem despertar em si o desenvolvimento da puberdade, uma castidade dos que se preparam para o casamento, uma castidade daqueles a quem Deus chama ao celibato, uma castidade dos que foram escolhidos por Deus para viverem no matrimônio.

Como não recordar aqui as palavras fortes e claras com que a Vulgata nos transmite a recomendação do Arcanjo Rafael a Tobias, antes de este desposar Sara? O anjo admoestou-o assim: Escuta-me e eu te mostrarei quem são aqueles contra os quais o demônio pode prevalecer. São os que abraçam o matrimônio de tal modo que excluem Deus de si e de sua mente, e se deixam arrastar pela paixão como o cavalo e o mulo, que estão desprovidos de entendimento. Sobre esses o diabo tem poder.

Não há amor humano puro, franco e alegre no matrimônio se não se vive a virtude da castidade, que respeita o mistério da sexualidade e o faz convergir para a fecundidade e a entrega. Nunca falei de impureza e sempre evitei descer a casuísticas mórbidas e sem sentido, mas, de castidade e de pureza, da afirmação jubilosa do amor, sim, falei muitíssimas vezes e devo falar.

A respeito da castidade conjugal, assevero aos esposos que não devem ter medo de expressar o seu carinho, antes pelo contrário, pois essa inclinação é a base da sua vida familiar. O que o Senhor lhes pede é que se respeitem e que sejam mutuamente leais, que se confortem com delicadeza, com naturalidade, com modéstia. Dir-lhes-ei também que as relações conjugais são dignas quando são prova de verdadeiro amor e, portanto, estão abertas à fecundidade, aos filhos.

Cegar as fontes da vida é um crime contra os dons que Deus concedeu à humanidade e uma manifestação de que a conduta se inspira no egoísmo, não no amor. Então tudo se turva, os cônjuges chegam a olhar-se como cúmplices; e produzem-se dissensões que, a continuar nessa linha, são quase sempre insanáveis.

Quando a castidade conjugal acompanha o amor, a vida matrimonial torna-se expressão de uma conduta autêntica, marido e mulher compreendem-se e sentem-se unidos; quando o bem divino da sexualidade se perverte, a intimidade se destrói, e marido e mulher já não se podem olhar nobremente nos olhos.

Os esposos devem edificar a sua vida em comum sobre um carinho sincero e limpo, e sobre a alegria de terem trazido ao mundo os filhos que Deus lhes tenha conferido a possibilidade de ter, sabendo renunciar a comodidades pessoais e tendo fé na Providência. Formar uma família numerosa, se tal for a vontade de Deus, é penhor de felicidade e eficácia, embora afirmem outra coisa os fautores de um triste hedonismo.

É Cristo que passa > O matrimônio, vocação cristã > Ponto 25 (São Josemaria Escrivá)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Top 10: Mentiras mais contadas por Homens e Mulheres …

Fonte: Desculpe a Poeira

Homens

1. Não há nada errado, eu estou bem!
2. Esta vai ser minha última bebida.
3. Não, sua bunda não parece grande com essa roupa.
4. Eu estava sem sinal.
5. Eu estava sem bateria.
6. Desculpe, eu nao vi sua ligação.
7. Eu nem bebi tanto assim.
8. Eu estou a caminho/Eu estou chegando.
9. Nao foi tão caro assim.
10. Eu estou preso no trânsito

Mulheres

1. Não há nada errado, eu estou bem!
2. Ah! Não é novo, eu já tenho faz tempo.
3. Não foi tão caro assim.
4. Estava em promoção.
5. Eu estou a caminho/Eu estou chegando
6. Eu não sei onde está, eu nem toquei nisso.
7. Eu nem bebi tanto assim.
8. Eu estou com dor de cabeça.
9. Não, eu não joguei fora.
10. Desculpe, eu não vi sua ligação.

A Maturidade Afetiva

 

Por Rafael Llano Cifuentes

No nosso mundo altamente técnico e cheio de avanços científicos, pouco se tem progredido no conhecimento das profundezas do coração. “Vivemos hoje o drama de um desnível gritante entre o fabuloso progresso técnico e científico e a imaturidade quase infantil no que diz respeito aos sentimentos humanos”

A afetividade não está por assim dizer encerrada no coração, nos sentimentos, mas permeia toda a personalidade.

Estamos continuamente sentindo aquilo que pensamos e fazemos. Por isso, qualquer distúrbio da vida afetiva acaba por impedir ou pelo menos entravar o amadurecimento da personalidade como um todo.

Observamos isto claramente no fenômeno de “fixação na adolescência” ou na “adolescência retardada“. Como já anotamos, o adolescente caracteriza-se por uma afetividade egocêntrica e instável; essa característica, quando não superada na natural evolução da personalidade, pode sofrer uma “fixação“, permanecendo no adulto: este é um dos sintomas da imaturidade afetiva.

É significativo verificar como essa imaturidade parece ser uma característica da atual geração. No nosso mundo altamente técnico e cheio de avanços científicos, pouco se tem progredido no conhecimento das profundezas do coração, e daí resulta aquilo que Alexis Carrel, prêmio Nobel de Medicina, apontava no seu célebre trabalho O homem, esse desconhecido: vivemos hoje o drama de um desnível gritante entre o fabuloso progresso técnico e científico e a imaturidade quase infantil no que diz respeito aos sentimentos humanos.

Mesmo em pessoas de alto nível intelectual, ocorre um autêntico analfabetismo afetivo: são indivíduos truncados, incompletos, mal-formados, imaturos; estão preparados para trabalhar de forma eficiente, mas são absolutamente incapazes de amar. Esta desproporção tem conseqüências devastadoras: basta reparar na facilidade com que as pessoas se casam e se “descasam“, se “juntam” e se separam. Dão a impressão de reparar apenas na camada epidérmica do amor e de não aprofundar nos valores do coração humano e nas leis do verdadeiro amor.

Quais são, então, os valores do verdadeiro amor? Que significado tem essa palavra?

O amor, na realidade, tem um significado polivalente, tão dificil de definir que já houve quem dissesse que o amor é aquilo que se sente quando se ama, e, se perguntássemos o que se sente quando se ama, só seria possível responder simplesmente: “Amor“. Este círculo vicioso deve-se ao que o insigne médico e pensador Gregório Marañon descrevia com precisão: “O amor é algo muito complexo e variado; chama-se amor a muitas coisas que são muito diferentes, mesmo que a sua raiz seja a mesma“.

A MATURIDADE NO AMOR

Hoje, considera-se a satisfação sexual autocentrada como a expressão mais importante do amor. Não o entendia assim o pensamento clássico, que considerava o amor da mãe pelos filhos como o paradigma de todos os tipos de amor: o amor que prefere o bem da pessoa amada ao próprio. Este conceito, perpassando os séculos, permitiu que até um pensador como Hegel, que tem pouco de cristão, afirmasse que “a verdadeira essência do amor consiste em esquecer-se no outro“.

Bem diferente é o conceito de amor que se cultua na nossa época. Parece que se retrocedeu a uma espécie de adolescência da humanidade, onde o que mais conta é o prazer. Este fenômeno tem inúmeras manifestações. Referir-nos-emos apenas a algumas delas:

- Edifica-se a vida sentimental sobre uma base pouco sólida: confunde-se amor com namoricos, atração sexual com enamoramento profundo. Todos conhecemos algum “don Juan“: um mestre na arte de conquistar e um fracassado à hora da abnegação que todo o amor exige. Incapazes de um amor maduro, essas pessoas nunca chegam a assimilar aquilo que afirmava Montesquieu: “É mais fácil conquistar do que manter a conquista“.

- Diviniza-se o amor: “A pessoa imatura – escreve Enrique Rojas – idealiza a vida afetiva e exalta o amor conjugal como algo extraordinário e maravilhoso. Isto constitui um erro, porque não aprofunda na análise. O amor é uma tarefa esforçada de melhora pessoal durante a qual se burilam os defeitos próprios e os que afetam o outro cônjuge <…>. A pessoa imatura converte o outro num absoluto. Isto costuma pagar-se caro. É natural que ao longo do namoro exista um deslumbramento que impede de reparar na realidade, fenômeno que Ortega y Gasset designou por “doença da atenção”, mas também é verdade que o difícil convívio diário coloca cada qual no seu lugar; a verdade aflora sem máscaras, e, à medida que se desenvolve a vida ordinária, vai aparecendo a imagem real“.(E. Rojas)

- No imaturo, o amor fica “cristalizado“, como diz Stendhal, nessa fase de deslumbramento, e não aprofunda na “versão real” que o convívio conjugal vai desvendando. Quando o amor é profundo, as divergências que se descobrem acabam por superar-se; quando é superficial, por ser imaturo, provocam conflitos e freqüentemente rupturas.

- A pessoa afetivamente imatura desconhece que os sentimentos não são estáticos, mas dinâmicos. São suscetíveis de melhora e devem ser cultivados no viver quotidiano. São como plantas delicadas que precisam ser regadas diariamente. “O amor inteligente exige o cuidado dos detalhes pequenos e uma alta porcentagem de artesanato psicológico“.(E.Rojas)

A pessoa consciente, madura, sabe que o amor se constrói dia após dia, lutando por corrigir defeitos, contornar dificuldades, evitar atritos e manifestar sempre afeição e carinho.

- Os imaturos querem antes receber do que dar. Quem é imaturo quer que todos sejam como uma peça integrante da máquina da sua felicidade. Ama somente para que os outros o realizem. Amar para ele é uma forma de satisfazer uma necessidade afetiva, sexual, ou uma forma de auto-afirmação. O amor acaba por tornar-se uma espécie de “grude” que prende os outros ao próprio “eu” para completá-lo ou engrandecê-lo.

Mas esse amor, que não deixa de ser uma forma transferida de egoísmo, desemboca na frustração. Procura cada vez mais atrair os outros para si e os outros vão progressivamente afastando-se dele. Acaba abandonado por todos, porque ninguém quer submeter-se ao seu pegajoso egocentrismo; ninguém quer ser apenas um instrumento da felicidade alheia.

Os sentimentos são caminho de ida e volta; deve haver reciprocidade. A pessoa imatura acaba sempre queixando-se da solidão que ela mesma provocou por falta de espírito de renúncia. A nossa sociedade esqueceu quase tudo sobre o que é o amor. Como diz Enrique Rojas: “Não há felicidade se não há amor e não há amor sem renúncia. Um segmento essencial da afetividade está tecido de sacrifício. Algo que não está na moda, que não é popular, mas que acaba por ser fundamental“.

Há pouco, um amigo, professor de uma Faculdade de Jornalismo, referiu-me um episódio relacionado com um seu primo – extremamente egoísta – que se tinha casado e separado três vezes. No cartão de Natal, após desejar-lhe boas festas, esse professor perguntava-lhe em que situação afetiva se encontrava. Recebeu uma resposta chocante: “Assino eu e a minha gata. Como ela não sabe assinar, o faz estampando a sua pata no cartão: são as suas marcas digitais. Este animalzinho é o único que quer permanecer ao meu lado. É o único que me ama“.

O imaturo pretende introduzir o outro no seu projeto pessoal de vida, em vez de tentar contribuir com o outro num projeto construído em comum. A felicidade do cônjuge, da família e dos filhos: esse é o projeto comum do verdadeiro amor. As pessoas imaturas não compreendem que a dedicação aos filhos constitui um fator importante para a estabilidade afetiva dos pais. Também não assimilaram a idéia de que, para se realizarem a si mesmos, têm de se empenhar na realização do cônjuge. Quem não é solidário termina solitário. Ou juntando-se a uma “gatinha“, seja de que espécie for.

EDUCAR A AFETIVIDADE

Mais do que nunca, é preciso prestar atenção hoje à educação da afetividade dos filhos e à reeducação da afetividade dos adultos. Uma educação e uma reeducação que devem ter como base esse conceito mais nobre do amor que acabamos de formular: aquele que vai superando o estágio do amor de apetência – que apetece e dá prazer – para passar ao amor de complacência – que compraz afetivamente – e abrir-se ao amor oblativo de benevolência – que sabe renunciar e entregar-se para conseguir o bem do outro.

O amor maduro exige domínio próprio: ir ascendendo do mundo elementar – imaturo – do mero prazer, até o mundo racional e espiritual em que o homem encontra a sua plena dignidade. Reclama que se canalizem as inclinações naturais sensitivas para pô-las ao serviço da totalidade da pessoa humana, com as suas exigências racionais e espirituais. Requer que se conceda à vontade o seu papel reitor, livre e responsável. Pede que, por cima dos gostos e sentimentos pessoais, se valorizem os compromissos sérios reciprocamente assumidos… Aaron Beek, no seu livro Só o amor não basta, insiste repetidamente em que é necessária a determinação da vontade para dar consistência aos movimentos intermitentes do coração: o mero sentimento não basta.

O “amor como dom de si comporta – diz o Catecismo da Igreja Católica – uma aprendizagem do domínio de si <…>. As alternativas são claras: ou o homem comanda e domina as suas paixões e obtém a paz, ou se deixa subjugar por elas e se torna infeliz. Esse domínio de si mesmo é um trabalho a longo prazo. Nunca deve ser considerado definitivamente adquirido. Supõe um esforço a ser retomado em todas as idades da vida“.

Isto significa cultivar o amor. O maior de todos os amores desmoronar-se-á se não for aperfeiçoado diariamente. Empenho este que, na vida diária, se traduz no esforço por esmerar-se na realização das pequenas coisas, à semelhança do trabalho do ourives, feito com filigranas delicadamente entrelaçadas cada dia, na tarefa de aprimorar o trato mútuo, evitando os pormenores que prejudicam a convivência.

A convivência é uma arte preciosa. Exige uma série de diligências: prestar atenção habitual às necessidades do outro; corrigir os defeitos; superar os pequenos conflitos para que não gerem os grandes; aprender a escutar mais do que a falar; vencer o cansaço provocado pela rotina; retribuir com gratidão os esforços feitos pelo outro… e, especialmente, renovar, no pequeno e no grande, o compromisso de uma mútua fidelidade que exige perseverança nas menores exigências do amor…, uma perseverança que não goza dos favores de uma sociedade hedonista e permissivista, inclinada sempre ao mais gostoso e prazeroso.

O coração não foi feito para amoricos, dizíamos, mas para amores fortes. O sentimentalismo é para o amor o que a caricatura é para o rosto. Alguns parecem ter o coração de chiclete: apegam-se a tudo. Uns olhos bonitos, uma voz meiga, um caminhar charmoso, podem fazer-lhes tremer os fundamentos da fidelidade. Outros parecem inveterados novelistas: sentem sempre a necessidade de estar envolvidos em algum romance, real ou imaginário, sendo eles os eternos protagonistas: dão a impressão de que a televisão mental lhes absorve todos os pensamentos.

Precisamos educar o nosso coração para a fidelidade. Amores maduros são sempre amores fiéis. Não podemos ter um coração de bailarina. A guarda dos sentidos – especialmente da vista – e da imaginação há de proteger-nos da inconstância sentimental, do comportamento volátil de um “beija-flor“…

Tudo isto faz parte do que denominávamos a educação afetiva dos jovens e a reeducação afetiva dos adultos. João Paulo II a chama “a educação para o amor como dom de si: diante de uma cultura que «banaliza» em grande parte a sexualidade humana, porque a interpreta e vive de maneira limitada e empobrecida, ligando-a exclusivamente ao corpo e ao prazer egoístico, a tarefa educativa deve dirigir-se com firmeza para uma cultura sexual verdadeira e plenamente pessoal. A sexualidade, de fato, é uma riqueza da pessoa toda – corpo, sentimento e alma -, e manifesta o seu significado íntimo ao levar a pessoa ao dom de si no amor“.

Fonte: Quadrante

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Vitor Belford e Joana Prado falam sobre casamento e filhos.

 

Embora durante a entrevista o casal expresse opiniões contrárias à moral católica, selecionamos um trecho muito interessante, em que eles falam sobre manter o romance entre o casal mesmo após a chegada dos filhos.

A atenção que dão aos filhos atrapalha a relação de vocês?

Joana - Quando Kyara fez dois meses, aproveitei que Vitor estava em Los Angeles e fui encontrá-lo. A gente não viajava a sós há cinco anos, desde o nascimento do Davi. Pensamos muito e achamos que era importante para a relação manter um clima de romance. Conversei com as crianças, sofri, mas digo que foi a melhor decisão que tomei.

Houve culpa por deixá-los?

Joana - No caminho para o aeroporto, senti angústia. Antes de decolar, liguei para o Vitor e comecei a chorar, desabei. Aí consegui relaxar mais, estava feliz porque curtiria meu marido, mas com o coração na mão pelas crianças. Sou muito atenta, levanto com qualquer chorinho. Somos pais 24 horas. Às vezes, a gente acorda a mil com eles. Só depois um olha para o outro e dá bom dia. Mas foi legal eles sentirem saudade e saberem que o pai e a mãe estão juntos e felizes. E para a gente, que agora sabe a importância de preservar momentos a dois.

Vitor - O casamento tem sido banido pela sociedade e, na minha opinião, não existe como você ser pai ou mãe sem estar casado. O melhor presente que podemos dar aos nossos filhos é manter a união estável e feliz. Amor é como fogo, precisa da lenha. A rotina faz a relação ficar morna. Então, precisamos estar sempre atentos e alimentando nosso amor para que ele não acabe.

Joana - A gente se policia até para andar de mãos dadas na rua, para não deixar a coisa esfriar.

Fonte: Jornal Extra

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Amor Conjugal e Contracepção

 

Por Pe. Cormac Burke

Há um argumento moderno a favor da contracepção que pretende lançar mão de expressões personalistas, e que pode ser resumido da seguinte forma: o ato matrimonial tem duas funções, uma biológica ou procriadora, e outra espiritual-unitiva. Contudo, este ato só potencialmente é que é procriador; em si mesmo e de fato, é um ato de amor: expressa verdadeiramente o amor conjugal e une entre si marido e mulher. Ora bem, ainda que a contracepção frustre a possibilidade procriadora ou biológica do ato conjugal, respeita integralmente a sua função unitiva e espiritual. Mais ainda, facilita-a, removendo tensões ou receios capazes de prejudicar a expressão física do relacionamento conjugal. Em outras palavras - afirma esse argumento -, a contracepção suspende ou anula o aspecto procriador das relações sexuais no casamento, mas deixa intacto o seu aspecto unitivo.

Até há bem pouco tempo, o argumento tradicional mais importante contra o controle da natalidade era o de que o ato sexual está naturalmente voltado para a procriação, e que é ilícito frustrar esse desígnio porque interfere nas funções naturais do ser humano. Muitas pessoas, porém, não se sentiam totalmente convencidas por este argumento, que parece vulnerável a objeções bastante elementares: afinal de contas, se nós interferimos em outras funções naturais, como, por exemplo, usar tampões nos ouvidos para evitar ruídos ou tapar o nariz para fugir ao mau cheiro, e não há nada de moralmente errado nisso, por que será errado interferir no aspecto procriador do relacionamento conjugal, se há razões suficientes para tomar essa decisão? Seja como for, os defensores da contracepção rejeitam o argumento tradicional por considerá-lo mero "biologismo", que vê no ato conjugal apenas o seu aspecto biológico ou os seus possíveis efeitos biológicos, e ignora a sua função espiritual, que é a de significar e efetuar a união entre os cônjuges.

Os que advogam a contracepção com base nestes termos aparentemente personalistas, pensam estar pisando em solo firme. E se pretendemos responder-lhes e demonstrar a radical fragilidade da sua argumentação, penso que também se deve utilizar um argumento personalista, baseado numa verdadeira compreensão personalista do sexo e do casamento.

O argumento favorável à contracepção apóia-se evidentemente numa tese essencial: os aspectos procriador e unitivo do ato matrimonial são separáveis, isto é, o aspecto procriador pode ser anulado sem viciar de maneira nenhuma o ato conjugal ou enfraquecer o seu modo próprio de expressar o amor e a união conjugal.

É claro que a Igreja rejeita explicitamente essa tese. A principal razão por que a contracepção é inaceitável para uma consciência cristã é "a conexãoinseparável estabelecida por Deus entre os dois significados inerentes ao ato conjugal, o unitivo e o procriador", conforme diz o Papa Paulo VI na Humanae vitae.

Paulo VI afirmou esta conexão inseparável, mas não se deteve a esclarecer por que esses dois aspectos do ato conjugal estão tão inseparavelmente ligados, ou por que esta conexão é tão importante que constitui o próprio fundamento da avaliação moral do ato. Talvez uma reflexão serena, amadurecida por um debate que já dura há mais de vinte anos, possa ajudar-nos a descobrir as razões desta realidade: por que a conexão entre os dois aspectos do ato é na verdade tão profunda que a destruição da sua referência procriadora destrói necessariamente a sua significação personalista e unitiva. Em outras palavras, se alguém destrói deliberadamente o poder de dar a vida, próprio do ato conjugal, necessariamente destrói também o seu poder de expressar o amor, o amor e a união próprios do casamento.

O ATO CONJUGAL COMO ATO DE UNIÃO

Por que o ato conjugal é visto como o ato de autodoação, como a expressão mais característica do amor marital? Por que este ato tão particular - que, afinal de contas, é passageiro e fugaz - deve ser encarado como um ato de união? Afinal de contas, as pessoas que se amam podem manifestar o seu amor e o desejo de estarem unidas de diversas maneiras: enviando cartas, trocando olhares ou presentes, passeando de mãos dadas... O que singulariza o ato sexual? Por que este ato une os cônjuges de um modo inigualável? O que o torna não só uma experiência física, mas uma experiência de amor?

A resposta estará no prazer especial que o acompanha? O significado unitivo do ato conjugal estará totalmente contido na sensação produzida, por mais intensa que ela seja? Se as relações sexuais unem duas pessoas simplesmente pelo prazer que trazem, então um dos dois cônjuges poderia de vez em quando encontrar uma união muito mais significativa fora do casamento. Daí também se seguiria que uma relação sexual que não desse prazer perderia o seu sentido, e que o sexo com prazer, mesmo numa relação homossexual, teria muito sentido.

Não. O ato conjugal pode ser acompanhado de prazer ou não, mas não é nisso que reside o seu significado. O prazer pode ser intenso, mas é transitório, ao passo que a significação das relações matrimoniais, sendo também intensa, não é transitória, mas permanente.

O que torna o ato conjugal mais significativo do que qualquer outra manifestação de carinho entre os cônjuges? Por que há de ser a expressão mais intensa do amor e da união? Sem dúvida, porque o que acontece no encontro conjugal não é um simples contacto nem uma mera sensação intensa, mas umacomunicação, um oferecimento e uma aceitação, uma troca de algo que representa de modo único o dom de si mesmo e a união entre duas pessoas.

Não esqueçamos, neste ponto, que o desejo que duas pessoas têm de se doarem reciprocamente e de se unirem mantém-se, humanamente falando [1], num plano puramente intencional. Elas podem vincular-se uma à outra, mas não podem realmente dar-se uma à outra. A máxima expressão do desejo de alguém se entregar a si mesmo é entregar a sua semente [2]. Entregar a própria semente, aliás, é muito mais significativo e muito mais real do que dar o coração. "Eu sou seu e dou-lhe o meu coração; tome-o" é mera poesia, a que nenhum gesto físico pode dar verdadeiro corpo. Pelo contrário, "Eu sou seu e dou-lhe a minha semente; tome-a" não é mera poesia, é amor. É amor conjugal encarnado numa ação física privilegiada e singular, por meio da qual se exprime a intimidade - "Eu lhe dou o que não dou a mais ninguém" - e se consuma a união: "Tome o que tenho para lhe dar: a semente de um novo eu. Unida à que você tem para me dar, à sua semente, será um novo eu-e-você, fruto do nosso conhecimento e amor mútuo". Em termos humanos, é o máximo a que se pode chegar na entrega de si mesmo e na aceitação da entrega do outro, de forma a completar a união conjugal.

Portanto, o que torna o ato conjugal uma união e um relacionamento insubstituíveis não é uma sensação compartilhada, mas um poder compartilhado: um poder sexual físico que é extraordinário precisamente por estar orientado intrinsecamente para a criatividade, para a vida. Num autêntico relacionamento conjugal, cada um dos cônjuges diz ao outro: "Eu aceito você na minha vida como a ninguém mais. Você é único para mim, e eu o sou para você. Você, e só você, será o meu marido; você e mais ninguém será a minha mulher. E a prova de que você é insubstituível para mim é o fato de que com você, e só com você, estou disposto a compartilhar este poder que Deus me deu e que está orientado para a vida".

É nisto que consiste o caráter único das relações sexuais. Qualquer outra manifestação física de afeto não ultrapassa o nível de simples gesto e é apenas um símbolo da união desejada. Mas o ato conjugal não é somente um símbolo. No genuíno relacionamento sexual entre os cônjuges, algo real é trocado: há uma entrega e uma aceitação plenas da masculinidade e da feminilidade conjugais. E como testemunho desse relacionamento conjugal e da intimidade da união, a semente do marido é depositada no corpo da esposa [3].

Ora bem, se se anula deliberadamente a orientação para a vida, própria do ato conjugal, destrói-se o seu poder essencial de expressar a união. A contracepção, na realidade, transforma o ato conjugal num auto-engano ou numa mentira: "Eu o amo tanto que só com você estou disposto a compartilhar este poder singularíssimo..." Mas que poder singularíssimo? Num sexo submetido aos anticoncepcionais, já não há nenhum poder singularíssimo a ser compartilhado, exceto o poder de produzir prazer. A sua significação desapareceu.

Um relacionamento sexual realizado sob o efeito de anticoncepcionais é um exercício sem sentido. Talvez seja comparável ao ato de cantar sem deixar que nenhum som escape dos lábios. Alguns de nós estaremos lembrados de Jeanette McDonald e Nelson Eddy, dois populares cantores de duetos de amor nos primeiros musicais de Hollywood. Seria absurdo se eles tivessem cantado duetos silenciosos, simulando os movimentos da boca sem deixar as cordas vocais produzirem sons inteligíveis: pura reverberação sem sentido..., mera agitação que nada significa. A contracepção está nessa linha. Os cônjuges voluntariamente estéreis entregam-se a movimentos corporais, mas a sua "linguagem corporal" já não é realmente humana [4]. Impedem os seus corpos de se comunicarem entre si de forma sexuada e inteligível; imitam os movimentos de uma canção de amor, mas aí não há canção.

Com efeito, a contracepção não é apenas uma ação sem sentido; é uma ação que contradiz o sentido essencial do verdadeiro relacionamento conjugal, pois este deveria expressar uma autodoação incondicionada e total [5]. Ao invés de se aceitarem mútua e totalmente, os cônjuges que utilizam anticoncepcionais rejeitam uma parte do outro, uma vez que a fecundidade é parte de cada um deles. Rejeitam uma parte do seu amor mútuo: o poder de dar fruto...

Um casal pode dizer: "Nós não queremos que o nosso amor dê fruto". Se é assim, cairão em contradição ao tentarem exprimir o seu amor através de um ato que, por natureza, implica um amor fecundo. E a contradição será maior ainda se eles, durante a realização do ato, destruírem deliberadamente a sua orientação para a fecundidade, porquanto é justamente dessa orientação que deriva a sua capacidade de manifestar a singularidade do seu amor.

Na união conjugal autêntica, marido e mulher devem experimentar a vibração da vitalidade humana na sua própria fonte [6]. No caso da "união contraceptiva", os cônjuges experimentam uma sensação, mas uma sensação destituída de verdadeira vitalidade.

O efeito antivida da contracepção não se detém neste "não" ao possível fruto do amor. Tende também a extinguir a vida do próprio amor. De acordo com a dura lógica da contracepção, a antivida transforma-se em anti-amor. O seu efeito desvitalizante devasta o amor, ameaçando-o com um envelhecimento rápido e uma morte prematura.

Neste ponto, vale a pena antecipar uma possível crítica: dir-se-á que esta argumentação está baseada numa alternativa incompleta, na medida em que parece sustentar que o ato conjugal ou é procriador ou recai no simples hedonismo... Os cônjuges que concordam com a contracepção não poderiam contra-argumentar com a afirmação sincera de que não procuram no sexo apenas o prazer, mas que também experimentam e expressam o amor que sentem um pelo outro?

Vamos esclarecer o nosso posicionamento neste ponto concreto. Não afirmamos que os cônjuges adeptos do uso de anticoncepcionais não se amem ao realizar o ato, nem que eles não expressem uma certa singularidade no seu relacionamento, na medida em que afastam a possibilidade de terem a mesma intimidade com uma terceira pessoa. A nossa tese é que este relacionamento não manifesta a singularidade conjugal. O amor, de certa forma, pode estar presente no relacionamento, mas o amor conjugal não se manifesta por esse relacionamento, e até pode ver-se rapidamente ameaçado por ele. Esses cônjuges são constantemente perseguidos pela desconfiança de que o ato que compartilham não é, por parte do outro, realmente uma entrega privilegiada de prazer, mas uma aquisição egoísta de prazer. É lógico que uma sensação de falsidade ou de vazio se insinue nas suas carícias, visto que se propõem fundamentar a singularidade do seu relacionamento num ato de prazer que, afinal de contas, tende a recluí-los na esterilidade. Ambos se recusam a apoiar o seu relacionamento na dimensão conjugal da co-criatividade amorosa, a qual, na sua vitalidade, não possibilita a simples abertura de um ao outro, mas a abertura de ambos para a totalidade da vida e da criação.

AMOR SEXUAL E CONHECIMENTO SEXUAL

A autodoação mútua e exclusiva do ato conjugal consiste na entrega e na aceitação de algo único. Este algo único, porém, não é só a semente (aí, sim, cairíamos no "biologismo"), mas a plenitude da sexualidade de cada cônjuge.

Não é bom para o homem estar sozinho (cf. Gen 2, 18): foi neste contexto que Deus criou a mulher. Deus criou o ser humano numa dualidade - masculino e feminino - capaz por sua vez de transformar-se numa trindade. As diferenças entre os dois sexos falam, portanto, de um plano divino que visa a complementaridade, o auto-aperfeiçoamento e a auto-realização, também através da autoperpetuação.

Não é bom para o homem estar sozinho porque ele não se pode realizar sozinho: necessita dos outros. E necessita especialmente de um outro: de um esposo ou uma esposa. O crescimento e a auto-realização do ser humano estão normalmente condicionados pela união com o esposo ou a esposa, pela entrega mútua, pela união conjugal e sexual na autodoação.

Este amor não é apenas espiritual, mas também corporal, e o conhecimento mútuo em que se fundamenta também não é um mero conhecimento intelectual, mas corporal. O amor conjugal deve basear-se também no conhecimento carnal, o que é plenamente humano e lógico. Que expressividade a da Bíblia quando, ao referir-se ao ato sexual, diz que o homem e a mulher se conheceram! Adão, diz o autor do Gênesis, conheceu Eva, sua esposa. Que comentário podemos fazer a respeito desta equivalência entre intimidade conjugal e conhecimento mútuo estabelecida pela Bíblia?

Em que consiste este conhecimento inconfundível que marido e mulher comunicam entre si? Trata-se do conhecimento da condição humana integral do outro enquanto cônjuge. Cada um deles "desvela", "descobre" um segredo muito íntimo ao outro: o segredo da sua sexualidade pessoal. Cada um é revelado verdadeiramente ao outro como cônjuge, e atinge o conhecimento do outro na singularidade dessa auto-revelação e autodoação matrimonial. Cada um dos dois se deixa conhecer pelo outro, precisamente como marido ou mulher.

Nada é tão capaz de minar um casamento como a resistência em conhecer e acolher plenamente o outro, ou em deixar-se conhecer plenamente por ele. O casamento está continuamente ameaçado pela possibilidade de que um dos cônjuges oculte algo ao outro, retendo para si algum conhecimento que ele ou ela não quer que o outro possua. E isto pode acontecer em todos os níveis da comunicação interpessoal: tanto no nível físico como no espiritual [7].

Em muitos casamentos modernos, há alguma coisa nos cônjuges, e entre eles, que cada um dos dois não quer conhecer nem enfrentar corajosamente, mas evitar: a sexualidade em todas as suas dimensões. Em conseqüência, já que os dois não consentem em ter um pleno conhecimento carnal recíproco, elesrealmente não se conhecem, nem sexual, nem humana, nem matrimonialmente. Isto submete o seu amor a uma tensão existencial terrível, que pode vir a destruí-lo.

Numa autêntica intimidade conjugal, cada um dos cônjuges renuncia à posse defensiva de si mesmo para possuir plenamente o outro e ser plenamente possuído pelo outro. Esta plenitude da entrega e da posse sexual genuínas só se consegue num relacionamento matrimonial aberto à vida. Somente numa vida sexual procriadora os cônjuges permutam um verdadeiro "conhecimento" mútuo e se falam realmente de um modo humano e inteligível; só então se revelammutuamente na plenitude da sua atualidade e potencialidade humanas. Cada um deles oferece e aceita o pleno conhecimento conjugal do outro.

Por meio da "linguagem do corpo", cada um dos cônjuges pronuncia uma palavra de amor que é ao mesmo tempo "auto-expressão" - imagem do próprio "eu" - e expressão do desejo que tem do outro. Estas duas palavras de amor fundem-se numa só ao encontrarem-se. E no momento em que esta nova palavra unificada de amor se faz carne, Deus a transforma numa pessoa, o filho: a encarnação do mútuo conhecimento sexual entre marido e mulher e do amor sexual de um pelo outro.

Na contracepção, os cônjuges não permitem que a palavra que a sua sexualidade deseja pronunciar se torne carne. Estão humanamente impotentes diante do amor, sexualmente calados e corporalmente mudos um perante o outro.

O amor sexual é um amor específico do homem e da mulher considerados na sua totalidade: corpo e espírito. Se o corpo e o espírito não dizem a mesma coisa, o amor é inautêntico. E é isto o que acontece na contracepção. O ato corporal fala da presença ou da intensidade de um amor que o espírito renega. O corpo diz: "Amo você totalmente", ao passo que o espírito diz: "Amo você com reservas". O corpo diz: "Procuro você"; o espírito diz: "Não aceito você, pelo menos não totalmente".

O relacionamento sexual contrário à vida degenera em simples pantomima; desfigura a linguagem do corpo e expressa a rejeição parcial do outro. Cada um dos dois passa a dizer: "Não quero conhecer você como meu esposo ou minha esposa; não estou disposto a reconhecer você como meu cônjuge. Quero algo de você, mas não a sua sexualidade. E se tenho algo para lhe dar, algo que deixarei você receber, certamente não é a minha sexualidade" [8].

Isto permite-nos desenvolver um ponto a que aludimos páginas atrás. A recusa que um casal voluntariamente estéril exprime não se dirige somente aos filhos, ou somente à vida, ou somente ao mundo; dirige-se diretamente ao outro cônjuge. "Prefiro você estéril" é o mesmo que dizer: "Não quero tudo o que você me pode oferecer. Calculei a medida do meu amor, e não é suficientemente grande para isso. É um amor incapaz de aceitar você inteiramente. Quero um você encolhido, reduzido à medida do meu amor..." A circunstância de ambos os cônjuges concordarem com essa "versão reduzida" do outro não lhes protege o amor ou a vida - ou as possibilidades de felicidade - dos efeitos de uma desvalorização sexual e humana tão radical.

Um relacionamento sexual normal afirma plenamente a masculinidade e a feminilidade. O homem afirma-se como homem e marido, e a mulher, por sua vez, afirma-se como mulher e esposa. Num relacionamento sexual fechado à concepção, afirma-se apenas uma sexualidade mutilada. Falando com a máxima propriedade, não há afirmação alguma da sexualidade: a contracepção recusa-se de tal forma a deixar conhecer o "eu" que já não permite nenhum conhecimento carnal autêntico. Existe uma profunda verdade humana implícita no princípio jurídico e teológico de que um ato sexual sob o efeito de anticoncepcionais não consuma o casamento. Em suma: o relacionamento sexual contraceptivo não é um autêntico relacionamento sexual.

Num ato contraceptivo, pode haver algum tipo de "intercâmbio" de sensações, mas não há nenhum conhecimento sexual verdadeiro nem amor sexual verdadeiro; não há uma revelação sexual verdadeira do próprio "eu", nem uma comunicação sexual de uma pessoa para outra, nem uma autodoação. Escolher a contracepção é, na verdade, rejeitar a sexualidade. As deformações do instinto sexual de que a sociedade moderna parece sofrer não são conseqüência de um excesso de sexo, mas da ausência de uma sexualidade humana genuína.

O verdadeiro ato conjugal une os dois cônjuges. A contracepção separa-os, e a separação estende-se a todas as dimensões do casamento. Não separa apenas o sexo da procriação, mas também o sexo do amor. Separa o prazer do seu significado, e o corpo do espírito. A longo prazo, com toda a certeza, separa a esposa do marido e o marido da esposa.

Se os casais habituados a usar anticoncepcionais se detiverem um momento a refletir, não demorarão a compreender que o seu casamento sofre de um profundo mal-estar. Verão que as alienações que experimentam são sinal e conseqüência da grave violação da ordem moral que a contracepção representa. Entenderão assim até que ponto a doutrina da Humanae vitae e das posteriores declarações do magistério da Igreja sobre o tema, longe de ser um apegamento cego a uma posição anacrônica, é uma defesa absolutamente lúcida e clarividente da dignidade inata e do verdadeiro significado da sexualidade matrimonial e humana.

SEXUALIDADE PROCRIADORA E AUTO-REALIZAÇÃO

Até aqui, o nosso raciocínio nos fez ver que o ato conjugal contrário à concepção não é capaz de atingir nenhum fim personalista. Ao invés de possibilitar a auto-realização no casamento, o que faz é impedi-la e frustrá-la. No entanto - pode-se perguntar -, só o relacionamento sexual procriador leva à auto-realização dos cônjuges?

A minha resposta é afirmativa, e a razão reside na própria natureza do amor. O amor é criativo. O amor divino, por assim dizer, "obrigou" o próprio Deus a criar. O amor humano, feito à imagem do amor divino, também o leva a criar. Mas se o homem se opõe deliberadamente a criar, frustra-se. A afeição entre duas pessoas leva-as a quererem unir-se para realizarem uma série de coisas juntas. E se isto é verdade no que diz respeito à amizade em geral, assume especial importância e pertinência em relação ao amor entre marido e mulher. Um casal que realmente se ama quer fazer uma série de coisas juntos; se possível, algo "original". Como vimos no capítulo anterior, nada é mais novo e original para um casal do que um filho, imagem e fruto do seu amor e da sua união. É por isso que a realidade matrimonial, o acontecimento por excelência do matrimônio, é ter filhos. Nenhum outro sucedâneo pode satisfazer o amor conjugal.

A vida sexual procriadora realiza, porque somente desse modo os cônjuges se abrem a todas as possibilidades do seu amor mútuo: estão dispostos a enriquecer-se e a realizar-se não apenas com o que vão receber, mas também com o que lhes vai ser pedido. Além disso, a sexualidade procriadora realizaporque exprime o anseio humano de autoperpetuação. Exprime-o sem contradizê-lo, como o faz a contracepção. Enfim: o amor só pode desenvolver-se e ampliar-se com anelos de vida e não com anelos de morte.

Quando nasce um filho num casamento normal, marido e mulher gostam de passar a criança um para os braços do outro. Se a criança morre, já não há alegria, e é entre lágrimas que um passa para o outro o corpo morto. Os cônjuges deveriam chorar e lamentar-se a cada ato realizado sob a ação de anticoncepcionais: é um ato triste e estéril que rechaça a vida vivificadora do amor e que mata a vida que o amor naturalmente deseja criar. Podem sentir satisfação física, prazer, mas não alegria na transmissão de uma semente morta, ou na transmissão de uma semente viva que vai ser morta.

A vitalidade de sensação presente no ato sexual deve corresponder a uma vitalidade de sentido, pois, lembrando o que dissemos antes, o prazer em si mesmo não confere significado. Já a própria explosão de prazer implicada no ato sexual sugere a grandeza da criatividade sexual. Em cada ato conjugal deveria haver algo da magnificência - do alcance e do poder - que transborda da Criação que Michelangelo pintou na Capela Sixtina... Esse dinamismo não deveria limitar-se à simples sensação, mas constituir um evento: algo que vem à tona, uma comunicação de vida.

O ato será destituído de verdadeira consciência sexual se a intensidade do prazer não conseguir provocar uma compreensão plenamente consciente da grandeza da experiência conjugal: "Eu me estou entregando - entregando o meu poder de dar vida - não só a uma pessoa, mas à totalidade da Criação: à história, à humanidade, aos planos e desígnios de Deus". Em cada ato de união conjugal, ensina o Papa João Paulo II, "renova-se de certo modo o mistério da Criação em toda a sua profundidade original e poder vital" [9].

É necessário fazer uma última observação. Toda esta questão que vimos considerando torna-se sem dúvida muitíssimo complexa precisamente por causa da força do instinto sexual. No entanto, devemos compreender que é a própria força desse instinto que exige uma adequada compreensão da sexualidade. O simples bom senso nos diz que o impulso sexual deve corresponder a necessidades ou aspirações profundamente humanas. Tradicionalmente, tem-se explicado o instinto sexual colocando-o dentro de um marco demográfico ou cósmico: tal como o instinto do comer e do beber é necessário para manter a vida dos indivíduos, assim o apetite sexual é necessário para manter a vida da espécie. Esta explicação faz sentido, e resolve algumas dúvidas, mas não vai muito longe. O apetite sexual - a força do apetite sexual - corresponde não apenas a umas necessidades demográficas ou coletivistas, mas também a necessidades pessoais. Se o homem e a mulher sentem um profundo anseio pela união sexual, é porque também cada um deles, pessoalmente, tem um anseio profundo por tudo o que a autêntica sexualidade implica: autodoação, autocomplementaridade, auto-realização, autoperpetuação, na união conjugal com o outro.

A experiência de uma sexualidade matrimonial plena está repleta de um prazer polifacético, em que a simples satisfação física de um mero instinto sensitivo é acompanhada e enriquecida pela satisfação pessoal de anseios muito mais profundos e poderosos, inerentes a uma sexualidade livre da deturpação e da amargura que provêm da frustração desses anseios. Se uma das principais conseqüências da contracepção é a crescente e contínua frustração sexual, a razão está em que a mentalidade contraceptiva priva o poder do apetite sexual do seu sentido e da sua finalidade verdadeiras, tentando encontrar uma experiência sexual e uma satisfação plenas em algo que, ao fim e ao cabo, é pouco mais do que o mero alívio de uma tensão física.

Amor e Casamento, Editora Quadrante, 1991.

----------------

[1] Como é óbvio, não falamos aqui da entrega que uma pessoa pode fazer de si mesma a Deus.

[2] (**) Por semente referimo-nos aqui ao elemento procriador tanto masculino como feminino.

[3] Deste modo, cada ato conjugal reafirma de fato a singularidade da decisão de casar-se com uma determinada pessoa. Cada ato de verdadeiro relacionamento sexual confirma a condição única de se ser marido ou mulher do outro.

[4] A "linguagem corporal" é uma expressão-chave nos escritos do Papa João Paulo II sobre a sexualidade e o casamento.

[5] "A contracepção contradiz a verdade do amor conjugal" (João Paulo II, Alocução, 17 de setembro de 1983).

[6] Isto continua a ser verdade nos casos em que, por qualquer razão, os cônjuges não podem ter filhos. Em tais casos, a sua união, do mesmo modo que a união durante a gravidez, recebe o seu sentido mais profundo do fato de tanto o ato conjugal como a intenção que alimentam estarem "abertos à vida", ainda que o ato não possa dar origem a um novo ser. É esta fundamental abertura à vida que confere ao ato o seu sentido e a sua dignidade. Em contrapartida, a ausência desta abertura arruína gradativamente a dignidade e o sentido do ato sexual, quando, sem motivos graves, os cônjuges se limitam a realizá-lo deliberadamente nos períodos infecundos.

[7] Obviamente, não nos referimos aqui às ocasiões em que um dos cônjuges, por uma questão de justiça em relação a terceiros, esteja submetido àobrigação de guardar um determinado segredo, por exemplo de natureza profissional. O cumprimento de qualquer dever legítimo não representa uma violação dos direitos da intimidade matrimonial.

[8] Se no relacionamento sexual contraceptivo entre os cônjuges não é a sexualidade o que cada um deles oferece e aceita, então o que é que realmente os dois recebem e entregam? No melhor dos casos, uma forma de amor desvinculada da sexualidade. Mas, em geral, é simplesmente prazer, um prazer que - vale a pena repisar - também está desvinculado da sexualidade. Seja como for, os cônjuges adeptos da contracepção sempre renegam a sua própria sexualidade. E o seu casamento sofre as conseqüências.

[9] Audiência Geral, 21 de novembro de 1979.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Em busca do Casamento Ideal

Fonte: Esperança

fm

O casamento ideal não surge por acaso. Ele vai ficando forte à medida que o enriquecemos através do comprometimento, comunicação eficaz, cooperação, compreensão e amor. Nesta lição, daremos início ao estudo destes elementos indispensáveis para um relacionamento satisfatório.

1.         Construindo uma relação sólida

Palestrando em uma universidade, Ruth Peale foi desafiada por uma aluna:

- Sra. Peale, na minha opinião, logo, logo o casamento vai desaparecer. Eu não acredito que seja necessário, ou mesmo desejável, alguém ficar preso a outra pessoa pelo resto da vida!

Após outros comentários nos quais a universitária apenas depreciava o casamento, Ruth Peale deu sua resposta:

- Eu me considero uma das mulheres mais afortunadas da Terra. Sou totalmente casada com um homem, no pleno sentido da palavra: física, emocional, intelectual e espiritualmente. Somos tão unidos que você não conseguiria colocar uma lâmina entre nós. Não somos dois indivíduos solitários e competidores. Somos um. E não há nada na vida que se compare a isso. No entanto, vocês jamais experimentarão tal unidade, e nem ao menos terão um vislumbre das satisfações que ela encerra, se continuarem com esta atitude e este código de conduta.
Para que um casamento seja verdadeiro, é preciso que haja compromisso e que se cumpra o que foi comprometido. Isso é resultado de uma partilha total e constante entre duas pessoas que trabalham juntas em função de um relacionamento duradouro.

Por mais que se tenha feito tudo certo, no sentido de se unir, durante o namoro e o noivado, dificilmente os noivos estarão perfeitamente unidos ao passarem pela cerimônia do casamento. A verdadeira união entre marido e mulher não acontece de uma hora para outra. Leva anos…

Quando o marido e a mulher começam a enfrentar os problemas e desafios da vida, aí sim, é que passam a conhecer o caráter um do outro. Geralmente, o começo da vida de casados é muito duro. No momento em que surgem dúvidas, decepções e frustrações, muitos chegam a pensar que cometeram um erro.

Casamento bem-sucedido não acontece por acaso, mas sim, quando duas pessoas buscam soluções para pequenos e grandes problemas, continuamente.

Platão usou uma escada para ilustrar o crescimento no relacionamento conjugal. As partes laterais da escada simbolizam o marido e a mulher, e os degraus representam os elementos que os mantêm unidos.  O degrau mais baixo é a atração física e o degrau mais alto é o amor a Deus. Todos os degraus são importantes e dependem um do outro a fim de manter a unidade da escada do casamento.

escada

2.         Relações Problemáticas

Casamento: sucesso ou fracasso? Depende das atitudes do casal. A conselheira matrimonial Nancy Van Pelt, fala que quando os casais estão em dificuldades, eles escolhem uma das três alternativas seguintes:

a) O divórcio ** é aceito freqüentemente; mas, na maioria das vezes, não é a escolha mais madura, pois geralmente não passa de um mecanismo de escape. Além de não trazer felicidade para a situação atual, não resolve os problemas e isto aumenta a probabilidade das mesmas decepções serem repetidas em relacionamentos posteriores.

b) O contentamento: é a alternativa de suportar um relacionamento de aparências, sem que haja esforço para melhorar a situação. Aliás, é mais fácil agir assim que encarar certas deficiências pessoais e fazer algo para superá-las. Essa também não é uma decisão feliz.

c) O esforço: é a decisão de enfrentar as dificuldades pessoais para conseguir transformar o casamento atual num casamento feliz. Mesmo os casais aparentemente incompatíveis podem aprender a superar suas deficiências. Pois não existe a “incompatibilidade de gênio”; o que existe é a falta de habilidade ou de interesse, em relacionar-se. Encarar as limitações pessoais não é nada fácil. Mas é a atitude mais sensata e madura. A caminhada rumo a um casamento completo é a caminhada que sai das atitudes infantis em direção ao amadurecimento pessoal.

3.     A comunicação

Quando duas pessoas estão conversando, as palavras transmitem somente 7% da comunicação. O restante da mensagem é passado através dos gestos, do tom da voz, das expressões faciais e da postura do corpo. Isso pode fazer com que a comunicação seja eficaz ou não.

O conselheiro Norman Wright divide a comunicação em cinco níveis. O nível 1 é o mais profundo e o nível 5 é o mais superficial.

Nível 5 – Comunicação Superficial.  Este é o nível de chavões como: “Olá! Como vai?” É uma conversa onde não se compartilha detalhes pessoais. Se a comunicação ficar neste nível, o relacionamento vai ficar maçante. Isso resultará em frustração e ressentimento.

Nível 4 – Comunicação de Idéias e Julgamentos. Neste nível, as pessoas apenas trocam informações, mas não fazem seus comentários, não dão opinião. Como os homens não gostam muito de expressar sentimentos, eles podem ser tentados a se comunicar neste nível.

Nível 3 – Comunicação Afetiva. É quando a conversa começa a ter a expressão de alguns sentimentos e opiniões. Aqui começa realmente uma comunicação de relacionamento.

Nível 2 – Comunicação de Sentimentos e Emoções.  Neste nível, você fala sobre o que vem de dentro. Você não esconde os sentimentos de raiva, de ressentimento ou de alegria. Se você compartilhar suas experiências com sinceridade com o seu cônjuge, mostrando que valoriza o que ele também sente, o relacionamento de vocês será enriquecido e ampliado.

Nível 1 – Comunicação Profunda. É quando a comunicação emocional e pessoal é completa. É claro que expressar os sentimentos mais íntimos pode envolver um risco de rejeição. Mas para que o relacionamento cresça, é necessário este nível de comunicação.

4 .        Como desenvolver uma boa comunicação?

Escolha a hora certa para falar com o(a) seu(sua) parceiro(a). Falar a coisa certa, na hora errada, geralmente não dá certo.
Fale com um tom de voz agradável. Nem sempre o que se diz é tão levado em conta, mas como se diz.
Vá direto ao ponto, de forma clara, mas sem agredir. Uma conversa confusa pode gerar mal-entendidos. Procure pensar enquanto fala, para poder expôr o que você deseja comunicar, de forma clara.
Procure ser positivo. 80% da comunicação nas famílias é de caráter negativo, como críticas, piadinhas, reprovações, etc. Suba o nível das conversas para uma comunicação mais positiva e completa.
Mesmo que você não concorde com o que esteja sendo dito, ouça com interesse. Seja cortês e respeite a opinião de seu cônjuge.
Considere as necessidades e os sentimentos dele(a), identificando nele(a) sentimentos de raiva, temor, ansiedade ou felicidade.
A conversação é uma arte. Busque oportunidades para desenvolvê-la. Quanto mais tempo um casal passar conversando um com o outro, mais alto será o seu nível de satisfação matrimonial (Nancy Van Pelt).
Quando estiver chateado com alguém, e for conversar sobre isso, procure expor como você sente diante do que aconteceu, em vez de apontar os defeitos da outra pessoa. Ao falar de um assunto difícil, a meta deve ser mostrar seus sentimentos quanto ao mesmo e não atacar a pessoa. Assim funciona: “Quando você fica até tarde no escritório, eu me sinto muito sozinha e abandonada.”  Assim não funciona: “Você trabalha demais, só pensa no trabalho.”

Não diga que vai fazer, se não fará; e não faça sem falar primeiro.

5.         O Relacionamento de Apoio

No Relacionamento de Apoio, não há luta pelo poder nem a imposição da vontade própria. Ao contrário, demonstra-se prontidão em negociar e ajustar as diferenças, até que se chegue em um acordo.

Provavelmente, o marido será o líder, mas não o ditador. Em algumas coisas, quem deve liderar é o homem, por causa da sua competência em certas áreas. Já em outros assuntos, por causa das suas aptidões, deixem que a mulher assuma o controle.

O homem e a mulher foram criados para que um complete o outro, no sentido de fazer com que o casamento seja um relacionamento de apoio interdependente. Para o bem-estar de uma relação sadia, os cônjuges, apesar de terem papéis diferentes, devem ser valorizados individualmente. Os dois são importantes.

O casal que se apóia discute menos e consegue fazer com que uma paz natural se instale sobre a família inteira.

6.         Compreendendo

Existe uma grande necessidade de compreensão entre os casais. Por isso, eles devem se esforçar para descobrir o que motiva, agrada, desagrada e preocupa o(a) companheiro(a), fazendo de tudo para identificar quais são os sonhos e as expectativas do outro. Estas atitudes permitem que o casal se beneficie de uma vida conjugal muito mais significativa.

Homens e mulheres geralmente pensam e sentem de forma diferente e é importante que ambos entendam alguns aspectos do sexo oposto para que haja compreensão em vez de desentendimento.

6.1 O que eles precisam saber

A maioria das mulheres passa por períodos de TPM (tensão pré-menstrual) bastante intensos. Neste perído, irritação, sensibilidade aguçada e oscilações do humor são frequentemente observados. Isto não é, como muitos dizem, “frescura”, mas consequência de uma série de alterações hormonais decorrentes deste período. Não a critique; neste momento, ela precisa de afeto ou, algumas vezes, um simples silêncio. Depois tudo volta ao normal.
Geralmente as mulheres têm mais necessidade de falar do que os homens. Elas tendem a ser mais detalhistas quando contam um acontecimento ou podem sentir a necessidade de simplesmente serem ouvidas sem, necessariamente, ouvir soluções. Portanto, não se preocupe tanto em dar conselhos, mas ofereça a ela sua atenção e compreensão.

6.2 O que elas precisam saber

Às vezes, as mulheres esperam que os homens “adivinhem” os seus sentimentos, pensamentos ou vontades sem que eles sejam falados claramente. Por isso, tente comunicar, de forma verbal, com seu cônjuge, aquilo que você quer que ele saiba, mesmo que isso pareça óbvio para você. O amor não adivinha magicamente. Cada um precisa abrir o coração e falar do que precisa.
Muitos homens preferem passar momentos de silêncio quando estão estressados ou cansados. Se ele não quiser conversar sobre alguma questão dele, respeite-o e aprenda a não tirar conclusões preciptadas de que tal atitude é algo contra você.

Conclusão

Nesta lição, estudamos sobre comunicação íntima, comprometimento, cooperação mútua e compreensão. Você percebe que depois que estudamos a importância destes elementos para o crescimento da relação conjugal, podemos entender melhor por que muitos casamentos fracassam?

Mas não queremos que isso aconteça na sua família. Portanto, procure colocar todas essas dicas em prática. Nosso desejo é que, através destes ingredientes, o seu relacionamento se torne cada vez mais completo.

** Trata-se de texto não católico, devendo ser lido com ressalvas.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Sexualidade no Matrimônio

 

Por Maite Tosta / Veritatis Splendor

Uma vez convertidos, e iniciando um aprofundamento da doutrina católica, naturalmente os casados – e da mesma forma os noivos e namorados – se preocupam que a sua vivência – presente ou futura – da sexualidade esteja igualmente dentro dos limites da moralidade católica. Tal preocupação é louvável. No entanto, devemos levar em conta alguns pontos, quando se reflete sobre esse assunto.

O hinduísmo, por exemplo, tem um manual de práticas sexuais, o famoso “Kama Sutra”. Porque essa religião oriental assim o fez? Podemos nós católicos nos utilizar desse manual?

Para os hindus, os pilares da vida material são Artha (economia e riqueza), Kama (estética e prazer), Dharma (justiça e religião) e Moksha (liberação), devendo o hindu que busca o equilíbrio investir igualmente em todas essas áreas. Para o hinduísmo, não existe o conceito de salvação pela graça, o homem deve trilhar seu caminho, com práticas religiosas, orações, yoga, ascese, até conseguir atingir – por esforço próprio – o nirvana, superando o ciclo de reencarnações.

As orientações contidas no Kama Sutra estão permeadas de filosofias e ensinamentos da religião hindu, além do que, nem todas as práticas recomendadas serão compatíveis com a moral católica, o que o descarta como possível manual de sexualidade pelo casal católico.

O catolicismo, por outro lado, não tem um manual de práticas sexuais. Não há listas, muito menos ilustrações, do que é lícito ou não. A moral católica trabalha com conceitos e princípios, que nós, através de um exercício mental, devemos aplicar.

Para termos a real noção do que é a sexualidade no matrimônio, podemos iniciar com os seguintes questionamentos:

O que significa o matrimônio e a relação sexual no plano divino? Para que Deus os criou? Qual a Sua intenção? Qual o modelo que temos para viver a relação sexual no matrimônio? Qual o contexto que me realiza como pessoa na vivência da relação sexual?

Primeiramente, cabe desfazer o mito de que “sexo é sujo”.

“Seja bendita a tua fonte! Regozija-te com a mulher de tua juventude, corça de amor, serva encantadora. Que sejas sempre embriagado com seus encantos e que seus amores te embriaguem sem cessar! ” (Provérbios 5,18-20)

O casamento não é uma questão periférica na vida cristã, mas sim, encontra-se no centro do mistério. Por meio de sua analogia, comunica o mistério de Deus.

“A Sagrada Escritura começa com a criação do homem e da mulher à imagem e semelhança de Deus e conclui com uma visão das ‘núpcias do Cordeiro’. As Escrituras falam do começo ao fim sobre o casamento e seu ‘mistério’, sua instituição e o significado que Deus lhe deu, sua origem e seu fim, … as dificuldades em se erguer do pecado, e sua renovação ‘no Senhor’”. Do começo ao fim do Antigo Testamento, o amor de Deus por seu povo é descrito como o amor de um esposo por sua noiva. No Novo Testamento, Cristo encarnou este amor. Ele veio como o Noivo Celeste para unir-se indissoluvelmente à sua Noiva, a Igreja.[1]

Diz o Papa João Paulo II: “Neste mundo inteiro não há uma imagem mais perfeita da União e Comunidade de Deus. Não há nenhuma outra realidade humana que corresponda melhor, humanamente falando, àquele mistério divino”[2].

O Sacramento do matrimônio consiste, basicamente, na livre troca de consentimento adequadamente testemunhada pela Igreja. A união sexual consuma este sacramento — completa, aperfeiçoa. Através da união sexual, portanto, as palavras dos votos matrimoniais tomam corpo. Para que a união sexual seja legítima, no matrimônio, são requisitos a livre concordância com uma união de amor indissolúvel, fiel e aberta aos filhos.

O ato sexual deve atender a dois aspectos, o unitivo e o procriativo. O unitivo reflete o dom de entrega total entre os esposos, e o procriativo implica na abertura à geração de filhos.

“O corpo tem um significado esponsal porque revela o chamado do homem e da mulher a se tornarem dom um para o outro, um dom que se realiza plenamente na sua união de ‘uma só carne’. O corpo também tem um significado generativo que, se Deus permitir, traz um “terceiro” através desta união.” [3]

Sobre a moralidade do sexo no matrimônio, Christopher West escreve, baseando-se nas catequeses de João Paulo II (grifos meus):

João Paulo II diz que nós “podemos falar sobre moral bem ou mal” no relacionamento sexual “de acordo com o quanto ele possui… ou não o caráter de verdadeiro sinal”. Em resumo, nós somente precisamos fazer a seguinte pergunta: Seria um determinado comportamento, um autêntico sinal do amor divino ou não? A união sexual possui uma “linguagem profética” porque ela proclama o próprio mistério de Deus. Mas o Papa acrescenta que precisamos ser cuidadosos em distinguir entre verdadeiros e falsos profetas. Se somos capazes de dizer a verdade com o corpo, também somos capazes de falar contra esta verdade.

A fim de serem “fiéis ao sinal”, os esposos precisam falar como Cristo fala. Cristo dá seu corpo livremente (”Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar”, Jo 10,18). Ele dá seu corpo sem reservas (”até o extremo os amou”, Jo 13,1). Ele dá seu corpo fielmente (”Eu estarei sempre convosco”, Mt 28,20). E ele dá seu corpo fecundamente (”Eu vim para que tenham vida”, Jo 10,10).

É com este amor que o casal se compromete no matrimônio. De pé ante o altar, o padre ou diácono pergunta a eles: “Vocês vieram aqui livremente e sem reservas para darem-se um ao outro em casamento? Vocês prometem ser fiéis até a morte? Vocês prometem receber com amor os filhos que Deus vos der?” Então, tendo concordado em amar como Cristo ama, o casal é destinado a encarnar tal amor em sua relação sexual. Em outras palavras, a união sexual é destinada a ser o lugar onde as palavras dos votos matrimoniais “se tornam carne”.

Quão saudável seria um casamento se os esposos, ao invés de encarnar seus votos, fossem regularmente infiéis aos mesmos, regularmente falando contra eles? Aqui reside a essência do mal da contracepção. O desejo de evitar uma gravidez (quando há razões suficientes para isso) não é o que corrompe o comportamento dos esposos. O que corrompe o sexo acompanhado de contracepção é a escolha específica de tornar estéril uma união potencialmente fértil. Isto torna o sinal do amor divino um “contra-sinal”.

O amor divino é generoso; ele gera. E, para tornar mais simples, é por isso que Deus nos deu genitais - para capacitar os esposos a refletir em seus corpos (a “encarnar”) uma versão terrena de seu amor livre, total, fiel e fecundo. Quando os esposos escolhem usar contracepção - isto é, quando eles adulteram voluntariamente o potencial criativo de sua união - eles se tornam “falsos profetas”. Seu ato sexual continua “falando”, mas ele nega o vivificante amor de Deus.

Mas, é possível a paternidade responsável sem ferir a moral católica? A resposta pode ser encontrada na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que também enfoca a necessidade de cada casal formar sua consciência, sempre sob a orientação do magistério da Igreja. É o dever de cada casal aplicar estes princípios básicos em suas situações particulares.

Os esposos sabem que no dever de transmitir e educar a vida humana que deve ser considerado como a sua missão específica , eles são os cooperadores do amor de Deus Criador e como que os seus intérpretes. Desempenhar-se-ão, portanto, desta missão com a sua responsabilidade humana e cristã; com um respeito cheio de docilidade para com Deus, de comum acordo e com esforço comum, formarão retamente a própria consciência, tendo em conta o seu bem próprio e o dos filhos já nascidos ou que prevêem virão a nascer, sabendo ver as condições de tempo e da própria situação e tendo, finalmente, em consideração o bem da comunidade familiar, da sociedade temporal e da própria Igreja. São os próprios esposos que, em última instância, devem diante de Deus, tomar esta decisão. Mas, no seu modo de proceder, tenham os esposos consciência de que não podem proceder arbitrariamente, mas que sempre se devem guiar pela consciência, fiel à lei divina, e ser dóceis ao Magistério da Igreja, que autenticamente a interpreta à luz do Evangelho. Essa lei divina manifesta a plena significação do amor conjugal, protege-o e estimula-o para a sua perfeição autenticamente humana. Assim, os esposos cristãos, confiados na divina Providência e cultivando o espírito de sacrifício, dão glória ao Criador e caminham para a perfeição em Cristo quando se desempenham do seu dever de procriar com responsabilidade generosa, humana e cristã. Entre os esposos que deste modo satisfazem à missão que Deus lhes confiou, devem ser especialmente lembrados aqueles que, de comum acordo e com prudência, aceitam com grandeza de ânimo educar uma prole numerosa.

No entanto, o matrimônio não foi instituído só em ordem à procriação da prole. A própria natureza da aliança indissolúvel entre pessoas e o bem da prole exigem que o mútuo amor dos esposos se exprima convenientemente, aumente e chegue à maturidade. E por isso, mesmo que faltem os filhos, tantas vezes ardentemente desejados, o matrimônio conserva o seu valor e indissolubilidade, como comunidade e comunhão de toda a vida. [5]

Diz ainda, o Catecismo da Igreja Católica:

"A continência periódica, os métodos de regulação da natalidade baseados na auto-observação e no recurso aos períodos infecundos estão de acordo com os critérios objetivos da moralidade. Estes métodos respeitam o corpo dos esposos, animam a ternura entre eles e favorecem a educação de uma liberdade autêntica. Em compensação, é intrinsecamente má "toda ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento de suas conseqüências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação" (CIC 2370).

Importante que se ressalte que a fim de que a paternidade seja “responsável”, a decisão de evitar a união sexual durante o período fértil ou a decisão de se entregar à união sexual durante o período fértil não pode ser motivada pelo egoísmo.

Se um casal está em dúvida quanto às suas razões e práticas, é certamente recomendável procurar um sábio aconselhamento, de preferência com um sacerdote. Mas a responsabilidade da decisão recai, em última instância, sobre o casal.

Da mesma forma quando o assunto se volta para as práticas sexuais: o importante não é ficar classificando práticas (isso pode, isso não pode), mas se ter a noção do que é essencial: a abertura à vida, e a indissociabilidade dos dois fins da união sexual entre um homem e uma mulher que se amam, se respeitam, se entregam - não usam o corpo do outro de forma egoísta para obter satisfação.

Listamos abaixo alguns tópicos que são objeto de dúvidas recorrentes entre nossos leitores, através do “fale conosco”, a fim de ajudar nossos leitores a aplicar os princípios acima abordados.

Sexo Oral X Carícia Oral.

No chamado "sexo oral", a finalização ocorre de forma e em lugar antinatural, desvirtuando o ato, dissociando o fim unitivo do procriativo, pelo que é, em si, moralmente ilícito.

Já as carícias orais são feitas com a boca no corpo do cônjuge, como preliminares. A finalização do ato, no entanto, ocorre de forma e no lugar natural. Poderão ser moralmente lícitas, se combinadas com todo o contexto da união sexual abordado anteriormente. Tais carícias são espécie do gênero ato incompleto, que é definido pelo moralista Del Greco como segue:

Os atos incompletos. Podem ser, por exemplo, os atos imperfeitos de luxúria (beijos, abraços, toques, olhares, etc.), os quais dispõem os cônjuges ao ato conjugal.

a) Se se referem ao ato conjugal no sentido de constituirem preparação para este, sãpo sempre permitidos, quer no próprio corpo, quer no corpo da outra parte.

Devem, porém evitar os cônjuges que de tais atos por serem muito prolongados resulte uma polução, ainda que não voluntária.

Se a esposa com a cópula não se satisfaz plenamente, pode procurar complementar com toques, seja imediatamente antes ou imediatamente depois do ato.[6]

Pornografia.

Antes de abordar diretamente o caráter imoral da pornografia, relevante mencionar que, uma vez que a sexualidade humana é facilmente 'condicionada', quando alguém se acostuma a se 'excitar' de um certo modo, com o passar do tempo, tende a necessitar desse estímulo particular. O uso constante de pornografia pelo casal tem esse efeito de reforçar a atitude de usar o corpo da outra pessoa para o próprio prazer, e não mais ver o outro como uma pessoa completa: corpo, alma e espírito. A relação pode descambar para uma espécie de sessão masturbatória em conjunto, com o corpo do outro como instrumento.

Além e independentemente disso, a pornografia é uma prática imoral, de vez que se vale da imoralidade alheia. Homens e Mulheres nus, relações sexuais explícitas na frente das câmeras - usando uns aos outros, sem serem casados, e, mesmo que os atores sejam casados, numa falta de pudor - são pecados. Como pode o cristão pretender excitar-se com o pecado alheio, ser indiferente ao fato de que pessoas vão para o inferno, e até mesmo realizar-se com isso?

O Catecismo da Igreja Católica é bem claro: “A pornografia consiste em retirar os atos sexuais, reais ou simulados, da intimidade dos parceiros, para exibi-los a terceiros, de maneira deliberada. Ela ofende a castidade, porque desnatura o ato conjugal, doação íntima dos esposos entre si. Atenta gravemente contra a dignidade daqueles que a praticam (atores, comerciantes, público), porque cada um se torna para o outro objeto de um prazer rudimentar e de um proveito ilícito. Mergulha uns e outros na ilusão de um mundo artificial. É uma falta grave. As autoridades civis devem impedir a produção e a distribuição de materiais pornográficos”. (CIC §2354).

Por fim, além de ser um grave pecado e levar ao vício, a pornografia intensifica a vontade de buscar só a própria satisfação, ao invés de servir a outra pessoa, indo contra a dignidade do ato conjugal.

O casal católico deve abster-se de toda e qualquer prática que atente contra a dignidade do ato conjugal. Em síntese: Uma relação sexual entre um casal casado, mas em que os cônjuges, ao invés de se unirem em uma entrega real, somente usam o corpo do outro como mero objeto e instrumento de prazer, mesmo que esteja "dentro dos conformes", ou seja, finalização do sexo da forma e no local natural, sem o uso de métodos contraceptivos, é uma mera masturbação a dois, tão ilícita quanto.

Como adequar a prática sexual à moral católica, no caso de uma conversão tardia? A resposta vem do Conselho Pontifício para a Família:

Os esposos cristãos são testemunhas do amor de Deus no mundo. Devem, portanto, estar convencidos, com a ajuda da fé e até contra a experimentada fraqueza humana, que, com a graça divina, é possível observar a vontade do Senhor na vida conjugal. O recurso freqüente e perseverante à oração, à Eucaristia e à Reconciliação é indispensável para ter o domínio de si.[7]

Alguns católicos decidem arriscar-se, ir bem próximo dos limites, brincar com fogo. Fica a lição bíblica:

“Porventura pode alguém esconder fogo em seu seio sem que suas vestes se inflamem? Pode caminhar sobre brasas sem que seus pés se queimem?” (Provérbios 6, 27-28)

--

[1] WEST, Christopher. Uma Teologia Básica do Casamento. Tradução de Fabrício Ribeiro. Disponível em : http://www.teologiadocorpo.com.br/Home/artigos/uma-teologia-basica-do-casamento

[2] Homilia na Festa da Sagrada Família, 30 de dezembro de 1988.

[3] MARIA, Julie. Conferência no I Congresso Internacional de Vida e Família (2008). Disponível em : http://pt.almas.com.mx/almaspt/artman2/publish/Teologia_do_Corpo_primeira_catequese_de_Jo_o_Paulo_II.php

[4] WEST, Christopher. Deus, Sexo e Bebês: O que a Igreja realmente ensina sobre paternidade responsável. Tradução de Fabrício Ribeiro. Disponível em: http://www.teologiadocorpo.com.br/Home/artigos/deus-sexo-e-bebes-o-que-a-igreja-realmente-ensina-sobre-paternidade-responsavel

[5] Gaudium et Spes, nº 50 - http://www.veritatis.com.br/article/2669

[6] DEL GRECO, Pe. Teodoro Torre. Manual de Teologia Moral. Ed. Paulinas, 1958, p. 748.

[7] CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A FAMÍLIA: VADEMECUM PARA OS CONFESSORES SOBRE ALGUNS TEMAS DE MORAL RELACIONADOS COM A VIDA CONJUGAL, Nº 3, ITEM 15.

Fonte:

TOSTA, Maite. Apostolado Veritatis Splendor: SEXUALIDADE NO MATRIMÔNIO. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/5992. Desde 08/09/2009.